Não é fácil ter um Blog, ou melhor dizendo, é fácil mas é difícil mantê-lo. Precisa de ser alimentado, tratado, adulado e embelezado a cada momento. O meu Blog tem sido o meu refúgio, o meu confidente. Nele descarrego as minhas frustrações, os meus lamentos e as minhas angústias. Nele deixo pedaços da minha vida. Nele encontro, tantas vezes, o motivo que me leva a continuar. Do meu Blog parto para a visita a todos os outros que me encantam, me emocionam e que tanto me ensinam. Tento adivinhar quem os escreve. Penso conhecer pelo que dizem. Julgo irmana-los pelo que sentem. Gosto de escrever para mim mas adoro compartilhar. Fico agradecido, sensibilizado, com as frases lindas que ás vezes recebo. Sei que muitas vezes são apenas pela amizade, mas mesmo assim, fico vaidoso. Confesso! Mas, agora, apareceu-me o dilema. Estou um pouco cansado e penso que não vale a pena continuar. Ando confuso sem saber bem o que fazer. Penso acabar e fazer como sempre fiz, escrever e arrecadar na minha gaveta das memórias. Memórias que o tempo vai apagando. Mas é difícil e estou a tentar ganhar coragem. Olho para a página e vacilo, parece que me cumprimenta e sorri. Estou confuso. Não sei o que fazer! Se, os muito poucos, que algumas vezes me visitam um dia não me encontrarem, não estranhem. Foi por que me meti ao caminho. Sempre nos podemos voltar a encontrar “noutravoltadotempo”. Quem sabe?
Tinha acabado de fazer 32 anos mas já sentia no corpo o peso de uma existência dorida pela pancada e pelas frustrações de uma vida desperdiçada. Sem horizontes, sem motivações. Tinham-lhe destruído a pouco e pouco a razão de viver. Já fora feliz, já tinha olhado de frente para a vida e construído sonhos. Teve momentos de felicidade que de repente, sem motivos, lhe foram negados. Maria Celeste apaixonou-se, há quatro anos, pelo Gilberto. Foi um namoro cheio de ternura, de amor e de promessas. Foi o sonho da vida que sempre desejou ao lado do homem que lhe dava todo o amor que precisava. Teve um casamento de princesa e sentia-se a mais feliz entre as felizes. Gilberto era carinhoso, doce e de uma ternura que a deixava num sonho de que não queria acordar. Este encanto durou dois anos, lindos, preenchidos, de encantamento.
De repente tudo mudou, Gilberto, começou a chegar tarde, bebido e com uma agressividade que nunca lhe conhecera. O homem que a adulava, desapareceu como por encanto. Começou a martírio, os maus-tratos, as tareias que a deixavam negra. Não sabia o que mais a magoava, se as pancadas que lhe moíam o corpo ou as palavras que lhe deliceravam a alma. Quantas vezes teve que fugir e refugiar-se na casa da sua vizinha Gertrudes, que a acarinhava e a protegia, até o marido adormecer e poder voltar para casa.
Hoje estava decidida, ia por termo a esta negação de existência, ao sofrimento que a consumia dia a dia. Possivelmente iria passar o resto da sua vida numa prisão onde se iria sentir mais livre do que agora se sentia. Mas tudo seria melhor do que esta angústia e sofrimento.
Chegou como sempre, cambaleante, vociferando os impropérios do costume. -Então cabra esperavas que eu não viesse para meteres cá os teus amantes? Depois descarregou toda a fúria no martirizado corpo da Maria Celeste, que cambaleou.
Não aguentou mais, tirou a faca com que partia o pão e com as duas mãos enterrou-o no peito do homem que tanto amava. Sentiu a lamina a dilacerar a carne e a pressão dos ossos ao serem desviados pela fúria incontida de uma vida destroçada. Ficou esperando o sangue que não brotou, antes de cair no chão. Enroscou-se como um bicho-de-conta no seu medo e pavor. Com os olhos dilatados ainda viu o esforço moribundo do marido, agarrando com as duas mãos o cabo de uma faca que lhe levava a vida. Depois desmaiou.
Gilberto tentou mas não conseguia. Deu um passo em frente e ajoelhou, abriu os olhos como que procurando a causa do que estava a acontecer. Depois baqueou e caiu sobre a lâmina que quebrou deixando, finalmente, o cabo livre entre as mãos que o seguravam, já sem força.
Maria Celeste acordou com as palavras da vizinha. -Beba este cházinho que a vai acalmar. Já passou tudo. Não se preocupe, eu e o meu marido vimos o que se passou e já contamos aos senhores guardas. Eles já sabem como aconteceu. Ele bateu-lhe, como e costume, e queria espeta-la com a faca, mas estava bêbado, caiu e acabou por se espetar a ele próprio. Pobre coitado, teve o que merecia. Quando lhe íamos acudir vimos tudo, somos suas testemunhas. Não se preocupe. Já acabou. Tem uma nova vida para viver. Beba o cházinho, vá....beba.
Não sou indiferente ás desgraças que todos os dias os telejornais nos fazem entrar portas a dentro. Sinto e sofro com as misérias e tristezas que assolam muitos neste país. Sou solidário para com quem precisa. Mas gostava, gostava mesmo, de compreender esta gente que se acotovela na fila das desgraças e da pedinchice. Todos querem uma casa e todos exigem que o governo ou a câmara, ou sejam lá quem seja, lhe arranje uma. Que importa quem paga. Não interessa que seja fruto, ou não, das contribuições de todos nós. Sinto uma grande revolta quando vejo tantos marmanjos vivendo à custa dos Desempregos e Rendimentos Mínimos pela pura vontade de nada fazer. Nasceram calões, passam os dias nas tascas do bairro, fazem filhos que a rua irá criar, riem-se dos que no dia a dia labutam pelo pão. Nunca contribuíram com um centimo para o erário público, mas sentem-se no direito de exigir, de reivindicar. Vivem do nosso dinheiro, dos nossos impostos. Somos nós que sustentamos essa “chulice” de comodismo e de desenraizados que poluem muitos bairros da nossa terra. São os proxenetas do nosso trabalho, as sanguessugas dos nossos impostos. São os nacionais desenrascadinhos.
Tinha um porte que merecia respeito. As mulheres, sempre que aparecia no escritório, ficavam doidonas e davam gritinhos de aprovação. Diziam que era um pão, que era a receita exacta para ser genro das suas mães, e outros sem número de baboseiras. Na realidade tinha uma bonita figura, alto, esguio e com um porte atlético invejável. Era, quase, um Adónis. Tinha um cabelo loiro, ondulado, revolto e que mantinha numa estudada forma de casualidade. Os olhos tinham uma cor indefinida, que se estendia entre um azul-turquesa e um cinzento claro. O sorriso, sempre afivelado, deixava luzir uns dentes brancos e bem tratados. De uma cortesia que por vezes se tornava servil, mantinha os corações de todas as “gajas” daquele escritório, num constante alvoroço de suspiros. Todas à espera de um convite para o cinema ou para uma visita a um qualquer museu. Sim, naquela altura mais do que isso, seria arrojo. O seu passado tinha algo de romântico e secreto o que ajudava toda aquela aura de mistério e desejo. Era cubano, refugiado. Tinha fugido a um regime que o não aceitava. Confesso que nós, os outros homens, sentíamos alguma inveja com tanta deferência. Mas tínhamos que nos render a uma evidencia, de facto o G., vou chamar-lhe assim, tinha sido bafejado pelo distribuidor da beleza num dia e que todos os outros estavam distraídos. Um dia, recordo como se fosse hoje, a noticia chegou como uma bala. As mulheres não acreditavam, diziam que eram estórias de invejas. Vi mesmo algumas lágrimas rebeldes. Os homens, esses, rejubilavam empolados, com toda a testerona à flor da pele. O G., foi apanhado de joelhos em frente ao seu ajudante e, disso temos a certeza, não estava a rezar. Nunca mais soubemos do tipo. Tal como tinha surgido se eclipsou. No nada
De verdade eles amavam-se, mas era uma relação amorfa, sem motivações, sem aventura, sem aqueles momentos em que o primitivo e o preconceituoso deixam de fazer parte da realidade. Seguiam as regras de uma cartilha ultrapassada e desactualizada. Faziam amor como se fosse uma rotina obediente a cânones antigos e estafados. Sem chama, sem rasgos. Era apenas doçura e satisfação. Sem aventura, sem explosões. Era um classicismo bacoco, estafado e monocórdico. Era, apenas, como o cumprir de uma regra, de uma tradição. Ele parecia conformado com a sua falta de ambição. Sem o rasgo da diferença. Apenas com o dever cumprido. Ela sonhava, sonhava com fantasias que não tinha coragem de falar e adormecia na ilusão de um cavaleiro que a transportasse na garupa de um alazão e, em qualquer praia deserta a despia, com os dedos a percorrer em suaves carícias um corpo prenhe de desejo. Sentia a roupa a pouco e pouco ser despojada e o corpo estremecia em frémitos de gozos há muito contidos. Experimentava uns lábios que a percorriam e uma língua terna e húmida que lhe moldava o pescoço em carícias ternas, lhe descobria o corpo, lhe beijava todos os contornos em fantasias voluptuosas de calor e ternura. Gozava o fogo que a invadia em espirais de lascívia e de sensualidade. Deliciava-se com seiva que a percorria e que brotava em míriadas de estrelas que irrompiam no seu cérebro, em explosões de loucura e em gritos de prazer. Sentia-se a ser trespassada em fogo de glória e de loucura. Acordou no êxtase de um calor húmido e reconfortante. Ao lado, o marido, ressonava suavemente.
Todos os dias passava à minha rua deixando no ar a fragrância de flores acabadas de colher. Não se pode dizer que fosse bonita, mas tinha um encanto muito especial. Rosto um pouco anguloso, pouco feminino. Lábios carnudos e palpitantes e uns olhos negros, penetrantes que prediziam um mundo de promessas e paixão. Os cabelos de um negro corvino balançavam ao ritmo de um andar bamboleante. Caminhava com um saracotear que obrigava os nossos olhos a um balançar constante. Transportava no regaço dois hemisférios, marmóreos e palpitantes. Corpo esguio, curvilíneo e com uma “felinidade” que nos deixava presos num mar de pensamentos, de emoções e de desejos. Era o nosso madrigal para um dia motivado. Era como o café da manhã. Quente e reconfortante. Sabia que fazia os corações palpitar ao ritmo do seu andar. Sorria, num sorriso de dentes alvos. Gozava com o desconforto e a basbaques dos mirones de boca-aberta. Sentia-se feliz, distribuindo encanto. Passava confortável com o desconforto dos que se alimentavam do aroma que os inebriavam. Era o motivo para um dia mais feliz.
Muitas vezes me confronto com a incerteza de não saber ao que vim e porque vim. Dizem, e eu tenho que acreditar nos que sabem mais do eu, que todos viemos com um fim, com um objectivo, com uma tarefa. Fomos programados para cumprir algo que não sabemos e que é. Isso é um erro! Levar a consecução de qualquer tarefa na ignorância é como caminhar no escuro. Não conduz a um bom fim. Logo se erramos a culpa é de quem nos destinou a fazer o que não sabemos e, se não sabemos não o podemos fazer de forma certa e tranquila. Eu sei que estou a ser um pouco Advogado do Diabo e a contrariar as preconcebidas teorias da existência. Seria mais fácil aceitar o que me tem impingido e deixar-me de conjecturas mais ou menos rebuscadas, mas não o consigo fazer. Não sou capaz sem compreender a essência e a razão da minha tarefa. Quem me conhece sabe que não sou complicado, que sou prático e racional, mas vivo na ânsia de saber ao que vim e porque vim. Será que no fim o vou saber? Duvido e vou esperar. Mas...acreditar, não acredito!
Li hoje que o Papa condena o uso de preservativos como prevenção contra a Sida. Fiquei um pouco incrédulo com a brilhante ideia daquela cabecinha pensadora. No Continente Africano o número de infectados é verdadeiramente assustador e, o perigo de aumentar esse número cresce de forma assustadora. Os meios de prevenção e assistência, praticamente não existem. A desgraça e a miséria estão instaladas de tal forma que, difícil se torna arranjar soluções para poder minorar esta tão triste realidade. Só há duas maneiras: campanhas no sentido do uso do preservativo ou a castração. O preservativo, segundo o Papa, não é uma solução. A castração, segundo a opinião de todos os outros, muito menos. Parece que rezar será a solução. Por isso deixai a aquela máxima da Igreja: Casai e multiplicai. Agora é: casai e rezai. Pode ser que assim as coisas se resolvam. Ao que a Igreja chegou meu Deus!
Há momentos na nossa vida em que nos é difícil saber, de forma racional, o que nos move e motiva. Andamos num desnorte total à procura do que muitas vezes já temos e sem saber, muito bem, aquilo que desejamos. Não é que eu seja um vagabundo do fácil e do deixa andar, mas confrange-me ver pessoas a girar à volta do fatalismo, sem finalidades, agarradas a uma existência de lutas e sacrifícios mas sem vislumbrarem uma meta, ou um objectivo, que seja motivador dessa peleja constante. Podem, um dia, vir a ter muito dinheiro, o que duvido, mas serão sempre pobres porque se agarraram ao miserabilismo como se isso fosse uma razão ou um objectivo de vida. Parece que, para eles, a comiseração é a causa mais motivadora de uma existência vazia de tudo. Vivem e morrem no desconhecimento total do prazer da experiência, da alegria da descoberta, do conforto do encontro, da satisfação do convívio e, até, muitas vezes na ignorância do amor. São pobres, não porque lhes falte a fortuna, mas sim porque lhes falta a riqueza dos afectos. São os pobres de espirito!
(Aos meus bebés, sobrinho e primo, que eu amo muito)
Foi como uma bofetada no meu rosto ao acordar perante as notícias dos jornais. Estou estupefacto. Não acredito! Um pai esquece um bebé no carro? O seu filho? Abandonado? Como se fosse um porta-chaves ou os óculos que se deixam em qualquer lado? Como é possível? É difícil perceber, fiquei em choque ao pensar naquele pobre criança indefesa, esquecida, a procurar o ar que lhe ia faltando, a protecção que lhe foi negada. Estou consternado, confuso e sem palavras. A revolta que me assalta não me deixa ser racional, coerente e pragmático. Pensar que um pai, preocupado com uma qualquer reunião, abandona a vida que lhe foi entregue para amar e proteger, ultrapassa toda a minha compreensão. Deus, a existir, deve andar distraído ao deixar entregue esta criança nas mãos de um ser incapaz de cumprir a maravilhosa missão de gostar, criar e cuidar. Não lhe vou chamar assassino porque deve estar a sofrer muito. Não vou fazer juízos de valor. Não vou condenar porque desconheço a sanidade e os motivos. Mas a minha revolta, indignação e horror tenho que as expressar com veemência.
Que Arautos e trombetas se façam ouvir aos quatro ventos. Que o som do orgulho nacional inche, de novo, impante de vaidade. Que as noticias espalhem à desfilada a importância do acontecimento. Que as televisões, rádios e jornais não se calem. Que os tristes rostos dos portugueses se alegrem finalmente. Que se esqueça a crise, a recessão, o desemprego e o défice. Que Egas Moniz e Saramago se arrumem na gaveta do esquecimento. Que Camões, Vasco da Gama, Mouzinho e Sacadura sejam notas do passado. Que Eusébio, Figo, Mourinho e Ronaldo sejam destronados.
È triste mas um cão está a conseguir tudo isto. Curvem-se ao novo rei.
Há dias em que a loucura nos acontece e em que o nosso desejo suplanta a racionalidade. Pensamos em coisas que o tempo diluiu, em acontecimentos que estão tão fragilizados pelos anos passados, que se nos afiguram de uma forma tão ténua que temos mesmo medo que se quebrem na debilidade do nosso imaginário. Sabemos que aconteceu, temos presente o episódio, mas os factos são desvirtuados pela memória. As recordações de estórias que nunca serão histórias bailam na nossa mente de uma forma confusa e, até se entrelaçam e se confundem com outras também distantes. Há momentos em que a confusão se instala e a racionalidade desaparece. Ficamos como flutuando num emaranhado de emoções que o passado nos deixou. Queremos ser racionais e pragmáticos mas a confusão que nos assola o espírito, é mais forte e a desordem que baila dentro de nós não nos deixa ser práticos. Ficamos confusos num labirinto de perturbação e de frustrações. Queremos desmaterializar a nossa existência e voltar a um ponto zero. A um ponto em que, ainda, nada aconteceu. A um etapa que nos permita limpar e repor o errado. Passar a esponja e apagar. Fazer como se todo o passado tivesse sido apenas o marasmo de sono mau. De um pesadelo. Queremos fazer a selecção. Talvez começar de novo.
Mas afinal o que é a Utopia? Será que uma quimera, uma ilusão ou um devaneio, pode condicionar toda uma vivência? Ou será que a utopia não passa mesmo disso, duma utopia? Poderia dar-me ares de sabedor e dissertar sobre causas que me ultrapassam e, entrar em esferas que me estão vedadas. Poderia tentar descobrir com a magia da palavra, considerações ocultas em mundos prosaicos, desencantar reflexões para tentar chegar a uma conclusão. Poderia, quiçá, dizer que a Utopia é apenas Fantasmagoria e que tudo o resto são considerações mais ou menos filosóficas para explicar o inexplicável. Como dizia Tomás Moro, a Utopia é um País imaginário em que tudo está organizado de forma superior. Logo é fácil concluir porque é que a Utopia é mesmo uma Utopia.
Há momentos nas nossas vidas em as ideias nos baralham os sentimentos, em que não sabemos descodificar o que nos move. Pensamos e agimos com as emoções e somos levados pelo entusiasmo, sem pensarmos se estamos a ser racionais e se um dia o arrependimento não vai fazer parte do nosso dia a dia. Isto não vem a propósito de nada em especial, mas apenas porque na minha já longa e cansada vida fui confrontado, por mim próprio ou por amigos, com situações em que a desordem dos nossos sentimentos nos levaram a fazer o que não deveríamos ter feito. Pelo menos pensamos que o não deveríamos ter feito Não por sentirmos algum arrependimento, nunca nos devemos arrepender de nada, apenas devemos lamentar não termos sabido ser racionais e ter colocado o gozo e prazer pessoal, acima da racionalidade e do conforto do nosso comodismo. É verdade e sei quem o fez, é meu amigo, que é loucura um dia apanhar um Avião e rumar à Argentina porque uns olhos negros e um cabelo da cor da noite o enredaram na loucura da paixão e do desejo. Mas se o não fizesse ficaria uma vida, uma existência, com uma lacuna por preencher. Por isso o fez! É certo que foram momentos de êxtase e de loucura, de paixão intensa, de momentos que morrerão com quem os gozou. É sabido que quem os teve e os aproveitou, ainda, muitas vezes adormece embalado pelo subtil deslumbramento de instantes únicos de paixão arrebatada nos braços de um fogo latino, intenso, profundo e perigoso. Quem os teve nunca os irá esquecer e, decerto nunca os irá renegar. Mas que foi uma loucura foi, nunca duvidei. Mas admiro a coragem.
Há sensações que nos acompanham para a vida. Há momentos que passam a fazer parte de todos os outros momentos. Nunca poderemos esquecer umas mãos de veludo que nos acariciam, uns lábios húmidos de desejos que devoram os nossos em arroubos de prazer e desejo. Nunca poderemos votar no esquecimento o concretizar dos nossos desejos, de poder beber a volúpia dos olhos que mais desejamos, da companhia que nos aquece, do abraço que nos deixa com a sensação de que apenas nós somos todo o Mundo. O não concretizar dos nossos anseios é como caminhar de olhos vendados, sem horizonte e sem destino. Andar suspirando, mordidos pelos dentes dum ciúme que nos devora é como não estar, como não existir, como viver uma existência que não existe. Fico triste pelos que sofrem, mas compreendo os que nada podem fazer, mas tentam. Sei que é difícil dividir, que é impossível saber o certo e o racional. Somos humanos e o coração por vezes tem que esperar.
Quando leio amores incompreendidos, ou antes, amores não correspondidos fico um pouco com a sensação de uma amargura, de uma angústia, de uma frustração. Fico com pena de não ser um Cupido. Fico triste por não saber ser a solução.