O cão não tinha culpa mas levou um pontapé e ganiu de dor.
Foi-se anichar debaixo de uma mesa com um olhar tão triste que metia dó.
Era sempre assim, irascível com os mais fracos e na sua covarde frustração batia nos que não se podiam defender.
Hoje foi humilhado, enxovalhado na presença de todos. Corou, resmungou entre dentes, boca cheia de impropérios que ninguém percebeu. Meteu o rabo entre as pernas e saiu espumando a raiva em frases surdas.
Foi jurando vingança que começou no pobre animal que sem saber porque, sentiu no lombo o bico da bota. Se não fosse o dono as coisas seriam diferentes, pois não era bicho para se ficar.
A segunda vítima foi uma cadeira que voou contra a parede e se quedou estática de pernas para o ar.
Depois largou tudo e, no refúgio do lar, chorou todo o seu desapontamento em soluços, convulsivos, fundos de ódio e de vinganças anunciadas.
Quando acalmou fez uma festa no pobre bicho que se tinha enroscado aos seus pés, com um olhar tão triste que metia dó.
-Desculpa tu não tens culpa, mas enquanto não descobrir e matar o sacana do padre que me desgraçou perco as estribeiras e não dou conta de mim.
O Lorde parece que percebeu, abanou a cauda e lambeu a bota que, há pouco, tão mal o tratara.
-Ouve cão, eu vou descobrir esse malvado, vou-lhe furar os olhos, arrancar-lhe a língua e cortar-lhe algo que os padres não deviam usar.
O animal ficou assustado, toda essa raiva estava a meter-lhe medo e ele não sabia que parte lhe podia estar reservada. Mas o dono, desta vez, percebeu o receio e tranquilizou:
-Não te assustes, quando matar o filho da puta que me violou, há quinze anos na catequese, o meu pesadelo termina e vou ser o melhor dono do mundo.
O cão latiu, abanou o rabo e voltou a enroscar-se aos pés do dono.