
Zulmira andava numa excitação pouco habitual.
Era uma mulher comedida e não exteriorizava facilmente as suas emoções, mas hoje não sabia o que se passava, pois sentia um calor no peito que a deixava um pouco descontrolada.
Olhou a sua figura no espelho do quarto e gostou do reflexo. Mulher seca de carnes, um pouco angulosa mas com todas as formas e capaz de fazer andar à roda a cabeça de qualquer homem.
Ainda há pouco ela reparou, quando foi ao merceeiro, a maneira como o cabo Meireles a olhou, percorrendo gulosamente cada contorno do seu corpo.
Fingiu não reparar mas sentiu uma sensação de gozo a percorre-la e a ficar um suave desejo de se deixar envolver em prazeres que há muito tentava disfarçar.
O seu homem, o Arnaldo, há muito que andava esquecido dos deveres que jurou na Igreja, pois a fidelidade e compartilha que lhe havia prometido andavam distraídos nos copos que engolia. Era rara a noite em que não parecia totalmente toldado pelos vapores da zurrapa que ele e mais outras da laia emborcavam na taberna do Zé da Corneta.
Mas hoje, ele tinha prometido, que as coisas iam voltar à normalidade. Não é que ela confiasse, mas havia sempre a esperança que o seu Arnaldo voltasse a ser o homem que sempre foi.
Antes não perdia tempos em bebida, mal acabava o trabalho voltava para ela e tinham noites quentes que a faziam andar nas nuvens e lhe mantinham um brilho invejável nos olhos.
De repente o encanto desapareceu, o marido que sempre teve mudou.
Ela pensa que foi o desgosto quando o Doutor Calheiros, depois de todos aqueles exames, lhe disse que Zulmira tinha um problema que não a deixaria nunca ser mãe.
Arnaldo mordeu os lábios, não disse nada mas ela viu as lágrimas que ele não soltou porque o desgosto as secou antes de nascerem.
Nunca mais foi o mesmo, estiolou todo o entusiasmo, definhou todo o interesse.
O homem alegre, amável e atencioso volatilizou-se no desgosto e foi na bebida que encontrou o conforto para o desconforto da notícia que lhe mudou toda a vida.
Mas hoje, Arnaldo prometeu, tudo ia voltar ao normal. Jurou que não ia beber, que ia esquecer os petiscos do Zé da Corneta e a pinga do João Nabo.
Ela acreditou e até foi, manhã cedo, acender uma vela no altar de Nossa Senhora das Candeias.
A tarde estava a cair e os primeiros resquícios da noite iam tomando conta dum dia que estava a acabar.
Tinha o jantar pronto, caprichou no arroz de pato, iguaria que o seu marido tanto apreciava.
As horas alongavam-se e o escuro enchia de sombras a rua. Todos os sons a despertavam e assomava ao postigo na esperança de vir surgir o seu homem.
Mas as horas passaram, o relógio da Igreja anunciou a meia-noite.
Zulmira chorou de raiva, a frustração era maior que o desgosto.
Foi para a cama e adormeceu a pensar no Cabo Meireles.


