quarta-feira, 25 de abril de 2012

JEALOUSY







Tenho a certeza que foi numa quinta-feira, era o dia em que eu passava pela loja do senhor Elias para comprar torresmos. Sim o senhor Elias recebia todas as semanas, à quinta-feira, um cabaz com os melhores torresmos vindos de uma aldeia do Alentejo.

O senhor Elias era um simpático merceeiro, gordo, calvo, buçal mas duma simpatia contagiante.

Mas isto foi apenas um aparte, pois não sabia como começar o encontro dessa quinta-feira, pois o facto de chover era pouco relevante nessa época do ano embora esse acontecimento tenha sido de grande importância.

Quando entrei na loja do senhor Elias, coitado morreu há dois anos, fui surpreendido pela maravilha que se encontrava encostada ao balcão.

 Dizer que era linda seria vulgarizar a beleza, pois neste caso havia magia naquele olhar, sensualidade no sorriso e o trejeito do rosto faziam realçar duas covinhas na face que lhe davam um ar, quase, angélico e ao mesmo tempo provocante.

 Estava debruçada sobre o balção, perna flectida num ligeiro balouçar que realçavam o rabo moldado numas apertadas calças de ganga.

 Olhou-me de lado e foi nesse momento que a faísca atingiu a parte romântica do meu cérebro e fundiu totalmente a minha lucidez.

 Fiquei assim como pasmado, numa mescla de fascinado e apalermado, tentando sem jeito endireitar o nó da gravata, não que precisasse mas eu necessitava desse momento para por em ordem as ideias e se o senhor Elias não tivesse aparecido eu, provavelmente, ainda estaria no incómodo da hesitação sem saber o que dizer.

 Mas, para minha salvação o homem saiu detrás dos armários e com o ar mais pesaroso que arranjou coçou a calva antes de dizer:

 -Caro senhor doutor hoje estamos mal, o homem não me mandou a mercadoria parece que teve um problema com a camioneta.

 Afivelei o melhor sorriso que consegui, mais para a moça de que para o merceeiro, e sem gaguejar respondi:

 -Paciência, fica para a semana, mas valeu a pena porque vi que tem clientes muito bonitas!

 Agora foi o senhor Elias que ruborizou, uma vermelhidão apoderou-se-lhe do rosto e subiu até ao alto da reluzente careca.

 A moça iluminou a espaço com um sorriso tão safado que me obrigou a uma sonora gargalhada contagiante, depois o senhor Elias não se conteve e começou num riso ruidoso e a moça seguiu o exemplo. 

Era caricato, três pessoas sem motivo aparente riam a bom rir, de forma estridente, sem sequer saber a razão.

 Eu comecei porque ela sorriu, o senhor Elias porque eu comecei e ela, talvez, porque nós começamos. 

Foram uns minutos assim, de verdadeira parvoíce, até que pouco a pouco fomos acalmando o sufoco e limpando as lagrimas que nos cobriam os olhos.

 -Bom, comecei eu, momento bem divertido sem grande causa!

 O senhor Elias, tirou um lenço e assoou-se com estrondo, limpou os olhos e dobrou o lenço antes de começar:

 -Peço desculpa, senhor doutor, mas não me consegui conter e a culpa foi minha pois com a confusão nem lhe cheguei a apresentar a minha mulher.

 Essa freguesa que ai está é a dona de tudo isto, incluindo o meu coração, casámos no sábado passado.

 ******

 Chovia torrencialmente mas não me importei, pois foi importante a água fria da chuva para me acalmar e aclarar as ideias.

 O senhor Elias, 65 anos, gasto pela vida, casado com um verdadeiro "filet mignon" de 22 radiosos anos.

 O mundo anda mesmo às avessas





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Uma Rosa



Eu hoje desfolhei mais uma rosa
Do triste jardim da minha essência,
Vermelha de sangue e tao formosa,
Perdida, tal, como a minha existência

Pétalas vermelhas entre os dedos
Morrendo no perfume que se esvai,
Tristeza que povoam os meus medos
lamentos que eu sinto nos meus ais.

No jardim desta vida tão espinhosa,
Vou libertando a dor que tanto dói
Enquanto vou desfolhando esta rosa,

Pétalas de sangue saem de mim
Na tristeza desta vida espinhosa
Tão triste, tão sofrida e tão ruim.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Avejão






Confesso que não sei como aconteceu e até posso acrescentar que tenho duvida que tenha, mesmo, sucedido.

A verdade apenas esta alicerçada nas conversas que, na minha infância, ouvia aos serões á volta duma braseira, numa aldeia alentejana, perdida na raia de Espanha.

Os mais novos, curiosos, escutavam todas as peripécias que os avós iam contando, embora sabendo que na altura de ir para a cama estariam “borradinhos” de medo.

Foi há muitos anos e a memória apenas me deixa recordar que era uma noite muito fria e todos se encontravam à volta da mesa redonda onde, debaixo das saias, uma enorme braseira nos mantinha num conforto agradável.

Uma das mulheres, Dona Tomásia, jurava ter visto um avejão, nunca soube bem o que era isso, mas só o nome me infundia muito respeito.

Dizia ela:

-Vizinhas, uma noite ao sair da casa, da minha Zezinha, estava ele prantado na esquina mesmo no cruzamento, ao pé da venda do Isidro. Fiquei mais gelada que um rajá. Era grande, com uns olhos relampejando luzes encarnadas, coberto por uma capa mais negra que uma noite tenebrosa e lançando, pareciam, pequenos urros.

Fiquei, tão paralisada que queria voltar e não conseguia, os pés estavam colados ao chão e não arranjava maneira de os mexer.

Dona Perpetua deu um pulo na cadeira antes de gritar:

-Credo mulher e que aconteceu depois?

Fez-se um silêncio, quase sepulcral, ouviam-se os corações em batimento acelerado, os mais pequenos pregados, nas cadeiras, estavam boquiabertos de pernas bem cruzadas não vá o diabo tece-las.

O som do silêncio doía dentro de nós, todos olhavam de banda, como se a tal criatura pudesse estar ali, mesmo, ao nosso lado.

Dona Perpetua não aguentou mais, deu uma punhada na mesa e gritou:

-E depois, mulher e depois?

Dona Tomásia, aclarou a voz e assumiu a importância do ato:

-E depois? Depois não sei, desmaiei!



sexta-feira, 6 de abril de 2012

A valsa

Para todos o desejo de UMA PÁSCOA muito feliz.  







Apareceu, assim, quase do nada.

Tinha um ar de alegria estampado no rosto, olhos brilhando de felicidade e um sorriso tão luminoso que nos transmitia uma sensação de conforto e tranquilidade.

Quando a música deu os primeiros acordes da valsa da Meia-Noite, olhou-me com ternura, pegou-me na mão e, quase por magia, redopiamos ao som da música que enchia a sala.

Fomos apenas um, num compasso de fascinação, pés em sincronismo perfeito, deslizantes ao som que os embalava. O tempo parou, por magia, enquanto os nossos dois corpos irmanados, no andamento, compassavam nos batimentos que o ritmo inspirava.

À volta um publico silencioso acompanhava, quase, em enlevo o momento.

A música parou, só ficou o feitiço no tempo.

Deixou os meus braços, iluminou-me com a loucura do sorriso, deixou-me um beijo na face e, antes de partir, disse-me:

 -Manuel não quebre a corrente, os teus amigos querem-te aqui.

 Eu percebi a mensagem.

 Estou de volta.

 Obrigado.