segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O baraço





Olhou para trás de uma forma quase abstracta, olhou mas os seus olhos não viam para além do pensamento e, esse, estava de tal forma entorpecido que não ia para lá da corda que transportava debaixo do braço.

Desenrolou o baraço de forma vagarosa, deu um repelão a testar a resistência do sisal como se isso fosse muito importante.

Exalou o cheiro das urzes que cresciam envergonhadas junto às margens do regato, olhou o Sol com os olhos semicerrados gozando os fiapos que se reflectiam na sua retina.

Um pequeno suspiro fez eco na quietude da tarde solarenga. Deitou-se debaixo duma oliveira, na terra seca, fechou os olhos e deixou correr o filme da sua vida.

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Nem sempre foi fácil, houve momentos dolorosos, percursos cheios de obstáculos que nunca o fizeram desistir.

Lembrou bem o dia em que os pais da Aninhas proibiram o namoro e ele não se deixou vergar.

Fugiram os dois e voltaram casados, depois foi difícil, mas os velhos teimosos acabaram por ceder embora tenha sentido, sempre, que essa aceitação era uma forma de não perderem a filha, porque ele foi apenas tolerado, mas não se importou, Aninhas amava-o e isso era o que verdadeiramente lhe interessava.

Foi em Fevereiro, do ano seguinte, que nasceu o Marquinho, o filho que planearam.

Viveram três anos duma felicidade feita de avanços e recuos, de alegrias,  frustrações e de tédio, de muito tédio.

Um dia Aninhas fez as malas, pegou no filho e desapareceu no horizonte.
Em cima da cama um papel, numa breve despedida:

Estou farta, cansada, preciso de respirar, preciso de espaço para viver.
Levo o Marquinho, precisa de mim.
Depois tratamos do resto.
Desculpa João, não te mereço!

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Leu uma vez, outra vez e mais outra e não compreendeu. Nem um beijo de despedida.
É difícil perceber as mulheres.

Ele trabalhava 10 horas por dia para que nada lhe faltasse e a paga era esta.
Continuava sem perceber.
Os Homens percebem tarde de mais!

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Tentou chorar mas as lágrimas não quiseram acompanhar o desgosto, ficou numa grande prostração, durante três dias esteve em total clausura, sem comer, sem beber e sem querer saber do mundo que corria lá fora.

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Sem Aninhas e Marquinho a vida não lhe interessava, não sabia viver, não tinha aprendido.

Pegou na corda, fez um braçado. Olhou tudo o que o rodeava, numa espécie de despedida, e abalou para o olival, ia procurar a morte na árvore da vida.

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Chegou mesmo a adormecer. Acordou com os raios de Sol brincado por entre a prata das folhas da oliveira.
Levantou-se dorido, tinha marcado no corpo as pedras e os torrões da terra. Mas isso pouco importava.

Pegou a corda e fez, na ponta, um nó corredio e preparou-se para a fazer passar por uma pernada alta. Tinha que ser forte para lhe suportar o peso.

Olhou um redor num último adeus, tinha pena, afinal a vida tinha-lhe dado tanto de bom.

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Olhou para baixo, pareceu-lhe ouvir um leve restolhar. Aninhas subia o declive, cansada e com o arrependimento no olhar gritou:

-João, sou muita parva, venho a tempo de me perdoares? Afinal a culpa não é tua, é nossa e estamos a tempo de recomeçar.

O Sol que ia desaparecendo no horizonte brilhou com mais intensidade, à contraluz um beijo intenso recortou-se na imensidão do entardecer.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A casa das hortênsias






Acordou com o estrondo do morteiro seguido do estrelejar de meia dúzia de foguetes, era o anunciar do princípio da festa anual, a alvorada era sempre às sete horas da manhã, ele sabia mas tinha sempre aquela sensação de susto. Este ano mais do que nunca queria estar bem longe, nos outros anos ainda andava por ali, ouvia a fanfarra que percorria as ruas em actuações monocórdicas de rufar de tambores e bombos, o tremer das pandeiretas e de vez em quando um saxofone já desafinado, não pelo artista mas pelo desgaste das varas e das pequenas fugas do ar no instrumento que, apesar de tudo, e graças ao limpa-metais brilhava em reflexos de ouro ao sol. O mestre Gualdim bramia com vigor a batuta, que os músicos seguiam mais por intuição, pois nunca viu nenhum a olhar para o maestro.

Mas este ano era diferente, ainda sentia o vazio, não era propriamente um luto mas uma necessidade de fugir ao bulício e à animação que se apoderava do povo. Os filhos da terra voltavam dos países onde deixavam o suor e uma parte da pele, mas voltavam todos os anos, em carros alugados e com ar de abastança e falando, entre eles, num francês com pronúncia própria da aldeia onde nasceram.

Sentia no ar o cheiro quente da terra, a algazarra ia tomando conta da povoado, os rapazes em trajes domingueiros juntavam-se em pequenos ranchos nas esquinas dos largos para mirar as moças que, em vestidos coloridos, se iam pavoneando nos caminhos da Igreja para a missa das oito, o senhor Padre Alcides veio de propósito da cidade, para presidir a este acto solene, que era como que o cortar da fita para os três dias em honra da padroeira.

Armindo ia remoendo estas lembranças enquanto se preparava para uma abalada, quase furtiva, não porque não sentisse o apego à tradição, mas as saudades de Josefa estavam, ainda, muito presentes e, ele sabia o quanto representava para ela esta tradição. Era das primeiras no arranjar da igreja, no peditório a favor dos festeiros e, na generosidade do angariar o necessário para o almoço dos mais necessitados, era uma tradição mas, a cada ano que passava mais difícil, o número de pobres aumentava e as ofertas diminuíam, era a crise diziam muitos, era a desculpa exclamava ela.

Bastaram três meses para que a doença, de forma galopante, a levasse, sem nunca lhe terem ouvido um queixume.

Armindo arrumou de forma ordenada o necessário, colocou no porta-bagagem e partiu evitando as ruas principais.

Rapidamente tomou a estrada principal, não olhou para trás, nada ou quase nada, o prendia àquela terra.

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Há mais de um ano que anda adiando o regresso à terra, a festa deste ano acabou no domingo e Armindo tem que voltar. Tem mesmo! A casa está há tanto tempo abandonada que as teias de aranha já devem ter tomado conta de todos os recantos, para não falar das terras, porque essas, há muito estão ao deus dará.

Está decidido, no próximo fim-de-semana, vai regressar embora no seu pensamento pense, apenas, em ir tratar de por a casa, e a terra, à venda e voltar à cidade.

Não tem nada que o prenda ao lugar, os pais já partiram há muito e a Josefa, sua companheira de muitos anos, também o deixou depois de três meses de muito sofrimento. Estão todos no cemitério da terra, mas ele não tinha o culto dos mortos como um dogma, por isso onde andasse o pensamento estava com ele e, esse, nada nem ninguém o ia alterar.

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Foi um voltar quase doloroso, os quilómetros eram galgados quase como se o tempo não existisse.

Quase por encanto, lá no fundo da descida a povoação aparecia num policromado de vermelhos dos telhados e no imaculado branco da cal das paredes. A Igreja sobressaia no aglomerado, com o sino em reflexos de bronze esverdeado.

Entrou, como saiu, torneando o povoado pelos arrabaldes, não queria falar por enquanto com ninguém, não estava preparado para explicar o inexplicável, depois iria falar com os amigos e tinha a certeza que o compreenderiam.

Era a hora do calor e as pessoas estavam recolhidas. Chegou a casa e apenas a dona Alzira lhe acenou, um adeus, debruçada do postigo.

O jardim que circundava a casa estava impecavelmente tratado, as hortênsias todas floridas e com a terra com aspecto de ter sido regada há bem pouco tempo.

-Coisas do amigo Aníbal, pensou.

Quando meteu a chave na porta foi invadido por um desencadear de emoções. Foi aqui que passou os melhores momentos da sua vida, foi desta casa que viu partir a mulher que era uma das razoes do seu viver.

Entrou. A sala estava vazia, nada de móveis. Fechou a porta e como sortilégio uma luz iridescente encheu o espaço, uma música de uma suavidade, que doía no encanto do momento, tomava conta dos sentidos e subia em espirais de doçura.

No meio da sala, sentia-se, um túnel formado por uma luz tão suave. No meio, Josefa sorria vestindo uma imaculada túnica branca, pura como a neve.

Estendeu-lhe a mão, afagou-lhe o rosto e murmurou com uma doçura de mel:

-Amor! Porque demorastes tanto?

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Nunca mais souberam do Armindo, desapareceu como se o espaço o tivesse engolido.

A casa, essa, continua lá, ninguém a quer, dizem que está assombrada.

Nas noites escuras ouvem-se músicas gregorianas e, pelas frestas das portas e janelas, assoma uma luz mais brilhante que o Sol.

Todos a conhecem pela Casa da Hortênsias.

Ninguém sabe explicar quem as rega, nunca ninguém viu, mas continuam a florir como se uma mão invisível lhes alimentasse a seiva.




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Pouca vergonha!







-Credo! Gritou a dona Augusta, onde já se viu tão pouca vergonha?

Foi um desabafo, apenas um desabafo de alguém que ainda vive, um pouco, num época que já passou. Era do tempo, como dizia, em que havia vergonha e em que as coisas eram feitas no recato do lar.

Dona Augusta foi casada 18 anos, o seu Augusto faleceu e ela garante que nunca, mas mesmo nunca, foi capaz de se despir ao pé do marido, onde se viu uma sem “vergonhança” dessas.

Ela era uma mulher de princípios e dizia com frequência:

-Foi assim que a minha mãe me ensinou e foi assim que eu eduquei a minha Vanessa.

Agora aquela pouca vergonha, como aqueles, além na esquina na maior indecência que se possa imaginar! Ela nem se consegue ver de tão enrolada no rapaz e com as bocas a sorverem as línguas. Que nojo!

Que porcaria, onde se viu tanto descaramento, já pensei ir até lá e 
dar-lhe uma descasca para eles aprenderem o que é o decoro e ficarem a saber, que as poucas-vergonhas tem lugar próprio, se querem pecar que vão para uma pensão como fazem essas desgraçadas que estão, à noite, na esquina da rua, só não fui lá porque a minha Vanessa ficou de me telefonar a dizer as notas que saem hoje.

Sim que a minha filha é uma rapariga que sabe o que quer e, que graças a Deus, nunca me deu desgostos como aqueles desgraçados além no assento do jardim.

Que coisa! Mãe do céu! Está uma mãe descansada, em casa, a pensar que a filha anda no bom caminho e acontece como aquela infeliz, ali no banco, estrafegada pelo rapaz e lambendo-se de uma forma que não lembra a ninguém. Esta juventude está perdida, não sei por este caminho onde isto vai parar.

-Não, não posso aguentar mais, isto é um atentado à moral pública.

Tirou o avental, ajeitou o carrapicho no alto da cabeça e abalou para descompor os desenvergonhados que estavam a dar semelhante espectáculo.

Ainda não tinha chegado, bem ao local, e já se fazia ouvir em alto e bom som:

-Meninos! Vocês ai no banco! Se querem fazer cenas tristes vão para as vossas casas! Isto aqui é um sítio público, não é nenhuma hospedaria!

O casal entrou no real, a rapariga tentava ajeitar o descomposto da roupa e com espanto olharam para tão estranha aparição.

Dona Augusta estancou como se um raio a tivesse atingido, quase por encanto, mudou a cor do rosto.

Adoçou a voz e, baixinho, murmurou:

-Oh Vanessa! Oh querida! A mãe, ao longe, não te conheceu!
 Não demores filha! Tenho o jantar quase pronto!






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