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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

BOM NATAL








                 Para todos o meu desejo de um feliz natal








domingo, 24 de novembro de 2013

A Despedida



Para o meu cunhado, António Nunes, companheiro de muitas jornadas.










O raio da gaiata era tão linda como um radioso nascer do Sol.
Branca como a neve, cabelos ruivos, em pendentes caracóis, davam-lhe um ar quase angelical, que era desmentido pela sensualidade de uns lábios carnudos, que apetecia morder, e por uns olhos amendoados onde o brilho de avelãs eram um constante desafio.

Sabia como era e fazia questão em o realçar, vestia uma camisola justa e bem decotada, de forma a por em evidencia dois hemisférios que pareciam querer saltar. A saia parecia um cinto largo, donde pendiam duas pernas longas e torneadas, por um artista que percebia da poda. 

Até os joelhos, coisa rara, eram perfeitos.

Deslizava elegante, ecoando o saltitar dumas elegantes sandálias vermelhas com incrustações coloridas.

Ia distribuindo charme e recebendo olhares gulosos de tantos homens, como outros, invejosos, de algumas mulheres.

Passava numa estudada inocência, numa vaidade
que se compreendia, ela não tinha culpa era a obra de um, qualquer, Deus!

***
Não sou nada de especial, apenas a simpatia me torna aceitável. Nasci, algures, numa terra que nem vem nos mapas, tão pequena que um dia descobri que não tinha espaço para mim, sufocava-me os pensamentos, cerceava-me as ideias e não me deixava dar azo às minhas fantasias.

O ar era respirável, o problema estava mais no horizonte limitado, na falta de ideias, na monotonia das parcas conversas no café, que também era mercearia, loja de ferragens e vendia, ao mesmo tempo, roupas de gosto duvidoso.

As noites começavam cedo e as manhãs ainda mais.

Acho que 99,9%, dos homens, trabalhavam na agricultura, o 0,1% que falta era eu, que pensava que a escrita podia ser uma ocupação e não apenas um gosto.

Foi num dia invernoso, que às 7 da manhã, entrei na velha camioneta da carreira e, sem olhar para trás, abalei à procura de outros horizontes.

Já passaram alguns anos, deixei a falta de espaço e vim encontrar um mundo que não era, propriamente, o que espera, mas fui-me adaptando.

Hoje transformei-me numa espécie de free-lance. Vou escrevinhando umas crónicas para umas revistas e, quando calha, uns artigos para um jornal. Não é muito mas, o suficiente para uma vida decente, com a vantagem de fazer aquilo que mais gosto.

****

O dia acordou azul, não sei se há dias azuis mas, eu caracterizo os dias, tenho essa mania. Hoje acordei inspirado, com grandes ideias para uma crónica, vou escrever sobre a influencia do acordar no comportamento das pessoas, se calhar não é uma grande ideia, mas acordei, com ela, neste dia azul.

******

Não acredito, propriamente no acaso, mas hoje, por acaso a minha vida deu uma volta.
Descia o Chiado e uma visão toldou-me os pensamentos. Era linda, cabelos ruivos, pele leitosa, olhos cor de avelã e uns lábios como cerejas maduras esperando ser colhidas.
Fiquei a olhar com um sorriso meio aparvalhado e sorri-lhe, olhou-me e sorriu também. Afinal, se calhar, não sou só simpático.

Não resisti e perguntei-lhe:

-Sabe? Para este dia  ser o melhor, da minha vida, só a sua companhia num café!

Quando abriu mais o sorriso, o dia ficou mais claro e quando disse que aceitava, para mim, ficou totalmente azul.

Sentámos na esplanada e pedimos os cafés, perguntei se não queria um bolo, abanou a cabeça e respondeu:

-Não obrigado, aceitei este café para me poder sentar um pouco e, também, porque o seu sorriso foi o único que hoje me pareceu sincero.

Ficamos perdidos durante muito tempo, ela desenvolta, à vontade, eu embevecido nas palavras.

Vivia nos arredores de Lisboa e hoje era já a terceira entrevista.

Vestia, reconhecia, para evidenciar o que sabia ter e, percebia, que as roupas compradas nas lojas dos chineses no seu corpo ganhavam o glamour das grandes marcas, não tinha culpa, não foi ela que se fez, foi obra de Deus e, a felicidade de ser parecida com a mãe ajudava.
A mãe era linda!

Tinha acabado um curso de economia, fez dezenas de currículos que, enviou para tudo o que era conhecido, respondia a todos os anúncios que apareciam, foi a 12 entrevistas e apenas recebeu, dalguns homens, propostas pouco profissionais ou, então, para distribuição de panfletos na via pública, não tinha dúvidas em aceitar se as condições fossem minimamente decentes, agora 300 euros, sem qualquer subsídio para refeição e transporte, pareceu-lhe uma espécie de escravatura.

Ouvi encantado, não só pela doçura da voz mas também pelo desespero e necessidade de desabafo, suspirei fundo antes de responder:

-Perdoe a minha deselegância nem sequer me apresentei. Sou Rodrigo, licenciado em comunicação social e vivendo de trabalhos esporádicos, embora não me possa queixar, há piores.

Fugi, é o termo, duma pequena aldeia na busca de horizontes e não sei se os encontrei, mas vou continuar essa busca.

Não me disse o seu nome, se calhar não é importante, mas fico feliz porque confiou em mim.

-Sou Esmeralda, peço também desculpa. Tenho que ir embora o comboio não espera. Este é o meu telefone, quando não estiver muito ocupado dê-me noticias, gostei de o conhecer!

Levantou-se rodando as pernas e começou a descer a Rua Garrett com a graça natural que a natureza lhe ofereceu.

Olhou para trás e sorriu.

Foi o princípio.

*****

Levantei-me e o dia tinha um ar rosado, o meu coração estava sobressaltado, o meu pensamento numa rodilha de ideias descoordenadas. A vontade dizia-me sim, o bom senso refreava o desejo.
Ganhou a vontade, foi mais forte. Ia telefonar.

-Bom dia Esmeralda!

Do outro lado uma voz entoou:

-Esmeralda! É para ti filha.

Senti o restolhar dum telemóvel a mudar de mão:

-Bom dia, não conheço o número.

Dei uma pequena gargalhada:

-É natural só espero que, ainda, se lembre do dono!

Senti uma mudança no tom da voz, ficou mais doce:

-Não acredito! É o Rodrigo?

-Sim, respondi, sou o Rodrigo e não quero ser inconveniente, mas dormi num sonho cor-de-rosa consigo no pensamento.

Ficou calada, sabia que estava lá, ouvia o respirar, mas foi por pouco tempo:

-Sabe Rodrigo, não fique vaidoso, mas também pensei muito em si.

Ganhei coragem e convidei-a para almoçarmos amanhã, pensei num jantar mas. alguém me disse um dia  " nunca se convida, na primeira vez, uma mulher para jantar pode parecer que estamos a incluir o pequeno-almoço"  nunca esqueci o conselho.

Apareceu como combinado, vinha linda o que era fácil, fomos almoçar a um pequeno restaurante em Belém, foi um almoço de  frases simples, de olhares cúmplices, de toques casuais, de quase promessas, de vontades perceptíveis.

Longos silêncios de olhos nos olhos, de adivinhar pensamentos e de ganhar coragem para, confessarem que tudo tinha mudado nas suas vidas.

Nunca mais se deixaram, ele embebedava-se naqueles olhos amendoados, nos lábios de mel e no sorriso que partia corações, ela bebia as palavras dele, os devaneios, os sonhos e aquele desejo de encontrar o espaço que há tanto tempo procura.

Estavam, verdadeiramente, apaixonados.

*****

São 6 horas e 50 minutos, de uma manhã de Primavera, o aeroporto de Lisboa regurgita de pessoas que andam de um lado para o outro, malas que se arrastam, despedidas em olhos vítreos por lágrimas contidas.

O altifalante dá os últimos avisos:

-Ultimo chamada para os senhores passageiros do voo, 127542 da TAP, com destino a Boston , é favor dirigirem-se à porta de embarque  número 26.

Esmeralda e Rodrigo despediram-se, mais uma vez, da família e encaminharam-se para o voo.

Iam procurar, longe, o que o seu país lhe tinha negado.






sexta-feira, 15 de março de 2013

Destinos










Escrevi e publiquei este conto em 2009, um amigo que por aqui costuma passar e que está a passar um momento muito grave, pediu-me para o voltar a dar a conhecer.
Por ele, esperando um milagre, aqui fica.



Era um amor feito de coisas velhas, estranho, desbotado pelo tempo, mas era um amor, embora impregnado de mistérios e camuflado em beijos amorfos e sentimentos que há muito tinham morrido.

Nem sempre foi assim, pois começou numa tarde amena de Primavera, ao som de um slow que obrigava a cingir os corpos em passos vagarosos e sensuais numa "salle de danse" em Paris.

Depois, foi o encanto de tardes de mãos dadas, noites intensas em plenitude de corpos fundidos em arroubos de desejos incontidos.

Tardes no Melody, ao som de uma imitação de Jaque Brell, no lamento de um fastidioso “Ne Me Quites Pas”, sorvendo em pequenos goles um, intragável, Bacardi como se fosse a melhor bebida do mundo. Ela, na saia travada, ajeitava as pernas escondendo dos olhares, dos homens, que à socapa iam mirando as coxas firmes generosamente expostas. Ele, intelectual vanguardista, citava frequentemente Cesar Vallejo, como se nas palavras conseguisse arranjar remédio para a falsa dialética com que se arvorava no caminho da cultura.

Casaram numa manhã de chuva, no Consulado, perante a autoridade e quatro acompanhantes, dois militantes de um partido ecologista, a Paulette empregada da pensão e o namorado, um português transmontano, dono de um pequeno bar.

Não houve lua-de-mel, não era necessária, pois já andavam há muito nesse enlevo.

********

Foram dois meses de encanto, longos passeios ao longo do rio que lavava as margens da cidade.

Os serões eram passados em tertúlias onde se discutiam “Les nouvelle vagues”, se bebiam Pastis e se recitavam versos de Neruda, Borges e Rimbaud. As gargalhadas confundiam-se com o cheiro do canábis, que iam inalando até o entorpecimento tomar contas dos corpos e toldar os pensamentos. Matilde assistia, primeiro, na curiosidade da descoberta, dos falatórios que não percebia, dos versos que nada lhe diziam, das discussões pseudo-intelectuais sobre liberalizações, globalizações e outras coisas que não entendia. Depois, foi o enjoo daquela bebida onde o sabor de anis lhe deixava um travo acre na garganta, o adocicado e enjoativo cheiro daquela maconha em que iam imbuindo a mente, na procura de uma liberdade que os prendia.

As noites mágicas perderam a magia e passaram a ter a monotonia das processionárias.

*****


Deixou de acompanhar o marido, tinha náuseas e tédio dos velórios em que se tornaram as noites macambuzianas, das retóricas, dos cheiros e das palavras soletradas, por desenraizados, na procura de algo que nem eles sabiam bem o que.

Matilde começou por passar as noites só, depois com Paulette ia até ao bar do transmontano. As pernas, na saia travada, continuavam a prender os olhares gulosos que em sorrisos as iam conquistando e, ela, começava a apreciar toda essa embasbacação.

Depois foi fácil, a troca de olhares, as conversas em redor de uma bebida, as mãos que se tocavam numa casualidade provocada, o sortilégio dos homens que se diziam sós e carentes.

Eram sortidas rápidas, mas o suficiente para restabelecer  o equilíbrio e a estabilidade.

*****

Matilde e Balduíno continuam o seu amor.

Ele, durante o dia, dorme na ressaca do Pastis, do entorpecimento da erva e da interiorização das prédicas das noites “tertulianas”.

Ela, passeia pelas cosmopolitas ruas de Paris. 

À noite encontram-se no quarto da pensão, cruzam-se antes das suas missões.

Trocam um beijo cansado, amorfo e desbotado, um beijo do que resta do amor.

Eles continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.
É o seu amor!




sábado, 23 de fevereiro de 2013

Quase perfeita – Fim








Agora acaba mesmo! Nunca pensei ter que ressuscitar os mortos, para dar continuação a este estória. Não deve ter saído muito bem! Peço desculpa! Mas fiz o possível!



Saíram em silêncio, Ângela agarrou com força a mão de Licínio, as ideias entrecortavam-se na cabeça, queria ser racional mas o pensamento não a deixava ter um raciocínio lógico.

Licínio sentiu aquela procura de apoio e protecção, segurou-lhe a mão com um carinho tão grande, que ela olhou-o e sorriu.
Foram até ao carro sem trocar uma palavra, os pensamentos pareciam querer saltar, era um silêncio que parecia ecoar.

Começaram viagem e, Ângela, não se conteve:

-Sabes amor, houve qualquer coisa naquela velha que me pareceu falso! O choro não era sentido, era forçado e só a fragilidade lhe dava alguma credibilidade, a polícia não vai às casas por causa de um seguro, não sei o que é mas… fiquei com uma pedra no sapato!

Licínio gostou do sabes amor, Ângela era terna mas faltava-lhe uma pequena dose de romantismo.
Sorriu-lhe de forma, quase embevecida, antes de responder:

-Fiquei baralhado, não queria dizer nada para não parecer insensível, mas juro, que não acreditei na história que nos contaram.
Naquela idade, quem perde um ente querido veste luto carregado e a mulher estava com roupa de cor.

Ficaram os dois em silêncio, tentavam alinhar as ideias, mas não era fácil, pois havia duvidas e interrogações, a que não sabiam responder.

Ângela foi a primeira a quebrar o silêncio:

-Tenho estado a pensar, se o acidente foi no dia 25, de há três meses, tem que haver noticias nos jornais e registos na polícia, ou nos hospitais!
Licínio olhou-a embevecido:

-Tenho a namorada mais esperta de Lisboa e arredores! É isso, vou começar por ai, vou ver todos os jornais do dia e dos dias seguintes, vou falar com um amigo da bófia que me vai ajudar.

Não digas, por enquanto, nada ao Elias!


*****

Licínio encarnou com satisfação este papel de detective, estava entusiasmado.

Pegou na esferográfica e estabeleceu um plano, não podia esquecer nenhum pormenor.

Anotou, cuidadosamente, tudo o que a avó de Joana tinha dito, embora parecendo que havia fantasias e contradições convinha analisar, pois, apesar das suas dúvidas podiam corresponder à realidade, realidade que não queriam mas que tinham que aceitar, pois, podia ser verdade.

Anotou a compra dos principais jornais dos dias 25 e 26 de Maio, depois ia falar com o amigo Albino que era comissário da polícia. Estava na dúvida por onde começar, mas se calhar o primeiro passo era falar com o amigo. Os jornais vinham depois!

Foram três dias intensos, falou com o comissário que lhe prometeu ir indagar, passou um dia de visitas a jornais onde comprou, como tinha previsto, os diários que normalmente publicam essas notícias.

Leu, de fio a pavio, todas as notícias, muitos acidentes, mas nada relacionado com o que procurava.

O Albino telefonou-lhe eram 10 horas e confirmou a notícia que já esperava, nenhuma emergência em relação a esse, hipotético, desastre.
Pegou no telemóvel e ligou para Ângela, quando a ouviu, com a voz mais doce que conseguiu:

-Olá amor, estou cansado mas muito entusiasmado. Tem calma! Vamos combinar assim, vens passar a noite comigo, aqui, e amanhã vamos a caminho de Cascais para desmascarar a velha que nos intrujou. Pois é verdade! Não querida, não houve nenhum acidente! Eu preparo o jantar. Um beijo!

****

Ângela acordou esfomeada, a noite abriu-lhe o apetite!
Sentiu, na cozinha, o reboliço atarefado de Licínio, o cheiro a café acabado de fazer aguçou, ainda mais, o desejo de um pequeno-almoço reforçado.

Estômagos aconchegados depois de uma noite bem colorida, meteram-se à estrada.
Havia um certo nervosismo, Licínio queria parecer forte mas um nervoso tolhia-lhe os pensamentos e tinha medo, pois algo que o ultrapassava estava a acontecer. Mas tinha que parecer forte, tinha que impressionar a sua Ângela.

Quando chegaram à porta da vivenda, a primeira surpresa. Estacionado, mesmo em frente, estava o carro que o Licínio já conhecia.

-Sabes, Ângela, estou a ficar nervoso, aquele automóvel é o deles!

Ângela, muito serena, tentou acalmar o namorado, a voz não lhe saiu muito convincente mas tentou:

-Mas isso é bom vem confirmar o que já suspeitávamos! Vamos estacionar e visitar, outra vez, os senhores.

A vivenda não parecia a mesma, os canteiros bem arrumados, a relva cuidadosamente aparada e os muros de buxo delimitando os carreiros.

O som do carrilhão era diferente, aquela dingue-dongue, suou de uma forma um pouco mais estridente.

Surpresa geral, na porta ao longe, apareceu a cabeça do Ambrósio que com voz cerimoniosa perguntou:

-Em que os posso servir?

Quase em simultâneo responderam:

-Precisamos falar consigo ou com a menina Joana!

O portão disparou e com toda a suavidade foi-se escancarando. Entraram, alguma relutância, mas avançaram resolutos.

Ambrósio mandou-os entrar e, indicou-lhes lugares para se sentarem, antes de responder:

-Com a menina Joana não vão poder falar, está muito longe e, ainda, vai demorar algum tempo, mas se eu puder ajudar, digam por favor!

Ângela contou-lhe da última vez que aqui estiveram e da conversa com a avó da Joana.
O homem pareceu surpreendido e perguntou:

-Tem a certeza que estiveram aqui, nesta casa?
-Temos a certeza! Responderam os dois.

Ambrósio ficou pensativo, puxou um Cadeira e sentou-se em frente deles.

-Mas qual o interesse em falar com Joana?

Ângela contou o sofrimento do filho e da promessa que fez em o ajudar.

-Já sei quem é, respondeu o homem, a menina contou-me e parece-me que o seu filho também lhe deixou recordações.

Se calhar não devia, mas eu tenho uma enorme dedicação pela Joana e vou contar.

A Joana como sabem é invisual, tem uma Neurite óptica retrobular, não se sabem bem as causas mas pensamos que foi a partir do acidente, que os sintomas se agravaram.

-Mas que acidente? Perguntou Ângela.

-Foi há doze anos atras, o pai da Joana teve um acidente muito grave. Um despiste onde, infelizmente, o meu cunhado e a avó da Joana perderam a vida, Joana, por milagre, sofreu poucos danos mas os médicos pensam que o choque pode ter causado a inflamação do nervo óptico, Salvou a vida mas perdeu a visão!

A minha irmã, mãe da Joana ficou, com devem calcular, destroçada perdeu o marido, a sogra e ia perdendo a filha.

Foi aí, que eu me tornei o seu guardião e os seus olhos, passei a ser a sua luz e ao mesmo tempo a sua sombra.

Agora apareceu a esperança, uma clinica em Sidney, tem conseguido grandes avanços na cura desta doença.

A Joana e a mãe estão na Austrália, a minha sobrinha vai ser operada e temos esperança no sucesso da intervenção.

Quando regressarem, prometo, que se a minha menina recuperar a visão vos telefono e combinamos um encontro!

Ângela, com o entusiamo, agarrou nas mãos do Ambrósio e, quase, com violência pediu:

-Promete que vai telefonar, seja em que condições forem, não importa o resultado da operação! O meu filho está apaixonado pela Joana!
O resto não importa!

-Prometo, conclui Ambrósio, deixem o vosso cartão!

****

Hoje, na Basílica da Estrela, realizam-se dois casamentos.
Joana e Elias, Ângela e Licínio juram, perante Deus, o amor que os une.












terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Padre Inácio







Já todos devem conhecer o padre Inácio! 

Não, não é esse, é o padre-cura da minha paróquia.

Não é notável por actos ou feitos, não se notabilizou por obras de beneficência, de caridade, exorcismos, sermões mais inflamados ou por qualquer mérito de santidade, nada disso é apenas um homem bom que tenta passar despercebido numa paroquia de pessoas simples que vivem da pastorícia ou do cultivo da terra.

Pois o nosso rotundo padre, homem de muito virtude, apreciador de boa mesa tenta passar despercebido, não quer protagonismo pois a simplicidade da vida é a mais adequada a um homem de Deus.

Tem uma vida austera que divide, entre a casa de Deus e a casa da paróquia onde habita.

Na casa de Deus vai cumprindo as missões a que está destinado, missas, baptizados, casamentos e, como não pode deixar de ser, os funerais. 

Tem na sua diocese muitos, e bons, voluntários que o aliviam de muitos afazeres, para os quais, confessa, não se sente muito vocacionado. 

Orientar a catequese e todas as burocracias administrativas que, apesar de tudo, fazem parte da rotina diária da sua paróquia não é o seu forte e muito menos a sua devoção.

Sempre que pode refugia-se na tranquilidade da casa que lhe foi destinada e onde a sua governanta, dona Rosa, o trata como se fosse um príncipe e os resultados estão bem à vista. O que lhe vai valendo é a horta, sua paixão, onde se deixa perder no tempo, abrindo rasgos, fazendo caldeiras junta às arvores, cavando e ficando extasiado vendo o fruto do seu trabalho, e de tanto amor, desabrochando para regalo e alegria do padre.

À tarde fica sentado ouvindo os melros que se vão alimentando dos seus frutos, mas ao contrário do padre-cura do Guerra Junqueiro, o nosso padre Inácio não os imagina na frigideira, gosta de os ver e ouvir na natureza.

Manhã, bem cedo, antes dos deveres canónicos, faz correr a água enquanto com uma pequena enxada vai acompanhando o caudal para que todas as plantas recebam a parte a que têm direito.

Antes de sair ouve, quase sempre, o responso da dona Ross, pois as mãos e unhas encardidas pela terra não vão bem com o pastor do rebanho desta paróquia.

Ouve, mira-a, sorri e concluí:

-Tem razão minha amiga, vou já esfregar estas mãos e unhas com uma escova e esse seu detergente que faz maravilhas!

Depois sai para a luz dia, bonacheirão e com um sorriso rasgado para com quem se cruza no caminho da Igreja.

****

Dona Rosa é a sua governante mas, na realidade, ele sente-se mais como uma mãe que trata com todo o carinho e desvelo esse filho que nunca teve. Ficou viuva, nunca sentiu a bênção da maternidade, ela que tanto amor tinha para dar. Quando lhe fizeram o convite para governanta do padre aceitou embora com algum receio, pois sempre lhe disseram que os padres tomavam aquele ar de beatitude mas, depois, fora do círculo da Igreja eram umas pestinhas difíceis de aturar. Mas teve sorte o padre Inácio era de uma grande bondade, para ele tudo estava bem, adorava tudo o que ela cozinhava e nunca fez qualquer reparo. Aceitava os conselhos e chamava-a, com carinho, de mamã Rosinha.

***

Tudo corria na paz do Senhor, os dias passavam naquela monotonia e quietude que o padre tanto apreciava, a sua Igreja, os seus paroquianos, o conforto da sua casa e a horta, sim a horta, onde se embrenhava em solilóquio com as couves, os nabos e toda a classe de produtos que a terra tão generosamente lhe ia oferecendo.

Parecia que tudo era perfeito mas, de repente o padre blasfemou, o bom e tranquilo padre Inácio perdeu a postura e, acreditem, largou um impropério contra a sua mamã Rosa.

Dona Rosa não esperava, saiu disparada e só parou na casa da sua irmã Maria Gertrudes, que muito admirada lhe perguntou:

-Que fazes aqui a esta hora Rosa?

Rosa com as lágrimas saltando dos olhos apenas respondeu:

-O padre virou demónio, chamou-me velha desastrada, a mim que tenho sido mais do que uma mãe para aquele traste!

-Mas que coisa ruim aconteceu mulher?

-Nada, respondeu, ou quase nada, apenas me distrai, sentei-me em cima dos tomates do padre Inácio e esborrachei-os.


Depois, dona Rosa entrou num choro convulsivo.

-Credo mulher, que brutalidade. Como fizestes isso?

- A culpa foi dele, colheu-os na horta, deixou-os em cima do banco e não me avisou.

Eu não podia adivinhar!





terça-feira, 16 de outubro de 2012

A viagem








Era uma estranha sensação, andava um pouco perdido e pela primeira vez não sentia aquela dor aguda que o apoquentava há tanto tempo, o médico dizia que era da coluna, da falta de cuidado quando se estirava no sofá, se calhar era mas se tinha tão belos sofás porque raio se ia sentar numa cadeira?

Na verdade hoje nada lhe doía. Tinha que se despachar, mas coisa esquisita passou a mão pela cara, que estava gelada, e pareceu-lhe que não precisava fazer a barba.

Foi espreitar o espelho e via-se reflectido como se fosse um negativo. Era ele mas não parecia, pois as sombras cobriam-lhe o rosto e não dava para se aperceber bem do que via.

Foi procurar os óculos mas hoje era dia não. Onde se terão metido os malvados? Quando não precisar deles logo vão aparecer.

Andou assim perdido, do quarto para sala e da sala para o quarto, sem saber bem o que tinha que fazer.

Há coisas que nos ultrapassam, acabou de se levantar, não se recorda de fazer nada e, na realidade já estava impecavelmente vestido, de verdade com um fato que detestava, com uma gravata que não se lembrava de usar há anos e com uns sapatos pretos que antes lhe magoavam os pés, mas de hoje nem os sentia.

O estranho era estar vestido a rigor embora com um pouco de cheiro a naftalina e não sabia, exactamente  o que tinha que fazer, não abe lembrava de nenhum compromisso mas, não se admirava porque a cabeça por vezes já lhe ia pregando partidas.

Estava cogitando neste mar de incertezas quando, os sinos da Igreja, o despertaram para um pungente toque a finadas.

Era um repicar tão triste e tão lúgubre que, lhe pareceu sentir duas  lágrimas a escorrer pelo rosto, passou a mão mas não, era só impressão pois a cara continuava fria, mas bem enxuta.

Tentou coordenar os pensamentos mas apenas o vazio lhe povoava o pensamento.

Mas era estranho, estava vestido, barbeado, gravata impecavelmente colocada, sapatos brilhando e sem saber porque e nem para que!

Os sinos continuavam no repicar triste e soturno.

Foi então que pensou que se tocavam a finados alguém tinha morrido. Estava tudo explicado, era isso, estava preparado para ir a um funeral. Não se lembrava de quem, mas não admirava, a cabeça por vezes já o atraiçoava.

Subiu a rua, passos suaves e firmes, há muito que sentia as pernas tão firmes. Estranhou que ninguém lhe respondesse quando os saudava com o habitual bons dias.

À porta da casa mortuária estavam os seus amigos e alguns familiares. Mas afinal quem tinha morrido? Porque seria que todos o desconheceram e ninguém respondeu às suas palavras?

Entrou, não percebeu, ninguém se desviou mas nenhum obstáculo o impediu.


Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.

Tentou levantar o pano da cara do homem mas, não entendia, os dedos passavam e o lenço continuava na mesma posição.

De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.

Hora de partir e ninguém o tinha avisado



quinta-feira, 17 de maio de 2012

A coisa







A tarde estava fria e os cães ladravam numa agitação pouco habitual.

Permanecia junto à lareira e o crepitar dos troncos não lhe deixavam vontade de ir, lá fora, espreitar o que mantinha os animais no desassossego. Talvez algum animal desconhecido, uma raposa ou, o mais certo, alguém que não é bem-vindo por estas bandas.

O melhor é vestir o capote, pôr um gorro na cabeça e agarrar a caçadeira, não vá o diabo tecer alguma surpresa.

Abriu uma nesga da porta e o ar gélido ia-lhe fazendo cair o nariz, olhou sem nada descortinar.

Saiu para o terreiro, os cães continuavam numa inquietação mas, quando o viram, quase por encanto se encolheram e soltaram uns pequenos ganidos de medo ou inquietação.

Olhou em redor e, de repente, viu um vulto que o deixou arrepiado, sentiu como que um choque que começou nos braços, desceu o corpo e lhe tolheu as pernas.

Era algo de irreal, vulto negro onde dois olhos, cor de fogo, chispavam. 

Apontou a arma e fez dois disparos para amedrontar, mas a estranha figura, abriu os braços e agitando as mangas da capa preta, desapareceu nos ares como se fosse um morcego.

 *******

Voltou ao quente da lareira, não sem antes aferrolhar com muito cuidado todas as portas e janelas.

A noite não foi fácil, acordava com a sensação de medo e ao mesmo tempo tão irreal.

Levantou-se antes do Sol, os cães estavam calmos, preparou um bom pequeno-almoço antes de se por a caminho do povoado.

Tirou o Jeep do barracão que lhe servia de garagem, soltou o Boca-Negra que saltou contente para o lugar da frente e partiu a caminho da vila.

Estava frio, mas os primeiros raios de sol ia amenizando o ar.

Parou à porta da igreja, ia falar primeiro com o padre Esteves, contar o sucedido e tentar conhecer a opinião de uma autoridade nestas matérias, pois ninguém melhor do que um padre para assuntos do sobrenatural.

*******
Notou que estava a fazer esforço para não se rir, franziu a cara e colocou a mão na boca para se conter.

-Padre Esteves, não percebo a sua atitude, vim pedir ajuda e conselho e, afinal, ainda estou a ser alvo de chacota. Que se passa consigo?

O padre, tentou suster o riso, mas não conseguiu.

-Sabes Carmelo, és muito bom rapaz mas quando bebes desatinas como os outros. A bebida provoca alucinações, e foi o que aconteceu. És mesmo lixado, homens morcegos a voar nas tuas terras, tem cuidado senão ainda vais para o Guiness.

Ficou pior que estragado, era triste não ter provado um gole de qualquer bebida e estar a ser acusado de bêbedo. Por estas e por outras é que as pessoas se estão afastar da Igreja.

Ia voltar à quinta, carregar a arma com zagalotes e ficar de atalaia a ver se aquela assombração tinha coragem de aparecer. Metia-lhe dois tiros nos olhos, todos iam acreditar e o descanso voltava aquelas paragens.

Meteu-se no carro e voltou a casa, o Boca-Negra continuava encolhido, o que não era habitual.

Quando parou o carro ao portão ficou estarrecido, os outros cães, estavam esfolados e pendurados no varal onde costumava suspender o porco na matança. Espectáculo macabro, os bichos com as fauces escancaradas pareciam coisas do outro mundo.

Aqui o medo passou a fazer parte deste cenário, ficou de tal forma que nem conseguiu tirar os animais e abrir uma cova para os enterrar, a noite estava próxima e não queria arriscar, hoje o Boca-Negra ia dormir dentro de casa, coisa de que ele tanto gostava.

Encheu a lareira de grossos troncos, ia estar uma noite fria, trancou o ferrolho e, lembrando uns filmes que tinha visto, pendurou réstias de alhos nas portas e janelas e colocou o crucifixo, que estava no quarto, em lugar de destaque bem em frente à entrada.

A noite foi calma, não sentiu barulhos ou algo que lhe perturbasse o sossego do sono.

Acordou antes do Sol raiar, abriu a porta ao cão para o animal ir satisfazer as necessidades, mas o bicho olhava a abertura e nem sequer se aproximou, ficou de cauda encolhida fitando o dono.

Resolveu sair para ver se assim o Boca-Negra se decidia, mas a surpresa foi dele, os cadáveres tinham desaparecido, nada de cães.

Agora, pensou, é que o safado do padre vai julgar que eu ando mesmo a beber, se eu lhe contar que encontrei os cães naquele estado e de manhã foi como se nada tivesse acontecido, vai ser lindo. Vai ficar com aquele sorriso sacana que tão bem saber fazer e, eu, mesmo sendo amigo sou obrigado a dar- lhe um sopapo no focinho.

-Vida minha, que hei-de fazer? Desabafou.

Não tinha explicação, matar e esfolar três cães de grande porte não era tarefa fácil, além de os pendurar daquela forma, pesados como deviam ser, parecia de mais para uma só pessoa. Havia, no entanto, um pormenor que lhe fazia confusão, toda essa carnificina e nem um pingo de sangue se notava.

Aqui havia coisa, oh se havia! Agora tinha a certeza do que tinha visto. Era mesmo verdade, o diabo andava por ali.

Precisava da ajuda do padre, ele devia saber como lidar com mafarricos, mas o maricas, na última vez, ainda se riu e tratou-o como a um simples bebedolas.

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A coisa estava a ficar insuportável e o medo começava a tomar conta da situação. Nunca teve receio dos humanos e sempre soube resolver todos os problemas por mais difíceis que elas fossem mas, agora, era algo que não sabia controlar. Nunca tinha acreditado no sobrenatural mas neste momento começava a ter outra visão.

Pediu ajuda ao padre, decerto com maior formação nestes assuntos e, foi acusado de ter visões ou de ter bebido o que o magoou muito pois nunca foi homem para abusar.

Estava, quase em pânico, mas ia manter a calma e tentar uma solução que estava a germinar na cabeça.

Manhã cedo ia a caminho da cidade para comprar tudo o que precisava e, com sorte, o plano iria resultar, tinha a certeza.

Ia usar os conhecimentos que tinha adquirido na tropa e ia montar uma ratoeira à “Coisa” que o andava a atormentar.

Foi difícil comprar tudo o que precisava, teve mesmo que inventar a necessidade de destruir umas rochas na propriedade, mas lá conseguiu tudo o que necessitava.

Amanhã ia por mãos à obra, hoje já se estava a fazer tarde e a criatura podia aparecer, tinha que se trancar em casa, e proteger tudo com o crucifixo e os alhos.

 Ia dormir com a caçadeira nas mãos e ao mais pequeno ruido, não hesitava ia, mesmo, disparar.

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A noite foi tranquila, dormiu no sofá da sala com o Boca-Negra deitado aos seus pés.

Bem cedinho meteu mãos à obra, abriu buracos onde enterrou as cargas de explosivos, colocou os detonadores, guiou os diversos fios para uma bateria que escondeu em casa e que iria conduzir a electricidade, suficiente, para provocar a explosão.

Foi meticuloso, nada ficou à vista, a terra foi reposta e alisada.

*****

Esperou com impaciência o fim do dia, custava a acreditar mas, pela primeira vez rezou para que a besta aparecesse. Janela bem aberta e bem atento a todos os movimentos. O tímido Sol há muito tinha desaparecido e tudo continuava calmo, começava a desesperar, tanto trabalho para nada.

O Boca-Negra, de repente, começou a ficar inquieto, o vento apareceu como por encanto, um verdadeiro espojinho tomou conta do largo, um riso demoníaco entoou, o cão desapareceu latindo que metia dó. No meio do terreiro a execrável figura, bramia as membranas de forma assustadora, olhos chispando, mãos ameaçadoras com garras sinistras apontando na direcção do Carmelo.

Era o momento, ligou a bateria e o estrondo foi enorme, os vidros saltaram das janelas, a poeira encheu o espaço num cogumelo de terra e pedras. A criatura foi apanhada em cheio, levantou num voo, como um avião ferido de morte, asas em chamas e desapareceu no horizonte.

Carmelo respirou de alívio, amanhã ia reparar os estragos e esconder o que desse a conhecer o que tinha acontecido.

Dormiu tranquilo, como há muito não acontecia.


***

De manhã, com o tractor, ajeitou o melhor possível os estragos, praticamente nada se notava, só faltava repor os vidros.

Meteu-se no carro e abalou a caminho da vila, hoje sim, ia mesmo beber uns copos com os amigos.

Entrou no Café do Zé Gago e estranhou o comportamento de todos, sisudos e distantes:

-Mas o que se passa por aqui? Isto parece um velório.

Ti Chico, que estava encostado na esquina do balcão, explicou:

-Já entendi, que não estás a par do que aconteceu! 
 Encontraram hoje, de manhã, o padre Esteves morto á porta da Igreja, todo queimadinho, negro que nem um tição.


Pobre homem!