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domingo, 2 de janeiro de 2011

Crónica de Um Fim do Ano




Ninguém decerto notou a minha ausência, mas eu senti um pouco a falta desta página, pois é aqui que eu boto as pequenas veleidades que me assomam e me alimentam no quotidiano mas, desta vez, quis fugir do frio que me desconforta e desta chuva que me importuna.

Acabado o Natal, que detesto, arrumei os papéis que me perseguem, agarrei a mala e fui em procura de um Sol que me anime, uma praia que me tonifique e um modo de vida que quebre a rotina que me inquieta.

Que me perdoem aqueles, alguns meus amigos, que lutam por "um não gaste lá fora, alimente quem nos suga o sangue e nos deixa cada vez mais pobres", mas a White que é portuguesa, a Operadora que é de cá e a Agencia de viagem que é nacional ofereceram-me um bom programa de fim do ano, vestido de branco e no conforto dum clima ameno.

E lá fui, aliás, fomos!

Da viagem nada que alimente a crónica. Tranquila na possibilidade de quem não gosta muito de andar pelos ares, mas a coragem inventa-se e o medo fica letárgico no nosso pensamento.

Nos restantes dias foi o aproveitar do Sol e do clima magnífico para tonificar, tostando e mergulhando nas águas de Pituba, Piatã, Flamengo e, até, nas do Corsário.

Nas praias, a comodidade e mordomias deixam-nos com vontade de continuar, pois há sempre um “moleque” pronto a arranjar o chapéu e as cadeiras para um relaxante dia de banhos mas se quisermos uma água de coco, cerveja ou algo que seja possível é mesmo só pedir porque a reposta será:

-Vou arrumá já pra você.

Para não sermos rotineiros, uns passeios aos lugares que nos iam recomendando, faziam os dias passar de forma tão rápida que quando demos por nós estávamos a fazer as malas para o regresso e a pensar numa dieta porque a comida baiana dá cabo de qualquer regime.

As moquecas do Odoyá são algo que não vou esquecer. Uma fusão de sabores que nos deixam encantados e confesso que não tenho jeito, nem engenho nem arte, para as descrever.

Um dos meus acompanhantes, com uma simples frase, definiu bem a magia que senti:

-Manuel nunca te vi comer com tanta satisfação!

A passagem do ano foi feita de forma tranquila.
Festejei duas vezes, uma à meia-noite da minha terra e outra no virar do ano em Salvador da Baia.

Depois deixamo-nos mergulhar no frenesim, no fogo-de-artifício e no samba que encheu a noite até o sol raiar.

Foram 16 horas de viagem (8 para cada lado) mas, quase não dei por isso, pois foi tudo magnifico e se não fosse a tentativa de assalto que sofremos tudo teria sido perfeito.

Mas valeu, porque o ladrão teve uma noite para esquecer. Não conseguiu roubar os Iphones dos “portugas” e ainda ficou, como recordação, com uma mão bem mordida, pois nós defendemos o que é nosso com unhas e dentes.

Coitado, são ossos do ofício.



PS:
Só fiquei com uma curiosidade. Porque será que todas as baianas tem uma bunda grande?



domingo, 19 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Conclusão





Não gosto nada destes dias chuvosos, o trânsito fica mais complicado e tudo o que necessito fazer acaba por ficar prejudicado, mas tinha previsto uma visita aos pais da Dona Marta e ia esperar até que o tempo me deixasse meter ao caminho.

Tenho que por as ideias em ordem, este caso tem sido mais complicado e estranho do que alguma vez poderia pensar.

Duas mortes num acidente que não deixa pistas, alguém que aparece de forma inexplicável e se faz passar por uma das vítimas. Um padre que deve saber muito mais do que parece, disse não saber a morada dos pais da Dona Marta, que teria que consultar a agenda mas não o fez, escreveu sem sequer pensar.

Uma Dona Inocência que não tem aspecto de poder ser confidente de ninguém e aparece como sendo de confiança. Não me soa bem.

Uma suposta vitima de acidente aparece a requisitar os meus serviços e todos me dizem que morreu no desastre. Se isso aconteceu como aparece e até paga um serviço?

Terão simulado um desastre? Mas sendo assim porque iriam chamar a atenção para o assunto? Convinha que ninguém mexesse no caso. Estranho!

Começo a ter algumas ideias, mas preciso de as tornar consistentes e a visita aos pais da Dona Marta poderá acrescentar algo, ou pelo contrário, baralhar ainda mais a confusão que baila na minha cabeça.

A chuva começa a desaparecer, o melhor é preparar o GPS e rumar para mais uma visita.

A estrada está um pouco perigosa e algumas poças de água obrigam a alguma prudência.

De quando em vez a chuva volta com alguma intensidade.

Quando o GPS anunciou o chegou ao seu destino, o tempo parece que se solidarizou e uma nesga de Sol alegrou o dia.

É uma casa térrea a precisar de algumas obras e muito especialmente de pintura, paredes com uma cor já indefinida e onde algumas fissuras e remendos dão um sinal de abandono.

Tinha que inventar uma desculpa, pois não me devia apresentar como investigador, causa sempre algum desconforto.

Bati à porta com a velha albrada que em tempos deve ter sido decorativa e que agora não passa de um pedaço de ferro ferrugento pendurado numa porta em tão mau estado como o resto da casa.

Atendeu uma senhora pequenina, toda de preto e com a cabeça coberta por um lenço que lhe dava um ar muito austero.

Sorri o melhor que me foi possível:

-Bom dia, sou agente da Companhia de Seguros e preciso acabar o processo do acidente da sua filha. Posso roubar-lhe um bocadinho do seu tempo?

Deu-me um sorriso tão triste que até me parece que a nesga de Sol, que ia despontar, se escondeu outra vez.

-Vou chamar o meu marido porque eu não percebo muito dessas coisas, mas entre por favor e não repare na desarrumação e no desleixo mas a nossa vida parou desde que a nossa filha partiu.

O marido era um homem magro como um galgo, ossudo e com a cara coberta por uma barba branca que o deixavam com uma idade indefinida.
Estendeu-me uma mão firme e afectuosa.

-Em que podemos ajudar o senhor?

Sorri, mais uma vez, antes de dizer:

-Como já disse, à sua esposa, sou da companhia de seguro e venho para terminar o processo do acidente.

Olhou-me com doçura, cofiou a espessa barba e mandou-me sentar.

-Senhor, como é a sua graça?

-Gilberto, apressei-me a responder.

-Bem senhor Gilberto, o que lhe posso dizer?

-Gostava que me falasse da sua filha e do seu genro.

-A minha filha era um anjo e o meu genro o melhor que se pode desejar. Deus não quis e de três filhos apenas nos resta um, o Pedro, infelizmente com muitos problemas de saúde, vive agarrado a uma cadeira de rodas.

Quando eu e a minha mulher faltarmos não se sabe o vai ser dele. Se a irmã não tem tido a desdita do acidente, tenho a certeza que o iria amparar para sempre mas assim não sei o que o destino lhe reserva.

O meu filho, que era padre na paróquia da Marta, faleceu dois meses depois da irmã com uma doença má nos pulmões, ficamos nós dois velhos e um pobre inválido que depende dos pais. Estou a tentar, com o que recebemos da herança, que foi maior do que pensávamos, garantir o futuro ao Pedro, mas mesmo assim vai ser doloroso.

Ao canto, numa cadeira de rodas, estava um pobre coitado com as pernas embrulhadas numa manta.

-Não sabia do seu filho padre!

Olhou-me com uma tristeza nos olhos que fazia doer.

-O nosso filho era o Padre José Robalo, muito estimado por todas os paroquianos, homem bom, justo e o melhor filho que se pode desejar.

Despedi-me, meti-me no carro, precisava passar pela Igreja pois fazia-me impressão o padre nunca me ter falado no irmão da Dona Marta.

As coisas estavam cada vez mais confusas e parecia que as pessoas tinham algo a esconder.

Na igreja, meia dúzia de pessoas estavam recolhidas na oração. Atravessei no sentido da sacristia, onde um padre muito jovem, que não tinha visto antes, me mandou entrar e fez a pergunta que eu já esperava:

-Boa tarde meu filho em que lhe posso ser prestável?

Fiquei sem saber como começar, pois não esperava um padre diferente:

-Queria falar com o outro padre.

-O outro padre? Sou o único desta paróquia há 10 meses, o anterior foi chamado pelo nosso pai do céu.

-Mas na semana passada falei, duas vezes, com um seu colega aqui neste mesmo sitio.
Como pode dizer que é o único?


-Está a fazer confusão, não pode ter falado com outro sacerdote aqui, sou o único.

-Mas, argumentei eu, era alto e magro, cabelo branco ondulado. Usava uns óculos com aros de metal amarelo e, notei isso, um sinal azulado por cima do lábio.

-Credo! Esse era o nosso irmão José Robalo mas, como já lhe disse, o Senhor já o chamou no ano passado à sua divina presença. Ou está a fazer confusão ou já passou por aqui há muito tempo.

Nem me despedi, sai espavorido a caminho do café da Dona Inocência, que esperava que fosse verdade e que existisse antes de eu dar em maluco.

Existia e lá estava na esquina da travessa e ela, desta vez, vai contar tudo o que sabe. Podem crer que vai mesmo!

Hoje estava mais barulhento do que o costume, um grupo de homens conversavam alegremente sobre as peripécias dos jogos de futebol. Ao balcão uma jovem ia, com um pano, limpando o balcão. Quando me viu ficou à espera do meu pedido.

-Boa tarde, disse eu, queria falar com a Dona Inocência.

Fez com a boca um trejeito engraçado antes de responder

-Disse bem, queria, mas não quer porque não se pode falar com quem morreu já há alguns meses. Este café é meu, sou dona há oito meses, ela morreu com um AVC. Morreu por isso não pode falar com ela. Percebeu?

Não respondi, sai disparado e meti-me no carro sem saber o que pensar.

Parece que todos querem dar comigo em doidos.



****************

Tentei abrir, a muito custo, os olhos. Primeiro um e depois o outro, muito devagar.
Ao longe, dois vultos, estavam a olhar-me.

Pareceu-me estar numa cama, ligado por tubos. Tinha um no nariz para respirar. As dores eram muitas e não sabia por que estava aqui, nem o que estava a fazer.

Os vultos mexeram-se, era estranho. Porque estariam a olhar para mim?

Uma voz desconhecida falou:

-Finalmente, querido, acordou!

Que esquisito. Finalmente porque? Isto é irreal, não pode estar a acontecer.

A voz insistiu:

-Amor, vou chamar o médico.

E foi, pois desapareceu e só ficou um dos vultos. Parecia uma menina.

Voltou com um homem vestido de branco, talvez o tal médico.

Mas médico para que e porque?

O homem falou-me como se me conhecesse:

-Finalmente, Sr. Arnaldo, acordou de 18 dias de coma.

-Mas eu não sou Arnaldo sou Gilberto, tentei gritar mas apenas me saiu um lamento!

-Está confuso, é normal esteve 18 dias em coma profundo. Teve um desastre muito grande mas vai recuperar, vá lá descanse. A sua mulher e a sua filha estão aqui
e tem sido uma grande ajuda e de enorme coragem nesta longa espera.

-Mas eu, tentei gritar outra vez, não sou casado eu não tenho filha!

-Vá sossegue essa amnésia vai passar. É normal. Se tiver dores chame a enfermeira.
Amanhã já vai começar a raciocinar melhor.
Acordou, isso é o principal o resto vai devagar.

Dê graças a Deus.

Vá, agora, tente descansar!


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa




Tinha uns olhos tão tristes como uma chuvosa noite de Inverno e hoje essa tristeza estava mais vincada, hoje a solidão fazia parte dessa angústia sua companheira de todos os dias.

O aniversário é sempre uma data que aviva a memória e em que a reminiscências do passado alimentam a nostalgia que nos acompanha nas noites tristes de Inverno.

Hoje, se ainda alguém se lembrasse, fazia 79 anos mas a família já o tinha esquecido, talvez até não se recordassem bem que ainda existia.

Tudo começou quando se negou a vendar a casa e a ir para um lar, foi nesse dia que os filhos o votaram ao esquecimento como se fosse mais um trapo velho sem utilidade.

Mas isso é coisa que já perdoou.

Nasceu em 1931, ano de todas as lutas, numa pobre aldeia perdida na imensidão da pobreza da planície alentejana.

Neste dia mais um ano se cumpria na sua vida, mais uma etapa no acumular da solidão que todos os dias ia consumindo e, mais uma vez, a esperança que a campainha da porta lhe trouxesse a prenda com que mais sonhava, os netos e os filhos que há muito o haviam esquecido.

O relógio de cuco ia martelando as horas em ritmados cantares e o diáfano manto da noite ia escurecendo, mais e mais, o negrume da alma do pobre
Hipólito.

Todo o dia alimentou a esperança que fosse hoje que os filhos esquecessem a ganância do dinheiro, pela venda do andar, a troco do depósito do velho num lar onde se espera calmamente pela hora.

O dia passou, enxugou com a manga da camisa a lágrima que sem pedir licença escorreu entre as rugas do cansado rosto.

Pensou em comer a sopa, tomar os medicamentos que o prendiam à vida e ir para a cama mas não queria que o seu aniversário, quem sabe o último, fosse assim.

Vestiu o casaco e saiu para o escuro da noite. Voltou uma hora depois, pousou as compras e foi pôr a mesa.

Um bolo de aniversário, o primeiro de há muitos anos, uma garrafa de espumante, pensou em champanhe mas era muito caro.

Encarou os ausentes e fez um discurso, não lhe saiu muito bem, mas disse o que lhe ia na alma.

Abriu a garrafa com um estrondo de circunstância e encheu as taças que tinha disposto na mesa. Partiu o bolo e distribuiu pelos pratos.

Foi o aniversariante e foi os convidados.

Estava feliz, tão feliz que cantou em voz cansada:

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Comeu do bolo e foi vazando, com satisfação, os diversos copos de espumante.

Sentou-se no sofá e adormeceu sem precisar dos medicamentos da Doutora Odete. Dormiu bem e tranquilo.

Sonhou com a mãe que o embalava embrulhado num velho xaile. Andou pelos campos com o pai juntando as ovelhas. Dançou com a mulher que a doença lhe levou. Brincou com os filhos no largo do jardim. Foi buscar os netos à escola. Sorriu numa satisfação que há muito não experimentava.

Acordou com o sol a entrar pela janela.

Olhou a desarrumação, os copos vazios, os pratos sujos de bolo e os restos de uma festa de aniversário.

Soltou uma rouca gargalhada e pensou:

-Oh Hipólito estás mesmo a ficar caquéctico, então os filhos fizeram-te uma festa e não te lembras de nada!!!!!

Sorriu para o dia que lá fora o saudava.








terça-feira, 23 de novembro de 2010

756




É uma aldeia perdida na encosta da serra.

Nas pastagens cobertas de neve as ovelhas procuram as ervas escondidas nas pedras que enxameiam as alcantiladas encostas.

A pacatez da aldeia foi quebrada, de repente, com o grito de Romana Chilrito, a filha Cláudia tinha desaparecido.

Cláudia é uma linda menina de seis anos, ladina e cheia de imaginação, passa os dias brincando com as bonecas de trapo que a avó Germana faz para ela.

Hoje a menina desapareceu, não está em nenhum dos locais de brincadeira.

-Vais ver que anda para aí!

Dizem as vizinhas, enquanto vasculham as redondezas, espreitam o poço e vão olhando os currais das ovelhas e o chiqueiro onde os porcos pachorrentamente chafurdam na lama.

Nada da Cláudia, a menina sumiu de tal forma que parece que a terra a engoliu.

Os bombeiros e a Guarda já vasculharam tudo o que é sítio, todos os poços e buracos foram vistoriados e a todos foi procurado se tinham visto, ou, escutado a criança.

Nada, desapareceu como se houvesse eclipsado, como se nunca tivesse existido.

A GNR começou a investigar a hipótese de rapto, a menina era linda, mas não havia indícios de estranhos na aldeia. Nos últimos tempos, ninguém tinha violado a pacatez do lugar.

Foi numa quinta-feira, iam passados três dias do desaparecimento, quando o pastor José Inácio descobre entre as pedras duma lura um corpo de uma criança, rosto agrumulado pelo rigor do tempo que na serra é muito severo.

Então o choro tomou conta da povoação, as mulheres carpiram a dor em prantos que entoaram para além do local, os homens cabisbaixos andavam enrolados em capotes que os protegiam do gélido e os mantinham isolados da dor e da dúvida.

Foi a Judiciária que lançou a suspeita, o professor Almerindo há pouco na terra, foi chamado para um interrogatório que deixou a população em alerta. O professor tinha sido colocado este ano na escola e o seu relacionamento muito meloso, com as crianças, não agradava a todos, mas era só isso porque no resto parecia ser um bom mestre.

Nada se apurou e, embora a angustia fosse notória, a vida retomou o seu curso na dureza da terra, na solidão do pastoreio ou nas vicissitudes de uma existência feita de nada.

A morte da Cláudia estava presente, sentia-se no ar, nos rostos tisnados pelo frio, nos olhares enviesados, na desconfiança e na profunda tristeza que passou a fazer parte o quotidiano desta gente.

As primeiras flores anunciavam a Primavera e a neve ia deixando a faldas mais escapadas da serra, as urzes iam perfumando o ar puro.

Hoje a aldeia estava num reboliço tremendo e as suspeitas entraram novamente na vida de todos, o Professor Almerindo foi encontrado a caminho de casa com a pequena Susana pela mão e embora a sua garantia de que apenas ir recolher um livro esquecido o povo, desde logo, fez ali o seu veredicto:

-CULPADO

Na reunião de emergência com as autoridades, o Presidente da junta e direcção escolar foi de, forma unânime, decidido que no dia seguinte o professor deixaria a Escola e a Aldeia.

Para o povo não era suficiente, a evidência era demasiado para ficar, assim, impune a morte da pequena Cláudia e todo o desconforto que tinha transformado a pacatez daquela gente.

****

Quando o encontraram parecia um porco acabado de matar, numa nudez que chocava, peito empapado de uma massa viscosa que ia secando em redor da faca que lhe atravessava o peito, no sítio, onde ficava o coração.

Uma hora depois apresentaram-se, no posto da guarda, os 378 anos habitantes, adultos, da aldeia e todos eles se vinham declarar como culpados pela execução do professor.

****

Vão passados dois anos, o esquecimento vai libertando as mentes daquela gente que retomaram a plácida rotina de outros tempos.

A justiça arquivou o processo por falta de provas, havia uma única facada e apresentaram-se 756 mãos a reivindicar esse privilégio.

Impossível.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma bica curta





Estava na minha frente.

Tinha umas mãos longas e de uma beleza que faziam inveja, brancas e com umas unhas bem cuidadas, cortadas numa linha recta, cobertas com um verniz rosado e decoradas com pequenas flores vermelhas.

Se os artistas tivessem mãos diferentes de todos os outros, eu diria que tinha mãos de artista, mas conheço artistas com mãos nodosas.

Olhei-a não querendo parecer muito impressionado.

Era, quase, uma escultura renascentista onde a beleza dos traços se confundiam com a delicadeza das formas nas proporções certas, nos locais exactos.

-A que devo o prazer da sua visita?

Sentada numa posição quase “cleópatrica”, pernas unidas numa postura estudada e que servia para realçar algo que passa a fronteira do imaginável, pois são perfeitas até nos joelhos onde, em regra, quase todas falham. Mas estas, meu Deus, até nisso eram correctas. Lindas, longas, torneadas e com uns contornos onde os ossos não estragavam o conjunto.

O rosto, meu Senhor o rosto, tinha a doçura de um Anjo, a candura de um bebé e a beleza de uma Afrodite. Era quase irreal.

Olhou-me do alto de uns olhos azuis, penetrantes e com um sorriso foi dizendo:

-Andei-me informando e todos são unânimes em dizer que o senhor é o melhor,
até me dizem que será o Mourinho dos detectives. Preciso dos seus serviços,
preciso muito.

Sorriu e pareceu-me que o Sol tinha nascido no meu escritório.

Rolei entre os dedos um lápis, gesto mecânico que me ficou quando deixei de fumar. Olhei-a tentando descobrir o que se escondia debaixo daquele ar de anjo.

-Minha senhora, não sei se sou o melhor e isso pouco me interessa, cumpro bem para aquilo que me pagam. Se lhe puder ser prestável, desde que dentro da legalidade, estou pronto a ouvir o que tem para me dizer.

Fez como que um beicinho e fiquei sem saber o que fazer, se fugir desta tentação ou se correr para ela e aconchega-la nos meus braços.

Contive as maquinações do meu pensamento, olhei-a bem nos olhos e insisti:

-Bom, em que poderei ser útil?

-Senhor Gilberto, julgo que é esse o seu nome, preciso que descubra quem anda a ameaçar o meu marido:

-Ameaçar, mas ameaçar como? Para esses casos nada como avisar a polícia!

Humedeceu os lábios com a ponta da língua, gesto maquinal mas cheio de uma sensualidade estudada.

-Não quero a polícia, quero resolver particularmente este assunto. O meu marido é um homem muito importante no mundo dos negócios e, como deve saber, nesta situação é fácil arranjar muitos inimigos. A inveja impera e temos que nos manter atentos.

Continuei a rolar o lápis enquanto o meu pensamento tentava enquadrar aonde esta conversa me podia estar a levar. A mulher era demasiado perfeita para estar a falar verdade. Era pedir muito. Tentei o meu melhor sorriso e perguntei:

-Mas porque não é o seu marido a procurar ajuda para este caso?

Fez o gesto de cruzar a perna e o meu coração parou, mas desistiu e o meu coração retomou o ritmo normal.

-Como lhe disse o meu marido é um importante homem de negócios e o trabalho absorve-lhe o tempo por completo, não tem tempo para mais nada.

O meu pensamento não pode deixar de ser um pouco pecaminoso, pois com uma mulher como esta e apenas com tempo para o trabalho era um pouco estranho, mas isto sou eu a pensar pois se calhar ainda lhe resta tempo para mais algumas coisas.

Sorri, um sorriso um pouco amorfo mas foi um sorriso:

-Bom… Vou ficar com todos os elementos para começar. Vai-me deixar um sinal para despesas.

Entregou-me um envelope, perfumado, com todas as indicações e onde juntou um molhe de notas:

-É suficiente para as primeiras despesas? Perguntou com um sorriso capaz de fazer desabrochar uma flor.

Estendeu-me uma a mão gelada e saiu num deslizar de suavidade e sedução.

Abri o envelope, contei os 1.200 Euros, passei um recibo que guardei na carteira e dei um olhar atento pelas indicações que, numa caligrafia miudinha, me eram fornecidas por aquele monumento que acabara de sair.

Nos papéis dizia que era a Senhora Dona Marta Cascudo, casada com o industrial José Maria Cascudo. Nunca tinha ouvido, ou lido, tais nomes mas, possivelmente, era ignorância minha.

As ameaças, eram todas feitas em colagens muito pouco originais.

Guardei tudo na pasta e sai para um jantar rápido.

No Bar do Elias nada de novo.
Balcão corrido onde alguns personagens que pareciam ter saído de algum romance de Raymond Chandler, iam digerindo, em gestos mecânicos, os restos do que parecia ter sido uma refeição.

Sentei-me na mesa do costume, no canto, onde podia observar passando despercebido.

Enquanto tragava, o bife grelhado, fui estudando os elementos que a Dona Marta me deixou. Pouco coisa de interesse, apenas hábitos, horas e locais. Amanhã ia começar, ia postar-me em frente à residência para poder seguir o dia desse Senhor Cascudo.

Paguei e segui para casa.

O dia estava frio e a relento parecia querer roer as nossas articulações. O carro, como sempre com a humidade, só pegou depois de muita insistência. Mas pegou.

O trânsito era o do costume, taxistas acelerados desrespeitando tudo e todos, senhoras e senhores em andar morno provocando filas e todas as tropelias de uma manhã dos apressados a caminho dos empregos.

Cheguei, antes das oito horas, à morada que estava nas instruções mas, estranho, não havia nenhuma habitação no local, apenas uma pequena oficina de bate-chapas, um armazém de hortaliças, um clube nocturno de aspecto um pouco duvidoso e um local de estacionamento onde antes teria sido um edifico.

Perguntei na oficina se estava no sítio certo. Estava no sítio certo mas no local errado. A morada era essa mas ninguém habitava esta rua.

Era estranho, podia ser brincadeira, mas tinha deixado um sinal de 1.200 Euros.

Entrei num café na esquina da travessa. Um par de namorados estavam tão embevecidos a treinar comerem os dois com a mesma boca que tive que me desviar para não estorvar tão bela tentativa.

Ao balcão uma senhora, tão gorda que só se conseguia deslocar de lado, olhou para mim com um olhar tão interrogativo que fiquei na dúvida se também serviriam café, mas tentei.

-Uma bica curta.

Arrastou o corpo de uma forma tão diligente até à máquina que pensei que afinal a gordura era apenas aparente.


-Aqui tem o seu cafezito! É novo por aqui, nunca o tinha visto?

Afivelei um sorriso e respondi:

-Estou de passagem, vinha a ver se encontrava o Senhor José Maria Cascudo mas, devo estar enganado na morada.

-O Doutor Cascudo! Exclamou a mulher.

Senti a esperança renascer e, agora sim, com um sorriso verdadeiro perguntei:

-Sim, sim, conhece?

Olhou-me com uns olhos piscos muito velhacos. Passou a língua, gorda como o resto, por uns lábios ressequidos e com um ar enigmático disparou:

-Conheci sim senhor, foi um bom cliente!

Comecei a ficar um pouco perplexo, a criatura estava-me a parecer por demais enigmática.

-Mas já não conhece?

Sorriu, da forma como só as cascavéis sabem sorrir. Sibilina, enigmática.

-Conheço como se podem conhecer os mortos. O senhor Doutor que morava, na casa que foi demolida, aí na travessa, morreu mais a esposa num grande acidente de automóvel, no ano passado. Não leu nos jornais?

Fiquei confundido, duas pessoas a gozarem comigo num período de 24 horas era demais.

-Será o mesmo?

-Isso não sei, mas com esse nome não deve ser fácil haver muitos.

Parecia lógico, arrisquei;

-Como era a mulher?

Olhou-me com um ar reprovador, pensando sei lá o que.

-Uma cabra, linda e jeitosa como todas as mulheres gostariam de ser, mas uma cabra que não deixava o homem respirar, não o largava um instante. Ciumenta até da própria sombra, mas não lhe valeu de nada. Morreram juntos. Ficaram feitos em carvão, nada se aproveitou.

Fez um trejeito de choro, mas não se saiu nada bem.

Paguei, meti-me no carro e sai disparado. Há coisas na vida que não sei explicar.

-Será que a tipa morreu mesmo?



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A gravidez da Joana





Joana tinha acabado de fazer treze anos, era muito infantil e ainda gostava de brincar com o seu boneco “Nenuco”, mas tinha que o fazer às escondidas
porque o seu irmão, Jorge de 18 anos, gozava com ela.

Os pais eram, como ela dizia, porreiros mas andavam sempre a discutir.

Hoje, entrou na cozinha e com o ar mais natural deste mundo gritou:

-Pessoal acho que estou grávida!

A mãe abriu a boca de espanto e ficou muda com um olhar esgazeado. O pai não se conteve e encontrou logo ali o bode expiatório, a mulher:

-A culpa é toda tua, se a tens educado como se educa uma rapariga nada disto
teria acontecido, mas não, vocês mulheres são todas a mesma coisa.

A mulher olhou-o de través e, chispando, como um toiro enraivecido atirou:

-Mas quem és tu para falar, inútil que nunca se importou nada com os filhos,
que nunca os acompanhou. Carregas tudo para cima de mim. És um zero que
sempre tens descartado os problemas e pões o cu de fora quando os há para resolver.

O filho mais velho olhava os coroas sem perceber aonde queria chegar com esta discussão. Se a Joana estava grávida havia que saber quem era o gajo e dar-lhe um enxerto de porrada e o assunto ficava resolvido. Mas não, os cotas discutiam sem saber resolver um assunto tão simples.

A Joana, coitada, estava meia confundida com o impacto que a sua exclamação tinha provocado. Mas afinal o que é que ela tinha feito assim de tão mal?

-Oh mãe porque é toda essa zaragata?

A mãe olhou-a, quase irada, e com um embargo na voz soltou:

-Joana não sabes o que dizes se calhar nem te apercebes que podes ter
estragado a tua e até a nossa vida!

A rapariga olhava a mãe, o pai e o irmão sem perceber onde estava o drama. O que tinha acontecido de tão grave para todos a olharem desta forma tão colérica. Desatou a chorar num pranto tão sentido que a mãe não resistiu e correu a abraçar a filha.

-Querida, grávida na tua idade! Isso nunca nos passou pela cabeça. Mas afinal quem é o culpado dessa desgraça?

Joana olhou a mãe cada vez muito confusa.

-Culpado? Acho que foi o feijão!

O pai esbugalhou os olhos.

O irmão esfregou a cabeça num gesto de quem não está a perceber nada do que
se está a passar e gritou;

-Quem é esse feijão que eu parto-o todo.

O pai mais comedido:

-Vamos resolver isto de uma forma civilizada.

A mãe, olhos brilhando de lágrimas:

-Querida quem é esse feijão?

Joana com os soluços a embargarem a voz exclamou.

-Mãe... foi o teu feijão. Comi o feijão guisado que deixas-te para o almoço e, não sei porque, comecei a ficar com a barriga inchada. Doía e fui ver à Internet o que fazer para me tratar. Procurei e dizia lá que barriga inchada podia ser sinal de gravidez.

Desatou num choro convulsivo, soluços que metiam dó:

-Pensei que o feijão me tinha deixado grávida. Eu não sabia que isso era mau.

Desculpem!




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mulher de sonho?




Tinha algo que a tornava diferente, não sei bem se a cor indefinida dos olhos, os fulgurantes cabelos ruivos ou se aquele ar de ingenuidade que a caracterizava.

Não era propriamente linda mas, meu Deus, sempre que a olhava algo encaracolava dentro de mim. Sentia um formigueiro subir pelas pernas e o coração acelerava de tal maneira que tinha que fechar a boca para ele não saltar.

Andei assim algum tempo, confuso, sem saber o que fazer. Como sabem eu não sou homem de me encolher, gosto de ir à luta e quando uma mulher bule comigo eu ataco logo.

Mas agora era diferente, havia um conflito dentro de mim. Eu queria mas a vontade entorpecia os movimentos e ficava quedo a contemplar.

Queria ir à contenda, cortejar, usar todo o meu charme, fazer aquele olhar que as deixas loucas mas, uma paralisia se apossava de mim e não me deixava avançar.

Hoje passou e sorriu, um sorriso mesclado de sedução e desafio. Fiquei com uma tremedeira que me paralisou e limitei-me a vê-la bamboleante numas apertadas calcas de ganga em dança que deixavam um refego a dividir dois hemisférios bailando ao som de bater do meu coração.

Sonhei com ela, lasciva, avançando com os lábios húmidos de desejo e o corpo em oferendas de prazer. Senti as suas mãos percorrerem o meu corpo em espirais de carícias. Deixei-me enredar nos afagos loucos do seu calor. Corpos colados numa amálgama de loucura e prazer, emoções, desejos loucos. Tremores, suspiros abafados no calor húmido do desejo. Movimentos descontrolados, seivas brotando, rebentar de voluptuosidade num ritmo louco da voracidade do desejo. Ondas de fogo ardendo em explosões de vida.

Acordei em agonia e num estado lastimoso. Um duche recuperou o corpo.

Ao pequeno-almoço a minha mãe olhou-me daquela forma que só as mães sabem olhar.

-Rui que se passa contigo? Estás estranho! Queres falar com a tua mãe?

Fiquei embaraçado mas arranjei coragem para dizer:

-Mãe, gosto muito duma rapariga!

-E isso é mau? Perguntou ela.

-Sabes mãe, é muito bom mas eu não arranjei coragem para lhe dizer nada. Ando perdido, sonho com ela, ando com ela na minha cabeça, mas não fui capaz de ir além disto.

Olhou-me com um ar tão trocista que me senti, quase, envergonhado.

-Rapaz, que se passa? Estás mesmo apaixonado! Quem é essa rapariga?

-Não sei muito bem, só a vejo passar por mim todos os dias. Mora naquela casa amarela ao fundo da nossa rua. É uma ruiva linda, sensual, cara de anjo e com um sorriso lindo.

A mãe olhou-me de uma forma muito misteriosa. Aguçou a voz e disse-me:

-Ainda te lembras do Gonçalinho? Aquele rapar que foi há, para aí, dois anos estudar
para Londres?

-Mãe o que tem a ver o Gonçalinho com esta mulher linda que se cruza comigo todos os dias comigo?

-Tem muito a ver e sabes porque? O Gonçalinho voltou, agora chama-se Raquel mas julgo que continua a ter entre as pernas a mesma coisa tu.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A promessa





Com a ponta do sapato esmagou, contra o chão, o cigarro que acabara de fumar.

Depois ficou esquecido a olhar a vastidão do mar que se alongava no horizonte, os últimos raios de sol davam uma tonalidade única aquele entardecer.

Acendeu outro, mas um súbito ataque de tosse fez saltar o cigarro que tombou faiscando. Pisou, como fazia sempre, não fosse o vento levar alguma centelha.

Olhou as gaivotas que num vozear estranho se aglomeravam numa rocha que as ondas iam fustigando.

Queria deixar este maldito vício, já em tempos tentara e conseguiu estar quase dois meses sem fumar, foi uma luta amenizada com rebuçados e pastilhas elásticas. Andava com um humor de cão em dia de trovoada. Respondão, sem paciência e totalmente amofinado.

Um dia, a vontade venceu, fumou uma cigarrilha. Depois foi o descalabro para a volta ao vício.
****
A noite ia caindo com um manto de neblina que se entranhava dos ossos. Era melhor voltar para casa.

Acendeu um para o caminho, inspirou uma longa baforada e deleitou-se com as espirais que o nariz ia soltando.

Voltou a tossir, toque seca e irritante que o deixava num desconforto feito de receios e dúvidas.

Tinha que ir ao médico para ver se ele lhe receitava um xarope que lhe abrandasse esta rouquidão que, a pouco e pouco, o ia deixando inquietado.

****
Foi para a cama angustiado, não estava habituado à casa vazia, aos silêncios que o invadiam. Tinha saudades da Cristiana a mulher que sempre o tinha acompanhado.

Agora ela tinha ido embora, sem explicações, sem se quer olhar para trás. Foi embora e pronto. Estava farta do nada, da monotonia, de uma vida sem emoção.

Tinha ido embora apenas para respirar, para voltar a encontrar a identidade perdida. Um dia, que sabe, podia voltar e se ele quisesse podiam começar de um novo nada, num renascer sem emoções.

Quando acordou os primeiros raios de Sol filtravam-se pelas frestas da persiana. Ao seu lado continuava um lugar vazio.

***
Foi uma noite angustiante, a tosse, o mau estar e aquela sensação de um peso no peito que o não deixava respirar em condições.

Agora ia para o trabalho e tudo iria melhorar.

Acendeu o primeiro da manhã, deixou os pulmões serem invadidos pela moléstia que lhe saciava o desejo.

***

O dia correu tão mal que foi obrigado a ceder, foi ao médico.

Saiu com uma enormidade de análises para fazer e também uma radiografia. Tudo muito urgente, para ontem, disse o Doutor Meireles,

Desta vez cumpriu e passados poucos dias voltou à consulta munido de RX, relatórios e análises. Também, pensava ele, este médico é mesmo miudinho pois para receitar umas pastilhas e um xarope precisa de todas estas coisas. Mas ele é que sabia.

O Doutor olhou a radiografia presa num grampo contra uma luz. Franzia o sobrolho enquanto ia lendo aqueles palavrões que estavam escritos no relatório. Olhou-o com um ar soturno:

-Senhor Menezes há quanto tempo anda nesta situação? Por que não veio antes a uma consulta? Homem de Deus, vou escrever uma carta para um meu colega do IPO e vai JÁ tratar de arranjar uma consulta.

-Mas, titubeou, é grave senhor doutor?

O médico cofiou o queixo num movimento mecânico enquanto procurava as palavras.

-Caro amigo o que eu penso é grave mas a medicina está tão avançada que hoje em dia há soluções para quase tudo. Não perca tempo, porque não temos muito.

******

Saiu desolado, acendeu um cigarro num gesto mecânico mas o sabor era diferente. Chutou-o para longe.

-Vou deixar de fumar, desta vez vou mesmo! Juro que desta vez deixo de vez.

*******

Já era tarde, a medicina está avançada, mas milagres ainda não.

Foi o desmoronar de uma vida, a quimioterapia, a queda do cabelo o degradar de uma existência.

*******

A morte foi a única cura para tanto sofrimento.

Faleceu serenamente na graça do todo-poderoso.

Mas cumpriu a sua promessa, deixou de fumar para sempre.


domingo, 12 de setembro de 2010

Um jantar prometido




Alguém me perguntou se eu não poderia escrever um conto com um final feliz.
Tentei. Será que consegui?




Foram os melhores amigos na infância. Brincavam longas tardes sem se aperceberem das diferenças que um dia iriam definir os seus destinos.

Ela, Maria Helena, filha de um próspero e abastado comerciante, ele Ricardo, filho de um pobre balconista de uma sapataria da moda. Mas esta diferença de estatutos não incomodava as crianças que em toda a sua inocência brincavam, sob a vigilância da empregada, nos jardins da vivenda da família abastada.

-Um dia, quando tiver muito dinheiro, vamos jantar, os dois, aquele restaurante da esquina, dizia Ricardo.

-Aquele que tem muitas luzes!! Exclamou ela batendo palmas.

O tempo rolou, as crianças cresceram e enquanto Ricardo continuou a estudar na sua cidade, Maria Helena foi aprender para um colégio na Suíça.

Ricardo acabou o curso e atirou-se ao trabalho que era a única solução para amenizar as dificuldades daquela família.

Teve sorte na vida, talvez influenciado pela profissão do pai, enveredou pela indústria do calçado e com muita dedicação e saber tornou-se num grande magnata.

Á primeira fábrica seguiram mais duas, depois do mercado nacional vieram as exportações.

Era um trabalho que o absorvia mas, Ricardo, nunca a esqueceu e todos os dias dava por si a olhar embevecido os jardins onde passou dos mais belos momentos da sua infância.

Fechava os olhos e via os loiros caracóis da Maria Helena a brilhar com os reflexos do Sol que os iluminavam.

Quinze anos foram passados. Maria Helena voltou, da menina que tinha partido apenas restavam os longos caracóis dourados, porque o tempo encarregou-se de dar forma a um corpo de criança e transformá-lo num radioso corpo de mulher.

Ricardo quando a avistou sentiu uma alegria como há muito não experimentava, e o grito saiu sem que ele o pudesse reprimir.

-Maria Helena de volta?

Ela, olhou-o com uma altivez que o regelou.

-Para si Doutora Maria Helena e, julgo, não o conhecer de nenhum lado.
Virou as costas, entrou no descapotável vermelho e saiu disparada como se fosse a dona de todas as ruas

Ricardo cerrou os punhos de raiva, mordeu os lábios de desespero e jurou nunca mais olhar aquele jardim que agora ia odiar com toda a sua força.

Os dias perfilaram-se uns atrás dos outros, deram lugar aos meses que por sua vez se foram transformando em anos.

A voragem dos tempos, as crises e as depressões foram transformando as vidas das pessoas.

O pai da Maria Helena foi apanhado no ruir das bolsas e viu toda a sua fortuna ser devorada. Foi à falência.
Não aguentou e um dia foram encontrar o pobre homem pendurado, pelo pescoço, numa trave da velha adega. Rosto roxo e língua pendente num esgar de morte que até aos mais corajosos causou alguma angustia.

Num instante os credores se encarregaram em deixar as duas mulheres com as roupas e as jóias que conseguiram guardar das vistas dos credores.

Por caridade uma velha tia deu-lhes guarida.

Maria Helena procurou emprego de forma continuada, respondeu a tudo que havia para responder, foi a todas as entrevistas que conseguiu mas sem êxito. Para uns era nova de mais, para outros já tinha muita idade, nuns lados tinha habilitações a mais, para outros tinha experiencia a menos.

Dona Perpétua, mãe de Maria Helena, não aguentou a pressão e um dia tomou todos os comprimidos de uma caixa de soporíferos, quando a filha a encontrou estava às portas da morte.

Está no hospital à espera do pior desenlace.
É uma questão de meses dizem os médicos.

Ricardo, bafejado pela sorte, conseguiu com as desgraças alheias aumentar o seu negócio, investiu e comprou velhas industria que tornou em Empresas modernas e prósperas. É um hábil homem de negócios que tem conquistado os mercados internacionais.

Maria Helena chegou ao ponto em que mais nada lhe resta, o desalento já se começou a apoderar das poucas forças que ainda lhe sobram.

Não quer seguir o exemplo dos pais, quer viver porque a mãe, mesmo moribunda, precisa dela.

Desesperada arranjou coragem, nem ela sabe bem como, e esperou por Ricardo à porta da sua Empresa.

Quando o viu, com a voz mais humilde que encontrou dirigiu-se ao seu antigo amigo:

-Ricardo dá-me um momento por favor?

Olhou-a de forma intensa, o coração num batimento desmedido, mas arranjou coragem para dizer:

-Para si doutor Ricardo, e, não me lembro da conhecer lado nenhum.
Sabe menina! Não tenho a perder, bom dia!

-Ouve! Insistiu ela, tens todas as razões do mundo para me desprezares mas Deus já me castigou o suficiente, já sofri o que tinha a sofrer, por isso esquece por favor e por toda a nossa amizade de crianças, que levianamente deitei a perder, ouve o que
tenho para te dizer.

Preciso de um emprego, qualquer um, faz isso pelas nossas recordações e pela minha mãe.

Ficou sem saber o que dizer, limpou o rosto num disfarce no desconforto da situação.
Olhou aqueles olhos que nunca esqueceu, aqueles lábios com que tanto sonhou e sem ser capaz de a olhar de frente, murmurou:

-Passa amanhã, de manhã, pelo Departamento de Recursos humano vai ter com o Doutor Inácio. Eu vou dar instruções para te atender.

Entrou no carro e partiu disparado como se fosse o dono de todas as ruas.

Começou a trabalhar na secção de exportação, o facto de saber Inglês e Francês foram
pontos a seu favor. Trabalhou como nunca, a primeira a chegar e a ultima sair. Ganhou o respeito dos colegas e dos chefes pelas capacidades de trabalho, pela humildade e pela forma como se conseguiu impor.

Ricardo ia assistindo, discretamente, ao renascer da menina que um dia tinha ido para a Suíça.

Foi numa segunda-feira ao chegar, de manhã, ao seu gabinete, Maria Helena, encontrou na secretária um cravo vermelho em cima de um envelope castanho.

Abriu e leu:



Maria Helena
Aceitas aquele jantar que há muito te prometi?
Não pode ser no Restaurante da esquina, mas conheço outros.
Ricardo










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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Roteiro de umas férias




Programámos a saída para as 8 da manhã, saímos às 10, os habituais atrasos das mulheres.

Rumámos a Porto Covo à procura da tranquilidade das tardes calmas desta vila. Foram três dias de pura ociosidade, com umas idas à praia ao entardecer, quando o Sol já não deixa marcas no corpo. Ficávamos até o astro desaparecer num horizonte avermelhado, prenúncio de mais um dia de calor intenso.

Ao fim do dia íamos até ao Café Marques beber a bica e acabávamos a noite lambuzados por um gelado, daqueles que engordam mesmo... mas que nos sabem tão bem. Férias são férias.

Depois, como que num regresso às origens e numa procura do alento que nos alimenta a alma, nos conforta o espírito e nos acalma as saudades fomos ao Alentejo profundo, aos recônditos de uma província esquecida.

Foi uma travessia por entre os raios de um Sol abrasador que tornava a estrada um tapete luzente e cheio de reflexos. Paramos em tudo onde os líquidos frescos pudessem mitigar esta secura que se apoderava de nós.

Finalmente Amareleja, terra parada no tempo, onde o sossego só é quebrado por alguma mosca entediada que teima em nos azucrinar a paciência.

Amareleja, vila perdida na imensidão do nada, onde o calor fustiga de forma tão intensa que até as próprias aves que se afoitam a cruzar o espaço caiem numa agonia de morte.

Quando a tarde ia esmorecendo os raios de calor, continuámos até Sobral d’Adiça, pequena aldeia empoleirada na serra do mesmo nome. Ruas desertas. Só à porta de alguma taberna, mais fresca, alguns homens olhavam curiosos para quem se atrevia a bulir com a calma de uma tarde quente.

Foi apenas uma passagem na tentativa de descobrir um mistério que anda comigo, que faz parte de mim. Mas... ainda não foi desta.

O dia estava a acabar e o nosso apetite leva-nos até Safara, ao Restaurante Arcada. Para mim é poiso obrigatório. Pelo telefone já tinha encomendado o Ensopado de Borrego, nem todos quiseram, mas eu não dispenso. Estava, como sempre, divinal.

Fomos pernoitar a Santo Aleixo da Restauração, pequena aldeia onde o tempo parou, mas que me enche de tão boas e gratas recordações. Só me apetece fechar os olhos e ficar numa letargia que me retempere.

No dia seguinte, depois de um pequeno-almoço diferente, com um pão próprio, um queijo especial, umas “popias” alentejanas e uns bolinhos folhados com gila, deixámos já com saudades, este pequeno pedaço do passado e continuamos para a derradeira fase destas curtas férias.

Que me perdoem os que se arvoram na defesa do “faça férias em Portugal”, mas os hábitos, os preços e as condições levam-me a outras paragens, tão próximas e tão diferentes.

Punta Umbria foi o destino seguinte.
Magnifica, feita para o turismo. Imensos quilómetros de praias com dunas de areias douradas, mar calmo, duma tranquilidade que convida e com águas com uma temperatura que corpo agradece.

De manhã partíamos à descoberta, para a tarde escolhemos a Praia de La Bota. Porque? Calhou, gostamos de uma praia isolada entre pinhais, dunas de areia fina, águas quentes.

Havia muita gente, mas pela dimensão não se notava.

Ficávamos até que o Sol mergulhava, também, na quietude do mar.

À noite perdíamo-nos na multidão, no marisco fresco, nas “cañas” geladas e nas conversas até que o sono nos vencia.

Agora olho para os papéis que esperam por mim, para o computador que hiberna até que lhe carregue no botão.

Adeus férias, voltemos ao trabalho









terça-feira, 3 de agosto de 2010

Finalmente






Vou de férias.

Vou andar por ai ao sabor da vontade, sem horários e sem roteiros.

Quero espreguiçar-me ao Sol, rebolar na areia, tomar o pequeno-almoço na esplanada, vou esquecer que existe televisão e não vou comprar jornais.

Vai ser mesmo BOM


sexta-feira, 30 de julho de 2010

A caixa de bombons




Olhou ao longo do bar numa forma até certo ponto desafiadora. Foi um olhar que pretendia ser intimidatório mas acabou por ser um pouco ridículo, pois naquela imensidão de corpos a retorcerem-se ao som de uma banda da moda ninguém parecia interessada em olhares que pretendiam ser tesos.

Ficou um pouco frustrado, pois andou ensaiando esse ar de duro durante toda a semana para fazer uma entrada triunfal e poder impressionar a Leonor.
Pensava, ele, que a rapariga podia ficar seduzida por um olhar de macho latino, um olhar que pretendia varar o coração da doce mulher que o mantinha perdidamente apaixonado.

Já tinha tentado, mais do que uma vez, uma aproximação subtil mas a rapariga parecia não notar as tentativas de acerco de Faísca. Bom, Faísca não era o seu verdadeiro nome mas apenas uma alcunha herdade do seu pai, que por sua vez a tinha herdado do avô.

Tinha pensado ir ao bar, pois ali ao som da música e no frenesim da dança as coisas podiam ser mais fáceis.
Nunca tinha ida a um bar, mas nos filmes via entrar o artista com um ar electrizante, dar um murro no balcão, sorver uma bebida forte e passado um nada estar a beijar sofregamente a rapariga.

Se nos filmes era assim e, como dizem que os filmes são o espelho da realidade, Faísca pensou, vou fazer o mesmo e no fim a Leonor deixa o balcão onde enche copos e anicha-se nos braços do seu herói.

Mas coisas não saíram como planeara, pois ninguém o levou a sério, não conseguiu chegar ao balcão para a tal bebida e a rapariga nem sequer a viu.

Não aguentou a pressão e saiu desiludido. Voltaria outro dia com a lição melhor estudada e, certo de, finalmente conseguir conquistar esse coração que tão arisco se estava a tornar.

Se calhar foi um pouco brusco nessa investida de rompante e, quem sabe, a Leonor tão doce não gostava das coisas dessa maneira.

Ia pedir ajuda ao seu amigo Inácio, tipo sabido e prático nessas coisas de mulheres.
Diziam que nenhuma lhe escapava.

O Inácio aconselhou-o a enviar um ramo de flores, mas não tinha jeito para essas coisas que lhe pareciam tão amaricadas. Onde se viu um homem, macho, com um raminho de flores na mão a caminho do bar? Não, essa de flores não pega, flores é coisa de tipos abichanados e o Faísca não era dessas coisas.

A Leonor era um primor, rapariga alinhada que não dava confiança a qualquer um. Na rua andava sempre aprumada, olhando em frente e sem perder tempo a falar ou cumprimentar os vizinhos. Mostrava ser uma cachopa ocupada e responsável.

As pessoas não sabiam bem qual era a sua vida mas, diziam, devia ganhar bem, pois andava sempre muito bem vestida e tinha um belo carro. Tinham dito que era empregada de balcão num bar famoso, se calhar gerente ou quem sabe até dona.

Por fortuna tinha descoberto onde trabalhava , pois ela não o dizia a ninguém, mas o Adérito um dia tinha topada a tipa a entrar para o bar e o porteiro confirmou-lhe que trabalhava ali, foi uma sorte do caraças.

Faísca estava preocupado, pois estava interessado em conquistar aquele difícil coração. A primeira tentativa não tinha corrido lá muito bem, pois saiu confundido daquele barulhento bar sem sequer ter visto a mulher que levava no pensamento. Não a enxergou ao balcão, se calhar como era gerente devia estar num gabinete coberto de espelhos, tal como se via nas fitas.

Voltou a falar com o Inácio, experiente em mulheres, e ele tenha aconselhado uma visita especial, bem preparada e que deixaria logo a garota impressionada.

Ia aparecer bem vestido e perfumado, se calhar até tomava um banho, embora isso não se visse, mas sempre refrescava o corpo.

Já tinha encomendado na pastelaria do Tinoco uma caixa de bombos com um embrulho bem caprichado.

Ela não ia resistir e, não tardava, andariam a passear à beira mar de mãos bem entrelaçadas.

Andava nervoso, já tinha namorado algumas garinas, mas sem interesse, gajas básicas que nem sabiam andar de saltos altos como a Leonor, que se bamboleava naquelas andas como se isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Era lindo de se ver em suaves requebros, que levavam a cabeça de um homem embalada em pensamentos lascivos e sensuais.

Estava preparado para sábado à noite, até comprou na loja do chinês uma gravata, pois a que tinha estava mais sebosa que a bata do Zé do talho.

Não ia tomar aqueles ares radicais como da última vez, porque afinal ninguém lhe ligou e só fez uma figura um pouco parva.

Estava um pouco sem jeito, com o embrulho dos bombos na mão, mas o Inácio dizia que era importante e o gajo percebia de engates.

O bar estava a abarrotar, a musica entrava nos ouvidos e deixava um tipo atordoado.

O pessoal abanava-se uns frente aos outros numa espécie de dança parva, pois em vez de estarem agarrados apenas se abanavam sem se perceber quem dançava com quem.
Mas para o Faísca pouco interessava, ele queria mesmo era descortinar naquela multidão a sua eleita.

Andou perdido nos encontrões, olhou todos os cantos do balcão, espreitou todas as portas a ver se alguma se abria e fazia surgir a sua paixão.

De repente descobriu na mesa do canto a Leonor, sentada no colo de um velho gordo, sendo apalpada por umas mãos papudas e em risadas vendidas ia beijando a testa suada do javardo que a tinha alapada.

Não quis ver mais nada, saiu disparado daquela confusão, respirou o ar fresco da noite e sentou-se num degrau a comer os bombos da desilusão.

Afinal a Leonor não era dona, nem gerente mas apenas uma prostituta no bar.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Casa Amarela





Zulmira andava numa excitação pouco habitual.

Era uma mulher comedida e não exteriorizava facilmente as suas emoções, mas hoje não sabia o que se passava, pois sentia um calor no peito que a deixava um pouco descontrolada.

Olhou a sua figura no espelho do quarto e gostou do reflexo. Mulher seca de carnes, um pouco angulosa mas com todas as formas e capaz de fazer andar à roda a cabeça de qualquer homem.

Ainda há pouco ela reparou, quando foi ao merceeiro, a maneira como o cabo Meireles a olhou, percorrendo gulosamente cada contorno do seu corpo.

Fingiu não reparar mas sentiu uma sensação de gozo a percorre-la e a ficar um suave desejo de se deixar envolver em prazeres que há muito tentava disfarçar.

O seu homem, o Arnaldo, há muito que andava esquecido dos deveres que jurou na Igreja, pois a fidelidade e compartilha que lhe havia prometido andavam distraídos nos copos que engolia. Era rara a noite em que não parecia totalmente toldado pelos vapores da zurrapa que ele e mais outras da laia emborcavam na taberna do Zé da Corneta.

Mas hoje, ele tinha prometido, que as coisas iam voltar à normalidade. Não é que ela confiasse, mas havia sempre a esperança que o seu Arnaldo voltasse a ser o homem que sempre foi.

Antes não perdia tempos em bebida, mal acabava o trabalho voltava para ela e tinham noites quentes que a faziam andar nas nuvens e lhe mantinham um brilho invejável nos olhos.

De repente o encanto desapareceu, o marido que sempre teve mudou.

Ela pensa que foi o desgosto quando o Doutor Calheiros, depois de todos aqueles exames, lhe disse que Zulmira tinha um problema que não a deixaria nunca ser mãe.

Arnaldo mordeu os lábios, não disse nada mas ela viu as lágrimas que ele não soltou porque o desgosto as secou antes de nascerem.

Nunca mais foi o mesmo, estiolou todo o entusiasmo, definhou todo o interesse.

O homem alegre, amável e atencioso volatilizou-se no desgosto e foi na bebida que encontrou o conforto para o desconforto da notícia que lhe mudou toda a vida.

Mas hoje, Arnaldo prometeu, tudo ia voltar ao normal. Jurou que não ia beber, que ia esquecer os petiscos do Zé da Corneta e a pinga do João Nabo.

Ela acreditou e até foi, manhã cedo, acender uma vela no altar de Nossa Senhora das Candeias.

A tarde estava a cair e os primeiros resquícios da noite iam tomando conta dum dia que estava a acabar.

Tinha o jantar pronto, caprichou no arroz de pato, iguaria que o seu marido tanto apreciava.

As horas alongavam-se e o escuro enchia de sombras a rua. Todos os sons a despertavam e assomava ao postigo na esperança de vir surgir o seu homem.

Mas as horas passaram, o relógio da Igreja anunciou a meia-noite.

Zulmira chorou de raiva, a frustração era maior que o desgosto.

Foi para a cama e adormeceu a pensar no Cabo Meireles.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A carta




Querida Joana

Devia estar zangado contigo mas não, a minha grande capacidade de perdoar fez-me esquecer esta tua falta, muito grave, e para a qual merecias castigo. Mas sabes como gosto de ti e por isso, por vezes, vais abusando.

No Domingo, dia das visitas aqui na prisão, estive na maior inquietação esperando a tua chegada em vão, não aparecestes. Fiquei admirado, mas ao mesmo tempo pensei que se calhar foi com receio que estivesse zangado contigo. Não estou, mas devia estar, pois o teu comportamento foi muito mau.

Eu sei que se calhar fui um pouco mais duro do que devia, mas sabes que o meu grande amor por ti é que me leva a ter, por vezes, estas atitudes um pouco mais enérgicas.

Quando o polícia chegou, chamado por algum vizinho, eu praticamente mal te tinha tocado e as marcas da tua cara foram por que tivestes o azar de cair mal.

De vez em quando sou obrigado a castigar-te, tenho que corrigir essa tua mania de independência, essas coisas malucas que aprendes na televisão, essas baboseiras de mulheres frustradas e que não tem um marido, como tu, que as eduque e lhes ensine qual o lugar da mulher.

Eu sei que te tenho batido algumas vezes, mas tu também sabes que o faço por amor, pois se te não amasse não me preocuparia contigo. E tu não queres isso pois não?

A primeira vez, como me lembro, foi porque tu querias por baton nos lábios, como se uma boca tão bonita necessita-se dessas porcarias.

Depois houve mais vezes mas sempre, e sabes bem, com razão. Tens que aprender as regras para seres uma boa esposa e um dia, quem sabe, uma boa mãe.

As pessoas não percebem que como é preciso castigar os miúdos, as mulheres também precisam de aprender as normas da obediência para depois poderem ensinar às filhas.

Tens alguma dificuldade em perceber isto mas tens que te habituar.

Quando te lamentas e dizes que eu não era assim estás enganada, pois sempre fui pelo respeito e pelas regras mas, pensava que os teus pais te tivessem explicado como te devias comportar com o teu marido.

Houve um dia, confesso que fui um pouco violento, e te fracturei o braço sem querer, pois, como podia adivinhar que ias cair numa posição tão pouco vantajosa?

Mas tudo passou e eu vou perdoando as tuas reacções e, sempre te vou buscar a casa dos teus pais quando foges.

Agora, quando sair daqui, as coisas vão ser diferentes, vou tentar não te castigar com violência mas... tu tens que ajudar.

No Domingo, quando vieres, trás comida porque aqui o que nos dão é uma merda e, sabes como eu sou com o comer.

Já te castiguei uma vez por causa disso, lembrastes?

Mas aprendestes!

Como vês não é assim tão difícil.

Espero que te portes bem e que eu não tenha necessidade de te por na ordem quando formos para casa.

Com muitas saudades do teu

Libanio