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terça-feira, 8 de maio de 2012

A missão









Bom dia senhor Marques!

Foi mais ou menos assim que começou, ou parece ter sido, porque ninguém pode ter a certeza.

A verdade, a bem dizer, é que o Senhor Marques era muito rigoroso nessas coisas de cumprimentos pois, dizia ele, pela maneira de cumprimentar nós podemos avaliar da educação das pessoas.

Mas isto é apenas retórica, pois a questão assenta em princípios muito mais sérios e que, na verdade, não pudemos abordar aqui.

Pois a senhor Marques gostou da forma clara e franca daquele Bom Dia e, isso foi o suficiente para olhar com simpatia o homem que se apresentou na sua frente.

Era alto, elegante, com ligeiras entradas que lhe davam um ar de respeitabilidade. O fato azul assentava-lhe como uma luva e a gravata grená realçava a brancura da camisa. Os dentes não estavam, propriamente, no melhor estado o que era uma pena, pois seria, talvez a única coisa que destoava no conjunto.

O senhor Marques aprovou, gostou da apresentação, da postura e sobretudo da educação.

- Mas balbuciou, o senhor Marques, como sabe o meu nome?

O personagem afivelou o melhor sorriso, fez uma leve inclinação de cabeça antes de responder:

-Foi o chefe que me indicou o senhor.

Bom, sendo assim é porque o assunto é importante e de grande respeitabilidade, pensou o nosso homem.

Se o tenente Desidério, era esse o nome do chefe da esquadra, o indicou decerto era importante, havia que dar atenção.

O senhor Marques era um conceituado comerciante no ramo dos secos e molhados e, agora tinha enveredado pela linha gourmet, com um estabelecimento nas avenidas novas.

Loja de grandes montras espelhadas e prateleiras onde o presunto pata negra se encontrava alinhado com as alheiras de caça, as trufas faziam companhia ao foie gras de pato, as garrafas do Porto Vintage faziam parceria com o champanhe Dom Pérignon assim como outras iguarias, a que só alguns, muito poucos, tinham acesso.

Mas, penso eu, já me estou a desviar do cerne da questão, pois o que interessa é a chegada desse personagem que de forma tão delicada conquistou a atenção do senhor Marques.

Olhou, atentamente, a figura antes de perguntar:

-Mas afinal qual é a sua graça?

Bom, balbuciou, antes de responder:

-Trate-me por Álvaro, apenas Álvaro!

O senhor Marques não gostou do nome, trazia-lhe más lembranças, vinha-lhe à memória um tipo que o tinha enganado, e bem enganado.

Mas, pensou, nomes são nomes e não são eles que fazem as pessoas e este tipo parecia de linhagem, bem vestido, educado, bem-falante e além disso conhecido do Desidério, colega da escola e companheiro de armas.

Enquanto cogitava nestes pensamentos, ia olhando de lado o tal Álvaro que, como por encanto aqui lhe apareceu enquanto gozava uma nesga de sol, neste domingo, na esplanada do Café “O Rodopio”.

De verdade não lhe apetecia muito qualquer palratório, não estava voltado para conversas de negócios num dia de descanso, mas se o 
Desidério o mandou não podia fazer desfeitas, o amigo não merecia.

Olhou mais uma vez e pensou que o homem tinha pinta.

Apontou-lhe uma cadeira antes de dizer:

-Então continua ai de pé, porque não se senta?

Puxou a cadeira, passou a mão para certificar que estava limpa, arregaçou levemente as calças deixando ver umas meias pretas com uns vivos da cor da gravata, só depois se sentou.

Bem, pensou o senhor Marques, porra que o gajo até nas meias tem estilo, um pouco amaricadas mas com classe.

Estendeu as pernas, não por descortesia mas somente porque as articulações, por vezes, já lhe iam dando indicações de algum desconforto. Estalou os nós dos dedos, sinal que estava nervoso, mas o aparecimento do homem deixou-o um pouco desconcertado, não sabia porque, mas a verdade é que o deixou.

-Disse senhor Álvaro, não foi?

-Para os amigos apenas Álvaro, disse com um sorriso o visitante.

Era uma situação caricata, dois homens desconhecidos, sem jeito, tentando não se olharem directamente, palavras desarticuladas e sem sentido.

-Mas, disse o senhor Marques, afinal o que tem para tratar comigo?

Álvaro coçou o sobrolho e denotou alguma preocupação.

*****

Entrou num mundo de cogitações, os pensamentos acotovelavam-se dentro do cérebro sem saber descortinar o que se estava a passar.

Nunca foi um homem acanhado e muito menos de medos, mas as coisas imprevistas deixavam-no um pouco perturbado, sem raciocínio e numa total descoordenação de ideias.

O que lhe podia dizer agora? Nada preparado para esta situação, apenas para dar sequência a uma situação pré-programada, agora assim o que ia dizer a este humano?

Roeu a unha do indicador direito. Estava desconfortável, não se tinha preparado para isto, este Senhor Marques era um pouco desconcertante.

O chefe disse-lhe que era a primeira missão e, ele, pensou que estava tudo preparado. Mas não!

Levantou-se da cadeira e com a mesma cortesia, pigarreou antes de dizer:

-Bom hoje, acho, que não tenho tempo para continuar, volto noutro dia.

O Senhor Marques tentou dizer alguma coisa mas não teve ocasião, a figura desapareceu travessa abaixo, como um personagem que se vai esbatendo num horizonte longínquo.

O tipo deve ser maluco, pensou, não joga de certeza com a bola toda. 

Amanhã vou falar com o Desidério pois ele é o culpado disto tudo.

***********************

O senhor Marques começou a sentir frio, um frio intenso, tentou levantar-se da cadeira mas, estranho, não conseguiu pousar os pés no chão, levitou, começou a elevar-se e a subir.

Não sabia mas tinha acabado de morrer.

********************************

Álvaro apareceu e pegou-lhe na mão e, suavemente, encaminhou-o para aquele túnel de luz que se abria na sua frente

Afinal conseguira.

Tinha acabado de cumprir a sua primeira missão.











sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Solidário







Não sei se foi um sorriso ou e se foi apenas um esgar que lhe arrepanhou os lábios.

Havia tanta tristeza naquele rosto, que o brilho se perdia e deixava, apenas, um franzir quase imperceptível.

Olhei os olhos que me fitavam e tentei vislumbrar alguma chama naquele olhar tão triste.

Pareceu-me que uma lágrima, teimosamente, queria escorrer mas que o orgulho que lhe restava conseguia segurar.

Era uma angústia reprimida, um sufoco que apertava o coração de uma maneira tão intensa que se notava na inquietação daqueles olhos.

Fiquei deslumbrado pela beleza escondida e abafada por tamanho sofrimento.

Que seria que tão intensamente, perturbava aquele rosto radiante de beleza mas tão carregado de mágoas?

O meu pensamento cogitava tantos motivos. O marido fugiu com uma brasileira mais afoita! Ou namorado 
descobriu que afinal não gostava, especialmente, de mulheres!

Timidamente aproximei-me e perguntei o que ensombrava a beleza daquele olhar?

Fitou-me de uma forma curiosa, aproximou a boca do meu ouvido e contou-me todas as suas mágoas.

Compreendi o sofrimento.

Era minha irmã na desgraça.

Encostamos as nossas cabeças e choramos em uníssono.







domingo, 30 de outubro de 2011

A Falésia ou uma espécie de drama Shakespeariano

 



Não gosto de whisky mas adoro aquela sensação de ter um copo na mão e deixar tilintar as pedras de gelo naquela mistura líquida da cor do ouro velho, que se vai desvanecendo á medida que as pedras de gelo se diluem. Por vezes dou por mim olhando para um cigarro imaginário, esperando ver as espirais de fumo.

Deixei de fumar quando o doutor Semedo, olhando-me por cima dos óculos, disse que ou deixava o vício ou deixava de viver.

Embora a vida nada de bom me tivesse dado acabei, no entanto, por optar por ela.

Desloquei a minha cadeira de rodas de forma a poder abarcar um pouco da rua e a nesga de mar que a falésia deixava adivinhar ao longe. Foi neste local onde nasceram e acabaram por morrer todos os meus sonhos.

********

Conheci a Madalena numas férias de verão, foi um daqueles encontros casuais em que o destino se veste de Cupido e faz com que aconteçam estes despertares de paixões.

De repente, sem nenhum ter dado por isso, éramos namorados, andávamos de mãos dadas, olhos nos olhos e cada um bebendo, em pura embriaguez, as palavras do outro.

O amor nasceu e cresceu quase espontâneo, intenso, puro e liberto de estigmas e frustrações.

Foi um andar em puro êxtase, longos caminhares pela praia, mãos coladas como se fosse apenas uma, beijos doces de pura sensação de nada mas existir, de sermos o centro, de tudo e do nada, à nossa volta.

Quando as férias estavam para terminar Madalena olhou-me nos olhos, lágrimas espreitando sufocadas:

-João, as minhas férias vão acabar mas eu não vou, quero ficar aqui contigo, se for embora nunca mais me vais 
 ver porque morrerei de tédio e de saudades.
 Deixa-me ficar meu amor!

Caminhamos juntos até á falésia onde íamos todas as tardes até que o Sol mergulhava no horizonte, matizando o céu de vermelho e laranja e pronunciando mais um dia de calor.

Olhamos ao longe, silencio que doía, pensamentos em turbilhões povoavam a nossa mente.

-João, não respondestes, será que queres que vá embora?

Não vou saber viver longe de ti, ou fico contigo, ou vens comigo ou então mata-me para poder morrer abraçada a ti e partirei com a tua imagem na minha retina.

Depois entrou num soluçar convulsivo.

Apertei-a contra mim, sufoquei o choro na minha garganta antes de dizer:

-Meu amor nada nem ninguém nos vai separar, vou combinar com os meus pais e vamos ficar a viver juntos.

De repente o Sol nasceu na sua cara, as lágrimas pareciam pérolas a brigar naquele rosto, abafou-me de beijos, sufocou-me de abraços.

-Obrigada, obrigada, obrigada...meu amor.

****
Os meus pais adoravam Madalena por isso a mudança foi fácil, íamos morar todos na nossa casa, no alto da falésia.

Fui com ela a Lisboa, recolher tudo o que lhe iria fazer falta, o resto, depois iria mudando aos poucos.

Era uma sensação diferente mas gostosa, compartilhava-mos todos os momentos, sorriamos à felicidade, fazíamos planos para uma vida que queríamos que fosse nossa, só nossa, e para sempre.

****

Foi numa quinta-feira que o carteiro trouxe um registo para assinar e, estava longe de todos que esta missiva iria ser o despoletar de situações para a qual ninguém estava preparado.

Era lacónica, numa linguagem seca e sem vida, amorfa e triste como convém às missivas que, sem saberem, vão mudar a vida de muita gente.

Eu, João Menezes, oficial miliciano desmobilizado, era convocado para me apresentar no quartel para uma comissão de serviço numa das colónias, mais propriamente em Moçambique.

Madalena leu a convocatória com uma serenidade que me surpreendeu, os olhos brilhavam, mas inventou um sorriso, abraçou-me, lambuzou-me a cara de lágrimas incontidas e animou-me:

-João ainda falta um mês e eu vou contigo.

Todos sabíamos que era um desabafo, uma forma de tirar pressão, era como um escape para aliviar a angústia que sentiu tomar conta do seu pensamento e emaranhar as suas ideias.


********

Quase como numa coincidência, também, foi numa quinta-feira. Uma chuva miudinha tornava mais triste a despedida dolorosa que se avizinhava. Rostos escurecidos pelo medo e pela incerteza.

Madalena era o símbolo da tranquilidade aparente, estática, numa serenidade feita de receios.

-João já que não posso ir contigo, vou estar todos os dias a tua espera. Vou rezar, como se fosse crente, vou implorar como se fosse possível fazer ouvir a minha voz. Vou estar em cada      momento ao teu lado, vou ser um escudo a todas as balas, um lenitivo para as tuas dores, a alegria para os teus momentos de tristeza, vou ser o teu Anjo da Guarda. Não me vais ver chorar, nem tu nem ninguém, vou sorrir sempre para que o meu sorriso seja o Sol que te vai iluminar nestes tempos em que nos vão separar.

Quando o Niassa se afastou do cais, as figuras iam-se perdendo em miniaturas, onde apenas o lenço vermelho de Madalena deixava traços de fogos-fátuos.

**********

Foram uns tempos difíceis em Mueda, local para onde me jogaram. Clima tenso onde o medo transpirava nos rostos macerados destes homens, que atiraram para uma guerra que não era deles, cansados, desiludidos, esperando quando seria o dia em que a desgraça lhe iria bater à porta e o destino os mandaria para Portugal, numa caixa embrulhada na nossa bandeira.

Escrevia, quase todos os dias para a Madalena, mas a primeira resposta só apareceu, quase, dois meses depois.

Era uma carta longa, com todos os momentos contados de uma forma tão clara que a senti como se estivesse presente. Dizia que passava os dias a rezar embora não fosse grande devota, percorria todos os nossos caminhos e sentia como se a minha mão lhe segurasse a sua, olhava o horizonte na esperança de ver o barco que me devolvesse ao nosso amor.
Dizia das saudades, das noites de insónias, dos receios e ao mesmo tempo da esperança de um regresso para podermos continuar a nossa felicidade.

Cartas longas, sentidas, turbilhões de palavras a que eu não sabia responder.
Apenas lhe contava das saudades e do desejo de voltar, não lhe dizia dos dramas, da dor e do sofrimento, dos camaradas estropiados, inadaptados, dos que ficavam nas picadas, nos que morriam em actos de bravura para alimentar uma guerra perdida, uma guerra que já não era nossa, isso não contava, deixava apenas para mim.

**********

Há coisas que não sei explicar, coincidências que nos levam a odiar dias, a ter medo que se voltem a repetir mas, para pasmo, voltou a ser numa quinta-feira de Novembro, chuvosa, fria, lúgubre e triste.
Quando bateram a porta, nada nem ninguém podia imaginar que o nosso mundo estava prestes a desmoronar.

Era um tenente e um sargento, perfilaram-se e saudaram militarmente a minha mãe e a Madalena que abriram a porta.

-São os parentes do nosso oficial João Menezes?

As duas tremeram mas abanaram a cabeça em sinal de anuência.

-Pois o que trazemos é uma missão ingrata e dolorosa, o nosso oficial teve um grave acidente em combate, não sabemos qual o desfecho, nem mesmo se será possível, ou se suportará ser evacuado para a metrópole.

A minha mãe desfaleceu mas Madalena gritou:

-Mataram o meu João, mataram o meu amor, acabaram com a nossa vida, ele precisa de mim.
 Já vou meu querido!

Saiu disparada, atravessou o caminho, desconheceu os chorões que atrapalhavam os seus passos e correu para a falésia onde loucamente se precipitou no vácuo e desapareceu nas ondas revoltas.

Muitos, ainda, a ouviram gritar, ninguém sabe o que ela foi dizendo.

Encontraram, passados cinco dias, o seu corpo numa praia a trinta quilómetros da falésia.

*******

Voltei a pátria, oito meses no Hospital da Estrela, entre a vida e a morte e regressei a casa numa cadeira de rodas. As minhas pernas ficaram, lá, misturadas com os estilhaços de uma mina.

*******

Agora estou aqui, limitado no espaço e no tempo, pedaço do que fui, sem futuro, sem sonhos.

Pouso o copo onde o gelo se derreteu e tornou o Whisky num líquido colorido.

Olho o infinito para além da nossa falésia, pela nesga da minha janela e, sonho não acordar um dia.

Só a morte me pode libertar deste pesadelo.




domingo, 16 de outubro de 2011

Quase um conto infantil






Tinha um ar de princesa, um sorriso de anjo e a beleza de uma Afrodite.

O nariz, um pouco arrebitado, dava-lhe um ar traquina que as duas covinhas na face acentuavam.

Os olhos eram grandes e profundos mas possuídos de uma tristeza que o sorriso nos lábios não sabiam disfarçar.

Quando nasceu, há 19 anos, todos pensaram que não iria vingar, prematura e tão frágil, que a família quando espreitava a incubadora ficava convencida que a menina não passaria desse dia.

Quiseram os desígnios do destino que aquele bebé, tão fraco, se transformasse numa bela moça de olhos tristes.

*****

Quando fez 15 anos, uma doença, estranha e misteriosa, tomou conta dela de tal forma que o padre lhe chegou a dar a extrema-unção, mas de um dia para o outro, o rosto voltou a tomar cor. Não conhecia os pais, olhava-os de uma forma estranha e começou a falar uma língua desconhecida e que ninguém entendia.

Fixava os que a rodeavam como se não estivessem ali, não os percebia e não se fazia entender.

Arengava em palavra estranhas, frases entoadas em sons semelhantes a estalidos doces e musicais que se perdiam, sem que os que a escutavam conseguissem perceber algo do que dizia.

A família, desiludida, desistiu da medicina e enveredou pelos bruxos, curandeiros, pais de santos e a todos os que apregoando poderes e sabedorias iam fazendo rezas, mesinhas, imolações, sacrifícios e tudo o que a imaginação lhes permitia, para ir esvaziando os bolsos dos pais da Marcela.

Um dia, no meio de uma sessão mais emotiva, saltou com uma fúria que ninguém esperava e esgatanhou barbaramente a cara do curandeiro que fugiu, espavorido, com a face fortemente dilacerada.

Depois voltou para a cama e adormeceu num sono calmo e tranquilo.

Quando acordou estava serena, de nada se lembrava, nem da doença, nem da agressão e muito menos da língua estranha que, diziam, que tinha falado.

Havia, no entanto, algo que não se atreveu a contar, ouvia os pensamentos dos outros e sabia o que ia 
acontecer. Era estranho perceber que o futuro lhe estava sempre tão presente.

************

O tempo estava agreste e o vento, com fúria, fazia estremecer os estores das janelas, enquanto a chuva fustigava impiedosamente os que se arriscavam.

Marcela espreitava através dos vidros os que, afoitamente, se atreviam a enfrentar a borrasca que com tanta violência se tinha abatido.

Olhava e os seus sentidos iam antevendo as agruras e as alegrias dos que se arriscavam a cruzar a rua.

Aquele ali, tentando segurar um guarda-chuva que o vento tentava roubar, ia imaginando o que iria dizer a uma colega que tinha erigido como dona do seu coração.

A idosa, encolhida na porta, esperando uma aberta, pensava no frigorífico vazio e nas goteiras que neste momento pingavam no cubículo onde parecia viver.

Na esquina um homem pensava de forma estranha, gostava da mulher e ao mesmo tempo desejava que partisse e o libertasse do fardo da doença que a apoquentava. Já tinha pensado em trocar a hora dos comprimidos ou, mesmo, esquecer alguns de forma a libertá-la do sofrimento e, a ele, de um fardo que apesar de todo o amor, se estava a tornar muito pesado.

Marcela perscrutava todos estes pensamentos e sentia todos os dramas e chorava baixinho sabendo que nada podia fazer.

*****

Acordou com um ruído estranho no seu quarto, algo de etéreo, resplandecente de luz e que pairava como uma nuvem.

Uma melodia suave, enchia de doçura, enquanto fragrâncias que ultrapassam a imaginação deixavam caricias que inebriavam.

Uma voz, tão suave como uma pena deslizando numa suave brisa, clamou:

-Marcela és a eleita e a força do Senhor está contigo. Tudo o que quiseres será feito.

Depois, a miragem diluiu-se em mil estrelas iridescentes que se esfumaram como por encanto.

******

Acordou pela manhã com a estranha sensação de que, a partir de agora, a sua vida mudaria e que tudo iria ser diferente.

Espreitou da sua janela os dramas da rua, mas o apaixonado não estava, a idosa tinha desaparecido e, até o marido que desesperava, com a doença da mulher, estava ausente.

Olhou na procura de dramas para dar a sua ajuda mas, todos pareciam felizes com o sol a brilhar, os rapazes corriam alegremente atrás de uma bola colorida, as meninas saltavam à corda numa alegre algazarra e os velhotes na esplanada do café olhavam de soslaio as mini-saias que passavam.

Todos pareciam felizes e sem problemas.

*****

Marcela estava triste porque tinha poderes mas não tinha onde os usar. Entrou em depressão, deixou de ouvir os pensamentos dos outros, tornou-se agressiva e caiu, novamente, num sono profundo.

Um dia vai acordar novamente.

Que nos reservará?



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Encanto




Para ti Sónia, minha sobrinha, pelo carinho da tua presença e magia das tuas palavras nos momentos em que mais precisei.




Quando abri a porta senti a golfada de ar quente.

Na taberna, defronte, os homens pareciam hipnotizados pela mini gelada que emborcavam em goles pequenos.

As moscas, em voos simétricos, martirizavam as caras tisnadas dos bebedolas que iam matando o tempo, em total indolência, nas sombras da esplanada do Chico Cocho.

Abarquei, com nostalgia, este quadro do quotidiano e retive, na minha mente, todos os pormenores desta cena, quase bucólica, onde os personagens pareciam retirados de um quadro do Malhoa.

Os homens moviam-se em movimentos lentos, num sincronismo natural, onde o levantar ritmado da mini parecia a batuta da própria essência, como se não existisse, como se esse movimento fosse fruto do deslizar do pincel do pintor.

Hoje eu estava sensível a todos os movimentos, a tudo o que estava no meu horizonte, o próprio bailado das moscas parecia fazer parte de um momento que acompanhava o mundo que ia dentro de mim.

***

Alzira, quando a desafiei para vivermos na aldeia, longe do bulício da cidade, ficou radiante e garantiu-me ser o que mais desejava no mundo.

Os primeiros tempos foram um sonho, foi a descoberta diária de novos encantos, o coaxar das rãs, o manto de grilares que enchiam de magia a planície.
Era o sentir do grito vermelho das papoilas a salpicar, de sangue, o tapete colorido das marcelas.

Vivemos intensamente os frios do Inverno junto aos troncos que na lareira se desfaziam em ondas de calor, que nos aqueciam o corpo, pois a alma ia sendo aconchegada por um ponche "caliente" e reconfortante.

O Verão quente, tão quente que até as próprias aves se deixavam cair com o bico aberto na procura de uma vida que a canícula lhes ia roubando, era passado no remanso de uma casa onde a frescura das abobadas ia atenuando a escalmorreira que fazia lá fora.

Ia-mo-nos amando nos intervalos de uma vida feita de casualidades e de momentos parados na doçura do tempo.

De repente, como se as ideias se deixassem esfumar em doses de indiferenças, Alzira deixou de respirar o encanto da procura, deixou de sentir o enlevo da descoberta.

Amorfou, a tristeza entrou de repente na pintura, as formas deixaram-se diluir nas saudades do bulício, dos cinemas, dos centros comerciais.

Alzira perdeu o espaço, os movimentos ficaram tolhidos na imensidão da campina, os horizontes perderam-se nas saudades do trânsito, no atropelo dos transportes cheios.

Alzira não aguentou a imensidão e com o mesmo encanto com que chegou, apanhou a carreira numa manhã, no Largo da Igreja, e abalou sem querer olhar para as saudades que me ficaram.

Pensei seguir com ela, não deixou, precisava da distância para respirar, como se o espaço pudesse ser encontrado no desconforto da civilização.

****

Abro a porta de manhã, vejo os homens parados no tempo de uma mini fresca e penso na Alzira, nas gargalhadas que deixou perdidas na imensidão dos meus sentidos.

Já não sinto o encanto dos coaxares, os grilos perderam a entoação que refrescavam as tardes quentes, o pão arrefeceu e já não aceita o sabor do presunto que acabei de cortar no alto da vara.

Ainda é Verão e já sinto esse frio que se entranha nos ossos e que nos faz tiritar.

A lareira está apagada não a irei acender para que as labaredas dos chamiços não consigam apagar o cheiro de uma partida, na carreira no Largo da Igreja, numa manhã que nunca foi dia.

Hoje vejo o desconforto da paisagem que o tempo secou, não quero ver mais a paleta onde o pintor deixava em traços lavados o encanto do meu pensamento.

Aprendi, agora sei que saudade se escreve com A, com A como se escreve Alzira, que abalou numa carreira que saiu do Largo da Igreja.





sexta-feira, 15 de julho de 2011

O meu canto






Os salpicos do meu Blogue, são lágrimas da minha vida;

Pedaços que o tempo deu, memória nunca esquecida;

São lamentos que eu deixei. São coisas do meu passado;

Ternuras que recebi, dum destino mal fadado;

Agruras nunca esquecidas, que carrego no meu ser;

Imagens que nunca morrem, não as quero deixar morrer;

Grito, lágrimas e desgosto que o destino me reservou;

Saudades, que me atormentam, de quem foi e me deixou:

São ressaltos disfarçados em poesia sem rima;

Para enganar a tristeza que me postaram em cima;

São canções que eu não canto e ninguém as quer cantar;

Emoção tão reprimida, que ainda me há-de me matar;

Lágrimas do meu sofrer. Poemas do meu sentir;

Saudades do que passou, medos do que está para vir;

Tormentas que me angustiam de forma tão dolorosa;

Saudade do que não tenho, nesta vida tão penosa;

Romance do infortúnio, que um dia hei-de escrever;

Palavras por mim gravadas que ninguém irá ler;

Renascer no tempo vindo, num tempo que chegará;

Num dia que não existe e que nunca existirá;

Morrer como quem nasce, na dor de quem nos pariu;

Deixar por fim esta vida... pensando que não existiu.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Num arco de flores





Partistes, de repente, num arco de flores
Num terno adeus, num até mais não.
Fiquei tão só, carpindo minhas dores,
Na mais longa e dolorosa escuridão.

Nada mais interessa, nada mais existe,
Só o espinhoso escuro da minha solidão.
Morri... também... no dia em que partiste,
Tudo acabou, mais nada existe... desde então.

Escuto a tua voz...suave...no meu pensamento
Melodias de palavras murmuradas... só para mim
Murmúrios doces...sons de puro encantamento;

Arco de flores... sorriso que o tempo já murchou,
Morro devagar. Sentindo a dor do meu sofrimento.
Que chegue a hora, não quero mais ser quem sou.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Lamento





Deixem-me pensar que ainda ando como andava nos tempos em que a ventura era minha companheira.

Em que corria com a alegria estampada no rosto e em que as rugas não faziam, ainda, parte do meu ser.

Em que a felicidade era tão comum que nunca pensei que houvesse infelicidade.

Deixem-me pensar que um dia me deito e que acordo num tempo que era o meu. Quando a luz, ainda, me acompanhava;

Acordar numa época em que não vivia nesta escuridão, nestas trevas em que de repente me deixaram.

Quero voltar a sentir no peito a alegria da realização.

Quero imaginar que nada aconteceu, que vivo o pesadelo de uma vida desgraçada, mas que um dia acordo e nada era verdade.

Que apenas a minha tão pródiga imaginação me tinha atraiçoado.

Deixem-me lançar o meu grito de revolta, mas não o escutem.

Deixem-me arrastar o que me subsiste, mas não deixem que me levem o tão pouco que me resta.




sexta-feira, 3 de junho de 2011

Eu tenho um sonho...






Ele há tanta mulher! mas por que fantasia
Entre tantas, só uma a nossa simpatia
Distingue, escolhe e quer! Uma só avassala,
Nos dulcifica o olhar e nos perturba a fala!
(Marcelino Mesquita)





Estou preparado para o que vem a seguir, mas juro que gosto muito de todas...




Eu tenho um sonho. Eu sei que é quase irrealizável, senão impossível. Mas tenho esse sonho!
Eu gostava de perceber as mulheres. Sei que é difícil, mesmo irrealizável.
As crianças são transparentes. Os homens previsíveis.
As mulheres são enigmáticas, fechadas e difíceis de contentar.
Nunca estão satisfeitas, querem sempre mais. Gostam de receber muito e dar pouco.
São ciumentas, possessivas, inconformadas.
Gostam de mirar os homens, admiram muitos e sonham com alguns.
Acham normal. Se calhar até é!
Mas se um homem olha, de soslaio, um rabo mais audacioso é um drama.
Se um homem contempla uma revista de corpos bonitos é um porco, mas elas podem olhar. Para elas é tudo inocente. Para eles é maldade.
Uma mulher pode encontrar-se com um amigo e ir almoçar. É vulgar. É amizade!
Se o homem vai almoçar com uma amiga é estranho. Há interesse escondido, é pecaminoso.
Mas que fazer, são assim.
O mal é que não há outras e já não as devem inventar!



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crepúsculo




Podes ser simplesmente uma pessoa para o mundo, mas para alguém o mundo és tu
(Gabriel Garcia Marques)





Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Nos olhos fundos e encovados têm um brilho de lembranças encerradas num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri com um sorriso desdentada.

Olha em volta e fita um imenso horizonte de lembranças que o tempo vai apagando.

As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado longínquo que guarda e que vive.

Esquece o momento, confunde as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado de recordações que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como quando a mãe lha arranjava as tranças e quando o pai, pelo mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Recorda o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem no pensamento as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele rosada a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente. Dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho e apagado vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada.

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.




segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Diogo




Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou.

Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar:

-Diogo abre o cu que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo.

Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou.

Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam.

Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a conviver com o nome que lhe tinham dado.

A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo.

Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de o ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou.

Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz.

Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar.

Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo.

Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida

Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico.

Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio.

O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções.

E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo.

Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida.

Andava do ar, tudo lhe parecia diferente.

Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam os seus pensamentos.

Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam.

Parecia, até, que já gostava do seu nome.

A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador.

Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam.

Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança.

-Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho?

-Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela não está indiferente. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido.

-Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer?

-Tia, é a vizinha do sexto esquerdo.

-Quem? Não pode ser!

-Queres dizer do quinto andar?

-Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei.

-Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?

De repente o mundo desabou.


-Tia que merda de nome que me puseram!


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Jura





A vingança não se serve. Apenas serve. (Mia Couto)



Não esperava o murro e o seu corpo tombou pesadamente com o rosto a bater com estrondo nas pedras da calçada.

O sabor a sangue invadiu-lhe a boca, uns zumbidos irritantes povoaram-lhe o cérebro.

Quis fazer um movimento para se levantar mas estava descoordenado e apenas o instinto o levou a desviar a cabeça dum pontapé.

Sentiu no ombro o impacto da bota.

Ficou numa prostração total, apenas ouvia os sons intervalados de mulheres gritando, de correrias, de homens agitando a bandeira da harmonia.

Não soube quanto tempo esteve naquela doce prostração. As ideias desconcertadas passaram como filme em câmara rápida. Viu as lutas na escola, o medo, as tareias com que os mais velhos o mimoseavam diariamente.

Lembrou-se da promessa que havia feito a si mesmo. A jura de nunca mais se deixar bater. De morrer, se necessário, mas de nunca mais ser o bombo de ninguém.

Agora estava vencido, dorido, com a sangue a empapar uma boca magoada. Tinha os pensamentos embotados. Estava confuso.

Levantou-se a custo, numa bebedeira de sons que lhe povoavam o cérebro. Olhou com a vista enevoada o agressor seguro pelos braços fortes do Aguinaldo e do Ramires.

Agarrou-se á parede para ajudar o equilíbrio que lentamente ia recuperando. Devagar foi-se aproximando até ter a sua cara encostada á face de quem tão cobardemente o agredira.

Rapidamente puxou da faca com que amanhava o peixe e por sete vezes a fez entrar no corpo do inimigo, sentiu a sangue jorrar e o gemido do porco na agonia. Os braços fortes não aguentaram o peso da morte e deixaram o corpo tombar e bater com força no basalto da calçada.

Olhou a posição grotesca do cadáver, mirou todos os que o rodeavam e disparou num choro convulsivo.

Estava vingado.

Tinha cumprido a promessa.

Tinha jurado que nunca mais ninguém lhe ia bater.

Nunca mais !


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A troca




Quando desceu na estação pareceu-lhe ter aterrado num mundo diferente, aquele edifício enorme, apinhado de gente apressada que entrava e saia dos comboios dava-lhe a sensação de um mundo que não era o seu.

Tinha nascido numa aldeia perdida nos contrafortes de uma serra, onde quase nada da civilização ainda tinha chegado, apenas a televisão no café do Sr. Romão e uns jornais que apareciam quando as noticias já estavam gastas.

Agora estava aqui perdida e confusa na esperança que a senhora que a tinha contratado estivesse à sua espera. Fora o senhor Padre Zé que lhe tinha arranjado esta vinda para fugir a uma vida de pobreza que se lhe adivinhava.

O pai foi um bom homem mas uma doença, que o médico não sabia bem o que era, levou-o o quando ela tinha dois anos e a mãe, sem recursos, entregou-a à madrinha e foi em demanda de melhor vida. Nunca mais deu notícias.

A madrinha, Dona Carminho, era uma alma caridosa que vivia no medo do pecado, nunca tivera um homem na sua vida, a oração e a penitência era o seu maior alimento. Tratou da afilhada como se fora sua filha, nos princípios da Igreja e no temor a um Deus que um dia a iria receber e compensar pela sua conduta isenta de pecados libidinosos.

Quando completou 18 anos, Alice, pediu à madrinha para a deixar ir para a cidade trabalhar, pois ali na terra estava condenada a uma vida sem grandes expectativas.

-Mas Alicinha, exclamou a madrinha, na grande cidade é onde abunda o pecado que poderá perder a tua alma.

Mas, pensou, talvez se for o senhor Padre a tratar ele a pudesse livrar de todos os perigos que a cidade pode acarretar a uma donzela como a Alice.

E, foi assim que se viu no comboio com uma velha mala, com muitas autocolantes de hotéis, onde levava todos os seus haveres e pertences.

Ia para casa de um casal, pessoas de bem, onde iria servir e aprender todas as artes de uma boa dona de casa.

Havia de os encontrar, pois alguém estaria à sua espera com uma folha de papel com o seu nome escrito.

Deixou-se ir na vaga que abandonava o comboio a caminho da saída e lá estavam eles, um casal com uma folha encostada ao peito onde se podia ler ALICE.

Como ficou contente em ver o seu nome nas mãos de umas pessoas tão chiques.

Era uma senhora cheiinha de formas, um chapéu preto com umas plumas da mesma cor enfeitavam uma cabeça onde já se notavam alguns cabelos brancos. Ao seu lado um senhor todo janota, cabelo preto, com algumas cãs, penteado para trás, a que um fino bigode dava um ar de pessoa importante.

Quando os viu fez uma vénia, como o senhor padre lhe havia ensinado, e muito envergonhada disse:

-Boa tarde, sou a Alice uma vossa criada.

Deve ter-se saído bem, porque os dois sorriram, a senhora deu-lhe um beijo na face e o senhor estendeu uma mão muito bem cuidada.

Entrou no carro, nunca tinha andado de automóvel mas não teve medo. Os dois senhores nos lugares da frente e ela, depois de por a mala no porta bagagens, foi assim que lhe chamaram, recolheu-se no banco de trás.

O senhor devia ser muito habilidoso, pois andou por aquelas ruas desviando-se dos outros carros com muita perícia pois chegou a casa sem ter tropeçado com nenhum.

Já era tarde, aquela hora nos outros dias estava recolhida, mas a senhora mostrou-lhe a casa, nunca tinha visto nada assim a não ser nas telenovelas que espreitava quando ia ao café do senhor Romão comprar pastilhas de mentol para a madrinha.

A patroa, antes de a deixar num quarto que iria ser seu deu-lhe os primeiros ensinamentos.

-Olha Alice vou-te ensinar como nos deves tratar, a mim por Madame e ao meu marido por senhor Engenheiro, agora vai comer qualquer coisa e vai dormir, amanhã começo a ensinar-te os teus deveres.

Quando acordou estranhou o sítio onde se encontrava, não tinha ouvido o galo cantar nem o ladrar dos cães do senhor Vitorino. A pouco e pouco foi dando de si e levantou-se lista, antes que a madame pensasse que ela era uma preguiçosa.

Foi para a cozinha e esperou até que alguém lhe viesse dizer o que devia fazer.

Apareceu o senhor Engenheiro que a olhou de tal forma que ela se sentiu como se a despissem e a deixassem como viera ao mundo. Chegou a colocar as mãos à frente para que não lhe vissem as partes pudibundas, mas acalmou quando o homem lhe disse com uma voz amável:

-Vai preparando a mesa para o pequeno-almoço que a senhora está a chegar. Põe aqui mesmo na cozinha.

Ficou mais calma mas ainda sentia o rubor que lhe afogueava as faces.

Depois, foi aquela rotina que não lhe era muito estranha pois a madrinha Carminho muito lhe tinha ensinado sobre as lidas domésticas e a arte da cozinha.

***

Como o tempo passa depressa! Parece que chegou ontem e já vai fazer dois anos que deixou a sua aldeia a caminho desta cidade que afinal não é tão grande como as que agora vê na televisão que a madame lhe pôs no quarto.

Não sabe bem o que se passa mas hoje acordou indisposta, vómitos e um mau estar que não é habitual mas, esteve a pensar e pode ter sido das favas que comeu ontem ao almoço, estavam tão boas que abusou um pouco.

***

Foi no minimercado que o conheceu, a madame mandou-a comprar dois quilos de açúcar, e uma dúzia de ovos para fazer o bolo de que o senhor engenheiro tanto gosta e ele estava lá. Achou-o lindo e quando se lhe dirigiu corou como se tivesse sido apanhada a roubar o chupa-chupa a uma criança.

-Menina, sabe que é muito bonita? Será que a posso acompanhar a casa?

Ficou entabulada sem saber que responder, mas ganhou coragem para dizer

-A rua é livre, porque não! Pelo canto do olho foi observando o farto cabelo loiro do homem que caminhava a seu lado.

Era vendedor de produtos de limpeza, vivia com a mãe e uma irmã. Pediu para a voltar a ver pois, disse, gostou muito de falar com ela.

-Todos os dias por volta das cinco horas levo a Birrita a passear, se quiser pode acompanhar-me. Não posso demorar mais do que 45 minutos.

-Serve, melhor 45 minutos do que nada, respondeu alegremente.

E, nos dias que se seguiram Jaime estava de plantão postado em frente à vivenda aguardando, ansiosamente, por Irene.

As primeiras saídas foram de uma timidez confrangedora mas o tempo foi abrindo caminho a um afoitar de carícias e, enquanto a cadela cheirava e aliviava as suas necessidades, os beijos surgiram, primeiro em suaves e tímidos afagos e depois um pouco mais afoitos, quase em fúria.

Jaime olhando nos olhos a sua amada perguntou:

-Irene este fim-de-semana, na tua folga, podíamos ir os dois para um sítio lindo que eu conheço no Magoito, é a casa da minha avó, está às nossas ordens porque ela está agora na terra com as irmãs, podemos ir passear até à praia.

Irene ficou sem saber que responder, o coração dizia sim mas a razão parecia, querer complicar esta decisão. O coração venceu.

Há muito que não se sentia tão feliz.

Foi um fim-de-semana que nunca mais iria esquecer.

***

Foi a patroa que estranhou a mudança de comportamento da Alice e chamando-a de parte perguntou:

-Alice tens com algum namorado?

Corou até à raiz do cabelo, baixou os olhos antes de responder:

-Tenho sim madame há dois meses.

A patroa franziu os olhos, coçou o pescoço e sem a menor hesitação exclamou:

-Ou me engano muito ou estás grávida. Vai já à farmácia comprar o que te vou escrever num papel

-Eu? Disse Alice enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces. Que vergonha madame, o que vai dizer a minha madrinha e o senhor padre?

-Vai à farmácia e depois pensamos no resto.

A madame tinha razão, os enjoos eram indício de alguma coisa.

O pranto de Alice encheu a casa. Chorou não por estar prenha, mas pela vergonha das pessoas lá da terra.

Dona Celeste com um ar muito maternal mandou-a sentar antes lhe falar:

-Ouve bem o que te vou dizer. Na tua idade e nas tuas condições um filho não vai ajudar nada. Não vais fazer nenhuma asneira, se tens uma criança dentro de ti, temos que tratar para que nasça bem, não podes pensar em fazer nenhum disparate.

-Credo madame, isso que está a pensar eu nunca iria fazer, disse Alice entre soluços.

Dona Celeste baixou a voz e enquanto lhe punha uma mão no ombro, quase que lhe segredou ao ouvido:

-Querida deixa vir essa criança que eu e o senhor engenheiro ficamos com ela e nada na vida lhe vai faltar. Sempre quisemos um filho mas Deus não nos deixou ter essa felicidade. Nós ficamos com a criança.

Alice enxugou as lágrimas e com uma decisão que nunca lhe tinham visto, fixou a madame no rosto.

-Isso não, a vida nada me tem dado, agora se me dá um filho eu não o vou enjeitar. Desculpe madame, mas melhor ou pior, o hei-de criar.

Levantou-se e foi para a cozinha arrumar a loiça que a máquina tinha lavado.

Quando às cinco horas foi levar a cadela à rua ia estudando o que devia dizer ao seu Jaime e estava receosa com a reacção. Foram descuidados e não pensaram que isto podia acontecer.

Jaime ficou radiante com a noticia, era o sonho da mãe, ser avó.

A filha esteve casada 5 anos e, seca como figo, nunca foi capaz de lhe dar um neto.

Jaime soltou uma gargalhada tão sonora que a Birrita começou a ladrar e foi preciso Alice afagar o bicho para se acalmar.

-Sabes Alice, disse Jaime, prepara as coisas para te mudares lá para casa, vou tratar com a mãe que te irá receber como se fosses uma princesa.

-Mas, respondeu Alice, temos tempo e posso trabalhar mais uns meses porque o dinheiro vai fazer falta.

-Bom, respondeu ele, então na tua folga vais conhecer a minha mãe e a minha irmã, vais almoçar connosco.

Foi recebida, efectivamente, como uma princesa. Nunca na vida se sentiu tão acarinhada, achou até exagero não a deixarem sequer arredar a cadeira.

-Não faça isso, gritou a mãe do Jaime, nada de esforços. Cuidado porque o meu neto tem que nascer forte e saudável. Tenho estado a pensar que se for menino vai ser Ernesto, como o meu pai e se for menina quero que se chame Susana, que é o nome que eu queria para a minha filha, mas o raio do pai quando a foi registar não me fez a vontade. Raios o partam que também não se gozou muito, a porra de uma doença levou-o para descanso de todos nós.

-Acho que não vão ser esses nomes, disse Alice, não gosto muito. Susana, vai que não vai, agora Ernesto nem pensar.

A mulher mordeu os lábios e teve que fazer esforço para se acalmar, olhou a futura nora com azedume antes de responder:

-Mas o filho também é do Jaime e ele não vai contrariar a mãe, por isso vá-se habituando aos nomes que eu lhe disse para quando chegar a altura não sofrer uma decepção.

Mas onde eu vim parar, pensou Alice, agora vem esta jarreta a querer decidir sobre o meu filho, isso é que era bom, vai ser ou André ou Mafalda e nada do que ela disse, sou eu que vai parir sou eu quem vai decidir.

***

O tempo passou depressa e Alice estava com uma barriga que já lhe custava a carregar e aceitou a oferta do namorado. Fez a velha mala, onde os autocolantes começavam a ficar tão desbotados que já era difícil adivinhar o que diziam.

A candidata a sogra recebeu-a como se a pequena divergência sobre os nomes fosse coisa do passado.

-Que barrigona, disse, certo que vai sair um grande rapaz. O nosso Ernesto vai ser a alegria desta família.

Bom, pensou Alice, a gaja está muito enganada mas deixa pensar o que quiser, na hora logo o vou registar como André.

Foi um parto difícil, o rapaz era grande e só com cesariana foi possível por cá fora o matulão.

Fizeram uma festa, Jaime, a mãe e a irmã estavam doidos para ver o bebé, quando a enfermeira o mostrou através do vidro ficaram em êxtase. Que lindo! Disseram em uníssono.

Na hora da visita foi a confusão, cada um falava para seu lado, ninguém se entendia. Todos queriam reivindicar a sua parte da criança, tão absorvidos que quase se esqueceram de quem o tinha deitado cá para fora.

A enfermeira deu por finda a barafunda:

-A mãe da criança precisa descansar, vão e amanhã voltam. Está bem?

***

Quando saíram, Alice pegou no telemóvel e ligou ao patrão. Esperou e quando a atendeu disse:

-Senhor Engenheiro é a Alice. Não quer vir conhecer o seu filho? É lindo e tem os olhos iguais aos seus. Não senhor engenheiro, não é do meu namorado, quando o conheci já estava grávida, E sabe de quem, não sabe? Não quero nada do senhor mas acho que tem o direito a conhecer o menino, porque também é seu. Nasceu ontem ao fim do dia. Estou na maternidade que o senhor sabe. Pois senhor Engenheiro é nessa mesma.

No dia seguinte, ao meio da manhã, lá estava o senhor Engenheiro, ansioso e ofegante.

-Alice essa criança linda é mesmo minha? Pensei….bom…estava convencido…

-Pensou mal, quando conheci o Jaime já andava com agonias e a madame já estava desconfiada.

-E agora? Perguntou o engenheiro.

-Agora que já o viu pode seguir a sua vida que eu hei-de criar esta criança. O Jaime pensa que é o pai e vai ajudar.

-Alice não quero isso, a relação com a minha mulher está podre e para ela e para mim o divórcio é a solução, aliás, eu e ela já tínhamos falado nisso. Se tu quiseres casamos os dois e vamos criar essa criança como um príncipe. Aceitas?

Fingiu pensar, torceu a boca, criou expectativa e exclamou:

-Aceito João. Posso tratar-te assim? Vou ter alta amanhã ao meio-dia, os outros vem para a visita as três a essa hora já não penso estar aqui. Vens-me buscar?

Sorriu, com um sorriso baboso antes de dizer:

-Podes crer meu amor, vou tratar da nossa futura casa. Amanhã ao meio-dia aqui estarei.

***

Deixou sair o ex-patrão pegou, outra vez, no telemóvel e ligou para o Jaime:

-Jaime não te queria dar este desgosto mas não sou capaz de te enganar, tens sido muito bom para mim e não mereces que eu te engane. O menino não é teu é do meu patrão, quando te conheci já estava grávida mas não tive coragem para te dizer. Não venhas mais porque é pior para os dois, mas juro que gosto muito de ti.

Jaime chorou e a mãe quando soube, desabafou:

-Aquela cabra nunca me enganou, mas tu continuas parvo como sempre.

****

E dois anos vão passados, Alice é agora a mulher do senhor Engenheiro e o André está um rapagão que é um regalo.

A mãe afagou-lhe os abundantes caracóis louros e sussurrou:

-Tens o cabelo lindo como o teu pai, nunca o vais conhecer mas assim é melhor para ti.
Tens uma vida e um futuro e com outro não tinhas nada, além de uma avó maluca.

Espero que me perdoes.