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domingo, 27 de julho de 2014

A casa das Açucenas







Amanhã, finalmente, acabam os oito longos anos que passei nesta prisão. Vou, novamente, sentir no rosto a chuva miudinha que faz lá fora, vou ser, outra vez, gente por entre as gentes, vou finalmente ser LIVRE.

Fui acusado e condenado por um crime que não cometi, fui vítima de um erro da justiça mas, eu era o elo mais fraco.

Foram oito anos de angústia e de raiva. De angústia porque me acusaram de ser o assassino da mulher que, depois da minha mãe, mais amei. Era o meu Sol, a minha existência a minha outra metade.
Aquecia-me o coração, dava sentido à minha vida.

Um dia, que quero esquecer, encontraram o corpo barbaramente esfaqueado, numa posição grotesca nas traseiras da sua casa.

De raiva pela vingança que tardava!

****

Eu tinha uma pequena oficina de reparações de automóveis, era toda a fonte dos meus rendimentos e, confesso, não tinha razão de queixa o negócio corria bem.
Um dia, estava já a lavar as mãos para os preparativos do fecho, quando ela entrou, com ar de aflição e com voz quase chorosa pediu:

-Preciso de ajuda, o meu carro parou mesmo aqui ao pé e por nada deste mundo quer pegar, estou aflita moro mesma no fim da estrada e ainda são 8 quilómetros.

Era uma mulher muito interessante, não propriamente bonita, mas tinha um encanto especial. Não sei se o olhar gaiato ou a graciosidade  da figura frágil mas, ao mesmo tempo, determinada.

Fui ver o carro e não havia dúvidas, tinha um problema no injector, coisa simples, mas impossível de arranjar no momento.

-Sabe, disse eu, duas noticiais uma boa, a avaria não é grave outra menos boa, só amanhã pode ser arranjado, precisa uma peça da marca.

Mostrou algum desalento antes de responder:

-Pode rebocar o carro para a sua oficina, arranjar e eu amanhã invento maneira de o vir buscar?

-Certo, respondi, amanhã ai por volta das cinco temos carro. E tem alguém que a possa vir buscar agora?

Com um sorriso lindo respondeu:

-São oito quilómetros, devo aguentar, vou a pé.

-Nem pense, disse eu, é muito e a estrada é perigosa. Se quiser esperar, 15 minutos, eu deixo-a onde quiser, afinal vou para esses lados.

-Agradeço muito, disse Clarice!

Levei-a à porta, despediu-se com um muito obrigado. Deu-me o contacto do telefone para avisar quando o carro estivesse pronto.

***
Foi assim que nos conhecemos!

Nunca tivemos uma relação, apenas amizade. Íamos ao cinema, almoçávamos e jantávamos juntos muitas vezes, chegamos mesmo a ir à praia, Clarice sempre insistiu que era apenas amizade e o prazer de estar com alguém que a entendia, não lhe pedia nada em troca e, lhe dava espaço, sem a sufocar.

Para mim era um pouco mais difícil, deixei-me levar pelos sentimentos e estava totalmente apaixonada, vivia o ar que ela respirava, bebia as palavras que me deixava, morava nos olhares, nos momentos e na esperança.

*****

Foi num sábado, num dia que prometia ser mágico, estávamos num café próximo da sua casa quando me atrevi:
-Clarice! Penso que chegou a altura de assumirmos que a nossa relação é mais do que amizade, eu amo-te e não consigo continuar neste faz de conta!

Não esperava a reacção, não lhe conhecia esta faceta, levantou-se e colocou as mãos da mesa, aproximou o seu rosto do meu e gritou:

-Afinal és igual aos outros!

Deu meia volta e desapareceu porta fora.

******


Só quando dois agentes me forem deter, fiquei a saber da tragédia, tinham assassinado a minha Clarisse, tinham tirado sentido à minha vida.

Clamei a minha inocência, jurei, chorei e sofri mas, tudo apontava para mim, não tinha álibi e havia testemunhas a afirmar que tínhamos discutido no café, Deus sabe que não discutimos  apenas, ela, me deixou pendurado na mesa de uma esplanada.

De nada valeu, fui condenado, disse o juiz, apenas a oito anos porque não havia provas materiais.

Faz amanhã 3.100 dias que alguém, que eu vou descobrir, me roubou o amor da minha vida.

*****

Fui visitar o local, a casa estava na mesma, só a pintura um pouco desbotada e todas as janelas fechadas. Apenas os canteiros à volta se encontram arranjados.  Alguém a deve habitar!

Na pequena mercearia, quase paredes meias, fui perguntar quem habitava a casa.

-A casa que era da Clarisse! Exclamou a mulher. Ninguém, ninguém a quer, bem tentaram vender mas casa assombrada ninguém compra!

-Assombrada? Mas assombrada como? Perguntei.

A mulher olhou-me um pouco agastada, mas respondeu:

-De noite luzes que acendem e apagam, coisas que arrastam. Os canteiros, ninguém os arranja, vá ver com eles estão!

Agradeci e fui-me sentar, numa pedra, junto à casa a pensar no que foi e no que podia ter sido a minha, nossa, vida.

Nos passeios à beira-mar, nas tardes no cinema com as lagrimas de Clarice nas cenas mais românticas. Pensei nos jantares, onde por vezes nos esquecíamos de comer, pois tanto tínhamos para dizer.

Fiquei esquecido do tempo e a noite, quase, de repente encheu o espaço. Queria ir embora mas havia um fascínio que me prendia, não sei se o ténue odor que me impregnava os sentidos se a musica, quase inaudível, que me embalava os pensamentos.

De repente, como projecção, Clarice apareceu mais bela o que nunca, a mesma figura mas um pouco mais frágil, os mesmos olhos mas sem o brilho que eu conhecera.

Senti um frio imenso, começava no alto da cabeça e descia em espirais, que me iam paralisando e me deixavam num torpor doce e suave. A custo balbuciei:

-Meu amor afinal estas viva!

A voz era suave, quase um eco distante:

-Já não  sou o teu amor, estive à tua espera para me despedir e pedir perdão pelas minhas últimas palavras. Perdoa-me para poder partir tranquila!

Fiquei sem resposta, quis falar mas um nó na garganta apenas deixou um suave pedido:

-Clarice eu é que te peço perdão diz-me só quem te fez mal?

Pareceu-me ver, outra vez, o olhar ladino.

-Já não sou Clarice e  não há nada a fazer, já perdoei a quem me fez mal. Agora… vou tranquila!

Vai, vive a tua vida, eu espero por ti.

Sai dali em passos ébrios, não sei se sonhei ou se aconteceu mesmo.

************


Voltei passado um ano, a casa estava reconstruida, já não era a casa assombrada, canteiros de lindas açucenas davam-lhe um novo nome.






quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na Bruma





Foi há tantos anos que por vezes a memória já se perde na bruma do tempo.

Sei, porque há coisas que nunca esquecemos, que num gelado dia de Janeiro, Maria Angelina, descobriu que esse atraso não era normal. Não foi a primeira vez que o coração se sobressaltou, que a cabeça girou no receio de ser desta vez que o caldo se ia entornar.

O seu Tónio estava no serviço militar e só vinha a casa ao fim de semana, mas com uma fome danada, e depois era o fim do mundo. O que valia era a casa ser paredes meias com uns vizinhos, um pouco moucos, e que já não davam fé do reboliço que ia por aqueles lados.

Ela bem lhe pedia para ter cuidado, mas quem conseguia suster o saciar desses prolongados jejuns?

Agora andava preocupada, já eram dias a mais e aquela gaita não havia maneira de aparecer.

Tinha vergonha de ir à farmácia pois aqui todos se conheciam e o falatório não ia tardar.

Foi à vila e os receios passaram a ser uma certeza, estava grávida e, como lhe disse a farmacêutica, grávida e bem grávida.


*******

Maria Angelina andava num misto de alegria e tristeza, dividida entre a prazer e a dúvida, entre o desejo e o não querer.

Havia no seu peito uma angústia que não sabia explicar, ser mãe e não adivinhar qual seria a reação do Tónio. Estava convencida que ia ficar feliz, ele, gostava tanto de crianças.

Mas entre o gostar e o querer vai uma distância que por vezes é maior que o nosso pensamento. Ela recordava, as conversas longas, nas noites frias de Inverno, entrelaçados e aconchegados nos lençóis, quando lhe falava em casamento e filhos, mudava o assunto, acariciava-lhe o peito e, fingindo ironia, ia acrescentando que estas lindas peças não podiam ser estragadas pelas bocas gulosas de um bebé.

Ela, na altura, ria-se pensando que o seu Tónio queria apenas elogiar a firmeza do peito mas agora, essas palavras faziam eco no seu pensamento e tornavam penosa esta espera, esta incerteza.


*****

Chovia copiosamente na noite, dessa sexta-feira, quando a porta estremeceu com as batidas anunciadoras da chegada do nosso militar, pingando como esponja encharcada.

-Vai já tomar um banho quente antes que te constipes, disse Maria Angelina.

O homem deu uma gargalhada e perguntou:

-E então o meu beijo? Primeiro o beijo depois o banho.

Voltou, embrulhado na toalha, para o calor do lume que crepitava na lareira, mas o rosto da namorada estava estranho, fechado, escuro e impenetrável.

Timidamente perguntou:

-Que bicho te mordeu cachopa? Estás tão sisuda!

Ela trincou o lábio para não chorar, queria parecer forte, era difícil, mas a coragem veio ao de cima:

-Estou grávida, estou prenha !

O homem mudou de cor, levantou-se num ápice e gritou:

-Tu grávida? Estás maluca, como podes estar grávida? Com quem andas metida enquanto eu marco passos no quartel?

A mulher saltou do banco de atiçador em riste, os olhos metiam medo e soltando todas as forças que encontrou, dentro dela, gritou:

-Desaparece daqui antes que eu me desgrace e acaba com a vida do maior patife que se cruzou na minha vida. Sai, saia depressa, porque eu tenho nojo de te ter na minha presença!

Vestiu a farda encharcada, remordeu impropérios e saiu para a negrura da noite.

***

Quando saiu de casa ainda os galos não tinham cantado. Não chovia, mas um vento frio parecia cortar as orelhas. Maria Angelina não queria testemunhas daquele abalar matutino, quase marginal, esgueirou-se, com duas malas nas mãos, colada às paredes das casas desertas, não queria que os vizinhos, que a conheciam, se apercebessem deste desertar madrugador.

A camioneta, que fazia a ligação à automotora, saia do largo da feira às seis e meia da manhã, depois era só apanhar o comboio e partir para bem longe da terra que a viu nascer.

Tenho feito, há pouco tempo, 25 anos nesta aldeia perdida nos contrafortes da serra. Daqui viu partir a mãe consumida pela maldita doença que lhe corrompeu as entranhas e, pouco depois, o pai que se refugiou na bebida até que um dia o encontram pendurado no velho castanheiro.

Carpiu o desgosto, chorou no silêncio da casa deserta, até que os olhos secaram quando as lagrimas lavaram toda a dor que carrega na alma.

****

Nunca mais tinha sorrido até que um dia o Tónio, aperaltado, numa farda de militar, se lhe perfilou na sua frente e entre risos fez continência e lhe perguntou se a podia acompanhar a casa.

Deixou-se escoltar e voltou a sorrir, a vida passou a ter novamente algum significado.

Entregou-se aquele homem, o primeiro na sua vida, de uma forma tão intensa que ela própria não sabia explicar, vivia cada momento como se o mesmo fosse o ultimo, bebia as suas palavras, alimentava-se da seiva dos loucos fins-de-semana, dos sonhos, das promessas sussurradas nos momentos de paixão. 

E agora via que, afinal, tudo era uma mentira!

*****
A camioneta começou a sua marcha lenta pela sinuosa estrada, deixando um rasto de fumo negro, Maria Angelina olhou as poucas luzes que assinalavam a aldeia que se ia diluindo á medida que o veículo ia descendo no caminho da vila.

Maria Angelina deixou cair uma lagrima, não de despedida, pois sabia que um dia ia voltar, mas para libertar a vingança que lhe ia dentro do coração.

Quando a automotora partiu sentiu como se vida tivesse acabado aqui, para retomar quando chegasse à cidade que a esperava na imensidão do desconhecido.

****

Estávamos no final de uma amena tarde de Setembro quando o pequeno Ricardo deu a entender ao mundo que tinha acabado de chegar, Maria Angelina recebeu nos braços o filho que carregara no ventre durante, quase, 9 meses.

Era tão pequeno e tão frágil mas não podia negar, era a cara chapada do Tónio.

*****

Os dias correm tão ligeiros e tão metamorficamente que, quando olhamos para o lado, já os meses se transformaram em anos e os cabelos brancos teimam em despontar nas têmporas.

O Ricardo estava um rapaz que era o enlevo da mãe, ladino e de uma esperteza que a deixava, por vezes, sem o poder de resposta para algumas perguntas do filho. Hoje quando chegou do colégio olhou a mãe e perguntou:

-Porque é que eu não tenho um pai como os outros meninos?

Ficou perplexa e embora já esperasse, há muito, essa pergunta engasgou-se antes de responder

-O teu pai foi fazer uma viagem muito grande e não sabemos quando volta!

-Mas, mamã, ele podia telefonar, ou não gosta de nós?

-Gosta muito de ti e um dia ele telefona. Agora vai lavar as mãos para lanchares!

Para Maria Angelina o pai do Ricardo era, apenas, uma má recordação do passado que tinha alimentado no ódio até ao dia, que esperava próximo, pudesse destruir a vida de quem destruiu a sua. O desejo de vingança estava a germinar ao longo destes sete anos, em cada dia que passava mais se enraizava o desejo de acabar com a existência do malvado, que numa noite tinha enterrado todos os sonhos que o seu coração albergara.

****

Estava tudo planeado na sua cabeça, ia acabar com o desgraçado mas, antes, queria que ele conhecesse o filho e pudesse ver que o retrato não precisava de provas de paternidade.

Ia, passados estes anos, voltar à aldeia.

A automotora há muito que foi desactivada, agora havia uma camioneta até à vila e, depois, um táxi para a povoação.

******

Ricardo acordou, quase, de madrugada e foi enroscar-se na cama da mãe, estava agitado e ansioso pela viagem de camioneta, nunca tinha andado e, a promessa de talvez puder conhecer o pai provocava-lhe um misto de medo e satisfação, não sabia explicar mas era um sentimento bom e, ao mesmo tempo, mau.

A mãe tinha-lhe dito:

-Sabes filho, o teu pai não te conhece e a mãe não sabe se ele gosta muito de ti, nunca te viu e é natural que se tenha esquecido, mas não te preocupes, se ele não gostar eu gosto pelos dois.

Ao moço isso causava alguma confusão, pois ele também não conhecia o pai e, apesar disso, gostava muito dele.

Maria Angelina tinha preparado a viagem cuidadosamente, sabia que o Tóino acabada a tropa tinha voltado à terra e estava a tomar conta dos negócios do pai, que era um pequeno agricultor e, também, dono do café que ficava no largo da Igreja, mesmo no centro da aldeia.

Levava na mala a pistola, embrulhada num lenço, e no coração o ódio suficiente para fazer o que tinha que ser feito.

Ia apresentar o filho, depois deixaria a criança na casa da Dona Marcolina, vizinha de toda a vida, voltava ao café e descarregaria a pistola, no malvado, até que toda a raiva deixasse o seu coração. Não era fácil, mas tinha que ser feito, tinha que limpar a honra.

*****
Quando o táxi os deixou no largo da Igreja, muitas caras se voltaram para aquela mulher que com uma criança nas mãos se encaminhava para o café, muitos pareciam conhecer, mas as memórias estavam baralhadas.

Àquela hora o café estava quase vazio, ao balcão um homem ia, vagarosamente, limpando umas chávenas que depois alinhava na máquina do café.

Tóino olhou a mulher e a criança, primeiro com dificuldade pois a contraluz não o deixava enxergar bem, depois com os soluços a embargar-lhe a voz gritou:

-Amor onde tens andado? Voltei no outro dia de manhã para te pedir desculpa, depois corri todos os sítios conhecidos, possíveis e impossíveis, para te encontrar mas ninguém sabia de ti. Esse é o nosso filho? É lindo! Vamos recuperar o tempo perdido, vamos criar o nosso menino!

Maria Angelina voltou a sorrir, esqueceu ao que vinha, afinal Tóino foi o primeiro e único homem na sua vida.










domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tempos modernos



Não sabia o nome mas o seu coração já lhe pertencia.

Por diversas vezes tinha tentado fazer-se notado mas, ela, parecia indiferente ou fingia.

Não ia desistir, nunca o fizera e não iria ser agora, pois tinha a noção de que se estava a fazer difícil, e para ele, mulheres difíceis era um desafia que adorava e a que esta acostumado.

Hoje estava, ainda, mais radiosa, brilhava de sensualidade, pernas longas a que uma reduzida saia davam um encanto muito especial, o decote cortado de forma certa e propositada deixava ver o suficiente para fazer adivinhar o que estava escondido.

*****

Eduardo pensou que seria hoje ou nunca, não delineou nenhuma estratégia, não tinha nenhum plano mas tinha confiança no seu sex-appeal.

*****l

Francisca, assim que pisou a calçada apercebeu-se daquele ar embasbacado do homem, mas ia ficar indiferente e fingir que não percebia pois já estava habituada aos olhares gulosos de conquistadores baratos.

Tinha, quase, asco do andar gingão e do olhar laivoso daquele sujeito que só pelo facto de ser vizinho e doutorzinho, que vivendo à custa os papás, se sentia dono da rua, do bairro e se calhar do mundo.

Estugou o passo e fingiu não perceber o convite para um café e, muito menos, para um cinema.

Olhou de atravessado antes de dizes    :

-Não se importa de me desemparar a loja?

******

Eduardo estava a ficar um pouco frustrado, a tipa era mais difícil do que pensava, mas estava desconfiado que era estratégia para se fazer mais desejada, as mulheres tem dessas coisas, sabem muito.

Pelo andar ia para a pastelaria, pelo menos levava esse jeito e aí, era um bom local para uma abordagem mais directa.

Não estava enganado, o borracho ia mesmo beber café.

*********
Apressou o passo, queria entrar antes, para que ela ao chegar o tivesse que encarar de frente.

Ela chegou majestosa, irradiando beleza, encaminhou-se para uma mesa onde outra mulher parecia espera-la.

Beijaram-se ternamente nos lábios, entrelaçaram as mãos e, enlevadas, saíram para o sol que brilhava esplendoroso.

Eduardo fez beicinho, colocou os cotovelos no balcão e pediu uma bica.

 Modernices!


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A trovoada




A casa estava escura, a trovoada foi tão intensa que a luz desapareceu como por encanto, e a escuridão encheu de sombras e barulhos a velha mansão.

Não me sentia cómodo com os ruídos e tonalidades que iluminavam o espaço que uma bruxuleante vela não conseguia clarear.

Podia ser o estalar da madeira seca, ou o ranger dos meus dentes a provocar esta sensação de que alguém estava a acompanhar-me nesta noite tormentosa.

O medo, que sempre sentia pelo desconhecido, tinha-me arrepiado a pele e deixava-me um desconforto e uns calafrios que não sabia explicar e, hoje, as coisas estavam a piorar.

Os ruídos faziam lembrar passos carregando pesadas vestes que deixavam como que um arrastar algo lúgubre e misterioso, um arrepio de frio que me tolhia o corpo e o deixava com um sentimento de entorpecimento.

O vento uivava nas janelas e o medo ia-se apoderando de mim.
Era uma sensação estranha tal como eu as tentava criar nos meus livros, mas agora muito mais real e assustadora, pois nos meus escritos eu tentava descrever situações que ouvira, na minha mocidade, aos serões na casa dos meus avós.

Nessa altura ouvia fascinado e ansiava por mais, mas depois ia para a cama olhando para todos os cantos, e tremendo quando qualquer sombra parecia agitar o medo que me mantinha num arrepio constante.

*****

Esta casa era dos meus avós, depois foi dos meus pais e agora é o meu futuro refúgio.

Estava desabitada há alguns anos, desde que eles faleceram, e só presentemente agarrei a coragem necessária para tomar conta, recupera-la e tornar a velha casa um local para viver.

Desde que enveredei pela literatura e a tornei como minha actividade principal que penso num local sossegado, longe do bulício e da confusão da cidade e a velha vivenda de Stº. Aleixo é o ideal.

*******
Lá fora a trovoada continuava impiedosa e o ribombar dos trovões era constante e muito estranho em, Agosto, mas a natureza anda trocada.

Acabei por adormecer no sofá num sono estranho e desconfortável, num desassossego que não conseguia explicar, num acordar constante com uns cânticos que pareciam ser entoados dentro da casa, mas sempre que acordava o silêncio tomava conta de tudo e eu ficava com uma estranha sensação e convicto de que não passava de fruto da minha imaginação.

Acordei quando o Sol invadiu a minha sala.

Que lindo dia a proceder uma noite de tão más recordações.

*****

Fui tomar o pequeno-almoço ao café do Armindo que me recebeu com um olá menino, como nos velhos tempos da minha mocidade.

-Olá Armindo, arranja aí um pequeno-almoço reforçado porque esta noite me deixou com uma fome de cão.

-Oh menino, quem foi a magana que o conseguiu por nessa fraqueza?

-Antes fosse isso, mas foi a trovoada que me estragou a noite.

-Trovoada, perguntou Armindo, pensei que o menino tinha ficado cá na aldeia!

-E fiquei, não me digas que tens um sono tão pesado que nem ouviste os trovões?


-Já sei! O menino bebeu uns canecos, não está habituado, e sentiu uma trovoada dentro da sua cabeça. Falta de hábito, tem que treinar mais. Aqui nesta secura nem chuva, nem trovoadas há mais de um ano.
Coma porque isso também pode ser da fome.

*******

Era estranho, não tinha havido trovoada! Mas então todo o resto tinha sido minha imaginação. De facto nunca bebo e ontem emborquei dois largos whiskies e, possivelmente, isso fez-me sonhar com um trovoada tão real e todo o resto que me atormentou. Não voltarei a beber, é mais seguro.

******

Terminado o pequeno-almoço meti o jeep ao caminho, ia à cidade trazer as coisas que mais precisava e, muito especialmente, a Licas a minha companheira de há quatro anos.

Foi ao cair da noite de um chuvoso dia de Fevereiro que a encontrei, esgalgada e com aspecto de não comer já há algum tempo. A medo estendi a mão, pois o seu tamanho não dava azo a muita confiança, e recebi em troca uma lambidela imensa e um olhar de ternura que me deixou totalmente apaixonado.

Seguiu-me e quando abri a porta do carro foi a primeira a entrar e a aconchegar-se no banco da retaguarda, com uns olhos tão termos e tão suplicantes que apenas me restou dizer:

-Bem vinda Licas a partir de agora fazes parte da família!

*****

Voltei ao fim do dia com o carro cheio de tralhas que faziam parte das minhas necessidades diárias e, enroscada no banco traseiro, Licas que olhava atentamente para tudo o que passava sem mostrar qualquer ansiedade.

Quando entrou na nova casa cheirou todos os cantos e parecia que algo a incomodava, pois ficava tensa e com os pelos eriçados como se pressentisse algo que a perturbasse, arfava e olhava-me à espera de algum sinal da minha parte.

Era estranho, nunca a tinha visto assim mas, pensei eu, deve ter detectado o odor de algum cão que por aqui passou ou, até, de qualquer roedor que possa existir na casa, o que irei verificar cuidadosamente pois detesto ratos.

******

O dia passou rápido com tantas coisas para fazer, inventariar as necessidades e tentar arrumar as tralhas que fui buscar a Lisboa.

Estava cansado e não tinha vontade de fazer qualquer coisa para jantar, a Licas continuava deitada junto à janela com ar muito infeliz, parece que não gostou da mudança.

Agora que o sol baixou, a temperatura é mais suportável, e já nos podemos afoitar a sair de casa, vou dar um passeio com a Licas e de volta passo pelo café do Armindo para jantar na esplanada.

Comi um belíssimo gaspacho a acompanhar um peixe frito, enquanto a cadela deitada aos meus pés continuava a mostrar algum desassossego.

******

A noite estava linda, nem a mais pequena brisa para amenizar o calor que se fazia sentir, o céu estava maravilhoso com uma profusão de estrelas a brilhar intensamente.

No caminho de volta, a cadela seguia-me de cauda caída, o calor tornava penosa esta pequena caminhada.

A casa destacava-se entre as outras, talvez por ser a única de dois pisos e varandas largas no meio de casas térreas e com pequenas janelas de paredes grossas.

Abri a porta e fiquei à espera que a Licas entrasse mas, estranhamente, ficou a aguardar que eu o fizesse e só depois me seguiu.

******

Ainda não tinha televisão, seria uma das primeiras compras, liguei o portátil ia rever algumas páginas de uma crónica que andava a alinhavar.

De repente e sem que nada o fizesse prever estourou, novamente, uma trovoada com um relampejar que me deixou apavorado.

A cadela acompanhava o ribombar do trovão com um uivo lancinante e em vez de se esconder, como normalmente fazia, olhava desesperadamente para a porta na esperança de a ver aberta.

As luzes começaram naquela dança habitual nas trovoadas, num acender e apagar constante, até que desapareceram por completo.

Foi então que surgiu algo, que ainda agora tenho dificuldade em descrever, era como que um funeral de figuras translúcidas, que se moviam em levitação, velas bruxuleantes transportadas por braços que pareciam chamiços saídos de túnicas negras enquanto um cântico lúgubre, fantasmagórico, soturno, como que um gemer alucinante, entrava em nós como uma injecção de iodo, acompanhava o macabro desta arrepiante cerimónia.

Fiquei petrificado, o medo tolheu-me o corpo, sentia os pelos dos braços anestesiados por um frio que os invadia e os deixava sem qualquer reacção.

Entretanto a, tenebrosa, visão continuava com todas aquelas figuras macabras a transportar um caixão formado por um entrançado de luzes de um vermelho de fogo intenso.

De repente, quase como que um relâmpago, a Licas ergueu o corpo em arco, pelos eriçados, rosnar estranho e investiu, qual touro, sobre a estranha visão que se esfumou em espirais de fumo incandescente.

A sala transformou-se, como por encanto, em novelos de fumos negros que lançavam gritos cruciantes, bofetadas estalavam-me no rosto enquanto braços descarnados e esquálidos tentavam puxar-me para o crepitar das labaredas que em gritos demoníacos se apoderaram do espaço.  
Peguei na minha valente cadela e fugi para o refúgio da rua.
A noite continuava, quente e com um céu estrelado como há muito não via.

Entramos no jeep e, sem olhar para trás, tomamos o caminho de Lisboa.

Amanhã vou colocar um anúncio no jornal: 


Vende-se casa bonita a pessoa corajosa.
Bom preço


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Esta menina!






-Mãe vou de férias

-Mas vais de férias para onde e com quem?

-Isso ainda não sei.

-Não sabes?

- Vou de férias e pronto. Todas as minhas amigas vão de férias e eu também sou gente.

-Mas tu és mais maluca do que eu pensava. Tu perdeste todo o juízo.

-Mas mãe eu também tenho direito a férias. Não tenho?

-Tens como? Estás há três meses neste emprego, o que já é um recorde, e queres já
férias? A tua vida tem sido umas férias pegadas.

-Emprego arranjo outro, o que não arranjo é quem me leve de férias.

-Falei ao Augusto não me leva porque vai com a mulher, o Arnaldo não me atende o telefone, o Manuel diz que vai se eu pagar metade das despesas, o Chico mandou-me aquela parte, o Quicas vai acampar e eu disso não gosto, aquilo são só formigas e essas gaitas assim. Acampar não quero. Pronto!

-Valha-me Nossa Senhora que esta rapariga perdeu o pouco juízo que ainda lhe restava.

-Mas tu também estás sempre contra mim, também mãe.

-Vamos combinar uma coisa, aguentas e no Natal vamos até á minha terra.

-Àquela saloiada, não tás boa. No Inverno com um frio do caraças a ouvir as histórias parvas do tio Agostinho. Nem penses.

-Parva és tu! Quem te dera chegares aos calcanhares do teu tio

-Só se for pelo guito!

-Só pensas no dinheiro, só pensas em ti. Egoísta, nunca vais passar de uma inútil.

-Quero lá saber dessas merdas, eu quero é arranjar um bacano que me leve com ele de férias.

-Arranja. Vai e fica lá, será um descanso para todos.

-Oh mãe, também não sejas assim. Tu não sabias passar sem mim. Pois não? Ajuda-me lá.

-Maria Inês, mas como te posso ajudar, filha?

-É fácil, empresta-me dinheiro e eu posso ir com o Manuel.

-Vida a minha que hei-de fazer?





segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte3




Acordei com humor de cão. A boca sabia-me a esfregão do chão, os tinnitus nos ouvidos pareciam querer estourar com a minha cabeça. A culpa era do whisky, não devia ter bebido tanto mas precisava de acalmar, os meus pensamentos estavam num turbilhão e precisava de coordenar as ideias. A bebida não foi a melhor solução mas sempre ajudou.

Desde que a minha ex fez as malas e desapareceu, tal como um D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, fiquei para aqui perdido neste casarão. O que me vale é a Dona Carminda que cuida de mim como se fosse dum filho. Trata-me da casa e da roupa e por vezes ainda me mimoseia com uns petiscos para me lembrar de uma vida que já tive.

Tomei um duche, quase frio, na tentativa de que a vida voltasse a este corpo, ajeitei-me o melhor possível e sai para o frio da manhã.

A Joana quando me viu fez sinal de que o meu pequeno-almoço estava a ser tratado.

O café surtiu algum efeito, o cérebro começou, lentamente, a trabalhar e a tentar arrumar as ideias que andavam totalmente tresmalhadas.

O meu velho Dodge esperava por mim e, para minha satisfação, respondeu à primeira tentativa da chave.

Precisava falar, de novo, com o padre, havia informações que só ele me podia dar.

Recebeu-me com o mesmo ar de beatitude, sorriso bondoso num rosto calmo.

-Então filho porque, de novo, na casa do Senhor?

Sorri, estudei as palavras e perguntei:

-Sabe Senhor Padre, preciso falar com os familiares do casal Cascudo e só o senhor me pode ajudar. Disse-me que sabia dos pais e de um irmão da Dona Marta e de uma irmã e do sobrinho do Senhor José Maria. Para poder arquivar este estranho caso preciso falar com todos eles. Posso contar com a sua ajuda?

Pensei que ia ficar irritado, mas não, sorriu e disse-me:

-Não sei se ajudo muito, os pais da Marta vivem numa aldeia próximo de Tomar, já lhe dou o nome exacto, não me lembro bem, espero ter na minha agenda. Quanto á irmã é mais difícil, talvez a Dona Inocência, não sei se conhece, é a senhora do café.
Quando o José Maria estava entre nós ela era o elo de ligação com a irmã. A relação com a cunhada não era boa e era através da senhora do café que trocavam notícias.

Deu-me o nome da aldeia, apertou-me a mão e com muita delicadeza terminou a conversa.

Má sorte a minha, estava outra vez nas mãos daquela mal encarada mulher.
Seja o que Deus quiser!

À porta do café um tipo, com cara de fuinha, tentava acender um cigarro com um isqueiro “bic”, sem conseguir com o vento forte que se sentia.

Arrisquei:

-Amigo porque não entra, será muito mais fácil.

Olhou-me com uns olhos desbotados e, baixando a voz, segredou-me:

-A bruxa não deixa entrar com cigarros.

Sorri e preparei-me para a encarar.

Quando me viu mudou o semblante e esboçou um sorriso:

-Bom dia e bons olhos o vejam. Vem beber uma bica curta?

Fiquei admirado com tão calorosa recepção.

-Venho sim, minha senhora, mas também queria uma informação. Preciso falar com a irmã do Senhor José Cascudo e sei que tem o telefone, preciso que mo diga.

Olhou-me com um ar tão admirado que parecia que o Arnold tinha voltado ao café.

-Bom, e se tiver acha que lho ia dar? Pensa que os números de telefone de amigos se dão assim a qualquer um?

-Vai dar porque se não der nem sabe os sarilhos que eu sou capaz de lhe arranjar!

Olhou-me com uma raiva incontida mas foi dizendo:

-Só lhe passo o número se me jurar que nunca vai dizer que fui eu que o fiz.

Fiz uma cruz sobre a boca e ela percebeu o gesto. Deu-me o número e insistiu:

-Por amor de Deus mantenha-me fora de tudo isto.

Jurei que sim e segui a caminho do meu escritório, precisava ver o correio e de fazer alguns telefonemas.

Este caso estava a ser mais complicado do que à primeira vista me parecia, tinha combinado receber 1.200 Euros no inicio, 1.200 a meio e 2.600 no fim e pelos vistos só o valor inicial estava certo e mal dava para as despesas. Mas que fazer? A vida de investigador tinha destas coisas.

No escritório continuava o odor a “Ralph Lauren” e era estranho que ao fim de tantos dias o cheiro ainda se mantivesse.

Seria a minha imaginação?

Vi o correio, facturas para pagar e publicidade sem interesse.

Tirei o bilhete com número de telefone que a gorda me deu e ia começara preparar uma mentira a ver se resultava:

-Boa tarde! È a Dona Helena Cascudo? Preciso falar, pessoalmente, com a senhora.
Quando me poderá receber? Sim, sou o perito da companhia de seguros e necessito fechar o processo dos seus malogrados parentes e a sua assinatura é indispensável. Amanhã às 11 horas? Óptimo, lá estarei. Confirma-me a morada? Obrigado!

Parece que resultou.

Sai cedo, tinha alguns quilómetros pela frente e continuo com a mania da pontualidade.

Era uma vivenda simpática, ladeada de um jardim com flores amarelas.
A Dona Helena era uma mulher muito interessante e recebeu-me com um sorriso afável:

-É o senhor dos seguros, não é verdade?

Sorri antes de confirmar:

-Sou, para formalizarmos isto fale-me um pouco sobre o seu irmão.

-O Zé Maria foi uma jóia até casar com aquela megera que o absorvia e que não o deixava sequer privar com a família. Antes de casar aparecia por ai, ajudava-nos e presenteava muito o sobrinho, depois de casar só às escondidas é que telefonava, era a Dona Inocência, do café, quem nos servia de intermediária.
Agora o meu mano está morto, coitado, foi uma tragédia.

Fez beicinho e fingiu enxugar uma lágrima.

-Mas, perguntei eu, porque seria que a Dona Marta o afastava de família?

Fez um esgar com os lábios antes de responder.

-Dizia que a família eram sanguessugas que viviam agarradas a ele, eu e o meu Mário nunca o pressionamos para nada, sempre que ele nos ajudava é porque gostava da família e porque podia, a vida corria-lhe bem e gostava de ajudar, de repente tudo acabou, aquela cobra fazia dele o que queria.
Agora, graças à herança nós estamos bem e para eles, infelizes, tudo acabou tudo.

Agora chorou mesmo, vi a lágrima fazer um risco no rímel. Limpou o nariz antes de continuar:

-Casei muito nova e fiquei viúva quando o meu filho tinha três anos, foi o Zé Maria que tomou conta de nós, foi um verdadeiro pai para o Mário. Foi ele quem o criou até aos 16 anos.

Voltei a casar mas a sorte não quis nada comigo e voltei a ficar viúva. O meu segundo marido, bom homem, nunca foi bem aceite pelo enteado e eu sofri muito com isso. Nessa altura, para o Mário, o tio foi um grande apoio até que aconteceu a desgraça.

-Desgraça? Interroguei eu.

Fungou, mais uma vez.

-Sim uma grande desgraça! O meu marido gostava muito de pescar e um dia, ninguém sabe explicar o que aconteceu, o motor do barco explodiu e ele desapareceu no rio.
Só ao fim de três dias encontraram o corpo a uns 30 quilómetros daqui.
Jurei que nunca mais me voltaria a casar e olhe que não é por falta de pretendentes, que os tenho tido, mas acho que os casamentos só atraíram a desgraça. Jurei para nunca mais!

-E o seu filho?

-O Mário está na oficina, ele tem uma firma de coisas da electrónica, sempre foi um apaixonado por essas modernices. Faz comandos à distância e essas coisas assim, é um rapaz muito esperto. Foi com a herança que recebeu do tio que conseguiu.
Se quiser falar com ele é perto está a oito quilómetros, na vila aqui do lado.

-Não é preciso, depois mando o relatório para assinar, menti eu, pois não haveria nenhum relatório.

A viagem de volta foi rápida. Quando cheguei ao escritório o cheiro a perfume era muito mais acentuado.

Em cima da minha secretária estava um envelope com 1.200 Euros e um cartão onde, laconicamente, numa letra desenhada se podia ler - 2º pagamento.

Como era possível, a porta não estava arrombada e a única chave existente era esta que tenho em meu poder. Liguei para a portaria e o porteiro confirmou que ninguém, com o aspecto que lhe indiquei, tinha entrado no prédio.

Não me vou deixar levar por essas coisas do sobrenatural, mas o meu pensamento não deixa de se interrogar:

-Será que a tipa morreu mesmo?