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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Aquele almoço




Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.

Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.

Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.

Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:

-Senhor compre uns!

Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:

-Tens fome?

Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.

-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!

Vi medo no corpo franzino:

-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.

Sosseguei-a:

-Vamos juntos e eles deixam.

Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:

-Que te apetece comer?

Olhou tudo e encolheu os ombros.

-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.

Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.

-Pode ser, respondeu a medo.

Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.

Reparou que a estava a observar e perguntou:

-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?

Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:

-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.

Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.

-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!

Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.

Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.

-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.

-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.

-E a tua mãe?

-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.

-Tens irmãos?

-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.

Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.

-Senhor porque me pagou esta comida?

-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?

Sorriu mais uma vez.

-Tens filhas? Perguntou muito séria.

-Não, não tenho filhas.

Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.

Percebi que algo ficou por dizer e insisti:

-O que ias dizer?

-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.

Deu-me um beijo rápido e desapareceu.

Nunca mais a vi.



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma morte, quase, anunciada




Morreu o Senhor Varela!

A notícia correu o bairro, entrou em todos os lugares, entoou como um cântico nos claustros de uma Igreja.

Havia um misto de consternação e uma onda de curiosidade invadiu tudo e todos.

-Morreu o Senhor Varela, apregoavam os miúdos como se espalhar a noticia fosse uma prédica anunciada.

Nas tabernas os homens, enquanto escorropichavam os copos, iam abanando a cabeça num sinal de desolação.

Na Mercearia do Senhor Isidoro as mulheres cochichavam de forma tão camuflada que pareciam ter medo de alguma coisa. É verdade que não gostavam muito do Senhor Varela, libertino mor, instigador das pândegas que levavam os homens às noitadas e às memoráveis bebedeiras. Rara era a semana em que o Varela não organizava uma qualquer comemoração para festejar algo que seria inventado se necessário.

Depois era o descalabro, noitada na Sociedade Recreativa, onde o Varela era Presidente, com o petisco e o vinho a correr abundante de mesa em mesa.

Os homens voltavam tarde e a má hora ao remanso dos lares, avinhados e sem disposição de cumprir os rituais a que as mulheres se iam desabituando.

Agora, com a morte do homem, a calma e o sossego podia estar de volta aos lares do bairro, mas, embora pensando assim nenhuma se atrevia a dizer o que lhe ia na alma.

Apesar de essa oculta conspiração ser notória a consternação envolvia os homens como se fosse algum ente chegado a juntar os pés e a partir desta para melhor.

O velório ia ser no Clube, afinal era o Presidente, e que melhor poderiam fazer os seus consócios do que o homenagear na casa onde passara a maior parte dos seus dias e muito especialmente das noites.

Bandeira à meia haste. A mesa do bilhar tapada com crepes pretos, serviria para colocar o caixão onde todos e todas, iriam prestar homenagem ao homem que dinamizava os grandes acontecimentos socioculturais do bairro, bailes, campeonatos de sueca e até mesmo grandes torneios de snooker.

O velório era um acontecimento que ultrapassava tudo o que de interessante alguma vez tivesse acontecido naquele lugar. As luzes veladas, os crepes negros e os reposteiros vermelhos, com que taparam as portas, davam ao lugar um ar lúgubre e soturno como convinha para esta ocasião.

Em cima do pedestal improvisado, ninguém diria que o era, o caixão era o alvo de todas as atenções.

Iam entrando e enquanto uns se postavam numa meditação mexendo os lábios num simular de oração, outros apenas se perfilavam, destapavam o rosto como para se certificar e retiravam devagar para a sala de espera.

A Dona Cacilda companheira de toda a vida do pobre Varela estava inconsolável, quem lhe havia de dizer que assim sem mais nem menos, a ia deixar tão só e abandonada.

Choramingava enquanto se lamentava:

-Estava tão bem disposto, jantou e de repente sentiu-se mal, foi para a cama e, desafortunado, já não acordou. Ainda chamei o Doutor Idalécio mas, coitado, nada pode fazer a não ser passar a certidão de óbito.

Suspirou, um suspiro tão fundo e sentido, que foi um dó de alma escutar tanto sofrimento.

Dona Carminda, a sua melhor vizinha, não aguentou o tédio desta morna sessão de homenagem e deixou-se vencer pelo sono. Abriu a boca e num suave roncar deixou-se embalar nas asas de Morfeu. Valeu uma cotovelada da Dona Cacilda para por termo a tão desapropriado acontecimento.

Corria o velório nesta tediosa maneira quando de repente, Varela se sentou no caixão e esfregando os olhos para se habituar à semi-obscuridade clamou:

-Ainda bem que estão aqui todos!

O pessoal levantou-se com gritos histéricos de pavor, desarvoraram em louca correria em procura da rua que os libertassem deste inesperado regressar dos mortos. Só a pobre da Dona Carminda que desmaiou com tamanho susto ficou a fazer companhia ao morto, que afinal estava vivo.

Varela ficou confuso, não percebia este atropelo e este desandar desesperado de todos os seus amigos. Não percebia o que se passava.

Tentou levantar-se desse emaranhado de roupas e crepes negros com que o enfeitaram em tantas horas de catalepsia mas, os movimentos não obedeceram à vontade e baldou com estrondo para cima das cadeiras alinhadas em redor da improvisada peanha.

O estouro trouxe os mais afoitos ao lugar do culto e tiveram que conter o riso com o quadro que se lhes deparou.

Dona Carminda descomposta, com as pernas à vela e com umas vistosas culotes floridas a proteger as partes mais íntimas dos olhares curiosos. Escarranchado no seu peito o pobre senhor Varela olhava aparvalhado sem compreender o que se estava a passar.



quinta-feira, 24 de junho de 2010

27 Junho




E três anos vão passados.

Quando comecei, no dia 27 de Junho de 2007, era apenas uma tentativa de provar a mim mesmo que podia, tal como os outros, compartilhar com todos os meus pensamentos.

Eu queria que alguém, que todos vós, que me visitam me deixassem essas palavras que me tem alimentado.

Hoje atravesso uma fase difícil, o trabalho tomou conta de mim e o cansaço têm-me embotado o sentido e não me tem dado tempo para fazer mais.

Tem sido difícil esta luta entre o querer e o poder, entre o desejo e a necessidade.

Hoje já sei que sou capaz, tenho a certeza do vosso apoio, por isso vou vencer a luta e racionalizar o meu tempo.

Quero, daqui a um ano, estar aqui a recordar mais um aniversário.

Parabéns a todos quantos aqui me mantém, a todos que braço a braço me tem dado as palavras que me alimentam, a força que me motiva.

Parabéns meu Blogue.

sábado, 24 de abril de 2010

Aqueles olhos





Deixaram a sua aldeia com a mágoa estampada no rosto e um nó no peito, que os deixava como se estivessem desenraizados na grande cidade.

Em duas malas os parcos haveres de uma vida que iam agora começar.

Ele ia trabalhar numa obra junto ao seu padrinho Arnaldo, que os mandou vir e lhe arranjou o emprego.

Ela ia servir na casa de uma senhora, parece que era doutora, ou outra coisa assim.

Á noite juntavam-se no quarto que alugaram naquele terceiro andar da Rua da Esperança.

Falavam das coisas do dia. Ele da sua arte em misturar a areia e o cimento, dando a consistência para os pedreiros construírem as casas, como a que um dia ainda iriam ter.

Ela falava, vaidosa, de uma patroa que era doutora e do filho que tinha uns olhos lindos, grandes e verdes como nunca antes tinha visto alguns.

Dizia embevecida;

-Sabes Abílio, que quando tiver um filho gostava que tivesse uns olhos como aqueles.

Vou pedir a Deus.

-Valha-te Santa Eulália mulher! Como pode ser se os teus são escuros e os meus também e assim a modos que meio remelosos? Como podia um cachopo ter os olhos como dizes?

-Que falta de fé homem. Deus pode fazer tudo assim nós saibamos pedir,

Os tempos passaram, na monotonia das horas de dias vividos, no amassar do barro ou do lavar da roupa que outros sujaram.

Um dia, na quietude do fim de um dia de trabalho, Arménia olhou censoriamente para o seu homem:

-Sabes Abílio, eu sempre te disse para teres cuidado mas tu não me ouves e agora parece que estou prenha. Amanhã, a minha senhora disse que me levava uma coisa para fazer a análise. Não sei que vai ser de nós?

-Mulher tudo se há-de arranjar.

O tempo deu tempo ao tempo e a semente deu origem ao fruto.

Arménia e Abílio foram pais de um lindo bebé de olhos grandes e verdes como a esperança.

-Ai Abílio parece que Deus ouviu as minhas preces.



terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Marcas




Tentou abrir os olhos mas a dor aguda que o percorria apenas lhe deixou entrar uma confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma espiral de claridades azuis, girândola que atravessava as pálpebras cerradas.
Queria falar mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão que não sabia explicar.

Não sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.

Viu o pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços fortes que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.
Era tão criança a correr atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os pés na água que se espraiava na areia.
Ao longe a mãe sorria.

Viu-se a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados de lágrimas, de satisfação, pelo seu menino. A Laura, está ao lado da mãe, e sorri com tanto amor que lhe apetecia deixar o lugar e correr para os seus braços e, beijá-la com todo o amor que sentia.

Era o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia, A Laura estava deslumbrante, tão radiosa.

Sentiu-se a levitar numa doçura e numa tranquilidade como nunca tinha sentido.

Era uma música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia que o embalava como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas. A luz avançava devagar num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.

Depois.... foi o silêncio.

***********************************

Jornal Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.

Mais um grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito grave.
João Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo testemunhas do acidente, foi o excesso de velocidade e o estado do piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais uma tragédia na véspera do Natal.
As autoridades julgam (.......)


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Obrigado.....


Hoje não queria escrever nada.

Pensei aproveitar o dia como se não existisse.

Deixar que o relógio na sua marcha inexaurível fosse, a pouco e pouco, esgotando as horas.

Hoje não queria nada, queria que apenas fosse mais um dia, no longo rosário dos que já passaram.

Queria que os meus pensamentos ficassem em total letargia.

Que a minha memória estivesse como se uma estranha amnésia dela se apoderasse.

Hoje eu queria que já fosse amanhã, para que as recordações já fossem do passado.

Mas... hoje tive as mais belas mensagens de amizade e de amor e só elas conseguiram mitigar tudo o que vai dentro de mim.

Hoje senti, mais uma vez, como é bom ter amigos tão especiais.

Obrigado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Olhos negros……




Escrevi este mini conto em 2006, mas hoje assisti de novo a tudo o que tinha escrito. Está actual.



Estavam ao meu lado os olhos mais negros que jamais me tinham fitado.
Corpo esguio, cabelos desgrenhados pela sujidade acumulada, rosto magro e vincado pelos infortúnios do dia-a-dia.
Não tinha mais que oito anos mas parecia arrastar em si a decadência de uma geração.
Mirava-me do fundo daqueles escuros lagos de escuridão com uma súplica nos lábios gretados. Na mão estendida a caixa de pensos rápidos, no rosto a tristeza vincada por muitos medos que um sorriso triste não conseguia disfarçar.
Olhei fascinado para o mundo de tristeza e desespero que aquele olhar deixava aperceber.
A custo uma cansada voz, deixou o pedido:
-Compre senhor!
Fiquei fascinado pelo sumido grito de desespero, pela súplica do apelo.
Os olhos negros, profundos, presos na montra dos doces e a mão estendida com a súplica na voz entoavam no mundo vazio que me rodeava.
-Queres um bolo? Perguntei para quebrar o drama de uma vida e disfarçar a vergonha que de mim se apoderou.
Estendeu um magro dedo e apontou.
Agarrou e com um sorriso cinzento arrastou o corpo esquálido para o Sol que, lá fora, continuava a brilhar.
Deixei o donutt, larguei o café e sai envergonhado por andar indiferente ou não querer ver os dramas escondidos à vista de todos.


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lembranças? Talvez nostalgia.


Eu sei que a vida se dilui como areia a escorrer por entre os dedos;

Sei que o tempo que foi ficará, para sempre, esquecido nas recordações;

Sinto que os momentos que não morrem são fugazes lembranças abandonadas,

Destino perdido nas recordações de vidas que não são mais vidas;

Tristezas que maculam bem fundo. Estigmas que mordem;

Agonias que martirizam como grilhetas cravadas na carne viva;

Sentimentos perdidos em ocultas lembranças guardadas na memória;

Gritos abafados pela rouquidão de uma garganta cansada;

Desabafos abandonados no escárnio do desabrigo de memórias perdidas;

Glória, vã glória na inutilidade do que queremos ser mas não somos;

Luta insana na conquista do inconquistado passado;

Arrependimento do que não foi e do que poderia ter sido.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O último orgasmo




Tenho visto mulheres mais bonitas, mas esta tinha algo de diferente. Não sei se o brilho duns olhos verdes, luminosos e cheios de tentações, se o rosado de uns lábios carnudos que se entreabriam em promessas de insaciadade. Talvez fosse o andar coleante que nos levava embalados no agradável ritmo de um ondear de sedução. Talvez, até, a suavidade de um corpo curvilíneo, bem distribuído e com tudo nas medidas precisas e no lugares adequados.

De verdade que tenho visto mulheres mais bonitas, mas de uma beleza amorfa e demasiado clássica. Esta não. Esta tinha uma beleza diferente, agressiva, provocadora, feita de perfeições que raiavam quase o impossível. Era subtil, flutuava numa inebriante áurea de sedução e mistério.
Parecia irreal, a sua voz de uma doçura que enlouquecia, o seu sorriso era como o ópio que nos inebria e nos leva a lugares que não existem, que nos matam, mas para onde desejamos sempre voltar.

Olhou para mim, passou a língua pelos lábios, de forma calculada. Afivelou um sorriso capaz de entesar um eunuco. Abriu a boca, parecia que ia falar, mas apenas mostrou uns dentes, lindos, num sorriso de pura sedução.
Apontei-lhe um lugar no sofá. Sentou-se, cruzou as pernas de forma estudada, voluptuosa, provocadora.

-Em que a posso servir menina?

Voltou a humedecer os lábios. Olhou-me nos olhos tentando adivinhar qual a impressão que me estava a causar, enquanto com os dedos tentava puxar a saia que deixava generosamente ver as mais belas pernas que Deus algum criou.

-Senhora. Sou a senhora Vasconcelos.

-Então em que posso ser útil senhora Vasconcelos?

-Acabei de matar o meu marido e preciso que o senhor me ajude.

Abriu a pequena mala, tirou um lencinho branco e limpou uma inexistente lágrima no canto do olho.

-Mas, balbuciei, onde se encontra agora o seu marido?

-Na nossa casa, na cama.

-Vamos lá, preciso de ver o cadáver antes de alertar as autoridades.

Fomos no meu carro. Conduzi rápido tentando evitar a confusão do trânsito a esta hora do dia.

Como ela tinha dito estava na cama. Nu, grotesco, caricato, com um sorriso tétrico num rosto cor de cera.

-Conte como tudo aconteceu, pois não vejo qualquer vestígio de crime.

-O Augusto fazia hoje 78 anos. Por vezes já tinha quebras e ficava muito incomodado. Hoje estava pujante, queria festejar. Fiquei por cima como ele tanto gostava, entusiasmado, frenético. De repente gritou : “estou-me e vir”, sorriu, ficou flácido e morreu.

Passei-lhe o braço pelos ombros e tirei-a daquele tétrico quadro.

-Vamos, nada tem a temer, deixar um homem morrer com um sorriso daqueles não é crime. Nada tem a temer. Vamos avisar as autoridades.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vou de Férias......




-Mãe vou de férias.

-Mas vais de férias para onde e com quem?

-Isso ainda não sei.

-Não sabes?

- Vou de férias e pronto. Todas as minhas amigas vão de férias e eu também sou gente.

-Mas tu és mais maluca do que eu pensava. Tu perdeste todo o juízo.

-Mas mãe eu também tenho direito a férias. Não tenho?

-Tens como? Estás há três meses neste emprego, o que já é um recorde, e queres já férias? A tua vida tem sido umas férias pegadas.

-Emprego arranjo outro, o que não arranjo é quem me leve de férias.

-Ainda bem!

-Falei ao Augusto não me leva porque vai com a mulher, o Arnaldo não me atende o telefone, o Manuel diz que vai se eu pagar metade das despesas, o Chico mandou-me aquela parte, o Quicas vai acampar e eu disso não gosto, aquilo são só formigas e essas gaitas assim. Acampar não quero. Pronto!

-Valha-me Nossa Senhora que esta rapariga perdeu o pouco juízo que ainda lhe restava.

-Mas tu também estás sempre contra mim, também mãe.

-Vamos combinar uma coisa, aguentas e no Natal vamos até á minha terra.

-Àquela saloiada, não tas boa. No Inverno com um frio do caraças a ouvir as histórias parvas do tio Agostinho. Nem penses.

-Parva és tu! Quem te dera chegares aos calcanhares do teu tio.

-Só se for pelo guito!

-Só pensas no dinheiro, só pensas em ti. Egoísta, nunca vais passar de uma inútil.

-Quero lá saber dessas merdas, eu quero é arranjar um bacano que me leve com ele de férias.

-Arranja. Vai e fica lá, será um descanso para todos.

-Oh mãe, também não sejas assim. Tu não sabias passar sem mim. Pois não? Ajuda-me lá.

-Maria Inês, mas como te posso ajudar, filha?

-É fácil, empresta-me dinheiro e eu posso ir com o Manuel.

-Que hei-de fazer?

terça-feira, 23 de junho de 2009

Hoje 24 de Junho.....




E dois anos vão passados, são 731 dias de uma vida.
Começou de forma sub-reptícia, quase a medo, envergonhado, furtivo e escondido de tudo e de todos.
Primeiro fui ao encontro de como se faz um Blogue?
Seria capaz?
Mas se os outros o faziam, porque não eu?
Depois mãos á obra e á descoberta.
Passo a passo e consegui.
A seguir veio o entusiasmo e a emoção de ver os meus escritos neste Mundo imenso da Internet.
Senti-me, quase, importante. Parecia-me ter os meus primeiros momentos de glória.
Muitas vezes pensei desistir mas a vontade e o estímulo dos amigos não deixaram e, continuei.
Hoje faz dois anos.
Estou feliz, estou mais rico. Ganhei o bem mais precioso, novos amigos.
Obrigado por me terem ajudado com o vosso estímulo e palavras lisonjeiras.
Espero que me continuem a acompanhar.
Estarei sempre, á vossa espera.
Sem vós não tinha razão para continuar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Amigos......



Um meu amigo que muito prezo e admiro mandou-me esta mensagem:

“É verdade. Ainda não lhe disse que gosto muito dos seus textos. Embora tristes ou melancólicos, são cheios da riqueza de alma que alguns de nós temos o privilégio de conhecer ou, por vezes intuir. Mas que no blog se revela, mais descoberta.
Um grande abraço”

São estes pequenos mimos que me motivam, me envaidecem e me dão a alegria que tantas vezes me falta.
Eu sei que tenho que contar com a benevolência que a amizade motiva, com a bondade que os olhos defendem e com a indulgência que a afeição acarreta.

Mas que fico feliz, isso fico.

Obrigado, AMIGO, por tornar mais ténua essa tristeza e melancolia que, de facto, me acompanham.


domingo, 21 de junho de 2009

As tuas mãos.....




Senti a tuas mãos percorrerem o meu corpo em espirais de carícias.

Deixei as minhas enredarem-se nos afagos loucos do teu calor.

Corpos colados numa amálgama de loucura e prazer, num emaranhado de emoções, espirais de desejos loucos.

Tremores de suspiros abafados no calor húmido de lábios sequiosos, laivos de emoções em gritos de prazer colados em corpos suados.

Movimentos descontrolados em ritmos de loucura e em arrepios de seivas brotando.

Amores incontidos, rebentando na voluptuosidade dos movimentos descoordenados, no ritmo louco da voracidade do desejo.

Espirais de fogo ardendo na explosão de vida.

Corpos cansados no arfar da languidez dos desejos dormentes.

Encantamento em afagos de amores saciados.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Dia 14 e antes que alguém se antecipe......



Todos sabemos que foi o marketing quem criou todos estes dias especiais.
Temos o dia da mãe, que começou por ser no dia 8 de Dezembro e, saibamos lá porque, alguém se lembrou de mudar.
Dia dos namorados, dia da mulher, dia dos avós, da saudade e... eu sei lá quantos. Só não conheço o dia do homem. Há, ou será que são todos os outros? Não acredito!
Mas isto foi apenas um pequeno intróito.
Voltando ao que aqui me trouxe ou seja o Dia dos Namorados,no dia 14, vejamos o que nos diz a história acerca do dia de São Valentim:

"Durante o governo do imperador Caldeus II, este proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objectivo de formar um grande e poderoso exército. Caldeu acreditava que os jovens se não tivessem família, se alistariam com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega: Assíria filha do carcereiro a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram-se apaixonando e ela milagrosamente recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270 d.C." (Texto copiado na diciopedia)

Embora critico destas regras que nos impõem, não me posso desassociar da data.
Para todos os namorados (casados também são namorados) a minha homenagem com esta linda poesia de Almeida Garret

Os Cinco Sentidos
São belas – bem o sei, essas estrelas
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!
Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!
Respira – n'aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!
Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
E só de ti – de ti!
Macia – deve a relva luzidia
Do leito – se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti – em ti!
A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti...