
Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.
Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.
Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.
Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:
-Senhor compre uns!
Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:
-Tens fome?
Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.
-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!
Vi medo no corpo franzino:
-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.
Sosseguei-a:
-Vamos juntos e eles deixam.
Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:
-Que te apetece comer?
Olhou tudo e encolheu os ombros.
-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.
Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.
-Pode ser, respondeu a medo.
Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.
Reparou que a estava a observar e perguntou:
-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?
Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:
-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.
Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.
-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!
Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.
Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.
-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.
-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.
-E a tua mãe?
-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.
-Tens irmãos?
-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.
Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.
-Senhor porque me pagou esta comida?
-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?
Sorriu mais uma vez.
-Tens filhas? Perguntou muito séria.
-Não, não tenho filhas.
Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.
Percebi que algo ficou por dizer e insisti:
-O que ias dizer?
-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.
Deu-me um beijo rápido e desapareceu.
Nunca mais a vi.












