Em tempos idos já foi imponente, agora é
apenas uma casa abandonada.
Fica no alto de uma rua empinada, no meio de um terreno que antes foi um jardim, agora apenas os tojos, as silvas e algumas heras entrelaçadas fazem desse espaço um refúgio de lagartixas e outros rastejantes, que se acoitam nos emaranhados das plantas que por ali proliferam.
A construção, muito degradada, deixa ainda ver a pureza das linhas, onde a empena dá um toque quase senhorial.
As janelas rasgadas em arco, apresentam as mazelas que o tempo vai agravando, madeiras apodrecidas e penduradas em dobradiças que a ferrugem corrompeu, vidros estilhaçados onde as teias de aranha fazem caprichosos rendados.
A porta, maciça, já perdeu a cor original mas contínua firme, tendo apenas a aldraba, em forma de lua, com o batente arrancado.
As paredes vão ficando descascadas mas o amarelo ainda predomina no conjunto das manchas que o tempo deixou.
A casa tem dona, uma tal Sabrina, sobrinha da última habitante, Dona Catarina de Aragão, que numa tarde amena de primavera fechou os olhos para não mais os abrir.
Ninguém sabe dessa Sabrina e, até se julga, que ela pode não saber da morte da tia e muito menos que é a dona da Casa Amarela.
****
Talvez eu me tenha adiantado nesta narrativa, mas por vezes o entusiasmo tem dessas coisas.
A casa amarela foi mandada construir, há muitos anos, pelo insigne doutor Aragão, homem de letras, devoto de São Francisco de Sales, embora na altura, os mais informados, julguem que era apenas por ser o padroeiro dos escritores, que era um sonho que nunca tinha conseguido concretizar, apenas alguns artigos na Gazeta do Povo que, diga-se em abono da verdade, pouco interesse despertaram.
Mas o sonho de ter no alto do povoado uma casa era um anseio que havia herdado do pai, tinha que ser no alto, porque era o simbolizo do domínio e amarela porque essa é a cor do ouro. Do poder.
Quando foi inaugurada ofereceram, no largo do terreiro fronteiriço, uma festa ao povo.
Um porco rodou horas num espeto e o vinho
correu abundante, foi um acontecimento que teve direito à primeira página da
Gazeta desse mês.
Era uma família conservadora, homens tradicionais e mulheres de quem a beleza se esqueceu.
Era uma família conservadora, homens tradicionais e mulheres de quem a beleza se esqueceu.
Apenas uma filha teve a coragem de partir,
um dia, perdida de amores por um simpático caixeiro-viajante.
Foi banida do parentesco, esquecida, o seu
nome, Adelaide, foi proibido naquela casa.
Com a morte de Alcides, apenas restou Catarina que guardava um segredo que tinha que zelar e passar ao seguinte, quando sentisse que as pesadas asas negras da morte se estavam a aproximar.
Quando pressentiu que, com 85 anos, o tempo se começava a escoar foi à procura da irmã escorraçada, não podia pronunciar o nome da prescrita, mas tinha que a encontrar e transmitir o segredo que preservava o descanso eterno da família.
Com a morte de Alcides, apenas restou Catarina que guardava um segredo que tinha que zelar e passar ao seguinte, quando sentisse que as pesadas asas negras da morte se estavam a aproximar.
Quando pressentiu que, com 85 anos, o tempo se começava a escoar foi à procura da irmã escorraçada, não podia pronunciar o nome da prescrita, mas tinha que a encontrar e transmitir o segredo que preservava o descanso eterno da família.
Soube, através do investigador contratado, que a fugitiva tinha morrido, a pneumónica não a tinha poupado, restava uma filha, Sabrina, que se pensava podia viver em terras espanholas.
A velha senhora ficou em pânico, tinha que encontrar a sobrinha, como lhe era difícil dizer sobrinha, mas era isso mesmo.
Encarregou o pesquisador de fazer o seu trabalho, indagar, e com ele abalou a caminho de terras espanholas. Precisava de a encontrar senão, toda a família, iria perder o descanso da vida eterna.
Dona Catarina, na companhia do investigador partiu para terras de "nuestros hermanos" e por lá ficou, a viagem era superior às suas fracas forcas, não aguentou e partiu com a angústia na alma e a tristeza no olhar.
O investigador prometeu continuar a procura, mas não teve a certeza que, se ela, ainda lhe ouviu as ultimas palavras.
*****
A mansão ficou abandonada e a maldição começou.
Quando principiava o anoitecer, ninguém se
atrevia a passar junto à casa Amarela, os gemidos, as sombras sinistras, os
esvoaçares, aqueles fogachos que a iluminavam de forma estranha e o tenebroso
escuro do sítio eram atemorizadores.
O povo andava em alvoroço, os que moravam mais próximo apressaram-se em mudar para o lado contrário do povoado, os que não puderam, mal escurecia, trancavam portas e janelas e acendiam luminárias aos santos da sua devoção.
Os técnicos municipais, ainda, mandaram uma máquina para arrasar a casa e acabar com o pesadelo, mas as forças do mal eram superiores à vontade dos homens, a engenho mal começou a ingreme subida sucumbiu, o motor rebentou e as rodas esvaziaram de repente.
O medo estava instalado e o senhor padre-cura, nada podia fazer, tinha aprendido a falar com Deus, nunca o prepararam para coisas do demónio. A casa, não tinha dúvidas, estava possuída.
O povo andava em alvoroço, os que moravam mais próximo apressaram-se em mudar para o lado contrário do povoado, os que não puderam, mal escurecia, trancavam portas e janelas e acendiam luminárias aos santos da sua devoção.
Os técnicos municipais, ainda, mandaram uma máquina para arrasar a casa e acabar com o pesadelo, mas as forças do mal eram superiores à vontade dos homens, a engenho mal começou a ingreme subida sucumbiu, o motor rebentou e as rodas esvaziaram de repente.
O medo estava instalado e o senhor padre-cura, nada podia fazer, tinha aprendido a falar com Deus, nunca o prepararam para coisas do demónio. A casa, não tinha dúvidas, estava possuída.
*******
Numa tarde, tempestuosa, de Janeiro um carro parou junto ao café Central. O condutor saiu e, com um chapéu-de-chuva, foi ajudar na saída da mulher que o acompanhava.
Deram uma fugida e entraram no
estabelecimento onde alguns homens olharam admirados para aquele casal. Ele
gordo, atarracado e com um ar muito sisudo. Ela alta, esbelta e com um sorriso
luminoso.
Foi a mulher quem se dirigiu aos presentes:
-Meus senhores, não me conhecem mas eu tenho raízes nesta terra, não nasci aqui mas, a minha mãe nasceu, era uma das filhas da família Aragão.
Um dos presentes levantou-se e tirando o boné que lhe cobria a cabeça perguntou:
-Então quer dizer que é a filha da Adelaide? Sabe o segredo da casa amarela e vem para ajudar o padre a acabar com a maldição?
-Sou a Sabrina, filha da Adelaide, respondeu a visitante, mas não sei o segredo, a minha tia Catarina não me encontrou a tempo de mo dizer!
Os homens ficaram com um ar de preocupação. O que tinha falado coçou a cabeça, num gesto de muita preocupação, e deixou escapar:
-Quer dizer que a maldição não vai acabar e nós vamos continuar nesta merda de medo, em que andamos há um ror de tempo?
A rapariga era muito bonita, devia ser a única mulher da família que conseguiu receber toda a beleza que às outras foi negada.
Tinha uns dentes alvos, uns lábios sensuais e um sorriso cativante.
-Meus senhores, será possível chamar o
padre e irmos todos ver essa tão falada casa?
José Sovela, o mais novo e mais afoito, saiu disparado protegido numa cobertura de oleado, na procura do padre.
Não demoraram, o padre bem embrulhado numa capa alentejana, desaparecia debaixo dum enorme guarda-chuva.
Seguiram em cortejo, cada um abrigado da melhor maneira.
Estranha procissão numa tarde tempestuosa.
A trovoada tinha tomado conta do tempo,
era quase tenebrosa, os relâmpagos cegavam e o ribombar atordoava os ouvidos
mais sensíveis.
Mas eles seguiam na fé que Sabrina, mesmo
sem o saber, pudesse ter o segredo que os libertasse.
Começaram a ladeira, a água da chuva descia com ímpeto nas regueiras da rua. De vez em quando, um relâmpago mais forte tornava dia a tarde que ia escurecendo.
Chegaram ao terreiro, a casa era apenas uma mancha no meio da penumbra que ia caindo.
Olharam na impotência de quem nada podia fazer, foi então que Sabrina abriu os braços, apontou e perguntou:
-É esta a minha herança?
De repente fez-se noite e um raio, no meio de um relâmpago mais brilhante que o Sol, atravessou o espaço e caiu mesmo no meio da casa amarela.
As chamas irromperam, os homens ajoelharam-se, mais por temor de que por devoção.
As labaredas iam consumindo a casa como se as pedras fossem simples folhas de papel. Por entre as chamas notava-se algo, como se fossem almas a libertar-se, confundindo-se as sombras de umas com a luz das outras.
*****
Em pouco tempo apenas um monte de cinzas, mostravam tudo o restava da casa.
Em pouco tempo apenas um monte de cinzas, mostravam tudo o restava da casa.
A chuva parou, a tormenta desapareceu e o
Sol brilhou como se a tempestade fizesse já parte do passado.
