quarta-feira, 9 de abril de 2008

Porque?



Nem todos compreendem que a lei da vida é “hoje tu, amanhã eu” e passam indiferentes como se o “amanhã eu” fosse um mito que não se lhes aplica.
Se verificarmos a indiferença com que alguns, muitos infelizmente, tratam aqueles
que começam a voltar a uma meninice de dependência total.
Todos a aqueles que esperam que lhe levem a sopa à boca desdentada, que lhe mudem uma fralda que os mantenham um pouco mais confortáveis.
Olham de lado e, muitas vezes, nem escondem o ar de enjoo e de repugnância que a situação lhes causa.
Esquecem que aqueles que numa cadeira tremem e esperam, sem saber bem como, o passar do tempo num olhar distante de recordações que lhe enchem um cérebro velho e cansado. Foram garbosos atletas, rainhas de beleza, médicos famosos, músicos, artesãos talentosos, donas de casa exemplares.
Alguns, possivelmente, fizeram em tempos o mesmo mas, não podemos ficar indiferentes, não podemos fazer de conta que não temos nada com isso.
São pessoas tão fantásticas e tem, ainda, tanto para nos dizer, experiências e estórias de um Mundo cada vez mais distante. Falam de um passado longínquo, de uma infância tão presente e de forma tão real, que não acreditamos que por vezes já tenham esquecido o que ontem lhes aconteceu.
Sabem memórias que nos deixam estarrecidos, sabem canções que nunca aprendemos, conhecem a vida de uma maneira tão diferente.
Quando os abordamos os seus olhos brilham e esquecem as dores, a incontinência, o mau estar, a dependência, a indiferença dos familiares que os entregam e abandonam em lares, onde os visitam pelo Natal.
O “amanhã eu” não tarda e, quando esse dia chegar é tarde para nos arrependermos da nossa indiferença.

Os teu olhos....



Quando teus olhos me olham
Não é fortuito o olhar,
Bem sei quanto me desejam
E tanto que me querem amar

Quando os teus olhos me olham
Da forma com tu fazes,
Eu sinto o que eles pensam
E de tudo que são capazes

Quando teus olhos me olham
Na voragem dos desejos,
Apenas os posso abafar
Com o calor dos meus beijos

Não sei se Deus o deseja
Se são as lágrimas qu’os molham,
Mas sinto seja o que seja
Quando os teus olhos me olham...

terça-feira, 1 de abril de 2008

segunda-feira, 31 de março de 2008

quarta-feira, 26 de março de 2008

Indecisão.......

Até que a rapariga não cantava mal. Era uma daquelas músicas brasileiras a que a voz doce da cantora emprestava uma sensação de cócegas.
As pessoas mais preocupadas com o conteúdo dos pratos, pouca ou nenhuma atenção lhe votavam. Ela persistia na balada, onde o amor ainda havia de voltar.
Um pouco tímido cruzou os olhos com os da artista e mais timidamente ainda os deixou cair. A voz dela parecia mais doce e a letra da canção era como se fosse só para ele. Falava de tristezas passadas e de muitas promessas de um amor que iria acontecer.
Havia lamentos e todas as venturas de um dia que estava tão próximo. Falava de beijos quentes, de promessas que pareciam reais.
Ficou enlevado e procurou-lhe os olhos que num largo sorriso o deixou confuso. Desviou o olhar e o rubor tomou conta do seu rosto, como de um rapazinho envergonhado.
No seu cérebro mil projectos se começaram a desenhar. A que horas sairia? Iria só, ou alguém e a iria esperar? E o sorriso? Meu Deus, aquele sorriso!
Ficou desajeitado como sempre, sem saber tomar uma decisão.
Pediu mais uma bebida, era a terceira e decerto não lhe iria cair muito bem. Não estava habituado mas a ocasião a isso o obrigava.
Em pequenos goles ia ficando inebriado com a letra que decerto lhe era dedicada.
Os acordes entravam nos ouvidos e as palavras daquele amor esquecido aqueciam uma existência tão vazia.

Será hoje meu Deus, será hoje
Que o amor vai surgir, assim, de repente
Trazendo tudo o que quero e
Aquecendo de forma tão boa a alma da gente


Estava enlevado na letra, inebriado na música.

Quando sua boca me chama
Eu corro apressada
Rebolo consigo na cama
Não preciso mais nada

O pensamento levantou voo, os olhos fecharam-se num doce torpor.
Andou nas nuvens de mãos dadas, vogou ao sabor do vento, rodopiou agarrado
aquela delicada cintura.
Beijou aqueles cabelos negros que lhe roçavam o rosto e que o deixavam louco.
Estava próximo daqueles lábios carnudos que em promessas se abriam para ele.
Já sentia o sabor de um beijo quente que se aproximava.

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O corpo tremia de prazer.
O sobressalto foi enorme.
Aquela cara feia tão próxima da sua não era a da cantora, acordou sobressaltado com alguém que lhe berrava aos ouvidos:
-Então amigo, acorde que vamos fechar. O espectáculo acabou há muito!

Só frio da rua o trouxe à realidade.

sábado, 15 de março de 2008

O Fim.......

Estugou o passo. A pressa de chegar a casa e acabar de vez com essa situação deu-lhe forças. As pernas nem sempre correspondiam ao ritmo que tentava impor, mas a vontade era tanta que esquecia aquela dor que, há meses, não o deixava.
O calor começava a apertar e na testa começavam a aparecer gotículas de suor.
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No outro dia sentiu um peso no peito. Era uma sensação estranha. Parecia que estava oco, e uma dor aguda penetrava deixando uma sensação de desconforto. Respirou fundo
tentando meter no peito o ar que lhe parecia faltar. Tudo era estranho, a sua volta parecia que uma névoa se ia desprendendo. Sentia a cabeça a andar a volta.
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Era uma forma esquisita, era como uma agonia. A dor não era muito forte mas o desconforto era enorme. O peito parecia que transportava toda a angústia do mundo.
Queria respirar mas o ar entrava com dificuldade. A cabeça zumbia como se de repente estivesse cercada de abelhas.
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Olhou em volta e desfilou as más recordações da infância que não teve. Via-se enfiado num calções coçados e presos por um suspensório de pano que lhe cruzada o abaulado peito, coberto com uma bonita camisa feita com o pano velho de outra. A sacola era de serapilheira parda e os livros que transportava eram as sobras de um menino que um dia os vendeu no alfarrabista. A pedra onde fazia as contas, e que bem as sabia fazer, era a angústia constante. Por tudo e por nada se partia e iria sentir no corpo e nas faces o desabar do mundo.
Não podia olhar os próprios olhos, mas diziam, que apesar de tudo deixavam transparecer
ladinice, esperteza e uma vontade enorme de enfrentar a vida.
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Os anos passavam tão rápidos que nem deu porque estava a crescer. A vida estava marcada em todos os poros do corpo franzino. O trabalho era monótono, sem emoções, sem realização. Era… enfim, então Sr. Dr., como estão os meninos. Meninos, dois abortos feios como o pai, convencidos como toda a família e inúteis como todos os que os rodeavam e enchiam de mimos e prazer.
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Manhã cedo com o frio a entrar pela escassa roupa, era esperar pelo eléctrico operário, sempre era mais barato. As senhoras, algumas, abafavam o frio nos belos e felpudos casacos e alguns homens aconchegavam o gordo pescoço no sobretudo de lã de camelo.
Um dia, talvez, ainda tivesse um. Mas seria difícil porque nos familiares não havia nenhum que um dia pudesse ser transformado.
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Houve um tempo em que parece que o tempo tinha parado. Foram umas férias feitas de emoções. Era como que o alvo de todas as atenções. Passaram tão rápidas que ainda hoje sente na boca a doçura de tão bons momentos. Os dias eram longos e preenchidos de todas as brincadeiras. De repente era o herói de uma qualquer banda desenhada.
Corria pelos campos e sentia no rosto a brisa da liberdade. À noite entre as pernas do avô, aconchegava a cabeça nos carinhos desconhecidos.
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Um dia numa enorme fila quis ver como a morte leva os poderosos. A pouco e pouco avançava. Muito devagar, tão devagar que perecia que a própria fila não tinha principio.
Mas, depois de horas, lá consegui ver aquela fraca figura estendida num esquife. O ar mais sereno que um morto pode ter. As pessoas passavam devagar. Algumas inventavam umas lágrimas e como carpideiras faziam a sua boa acção para que todos pensassem que era um desgosto sentido. Ele passou sereno, deslumbrado com tudo o
que via. Pensava, porque conseguem chorar, quando todos sabiam que era apenas o medo que os levava aquela espectáculo. Mas, o presidente estava ali estendido, e outro já se perfilava para continuar tudo aquilo que aquele não tinha feito. Iria de certo cortar muitas fitas, inaugurar o que os outros fizessem e receber os aplausos pelos discursos gastos e sem nada de novo.
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Lá fora a vida continuava naquele ritmo a que já nos habituamos. Na jardim da Estrela as criadas passeavam nos trajes domingueiros sempre na mira de um militar garboso que afoitamente desse um piropo.
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A dor continuava mas não queria dizer nada. Pensando que de certo já ia passar. O relógio que lhe trabalhava nos ouvidos deixava um enorme desconforto.
O chilrear dos pássaros entrava pelas janelas e agudizavam os padecimentos. A cabeça não tardava e de certo iria estoirar.
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Estendeu o corpo magro no sofá. Fechou os olhos e esperou que o sono lhe desse algum alivio, que o libertasse de todo o mau estar e angustia que há muito se apoderara dele.
Ficou tão leve que se sentiu a pairar, a dor passou e o mau estar foi como se nunca tivesse existido.
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Tão estranho ver a sala de cima, a mesa com os restos de uma refeição inacabada, as cadeiras dispostas de forma simétrica, a televisão onde o pó brilhava no escuro do ecrã, o sofá com um corpo enroscado numa posição desconfortável.
Parecia, mesmo, ser ele que ali estava estendido.
O mesmo rosto amarelento e encovado, as mãos engelhadas juntas como numa última prece.
Tudo tão irreal e tão confuso.
Ao longe a musica e a luz intensa pareciam estar a chamar, a dor desaparecera, os ouvidos já não chiavam no cérebro. Nunca se sentira tão bem.

Foi entrando devagar, bem devagar………

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Até um dia amigo.......

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Cão que não querias
Ser cão
E não lambias
A mão
E não respondias à voz.
Cão
Cão como nós

(Manuel Alegre)




Até um dia amigo.....

Eu sei que ele anda por aqui!
De noite, quando acordo, ouço o seu ladrar e, no escuro fico à espera de me ter enganado, mas não, é mesmo ele.
Tenho a certeza.

Não sei quando apareceu, apenas me lembro do ar forte mas medroso, do frenético abanar de cauda e da ternura do olhar.
Quando o tentei conquistar aproximava-se de lado como o cavalo que lardeia o touro.

Olho para o sítio onde tão bem sentia, no seu tapete amarelo, e ia jurar que estava lá. Tremendo, com os olhos semi-cerrados e as pernas dobradas numa, quase, impossível posição de contorcionista.
Era assim que ele dormia.

Quando, mesmo ao longe, ouvia o assobio respondia com um ladrar e não tardava aparecia e pacientemente esperava a refeição, não sem antes ladrar para o ar, a avisar que estava no seu território e que a comida que ali vinha era só para ele.

Quando ouço um discreto bater na porta, sei que é o vento, mas vou espreitar porque era assim que batia.

Para ele não havia obstáculos, entrava doidamente por sebes e arbustos se pressentia um gato ou qualquer inofensiva ave que se atrevia a aparecer aquando da sua presença. Era doido de todo. Os arranhões, depois, eram a marca da sua audácia.

Hoje ouvi lá fora aquele ganir de chamamento como quando aparecia a pedir comida ou apenas atenção.
Não resisti e fui espreitar.
Nada vi, mas tenho a certeza que qualquer coisa estava presente.
Fiquei arrepiado mas desejei, ardentemente, que fosse verdade.

Aquela pata operada, mais atamancada, nunca mais foi a que corria e saltava tudo. Ficou diferente, encovada e com o musculo atrofiado.
O Rex esquecia e mesmo com ela no ar corria sem saber que já não o podia fazer da mesma forma. A sua coragem a sua determinação e ousadia, esquecia tudo.

Sonhei que era sonho. Não foi abatido. Continuava a ser o nosso protegido. A Ilda continuava com as frigideiras mistas de comida e ração. Com a preocupação do amigo que a olhava enlevado como se ela fosse de verdade a sua dona. Se falasse e pudesse optar tenho a certeza que seria, ela, a eleita.
Acordei de forma estranha.
Senti um bafo quente na cara.

Aconteceu, a leishmaniose apareceu. As chagas tomaram conta do seu corpo e em poucos dias ficou velho. Deixou de ter festas, porque era difícil. Nada mais havia a fazer.
A solução foi dolorosa mas era o melhor para ele, pelo menos pareceu, pois ninguém lhe pediu opinião.
Para os homens a eutanásia é crime, para um cão as pessoas dispõem sem pedir o seu consentimento.

Agora, parece, que tudo acabou. Será que acabou? O Rex foi embora, ficou uma grande e grata recordação.

Eu sei que andas por aí, os campos continuam a ser teus, podes correr atrás dos gatos sem os molestares, podes tentar voar para apanhares os pássaros, podes finalmente ser feliz.



Vou continuar a sentir a tua presença. Os teus latidos, o teu andar desengonçado, as tuas loucas correrias, o teu olhar doce e toda a ternura que nos tinhas.

Vais continuar a ver as nossas lágrimas quando te recordamos.

Até um dia amigo.......