sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Amadeu


Era talvez o meu melhor amigo.
Não me lembro como nos conhecemos, nem onde. Sei que fomos cimentando a nossa
amizade nas diversas esquinas desta vida. Sentimos na pele todas as agruras de uma guerra colonial que nada nos dizia, fechamos os olhos a muitos camaradas sempre á espera da nossa vez. Como me lembro de todos os momentos passados no mato, arma na mão e o medo a transpirar por todos os nossos poros. Era sempre o Amadeu a tentar manter em alta a abalada moral de todos. Como recordo as suas palavras nos momentos de aflição.
A verdade é que o inicio desta amizade se perde no tempo, talvez dos bancos da escola, mas sinceramente nem eu nem ele conseguimos recordar como e quando começou.
Muitas vezes estivemos em desacordo, quase sempre por causa de uma mulher, mas o bom senso prevaleceu e as nossas divergências eram ultrapassadas á volta de uma imperial bem fresca.
Um dia, recordo como se fosse hoje, apareceu ofegante e totalmente alterado
Não parecia o Amadeu de todos os dias, calmo, alegre e folgazão.
Estava transtornado.
-Que aconteceu? Perguntei.
Olhou-me de forma distante. Abstracto, sem emoção. A custo balbuciou:
-Ela foi embora. Deixou-me.
Os olhos ficaram marejados de lágrimas, o rosto congestionado.
-Foi embora. Desapareceu. Com tanto que eu fiz por ela. Quando a encontrei estava mais morta que viva. O pelo estava em tão mal estado que mais parecia uma rata do esgoto. Agora desapareceu. Ingrata, as mulheres são todas o mesmo. Tratei dela, dei-lhe carinho, um lar e agora mal apanhou o portão aberto.
Fiquei atónito.
-Mas estas a falar de uma cadela. Que tem as mulheres a ver com isso?
Olhou para mim, não sei se me estava a ver, tão inchados estavam os seus olhos e soluçou:
-Tal e qual como a Silvina. Desapareceu da mesma forma. Sem o menor gesto de gratidão.
-As mulheres são todas iguais!




A Promessa



Dona Emília estava orgulhosa do seu almoço, pois as visitas estavam deliciadas.
-Nunca tinha comido um arroz de pato como este, exclamou Vicente.
-É bondade sua menino.
-Não é Dona Emília, está mesmo divinal.
-Bem os patos eram bons, o chouriço é do nosso e o forno de lenha ajuda.
-Não seja modesta, pois sem a arte das suas mãos não seria possível esta iguaria.
-Fico sem jeito com tanto elogio, mas já o seu mano, o menino Jaime, também delirava com o nosso arrozinho de pato.
O Jacinto raspava, sem cerimónias, os restos do prato enquanto o seu pensamento estava longe, bem longe.
Desde que Mafalda tinha feito as malas e saíra de casa, sem qualquer aviso, a sua vida tinha mudado totalmente. Andava apático e, aceitara este almoço porque a insistência do Vicente foi muita e também aproveitava para matar saudades da herdade onde cresceu e onde se fez homem. Foi aqui que conheceu Mafalda, naquele Verão em que o irmão convidou os amigos de Lisboa para um fim-de-semana no monte. Desde o primeiro momento sentiu que o destino lhe tinha posto aquela mulher no seu caminho.
A atracção foi mútua e quando deram por isso estavam em lua-de-mel.
Foram dois anos intensos de paixão quando de repente, Mafalda, apanhou o avião e partiu para Paris.
Nunca fora homem de desaforos, mas saber que a mulher tinha, sem explicações, acabado com dois anos de felicidade para fugir com um homem 20 anos mais velho era difícil de aceitar. Não sabia o que mais lhe doía se era ter sido abandonada ou ser trocado por um gajo qualquer. Que poderia ter esse fulano a mais, que Jacinto não tivesse?

Mafalda sempre esteve no lado bom da vida. Filha tardia de um abastado diplomata, cresceu cumulada de todas as atenções, menina mimada a quem a vida tudo deu. Foi uma boa aluna, estudou nos melhores colégio da Europa.
Quando acabou a licenciatura em Línguas, pensou em viver em Londres mas cedo mudou de ideias, pois o clima e a frieza britânica não se coadunavam com a sua personalidade.
Voltou a Portugal e conheceu o Jacinto. Foi, realmente, amor à primeira vista, tinha encontrado o homem com que sempre sonhara. Calmo, apaixonado, aventureiro. Foi tudo tão inesperado que quando deram por isso estavam casados. Viveram numa loucura total, numa constante procura do desconhecido, passeios pelos cantos mais misteriosos do mundo, o encanto das descobertas, o fascínio do exotismo oriental. Fizeram amor em cabanas no alto de grandes montanhas, em praias paradisíacas, foram felizes nos locais mais recônditos do mundo.
Prometeram que só a morte acabaria com essa loucura.
Viveram, em dois anos, uma existência, uma vida. Foram felizes sem perguntas, sem regressos ao passado.

Tinham acabado de chegar do Quénia e numa recepção na Embaixada conheceu o doutor Viriato, homem maduro e com um encanto no falar que a deixou totalmente fascinada.
Tinha uma experiência de vida que a perturbou, falava de tudo com um conhecimento sábio, com um encanto perturbador.
Quando ele lhe disse:
-Amanhã vou jantar ao La Coupole em Paris. Quer vir comigo?
Apenas lhe saiu:
-Claro que quero!

Deixou a mesa e com pressa dirigiu-se ao carro.
-Onde vais com tanta pressa? Perguntou Vicente.
Jacinto parou, olhou o infinito e com um sorriso respondeu
-Vou a Paris fazer cumprir uma promessa.


segunda-feira, 21 de julho de 2008




HAHAHEL


A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se...... (Declaração dos direitos da criança).




Apeteceu-me tirar a mochila, enche-la de sonhos, esperanças e ilusões.
Fazer-me à estrada.
Voltar ao passado, percorrer caminhos já antes trilhados.
Reparar os sonhos nunca antes realizados.
Pedir a Hahahel umas asas, sólidas para que o Sol, tal como ás de Ícaro, não as derreter.
Estar outra vez contigo, luz dos meus olhos, ouvir a tua voz sábia e beber avidamente
tudo o que não tivestes tempo de me dizer.
Pegar e reparar os estilhaços de amores mal resolvidos.
Não ir trabalhar aos doze anos. Ir para a escola. Ir estudar.
Mano António queria chegar a tempo de impedir que qualquer Deus te levasse. Preciso de ti, mal te conheci mas sinto tanto a tua falta.
Encontrar uma mão que me levasse é escola e me libertasse de todos os fantasmas.
Ter Natais como todas as outras crianças, com doces e brinquedos.
Não ter medo do escuro, da noite da solidão.
Ser um menino como os outros e saber sorrir.


sábado, 19 de julho de 2008

A culpa é do B.I.




E não chego a saber se esta luz de oiro,
Que hoje me toca e me comove assim,
É deste Sol o íntimo tesoiro
Ou se é tesoiro que descubro em mim….
(Francisco Bugalho)




Tem que haver um responsável. As coisas não acontecem por acaso, há sempre uma razão.
Antes, não há muito tempo, quando me levantava erguia-me para mais um dia sem ter que esticar o corpo á espera que todos os elementos do meu corpo tomassem o seu lugar, que as dores se esquecessem e me abandonassem para mais uma jornada.
Descia as minhas escadas a duas e duas e chegava á rua ufano, fresco e descansado. Agora conto os degraus na esperança que me deixem chegar ao fim incólume e sem mazelas.
Ainda me lembro de olhar ao longe e, ver os contornos de um horizonte que se diluía no infinito, sem estreitar os olhos na esperança que, sendo umas fendas, possam adivinhar o que já não me deixam enxergar.
Devorava os carreirinhos de letras das páginas dos meus livros, sem ter que ajeitar os óculos, sem necessidade de esfregar o cansaço que os invadem com tanta frequência.
A música, minha companheira, entrava nos meus ouvidos. As melodias inebriavam o meu espírito, as letras embalavam-me.
Agora, de repente, sem avisos, sem explicações os meus ouvidos são contemplados com uma estranha estereofonia. Som irritante, agudo, sem melodia, sem ritmo.
Normal, diz o médico, cansaço, stress, desgastes.
Coisas do B.I., digo eu, E agora que o meu é perpétuo.
Que raiva!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Dedicado mas sem dedicatória...........





Mulher, seca essas lágrimas que teimosamente querem escorrer no teu rosto,
Mostra esse sorriso que não é só teu, pois já nos pertence.



Vinícius de Morais

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.


segunda-feira, 30 de junho de 2008

Lino o pastor....


Nada mais havia a acrescentar. Tudo o que havia a dizer já fora dito. O ódio fazia parte do seu dia a dia. Desde muito cedo que o vinha acumulando. Cada dia que passava, mais e mais se enraizava aquele mal-estar que lhe azedava o espírito.
Veio para a cidade ainda menino. Quando o meteram na camioneta olhou com saudades tudo o que deixava para trás, o Miranda seu companheiro de aventuras, a Manca assim se chamava a velha burra em cujo dorso era o herói que cavalgava por montes e vales.
Já sentia saudades das sortidas á horta do Senhor Miguelito onde saciava a fome que a malga de feijões e o pedaço de broa lhe deixavam.
O barulho do motor da camioneta misturado com todas as conversas chegavam ao seu cérebro de forma difusa e mais aumentavam a confusão que lhe ia na cabeça. Apenas sabia que o Senhor padre lhe tinha arranjado um emprego na cidade, onde diziam que iria trabalhar para vir a ser um grande homem. Só não compreendia porque precisava de ir tão longe e o não deixavam ser homem mesmo ali na sua terra. O Chico Ventura era o homem que todas as moças queriam conquistar, diziam que o maior e mais valente de todos e nunca precisou de sair da terra para ser homem.
Finalmente a camioneta começou a sua marcha cansada a caminho da grande cidade.
Olhou, pela primeira vez, os restantes companheiros de viagem.
Ao longe ainda conseguiu ver a torre da Igreja que lhe parecia acenar num adeus que o deixou com uma lágrima que disfarçou com o punho da blusa.
Durante muito tempo foi vendo os campos que pareciam fugir. Quando paravam havia um mar de pessoas á espera de quem chegava ou as despedidas de quem partia.
Depois novamente a estrada, as vacas que pachorrentamente olhavam a camioneta enquanto mastigavam a tenra erva.
Finalmente o sono tomou conta do corpo franzino, de tal forma que nem se lembrou de comer o farnel que a tia Alzira lhe tinha preparado.
Ia fazer um ano que deixara a terra. Como se lembrava, ainda, da viagem e do dia em chegara a Lisboa. O Miguel, o seu colega, estava a sua espera, e com o saco dos poucos haveres tomaram um eléctrico que deslizava por entre o meio da confusão de carros e de pessoas que passavam apressadas e indiferentes a tudo os que as rodeavam.
A taberna era enorme, com um grande balcão coberto por uma pedra preta onde os homens pousavam os copos. Algumas mesas dispostas de forma irregular onde o dominó dominava a atenção. Grandes pipas encostadas as paredes completavam o resto do cenário.
Entrou amedrontado e tremeu quando o seu patrão, o Senhor Ernesto, com o sobrolho franzido avaliou a fraca figura que o padre lhe tinha enviado.
-Então o que sabes fazer meu rapaz?
-Senhor, sou o melhor a levar as cabras para o pasto. Gargalhada geral.
-Pode crer que é verdade! Nem o meu pai consegue melhor que eu.
Quem passava á porta parou para ver o motivo de tanta galhofa. Os homens largaram os copos e punham a mão na barriga para se conter.
Não percebia o motivo de tal risota, ou seria que todos aqueles pensavam que era fácil levar e recolher as cabras, carregar com os cabritos recém nascidos?
Nessa noite sentiu todas as saudades do Mundo. Pensou na tia Alzira que lhe mitigava a fome com uma fatia de bolo com mel, no Miranda que agora tinha a Sofia toda para ele, na Manca que o tornava rei das pradarias, da mãe que um dia fechou os olhos e abalou. Até o pai, sempre tão severo, lhe veio ao pensamento.
Nunca teve tanta vergonha.
Adormeceu engolindo o desejo de chorar.
Viveu, assim, dois anos de maus-tratos, de fome, de injúrias.
A resistência estava cada vez mais abalada, o ódio fazia parte do seu ser.
Um dia a taberna não abriu. Foi necessário arrombar a porta.
O proprietário Senhor Ernesto, estava morto, figura macabra. Um fio de sangue escorria num canto da boca.
O Lino não apareceu, a tarimba estava vazia.
Nunca mais o encontraram, ninguém sabe dizer o que aconteceu.

Na terra dizem que nas noites estreladas um jovem pastor, apascenta o mais bonito rebanho de brancas ovelhas e tal como Pã, corre pelos bosques deixando as mais lindas melodias.

Dizem que é verdade, mas ninguém tem a certeza.......


quarta-feira, 25 de junho de 2008

A Missão






Ao meu cunhado Zé, protagonista desta história que aconteceu e que,
tal como eu, acredita na natureza.
(Manuel)



Era uma quarta-feira de Verão intenso. O Sol em todo o seu esplendor envolvia tudo e todos em ondas de calor. As aves estavam escondidas nas folhagens e apenas os insectos se atreviam, maçadoramente, a importunar as pessoas.
Zé, passou o pulso pela testa na tentativa de suster o suor que teimosamente lhe escorria para os olhos, enquanto com a pequena enxada ajeitava a terra junto aos caules das árvores ressequidas pelo calor.
De repente a quietude da tarde foi quebrada pelo ruído de um voo de ave que teimosamente enfrentava a canícula e que em pequenos círculos parecia pedir a benção de um gole de água que lhe desse as forças que lhe iam faltando.
Enlevado no encanto do voo e percebendo o drama, Zé, procurou a mangueira e mostrou o jorro de água na tentativa de despertar a atenção do pobre pombo.
A medo foi-se aproximando, escondendo todo o receio no desejo de saciar a sedo que há tanto o atormentava.
Era o drama do desejo e a impotência de mostrar que apenas a queria ajudar. Dum lado o perceber que a resistência do animal estava esgotada do outro o medo do homem que sempre a perseguia. A vontade suplantou tudo e o pombo desceu, avidamente bebeu a seiva que lentamente sentia fugir. Sorveu a água de forma intensa e sentiu, novamente, a vida a percorrer-lhe o corpo. Os grãos de arroz, que entretanto, o nosso amigo lhe atirou serviram para recompor o cansaço
que a invadia.
Voou para um ramo de um pinheiro, fechou os olhos e num sono reparador recarregou toda a energia que o ultimo voo lhe tinha roubado.
Quem sabe, até, se não sonhou!
Acordou, estendeu a asa num espreguiçar de prazer. Olhou em volta, contemplou o seu salvador com a certeza que nem todos os homens eram iguais.
Levantou voo, tinha que ir, mas também tinha vontade de ficar. Andou as voltas como se tivesse duvidas; como se estivesse em luta entre o dever e o desejo.
Era um pombo-correio, tinha uma missão.
Num risco de asa acenou um adeus, num arrulhar deixou um:
-Obrigado amigo.
Subiu e desapareceu no horizonte.