sábado, 13 de setembro de 2008

Um flash



Estugou o passo. A pressa de chegar a casa e acabar de vez com essa situação deu-lhe forças. As pernas nem sempre correspondiam ao ritmo que tentava impor, mas a vontade era tanta que esquecia aquela dor que, há meses, não o deixava.
O calor começava a apertar e na testa estavam a aparecer gotículas de suor.

No outro dia sentiu um peso no peito. Era uma sensação estranha. Parecia que estava oco, e uma dor aguda penetrava deixando uma sensação de desconforto. Respirou fundo
tentando meter no peito o ar que lhe parecia faltar. Tudo era estranho, a sua volta parecia que uma névoa se ia desprendendo. Sentia a cabeça a andar a volta.

Era uma forma esquisita, era como uma agonia. A dor não era muito forte mas o desconforto era enorme. O peito parecia que transportava toda a angústia do mundo.
Queria respirar mas o ar entrava com dificuldade. A cabeça zumbia como se de repente estivesse cercada de abelhas.

Olhou em volta e desfilou as más recordações da infância que não teve. Via-se enfiado num calções coçados e presos por um suspensório de pano que lhe cruzada o abaulado peito, coberto com uma bonita camisa feita com o pano velho de outra. A sacola era de serapilheira parda e os livros que transportava eram as sobras de um menino que um dia os vendeu no alfarrabista. A pedra onde fazia as contas, e que bem as sabia fazer, era a angústia constante. Por tudo e por nada se partia e iria sentir no corpo e nas faces o desabar do mundo.
Não podia olhar os próprios olhos mas dizem que apesar de tudo deixavam transparecer
ladinice, esperteza e uma vontade enorme de enfrentar a vida.

Os anos passavam tão rápido que nem deu porque estava a crescer. A vida estava marcada em todos os poros do corpo franzino.
O trabalho era monótono, sem emoções, sem realização. Era… enfim, então Sr. Dr., como estão os meninos. Meninos, dois abortos feios como o pai, convencidos como toda a família e inúteis como todos os que os rodeavam e enchiam de mimos e prazer.

Manhã cedo com o frio a entrar pela escassa roupa, era esperar pelo eléctrico operário. Sempre era mais barato! As senhoras, algumas, abafavam o frio nos belos e felpudos casacos e alguns homens aconchegavam o gordo pescoço no sobretudo de lã de camelo.
Um dia talvez ainda tivesse um. Mas seria difícil porque nos familiares não havia nenhum que pudesse ser transformado.

Houve um tempo em que parece que o tempo tinha parado. Foram umas férias feitas de emoções. Era como que o alvo de todas sente as atenções. Passaram tão rápidas que ainda hoje sente na boca a doçura de tão bons momentos. Os dias eram longos e preenchidos de todas as brincadeiras. De repente era o herói de uma qualquer banda desenhada.
Corria pelos campos e sentia no rosto a brisa da liberdade. À noite entre as pernas do avô, aconchegava a cabeça nos carinhos desconhecidos.

Um dia numa enorme fila quis ver como a morte leva os poderosos. A pouco e pouco avançava. Muito devagar, tão devagar que perecia que a própria fila não tinha principio.
Mas, depois de horas, lá conseguiu ver aquela fraca figura estendida num esquife. O ar mais sereno que um morto pode ter. As pessoas passavam devagar. Algumas inventavam umas lágrimas e como carpideiras faziam a sua boa acção para que todos pensassem que era um desgosto sentido. Ele passou sereno, deslumbrado com tudo o
que via. Pensava, porque conseguem chorar, quando todos sabiam que era apenas o medo que os levava aquele espectáculo. Mas, o presidente estava ali estendido, e outro já se perfilava para continuar tudo aquilo que aquele não tinha feito. Iria de certo cortar muitas fitas, inaugurar o que os outros fizessem e receber os aplausos pelos discursos gastos e sem nada de novo.

Lá fora a vida continuava naquele ritmo a que já nos habituamos. Na jardim da Estrela as criadas passeavam nos trajes domingueiros sempre na mira de um militar garboso que afoitamente desse um piropo.

A dor continuava mas não queria dizer nada, pensando que de certo já ia passar. O relógio que lhe trabalhava nos ouvidos deixava um enorme desconforto.
O chilrear dos pássaros entrava pelas janelas e agudizavam os padecimentos. A dor na cabeça era insuportável e não tardava, de certo, iria estoirar.

Sentia um suave torpor que, lentamente, o invadia e que aos poucos o ia mergulhando numa sonolência tranquila. Havia no ar um doce e desconhecido odor e a música, vinda não sei donde, devagar o ia embalando num flutuar mágico. Como transportado por uma brisa ondulava na sala onde todos pareciam meditar.
Sentiu o corpo a subir na direcção do túnel que de repente apareceu na sua levitação. Ao fundo brilhavam mil luzes intensas. A tranquilidade e a paz eram imensas. Havia um bem-estar que o puxava e vozes amigas que o acolhiam.

Depois o esquecimento.

Um flash


Estugou o passo. A pressa de chegar a casa e acabar de vez com essa situação deu-lhe forças. As pernas nem sempre correspondiam ao ritmo que tentava impor, mas a vontade era tanta que esquecia aquela dor que, há meses, não o deixava.
O calor começava a apertar e na testa estavam a aparecer gotículas de suor.

No outro dia sentiu um peso no peito. Era uma sensação estranha. Parecia que estava oco, e uma dor aguda penetrava deixando uma sensação de desconforto. Respirou fundo
tentando meter no peito o ar que lhe parecia faltar. Tudo era estranho, a sua volta parecia que uma névoa se ia desprendendo. Sentia a cabeça a andar a volta.

Era uma forma esquisita, era como uma agonia. A dor não era muito forte mas o desconforto era enorme. O peito parecia que transportava toda a angústia do mundo.
Queria respirar mas o ar entrava com dificuldade. A cabeça zumbia como se de repente estivesse cercada de abelhas.

Olhou em volta e desfilou as más recordações da infância que não teve. Via-se enfiado num calções coçados e presos por um suspensório de pano que lhe cruzada o abaulado peito, coberto com uma bonita camisa feita com o pano velho de outra. A sacola era de serapilheira parda e os livros que transportava eram as sobras de um menino que um dia os vendeu no alfarrabista. A pedra onde fazia as contas, e que bem as sabia fazer, era a angústia constante. Por tudo e por nada se partia e iria sentir no corpo e nas faces o desabar do mundo.
Não podia olhar os próprios olhos mas dizem que apesar de tudo deixavam transparecer
ladinice, esperteza e uma vontade enorme de enfrentar a vida.

Os anos passavam tão rápido que nem deu porque estava a crescer. A vida estava marcada em todos os poros do corpo franzino.
O trabalho era monótono, sem emoções, sem realização. Era… enfim, então Sr. Dr., como estão os meninos. Meninos, dois abortos feios como o pai, convencidos como toda a família e inúteis como todos os que os rodeavam e enchiam de mimos e prazer.

Manhã cedo com o frio a entrar pela escassa roupa, era esperar pelo eléctrico operário. Sempre era mais barato! As senhoras, algumas, abafavam o frio nos belos e felpudos casacos e alguns homens aconchegavam o gordo pescoço no sobretudo de lã de camelo.
Um dia talvez ainda tivesse um. Mas seria difícil porque nos familiares não havia nenhum que pudesse ser transformado.

Houve um tempo em que parece que o tempo tinha parado. Foram umas férias feitas de emoções. Era como que o alvo de todas sente as atenções. Passaram tão rápidas que ainda hoje sente na boca a doçura de tão bons momentos. Os dias eram longos e preenchidos de todas as brincadeiras. De repente era o herói de uma qualquer banda desenhada.
Corria pelos campos e sentia no rosto a brisa da liberdade. À noite entre as pernas do avô, aconchegava a cabeça nos carinhos desconhecidos.

Um dia numa enorme fila quis ver como a morte leva os poderosos. A pouco e pouco avançava. Muito devagar, tão devagar que perecia que a própria fila não tinha principio.
Mas, depois de horas, lá conseguiu ver aquela fraca figura estendida num esquife. O ar mais sereno que um morto pode ter. As pessoas passavam devagar. Algumas inventavam umas lágrimas e como carpideiras faziam a sua boa acção para que todos pensassem que era um desgosto sentido. Ele passou sereno, deslumbrado com tudo o
que via. Pensava, porque conseguem chorar, quando todos sabiam que era apenas o medo que os levava aquele espectáculo. Mas, o presidente estava ali estendido, e outro já se perfilava para continuar tudo aquilo que aquele não tinha feito. Iria de certo cortar muitas fitas, inaugurar o que os outros fizessem e receber os aplausos pelos discursos gastos e sem nada de novo.

Lá fora a vida continuava naquele ritmo a que já nos habituamos. Na jardim da Estrela as criadas passeavam nos trajes domingueiros sempre na mira de um militar garboso que afoitamente desse um piropo.

A dor continuava mas não queria dizer nada, pensando que de certo já ia passar. O relógio que lhe trabalhava nos ouvidos deixava um enorme desconforto.
O chilrear dos pássaros entrava pelas janelas e agudizavam os padecimentos. A dor na cabeça era insuportável e não tardava, de certo, iria estoirar.

Sentia um suave torpor que, lentamente, o invadia e que aos poucos o ia mergulhando numa sonolência tranquila. Havia no ar um doce e desconhecido odor e a música, vinda não sei donde, devagar o ia embalando num flutuar mágico. Como transportado por uma brisa ondulava na sala onde todos pareciam meditar.
Sentiu o corpo a subir na direcção do túnel que de repente apareceu na sua levitação. Ao fundo brilhavam mil luzes intensas. A tranquilidade e a paz eram imensas. Havia um bem-estar que o puxava e vozes amigas que o acolhiam.

Depois o esquecimento.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

18 De Agosto de 1917



Para ti mãe.....

Mãe, tu não sabes bem quantos, mas hoje completas mais um aniversário.
Gostaria que Deus me desse engenho e arte para por palavras deixar aqui escrito tudo o que vai dentro de mim.
Fica esta poesia, de Eugénio de Andrade, que melhor de que tudo o que eu diga, deixam bem expresso tudo o que eu sinto.
Parabéns e obrigado por me teres acompanhado em todos os anos da nossa vida.

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Mensagem......



Que importa que a Terra gire em torno do Sol e que o dia tenha 24 horas;
Que os homens passem indiferentes e apressados sem saber que caminham para o fim;
Que a fome mate as crianças de olhos dilatados sem compreenderam que mal fizeram;
Que homens nutridos passeiem os casacos de peles das amantes que os enganam;
Que os chulos maltratem as desgraçadas que vendem o corpo para os sustentar;
Que velhas desdentadas olhem perdidas o futuro, que já não têm, na cadeira de um lar;
Que aquela criança que morre no leito do hospital ainda consiga sorrir;
Que os políticos que nos roubam, todos os dias, ainda consigam dormir descansados;
Que importa que em nome do progresso tenham trocado as estações do ano;
Que os rios transbordem, deixem os seus leitos e afoguem os desgraçados nas suas cabanas;
Que a cada hora que passa morram de fome milhares de crianças;
Sim, que importa que a fome dilate os estômagos das crianças que olham já sem nada ver;
Que os ricos passem indiferentes como se nada disso lhe dissesse respeito;
Que os poderosos joguem golfe para matar a ociosidade das inutilidades das suas vidas;
Que o papa visite os que passam fome, vestido de brocados no meio dos maltrapilhas:
Com gestos de bondade estudada nas cartilhas da Igreja, esperando a adulação da miséria;
Meu Deus como podes deixar que em teu nome se continue a ser opulento na desgraça;
E a mentir aos pobres, infelizes e fragilizados que tão piamente acreditam nessas palavras.
Basta meu Deus! Acaba com a falsidade e com a mentira para que eu também possa acreditar!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Amadeu


Era talvez o meu melhor amigo.
Não me lembro como nos conhecemos, nem onde. Sei que fomos cimentando a nossa
amizade nas diversas esquinas desta vida. Sentimos na pele todas as agruras de uma guerra colonial que nada nos dizia, fechamos os olhos a muitos camaradas sempre á espera da nossa vez. Como me lembro de todos os momentos passados no mato, arma na mão e o medo a transpirar por todos os nossos poros. Era sempre o Amadeu a tentar manter em alta a abalada moral de todos. Como recordo as suas palavras nos momentos de aflição.
A verdade é que o inicio desta amizade se perde no tempo, talvez dos bancos da escola, mas sinceramente nem eu nem ele conseguimos recordar como e quando começou.
Muitas vezes estivemos em desacordo, quase sempre por causa de uma mulher, mas o bom senso prevaleceu e as nossas divergências eram ultrapassadas á volta de uma imperial bem fresca.
Um dia, recordo como se fosse hoje, apareceu ofegante e totalmente alterado
Não parecia o Amadeu de todos os dias, calmo, alegre e folgazão.
Estava transtornado.
-Que aconteceu? Perguntei.
Olhou-me de forma distante. Abstracto, sem emoção. A custo balbuciou:
-Ela foi embora. Deixou-me.
Os olhos ficaram marejados de lágrimas, o rosto congestionado.
-Foi embora. Desapareceu. Com tanto que eu fiz por ela. Quando a encontrei estava mais morta que viva. O pelo estava em tão mal estado que mais parecia uma rata do esgoto. Agora desapareceu. Ingrata, as mulheres são todas o mesmo. Tratei dela, dei-lhe carinho, um lar e agora mal apanhou o portão aberto.
Fiquei atónito.
-Mas estas a falar de uma cadela. Que tem as mulheres a ver com isso?
Olhou para mim, não sei se me estava a ver, tão inchados estavam os seus olhos e soluçou:
-Tal e qual como a Silvina. Desapareceu da mesma forma. Sem o menor gesto de gratidão.
-As mulheres são todas iguais!




A Promessa



Dona Emília estava orgulhosa do seu almoço, pois as visitas estavam deliciadas.
-Nunca tinha comido um arroz de pato como este, exclamou Vicente.
-É bondade sua menino.
-Não é Dona Emília, está mesmo divinal.
-Bem os patos eram bons, o chouriço é do nosso e o forno de lenha ajuda.
-Não seja modesta, pois sem a arte das suas mãos não seria possível esta iguaria.
-Fico sem jeito com tanto elogio, mas já o seu mano, o menino Jaime, também delirava com o nosso arrozinho de pato.
O Jacinto raspava, sem cerimónias, os restos do prato enquanto o seu pensamento estava longe, bem longe.
Desde que Mafalda tinha feito as malas e saíra de casa, sem qualquer aviso, a sua vida tinha mudado totalmente. Andava apático e, aceitara este almoço porque a insistência do Vicente foi muita e também aproveitava para matar saudades da herdade onde cresceu e onde se fez homem. Foi aqui que conheceu Mafalda, naquele Verão em que o irmão convidou os amigos de Lisboa para um fim-de-semana no monte. Desde o primeiro momento sentiu que o destino lhe tinha posto aquela mulher no seu caminho.
A atracção foi mútua e quando deram por isso estavam em lua-de-mel.
Foram dois anos intensos de paixão quando de repente, Mafalda, apanhou o avião e partiu para Paris.
Nunca fora homem de desaforos, mas saber que a mulher tinha, sem explicações, acabado com dois anos de felicidade para fugir com um homem 20 anos mais velho era difícil de aceitar. Não sabia o que mais lhe doía se era ter sido abandonada ou ser trocado por um gajo qualquer. Que poderia ter esse fulano a mais, que Jacinto não tivesse?

Mafalda sempre esteve no lado bom da vida. Filha tardia de um abastado diplomata, cresceu cumulada de todas as atenções, menina mimada a quem a vida tudo deu. Foi uma boa aluna, estudou nos melhores colégio da Europa.
Quando acabou a licenciatura em Línguas, pensou em viver em Londres mas cedo mudou de ideias, pois o clima e a frieza britânica não se coadunavam com a sua personalidade.
Voltou a Portugal e conheceu o Jacinto. Foi, realmente, amor à primeira vista, tinha encontrado o homem com que sempre sonhara. Calmo, apaixonado, aventureiro. Foi tudo tão inesperado que quando deram por isso estavam casados. Viveram numa loucura total, numa constante procura do desconhecido, passeios pelos cantos mais misteriosos do mundo, o encanto das descobertas, o fascínio do exotismo oriental. Fizeram amor em cabanas no alto de grandes montanhas, em praias paradisíacas, foram felizes nos locais mais recônditos do mundo.
Prometeram que só a morte acabaria com essa loucura.
Viveram, em dois anos, uma existência, uma vida. Foram felizes sem perguntas, sem regressos ao passado.

Tinham acabado de chegar do Quénia e numa recepção na Embaixada conheceu o doutor Viriato, homem maduro e com um encanto no falar que a deixou totalmente fascinada.
Tinha uma experiência de vida que a perturbou, falava de tudo com um conhecimento sábio, com um encanto perturbador.
Quando ele lhe disse:
-Amanhã vou jantar ao La Coupole em Paris. Quer vir comigo?
Apenas lhe saiu:
-Claro que quero!

Deixou a mesa e com pressa dirigiu-se ao carro.
-Onde vais com tanta pressa? Perguntou Vicente.
Jacinto parou, olhou o infinito e com um sorriso respondeu
-Vou a Paris fazer cumprir uma promessa.


segunda-feira, 21 de julho de 2008




HAHAHEL


A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se...... (Declaração dos direitos da criança).




Apeteceu-me tirar a mochila, enche-la de sonhos, esperanças e ilusões.
Fazer-me à estrada.
Voltar ao passado, percorrer caminhos já antes trilhados.
Reparar os sonhos nunca antes realizados.
Pedir a Hahahel umas asas, sólidas para que o Sol, tal como ás de Ícaro, não as derreter.
Estar outra vez contigo, luz dos meus olhos, ouvir a tua voz sábia e beber avidamente
tudo o que não tivestes tempo de me dizer.
Pegar e reparar os estilhaços de amores mal resolvidos.
Não ir trabalhar aos doze anos. Ir para a escola. Ir estudar.
Mano António queria chegar a tempo de impedir que qualquer Deus te levasse. Preciso de ti, mal te conheci mas sinto tanto a tua falta.
Encontrar uma mão que me levasse é escola e me libertasse de todos os fantasmas.
Ter Natais como todas as outras crianças, com doces e brinquedos.
Não ter medo do escuro, da noite da solidão.
Ser um menino como os outros e saber sorrir.