Mãe, tu não sabes bem quantos, mas hoje completas mais um aniversário. Gostaria que Deus me desse engenho e arte para por palavras deixar aqui escrito tudo o que vai dentro de mim. Fica esta poesia, de Eugénio de Andrade, que melhor de que tudo o que eu diga, deixam bem expresso tudo o que eu sinto. Parabéns e obrigado por me teres acompanhado em todos os anos da nossa vida.
No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe. Tudo porque já não sou o menino adormecido no fundo dos teus olhos. Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais. Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz. Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura. Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos. Mas tu esqueceste muita coisa; esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe! Olha - queres ouvir-me? - às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos; ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura; ainda oiço a tua voz: Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal... Mas - tu sabes - a noite é enorme, e todo o meu corpo cresceu. Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber. Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas.
Que importa que a Terra gire em torno do Sol e que o dia tenha 24 horas; Que os homens passem indiferentes e apressados sem saber que caminham para o fim; Que a fome mate as crianças de olhos dilatados sem compreenderam que mal fizeram; Que homens nutridos passeiem os casacos de peles das amantes que os enganam; Que os chulos maltratem as desgraçadas que vendem o corpo para os sustentar; Que velhas desdentadas olhem perdidas o futuro, que já não têm, na cadeira de um lar; Que aquela criança que morre no leito do hospital ainda consiga sorrir; Que os políticos que nos roubam, todos os dias, ainda consigam dormir descansados; Que importa que em nome do progresso tenham trocado as estações do ano; Que os rios transbordem, deixem os seus leitos e afoguem os desgraçados nas suas cabanas; Que a cada hora que passa morram de fome milhares de crianças; Sim, que importa que a fome dilate os estômagos das crianças que olham já sem nada ver; Que os ricos passem indiferentes como se nada disso lhe dissesse respeito; Que os poderosos joguem golfe para matar a ociosidade das inutilidades das suas vidas; Que o papa visite os que passam fome, vestido de brocados no meio dos maltrapilhas: Com gestos de bondade estudada nas cartilhas da Igreja, esperando a adulação da miséria; Meu Deus como podes deixar que em teu nome se continue a ser opulento na desgraça; E a mentir aos pobres, infelizes e fragilizados que tão piamente acreditam nessas palavras. Basta meu Deus! Acaba com a falsidade e com a mentira para que eu também possa acreditar!
Era talvez o meu melhor amigo. Não me lembro como nos conhecemos, nem onde. Sei que fomos cimentando a nossa amizade nas diversas esquinas desta vida. Sentimos na pele todas as agruras de uma guerra colonial que nada nos dizia, fechamos os olhos a muitos camaradas sempre á espera da nossa vez. Como me lembro de todos os momentos passados no mato, arma na mão e o medo a transpirar por todos os nossos poros. Era sempre o Amadeu a tentar manter em alta a abalada moral de todos. Como recordo as suas palavras nos momentos de aflição. A verdade é que o inicio desta amizade se perde no tempo, talvez dos bancos da escola, mas sinceramente nem eu nem ele conseguimos recordar como e quando começou. Muitas vezes estivemos em desacordo, quase sempre por causa de uma mulher, mas o bom senso prevaleceu e as nossas divergências eram ultrapassadas á volta de uma imperial bem fresca. Um dia, recordo como se fosse hoje, apareceu ofegante e totalmente alterado Não parecia o Amadeu de todos os dias, calmo, alegre e folgazão. Estava transtornado. -Que aconteceu? Perguntei. Olhou-me de forma distante. Abstracto, sem emoção. A custo balbuciou: -Ela foi embora. Deixou-me. Os olhos ficaram marejados de lágrimas, o rosto congestionado. -Foi embora. Desapareceu. Com tanto que eu fiz por ela. Quando a encontrei estava mais morta que viva. O pelo estava em tão mal estado que mais parecia uma rata do esgoto. Agora desapareceu. Ingrata, as mulheres são todas o mesmo. Tratei dela, dei-lhe carinho, um lar e agora mal apanhou o portão aberto. Fiquei atónito. -Mas estas a falar de uma cadela. Que tem as mulheres a ver com isso? Olhou para mim, não sei se me estava a ver, tão inchados estavam os seus olhos e soluçou: -Tal e qual como a Silvina. Desapareceu da mesma forma. Sem o menor gesto de gratidão. -As mulheres são todas iguais!
Dona Emília estava orgulhosa do seu almoço, pois as visitas estavam deliciadas. -Nunca tinha comido um arroz de pato como este, exclamou Vicente. -É bondade sua menino. -Não é Dona Emília, está mesmo divinal. -Bem os patos eram bons, o chouriço é do nosso e o forno de lenha ajuda. -Não seja modesta, pois sem a arte das suas mãos não seria possível esta iguaria. -Fico sem jeito com tanto elogio, mas já o seu mano, o menino Jaime, também delirava com o nosso arrozinho de pato. O Jacinto raspava, sem cerimónias, os restos do prato enquanto o seu pensamento estava longe, bem longe. Desde que Mafalda tinha feito as malas e saíra de casa, sem qualquer aviso, a sua vida tinha mudado totalmente. Andava apático e, aceitara este almoço porque a insistência do Vicente foi muita e também aproveitava para matar saudades da herdade onde cresceu e onde se fez homem. Foi aqui que conheceu Mafalda, naquele Verão em que o irmão convidou os amigos de Lisboa para um fim-de-semana no monte. Desde o primeiro momento sentiu que o destino lhe tinha posto aquela mulher no seu caminho. A atracção foi mútua e quando deram por isso estavam em lua-de-mel. Foram dois anos intensos de paixão quando de repente, Mafalda, apanhou o avião e partiu para Paris. Nunca fora homem de desaforos, mas saber que a mulher tinha, sem explicações, acabado com dois anos de felicidade para fugir com um homem 20 anos mais velho era difícil de aceitar. Não sabia o que mais lhe doía se era ter sido abandonada ou ser trocado por um gajo qualquer. Que poderia ter esse fulano a mais, que Jacinto não tivesse?
Mafalda sempre esteve no lado bom da vida. Filha tardia de um abastado diplomata, cresceu cumulada de todas as atenções, menina mimada a quem a vida tudo deu. Foi uma boa aluna, estudou nos melhores colégio da Europa. Quando acabou a licenciatura em Línguas, pensou em viver em Londres mas cedo mudou de ideias, pois o clima e a frieza britânica não se coadunavam com a sua personalidade. Voltou a Portugal e conheceu o Jacinto. Foi, realmente, amor à primeira vista, tinha encontrado o homem com que sempre sonhara. Calmo, apaixonado, aventureiro. Foi tudo tão inesperado que quando deram por isso estavam casados. Viveram numa loucura total, numa constante procura do desconhecido, passeios pelos cantos mais misteriosos do mundo, o encanto das descobertas, o fascínio do exotismo oriental. Fizeram amor em cabanas no alto de grandes montanhas, em praias paradisíacas, foram felizes nos locais mais recônditos do mundo. Prometeram que só a morte acabaria com essa loucura. Viveram, em dois anos, uma existência, uma vida. Foram felizes sem perguntas, sem regressos ao passado.
Tinham acabado de chegar do Quénia e numa recepção na Embaixada conheceu o doutor Viriato, homem maduro e com um encanto no falar que a deixou totalmente fascinada. Tinha uma experiência de vida que a perturbou, falava de tudo com um conhecimento sábio, com um encanto perturbador. Quando ele lhe disse: -Amanhã vou jantar ao La Coupole em Paris. Quer vir comigo? Apenas lhe saiu: -Claro que quero!
Deixou a mesa e com pressa dirigiu-se ao carro. -Onde vais com tanta pressa? Perguntou Vicente. Jacinto parou, olhou o infinito e com um sorriso respondeu -Vou a Paris fazer cumprir uma promessa.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
HAHAHEL
A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se...... (Declaração dos direitos da criança).
Apeteceu-me tirar a mochila, enche-la de sonhos, esperanças e ilusões. Fazer-me à estrada. Voltar ao passado, percorrer caminhos já antes trilhados. Reparar os sonhos nunca antes realizados. Pedir a Hahahel umas asas, sólidas para que o Sol, tal como ás de Ícaro, não as derreter. Estar outra vez contigo, luz dos meus olhos, ouvir a tua voz sábia e beber avidamente tudo o que não tivestes tempo de me dizer. Pegar e reparar os estilhaços de amores mal resolvidos. Não ir trabalhar aos doze anos. Ir para a escola. Ir estudar. Mano António queria chegar a tempo de impedir que qualquer Deus te levasse. Preciso de ti, mal te conheci mas sinto tanto a tua falta. Encontrar uma mão que me levasse é escola e me libertasse de todos os fantasmas. Ter Natais como todas as outras crianças, com doces e brinquedos. Não ter medo do escuro, da noite da solidão. Ser um menino como os outros e saber sorrir.
E não chego a saber se esta luz de oiro, Que hoje me toca e me comove assim, É deste Sol o íntimo tesoiro Ou se é tesoiro que descubro em mim…. (Francisco Bugalho)
Tem que haver um responsável. As coisas não acontecem por acaso, há sempre uma razão. Antes, não há muito tempo, quando me levantava erguia-me para mais um dia sem ter que esticar o corpo á espera que todos os elementos do meu corpo tomassem o seu lugar, que as dores se esquecessem e me abandonassem para mais uma jornada. Descia as minhas escadas a duas e duas e chegava á rua ufano, fresco e descansado. Agora conto os degraus na esperança que me deixem chegar ao fim incólume e sem mazelas. Ainda me lembro de olhar ao longe e, ver os contornos de um horizonte que se diluía no infinito, sem estreitar os olhos na esperança que, sendo umas fendas, possam adivinhar o que já não me deixam enxergar. Devorava os carreirinhos de letras das páginas dos meus livros, sem ter que ajeitar os óculos, sem necessidade de esfregar o cansaço que os invadem com tanta frequência. A música, minha companheira, entrava nos meus ouvidos. As melodias inebriavam o meu espírito, as letras embalavam-me. Agora, de repente, sem avisos, sem explicações os meus ouvidos são contemplados com uma estranha estereofonia. Som irritante, agudo, sem melodia, sem ritmo. Normal, diz o médico, cansaço, stress, desgastes. Coisas do B.I., digo eu, E agora que o meu é perpétuo. Que raiva!
Mulher, seca essas lágrimas que teimosamente querem escorrer no teu rosto, Mostra esse sorriso que não é só teu, pois já nos pertence.
Vinícius de Morais
Ai, quem me dera terminasse a espera Retornasse o canto simples e sem fim E ouvindo o canto se chorasse tanto Que do mundo o pranto se estancasse enfim Ai, quem me dera ver morrer a fera Ver nascer o anjo, ver brotar a flor. Ai, quem me dera uma manhã feliz. Ai, quem me dera uma estação de amor Ah, se as pessoas se tornassem boas E cantassem loas e tivessem paz E pelas ruas se abraçassem nuas E duas a duas fossem ser casais Ai, quem me dera ao som de madrigais Ver todo mundo para sempre afim E a liberdade nunca ser demais E não haver mais solidão ruim Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais Dizer que a vida vai ser sempre assim E, finda a espera, ouvir na primavera Alguém chamar por mim.