O destino tem quatro direcções diferentes. (Mia Couto)
Foi em 1975 que nos cruzamos no mesmo lado da barricada. Agitamos a mesma bandeira, colamos os mesmos cartazes. Tivemos o mesmo 25 de Abril. Era o romantismo da Revolução que nos animava. A nossa luta era a luta dos que acreditavam. O mesmo clube nos despertava as emoções e o sofrimento. Sim, ser do Sporting é para sofredores. Foi assim que nos tornamos amigos. Primeiro por ideais, depois porque a amizade nasce do nada. Ser amigo do Fernando é fácil, porque ele sabe o que é a amizade e cultiva-a todos os dias. Trilhamos muitos caminhos em comum. Nós e outros amigos que da vida já se despediram. Nada nem ninguém, pensávamos nós, nos podia separar. Mas o ciúme pode mais que todas as maleitas. As nossas vidas seguiram rumos diferentes. Sempre tão próximos e sempre tão longe. Mesmo afastados continuou a ser o meu melhor amigo. Passaram 34 anos e o nosso percurso cruzou-se outra vez. Não falamos do passado, falamos de nós. Não lamentamos o que não merecia ser lembrado. Trocamos um abraço e tudo recomeçou como antes. Continuamos a ser os melhores amigos. Agora nada nos irá impor outros 34 anos. Já não é possível. Não temos tempo!
Explicar o inexplicável é impossível, pelo menos é difícil. Sentir uma grande amizade e simpatia por alguém que não conhecemos é, acho eu, pouco comum. Mas acontece e, eu tenho essa grata experiência. De uma forma apenas curiosa fui espreitar o BlogdaFilipinha e fiquei fã. Descobri alguém que nos desnuda os seus sentimentos. Nos transmite com muita energia o que lhe vai na alma. Solta, num grito de revolta ou num lamento as desditas do dia a dia. Agradece com efusão os pequenos bens que a vida lhe concede. Transmite-nos de forma precisa, clara e fresca os pequenos momentos do quotidiano. Não a conheço mas, atrevo-me a dizer que é uma mulher transparente, determinada mas um pouco indecisa. Estou enganado? Mas pouco importa o que seja ou como seja, o importante é que faz parte deste mundo da Blogosfera e que me permite, dia a dia, beber a seiva dos seus pequenos mas enormes apontamentos. Força, continue. Estarei sempre à espera.
Gostava de perpetuar em frases minhas a memória de um tempo. Gostava, verdadeiramente, de ter a força e o engenho para deixar para além de mim o tributo de um amor e de uma devoção. Queria ser poeta e ter a magia das palavras para erguer um poema que fosse a epopeia de uma vida. Quem me dera poder talhar na pedra o vulto grande que me envolve, pintar na tela a imagem de uma saudade que dói e que consome. Poderia, talvez, ser trovador para levar por esse Mundo fora a cantiga que tornasse imortal a dor que me oprime. Quem nos governa nada me deu, apenas me deixou as lágrimas para verter, um coração para albergar a saudade e o pensamento que me perturba e oprime. De resto nada mais! Esse Deus que muitos veneram e idolatram é apenas o refúgio para explicar o inexplicável. È a desculpa para camuflar a dor e o infortúnio. Esse Deus, a existir, não poderia ser tão cruel e impiedoso. Não iria cercear a flor que está no apogeu da vida. Não seria capaz de roubar a essência à existência, de escurecer a luz que nos ilumina, de tirar a seiva que nos alimenta. Como poderia ser tão injusto? Tão ilógico? Tão impiedoso? Não posso crer em quem não me dá razão para acreditar. Fostes tu, Deus, que assim me tornastes. A culpa é tua!
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a. (Cristovam Pavia)
Foi no dia 16 de Janeiro de 1995 que timidamente, como é natural, entrei numa nova experiência de trabalho. Era tudo estranho, as pessoas, os métodos e a comunicação. Era um Mundo fechado para que não estava talhado. Parecia que todos faziam parte de outra dimensão. Não estava habituado, estava confundido e deslocado. Foi aqui neste meio que de repente algo me disse que afinal talvez não fosse bem assim, porque havia alguém diferente, solidário e que simpaticamente quebrou a solidão dos meus pensamentos. Um sorriso aberto, a oferta de uma amizade, foi o elo de ligação entre o que pensava e o que passei a pensar. Os receios, de repente, foram diluídos pelo apoio que vislumbrei, pela mão que se estendeu, pela solidariedade de que me apercebi. Depois, foi o cimentar de uma amizade pura e desinteressada, foi uma empatia e cumplicidade crescente. Partilhamos as arrelias do trabalho, os pequenos descansos da hora do almoço num salutar calcorrear de lojas e montras. Fomos confidentes dos pequenos segredos, das alegrias e dos momentos menos bons. Senti a sua presença e apoio forte no pior momento da minha vida. Foi fantástica na solidariedade e na forma como chegou junto dos meus amigos para lhes transmitir a minha dor. Nunca esquecerei! Continuámos, sempre, a ser solidários e a manter num nível muito elevado esta amizade, que fomos alicerçando e estendendo aqueles que fazem parte do nosso quotidiano. Hoje, separados, profissionalmente, continuamos solidificando-a dia a dia. A família já a compartilha connosco. Mulher determinada, que sabe o que quer, que olha de frente para o futuro com objectivos bem definidos. Amiga dos seus amigos, sempre pronta a ouvir e a dar a palavra de conforto e o conselho certo. Apaixonada pela vida, pelo marido e pelo fruto de um casamento abençoado. “Escorpião” em toda a plenitude. Capaz de perdoar mas, cuidado, não a queiram ver do avesso. Para si, Ana Teresa, menina do sorriso encantador, esta pequena homenagem num dia muito especial para vós e para o vosso lindo rebento. Obrigado pelo privilégio de me ter no rol dos seus amigos. A Ilda compartilha comigo este pequeno tributo. Sou vosso amigo e por isso me considero muito feliz. Muito OBRIGADO!
A suprema felicidade da vida é termos a convicção de sermos amados (Vítor Hugo)
Tenho pena de nos termos encontrado já na volta da vida. Não é por nada, é só porque nos resta menos tempo. Podíamos ter corrido o Mundo de uma forma diferente. Poderíamos, quem sabe, deixar algum legado que nos perpetuasse. Teríamos caminhado com menos cansaço. E seria mais fácil apreciar o fruto da sinfonia dos teus tachos e panelas, sem o receio do engordar que a idade nos trás. Eu sei que tens nos teus olhos escondido o desgosto de não teres o Natal que te fizesse feliz. Eu também tenho, por razão diferente, essa falta. Como gosto de partilhar a tua felicidade quando deixas a imaginação nos bonecos que são o “hobby” dos teus momentos. Nas Ceias de Cristo, nos pretos sensatos, nos anjos trovadores, e num nunca acabar de figuras que me encantam. Nesses instantes, abstraída de tudo, pareces diferente, pareces feliz. Eu sei que me proteges como nunca ninguém, desde a infância, me protegeu. As pequenas coisas que preciso, quando as procura já estão à minha espera. Sei que, como eu, és teimosa. Mas as nossas teimosias são salutares. Não levam a nada, mas servem para mostrar que não nos afectam. Teimamos e pronto, ninguém ganha. Temos as nossas casmurrices, mas de uma maneira diferente. Sem restos e sem azedumes. Gostamos de andar de mãos dadas. De conhecer. De viajar È bom seguir ao teu lado, ver quanto te apoias em mim. È bom ter-te ao pé e saber que tudo farás para que nada me falte. Caminharmos sem receios do amanhã, firmes e confiantes porque estamos ao lado um do outro. Sem medos. Eu sei, Ilda, que um dia me fecharás os olhos com ternura e carinho. Eu sei que esse dia chegará, mas não me importo porque te terei junta a mim. Obrigado por seres quem és. Como és. Obrigado por seres a minha mulher.
Como os anos foram passando, parece que foi ontem que me vi envolvido neste turbilhão onde me puseram. Lembras-te quando me prendias com uma linha a uma cadeira à porta da nossa casa? Será que a tua memória te leva à Caseta da Tomina, aos refugiados da guerra de Espanha que passavam à nossa porta, amarrados como Cristo? E quando a cheia de uma noite de Inverno nos iam arrastando na Safarenha? E as noites de Barrancos, onde apenas o cantar dos grilos punham termo ao silêncio da noite! E quando na Pampilhosa, este teu filho, ia as cinco da manhã para aquela fila onde uma senha nos dava para três pães. Sabes porque ia eu? Era assim, as mulheres nesses tempos não podiam ir sozinhos para a rua. Os meninos podiam. Agora, felizmente, as crianças são crianças. Mas ficava feliz por saber que te podia tirar esse trabalho. Era também eu, que esgatanhava o carvão que os comboios deixavam. Sem ele não teríamos lume. Não havia petróleo. Como foi difícil, tempos de guerra e de miséria. Depois viemos para Lisboa, para aquela mansarda em Belém. Nada tínhamos, mas tínhamo-nos um ao outro. Tudo nos faltava mas ficavas orgulhosa quando te diziam que o teu menino era o melhor aluno da Escola. Era por ti. Era para ti. Sempre quis que os mais lindos olhos que já conheci e conheço, tivessem aquele brilho que me tornava o mais feliz dos felizes. Um dia fui embora, o teu menino era homem. Nunca aceitastes. Eu teria que ser sempre teu, nunca quisestes perceber que eu seria sempre o teu filho, mas apenas o teu filho. Não calculas, nunca te disse, quanto me foi difícil. A doença levou-te o marido, o meu pai, que gostava muito de ti, mas de uma maneira tão difícil. Eu sei quanto sofrestes. Gostava mas não sabia demonstrar, parece que naqueles tempos os homens tinham vergonha dos afectos. Foi aí que eu vi que a mulher frágil afinal era mais forte do que imaginava. Foi difícil mas tenho saudades, do que nos faltava, do que não tínhamos, do que precisávamos. Que importava que a minha roupa fossem o fruto da tua habilidade na transformação das que alguém deixava? Que interessa que os meus brinquedos fossem fruto da minha habilidade num pedaço de cortiça, de uma lata, ou de um carrinho de linhas? Que importa que os meus livros fosse de um Alfarrabista? Sim? Que importa se eras linda e nova. Hoje, continuas linda, no pergaminho do teu rosto, no brilho dos teus cansados olhos. Mas tenho que ter saudades. Ver uma vela a apagar lentamente é difícil, pois é essa luz que me dá uma razão para viver. Não deixes morrer a chama. Preciso tanto dela.
Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou. Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar: -Diogo abre o rabo que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo. Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou. Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam. Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a viver com o nome que lhe tinham dado. A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras, seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo. Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou. Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz. Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar. Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo. Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida. Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico. Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio. O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções. E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo. Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida. Andava do ar, tudo lhe parecia diferente. Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam o seu imaginário. Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam. Parecia, até, que já gostava do seu nome. A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador. Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam. Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança. -Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho? -Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela me corresponde. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido. -Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer? -Tia, é a vizinha do sexto esquerdo. -Quem? Não pode ser! -Queres dizer do quinto andar? -Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei. -Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?