Apareceu do nada, de repente, como se ali sempre tivesse permanecido. Tinha um nariz cómico, de ponta arredondada tal como a bola que os palhaços costumam colocar. Os olhos eram duas esferas que giravam constantemente em todas as direcções, como os dos camaleões. Era um pouco grotesco e insólito na maneira como estava vestido. Roupas ás tiras coloridas com pequenos guizos nas pontas. Rodopiava deixando no ar a musica daquela profusão de adornos musicais.
Fiquei amedrontado. -Amigo, apareces assim desta forma que até assustas as pessoas!
Sorriu, num esgar de dentes brilhantes. -Não me conheces? Chegou o meu momento. Agora é tempo para eu brilhar. -Mas quem és tu? Estranho, extravagante, cómico e irreal? -Vê-se bem que andas arredado do Mundo. Andas distraído? Eu sou a esperança! -Mas, não compreendo esse teu ar tão cómico! -Tem que ser assim, tenho que me distinguir dos que andam disfarçados. Dos falsos, dos hipócritas, dos aduladores. Eu estou como sou, os outros andam dissimulados.
Depois dançou num frenesim. Rodopiou fazendo ouvir todos os sons que lhe enfeitavam o fato.
Aproveitando esta meia pausa que a época proporcionou, aproveitei e fui matar saudades do meu Alentejo. Andei embrenhado na região que me viu nascer, visitando lugares que ainda se mantêm muito vivos na minha memória. Privei com aquela gente simples e acolhedora. Ouvi, ao entardecer, os homens que à porta da Sociedade se despedem do dia com uma canção dolente, que se dilui no anoitecer que, a pouco e pouco, vai tomando conta da aldeia.
A primeira voz, como lhe chamam, começa num tom cansado:
Ouviiiii mil vezes.... ouviiiii, lá nos campos rufarem tambores.......
Ao que os outros respondem numa cadencia, sincopada:
Da janela me chamam as damas, já lá vou....já lá vou.....meu amor..
O dia esteve de Sol radioso mas a noite adivinha-se fria e, era preciso aconchegar o estômago. Tiramos à sorte e ficou decidida uma visita ao Arcada, um típico restaurante numa vila próxima, em Safara. Escolha certa. Começamos com um queijo de Serpa que se deixava derreter na boca. De seguida vieram espargos silvestres com ovos mexidos. Simplesmente divinais embora eu, como grande apreciador, possa ser suspeito. Depois, não podia deixar de ser, veio um magnifico ensopado de borrego. No ponto. Certo no tempero, na cozedura, na textura da carne. Para comer e ficar regalado. Para terminar, como hoje é dia de desculpas, um magnifico doce conventual a que chamam sopa dourada. Muito boa, numa mistura que não sei descodificar, mas que me deixou deliciado. Para acompanhar um tinto de Pias que não caiu nada mal.
Depois um passeio a pé, mesmo ao frio da noite, para ajudar a por em ordem a digestão.
Todos nós, homens e mulheres, vivemos sempre na incerteza do que queremos, do que desejamos, do que será melhor ou pior para nós. Vivemos amores com o pensamento em amores que não tivemos a coragem de viver. Sofremos paixões porque não somos, suficientemente, fortes para nos atirarmos de olhos fechados para o que desejamos. Sentimos frustrações por que não temos coragem, porque temos medo de enfrentar o que, realmente, desejamos. Pensamos muito, pensamos demais. Deixamos fugir, muitas vezes, o que queremos e quando nos arrependemos é tarde. Demasiado calculistas, falta-nos o espírito aventureiro. Somos comodistas, temos medo. Quantas vezes deixamos fugir o que pensamos ser uma ilusão e perdemos o ensejo de viver uma vida?
Isto não vem a propósito de nada, são apenas cogitações de quem nunca teve medo de avançar como o desejo e o coração mandavam. Nunca me arrependi.
Afinal só temos uma existência, só temos esta oportunidade. Se não aproveitamos......
Há dias especiais. Há dias em o brilho do Sol ilumina a nossa disposição e nos dá um alento distinto. Há dias em que tudo nos parece diferente. Há dias em que os nossos sentimentos são mais intensos. Há dias em que o amor nos parece mais amor. Há dias em que um assomo de felicidade parece abrilhantar os rostos que nos rodeiam. Há dias em que o nosso coração está mais brando, mais terno. Há dias em que somos mais solidários. Há dias em que somos capazes de compreender melhor os outros Há dias em que nos sentimos especiais. Hoje é um desses dias.
Ainda na sequencia do interessante debate da RTP sobre os casamentos homossexuais, não posso passar sem fazer algumas considerações. Todos sabemos quão controversa é a questão. Quantos paradigmas lhe estão associados. Temos a consciência de vai ser difícil inculcar em muitas mentalidades retrógradas esse conceito de que a sexualidade de cada um é livre. Que todos têm direito a escolher o seu caminho e aquilo que os faz felizes. Vai ser difícil acabar com a homofobia que povoa tantas mentes, mesmo muitas daquelas que se dizem abertas e liberais. Vai ser difícil mudar a mentalidade de uma Igreja atrasada, embuida de preconceitos, dogmática, sem abertura para a evolução das mentalidades. Vai ser difícil fazer os políticos decidir sem ambições eleitoralistas. Vai ser difícil mudar a mentalidade do meu amigo Serafim que diz: -Aceito que uma mulher goste doutra mulher, porque gostar de mulheres é fácil, eu também gosto. Mas homens de homens? Isso nunca!
Vai ser difícil e todos temos que participar nessa discussão. O vosso Blog pode ser uma ajuda. Força......
Finalmente descansa em paz. Eluana tinha 20 anos quando a fatalidade lhe tirou a vida. Sim Eluana morreu nesse dia, há 17 anos. A vida que depois lhe atribuíram não foi vida, foi sofrimento, foi artificialidade, foi desumanidade. A vida é um bem que nós gerimos, que nos dá a possibilidade de andar, correr, chorar, amar. É a vida que nos dá o bom e o mau, a alegria e o sofrimento. É a nossa vida! Que nos pertence, que nos dá a capacidade de decidir, de ser felizes. Se nos tiram tudo isto a vida termina. Eluana foi privada de tudo, ligada a uma máquina, por meio de tubos. A vegetar. Ninguém sabe se sofria, se sentia, se ouvia, se tinha emoções. Ninguém sabe. Só sabemos que jazia como um ser amorfo, abstracto, degradante. Isto não é vida, isto é mil vezes pior que a morte. Os altos dignatários de uma Igreja caduca, vieram à liça condenar o que é incondenável. Vieram apregoar e propagar o direito à vida. À vida que Eluana já não tinha. Esqueceram a dignidade. Esqueceram que viver amarrada, 17 anos, numa degradação constante e progressiva, sem esperança, sem presente, sem futuro não é vida. Esqueceram que todos os dias morrem milhares de fome, na miséria de um Mundo, que esses Senhores fazem por ignorar. Levantem a vossa voz e façam ouvir a vossa indignação, condenem os massacres, os lenocínios, os incendiários. Condenem o que é condenável. Façam-se arautos de causas nobres. Mas deixem, agora, Eluana Englaro descansar em paz. Tem esse direito.
Todos sabemos que foi o marketing quem criou todos estes dias especiais. Temos o dia da mãe, que começou por ser no dia 8 de Dezembro e, saibamos lá porque, alguém se lembrou de mudar. Dia dos namorados, dia da mulher, dia dos avós, da saudade e... eu sei lá quantos. Só não conheço o dia do homem. Há, ou será que são todos os outros? Não acredito! Mas isto foi apenas um pequeno intróito. Voltando ao que aqui me trouxe ou seja o Dia dos Namorados,no dia 14, vejamos o que nos diz a história acerca do dia de São Valentim:
"Durante o governo do imperador Caldeus II, este proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objectivo de formar um grande e poderoso exército. Caldeu acreditava que os jovens se não tivessem família, se alistariam com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega: Assíria filha do carcereiro a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram-se apaixonando e ela milagrosamente recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270 d.C." (Texto copiado na diciopedia)
Embora critico destas regras que nos impõem, não me posso desassociar da data. Para todos os namorados (casados também são namorados) a minha homenagem com esta linda poesia de Almeida Garret
Os Cinco Sentidos São belas – bem o sei, essas estrelas Mil cores – divinais têm essas flores; Mas eu não tenho amor, olho para elas; Em toda a natureza Não vejo outra beleza Senão a ti – a ti! Divina – ai! sim, será a voz que afina Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. Será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a melodia, Nem sinto outra harmonia Senão a ti – a ti! Respira – n'aura que entre as flores gira, Celeste – incenso de perfume agreste. Sei... não sinto: minha alma não aspira, Não percebe, não toma Senão o doce aroma Que vem de ti – de ti! Formosos – são os pomos saborosos, É um mimo – de néctar o racimo: E eu tenho fome e sede... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de beijos, E só de ti – de ti! Macia – deve a relva luzidia Do leito – se por certo em que me deito; Mas quem, ao pé de ti, quem poderia Sentir outras carícias, Tocar noutras delícias Senão em ti – em ti! A ti! ai, a ti só os meus sentidos Todos num confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti...