quinta-feira, 26 de março de 2009

Eu o Blog e o dilema......



Não é fácil ter um Blog, ou melhor dizendo, é fácil mas é difícil mantê-lo.
Precisa de ser alimentado, tratado, adulado e embelezado a cada momento.
O meu Blog tem sido o meu refúgio, o meu confidente.
Nele descarrego as minhas frustrações, os meus lamentos e as minhas angústias.
Nele deixo pedaços da minha vida.
Nele encontro, tantas vezes, o motivo que me leva a continuar.
Do meu Blog parto para a visita a todos os outros que me encantam,
me emocionam e que tanto me ensinam.
Tento adivinhar quem os escreve. Penso conhecer pelo que dizem.
Julgo irmana-los pelo que sentem.
Gosto de escrever para mim mas adoro compartilhar.
Fico agradecido, sensibilizado, com as frases lindas que ás vezes recebo.
Sei que muitas vezes são apenas pela amizade, mas mesmo assim, fico vaidoso. Confesso!
Mas, agora, apareceu-me o dilema.
Estou um pouco cansado e penso que não vale a pena continuar.
Ando confuso sem saber bem o que fazer.
Penso acabar e fazer como sempre fiz, escrever e arrecadar
na minha gaveta das memórias. Memórias que o tempo vai apagando.
Mas é difícil e estou a tentar ganhar coragem.
Olho para a página e vacilo, parece que me cumprimenta e sorri.
Estou confuso. Não sei o que fazer!
Se, os muito poucos, que algumas vezes me visitam um dia não me
encontrarem, não estranhem.
Foi por que me meti ao caminho.
Sempre nos podemos voltar a encontrar “noutravoltadotempo”.
Quem sabe?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Beba o cházinho, vá...beba.



Tinha acabado de fazer 32 anos mas já sentia no corpo o peso de uma existência dorida pela pancada e pelas frustrações de uma vida desperdiçada.
Sem horizontes, sem motivações.
Tinham-lhe destruído a pouco e pouco a razão de viver.
Já fora feliz, já tinha olhado de frente para a vida e construído sonhos.
Teve momentos de felicidade que de repente, sem motivos, lhe foram negados.
Maria Celeste apaixonou-se, há quatro anos, pelo Gilberto.
Foi um namoro cheio de ternura, de amor e de promessas.
Foi o sonho da vida que sempre desejou ao lado do homem que lhe dava todo o amor que precisava.
Teve um casamento de princesa e sentia-se a mais feliz entre as felizes.
Gilberto era carinhoso, doce e de uma ternura que a deixava num sonho de que não queria acordar.
Este encanto durou dois anos, lindos, preenchidos, de encantamento.

De repente tudo mudou, Gilberto, começou a chegar tarde, bebido e com uma agressividade que nunca lhe conhecera.
O homem que a adulava, desapareceu como por encanto.
Começou a martírio, os maus-tratos, as tareias que a deixavam negra.
Não sabia o que mais a magoava, se as pancadas que lhe moíam o corpo ou as palavras que lhe deliceravam a alma.
Quantas vezes teve que fugir e refugiar-se na casa da sua vizinha Gertrudes, que a acarinhava e a protegia, até
o marido adormecer e poder voltar para casa.


Hoje estava decidida, ia por termo a esta negação de existência, ao sofrimento que a consumia dia a dia.
Possivelmente iria passar o resto da sua vida numa prisão onde se iria sentir mais livre do que agora se sentia.
Mas tudo seria melhor do que esta angústia e sofrimento.

Chegou como sempre, cambaleante, vociferando os impropérios do costume.
-Então cabra esperavas que eu não viesse para meteres cá os teus amantes?
Depois descarregou toda a fúria no martirizado corpo da Maria Celeste, que cambaleou.

Não aguentou mais, tirou a faca com que partia o pão e com as duas mãos enterrou-o no peito do homem que tanto amava.
Sentiu a lamina a dilacerar a carne e a pressão dos ossos ao serem desviados pela fúria incontida de uma vida destroçada.
Ficou esperando o sangue que não brotou, antes de cair no chão.
Enroscou-se como um bicho-de-conta no seu medo e pavor. Com os olhos dilatados ainda viu o esforço moribundo
do marido, agarrando com as duas mãos o cabo de uma faca que lhe levava a vida.
Depois desmaiou.

Gilberto tentou mas não conseguia. Deu um passo em frente e ajoelhou, abriu os olhos como que procurando a
causa do que estava a acontecer. Depois baqueou e caiu sobre a lâmina que quebrou deixando, finalmente, o cabo livre
entre as mãos que o seguravam, já sem força.

Maria Celeste acordou com as palavras da vizinha.
-Beba este cházinho que a vai acalmar. Já passou tudo. Não se preocupe, eu e o meu marido vimos o que se passou
e já contamos aos senhores guardas. Eles já sabem como aconteceu.
Ele bateu-lhe, como e costume, e queria espeta-la com a faca, mas estava bêbado, caiu e acabou
por se espetar a ele próprio. Pobre coitado, teve o que merecia.
Quando lhe íamos acudir vimos tudo, somos suas testemunhas. Não se preocupe. Já acabou.
Tem uma nova vida para viver.
Beba o cházinho, vá....beba.


segunda-feira, 23 de março de 2009

Os desenrascadinhos.......




Não sou indiferente ás desgraças que todos os dias os telejornais nos fazem entrar portas a dentro.
Sinto e sofro com as misérias e tristezas que assolam muitos neste país. Sou solidário para com quem precisa.
Mas gostava, gostava mesmo, de compreender esta gente que se acotovela na fila das desgraças e da pedinchice.
Todos querem uma casa e todos exigem que o governo ou a câmara, ou sejam lá quem seja, lhe arranje uma.
Que importa quem paga. Não interessa que seja fruto, ou não, das contribuições de todos nós.
Sinto uma grande revolta quando vejo tantos marmanjos vivendo à custa dos Desempregos e Rendimentos Mínimos pela pura vontade de nada fazer.
Nasceram calões, passam os dias nas tascas do bairro, fazem filhos que a rua irá criar, riem-se dos que no dia a dia labutam pelo pão.
Nunca contribuíram com um centimo para o erário público, mas sentem-se no direito de exigir, de reivindicar.
Vivem do nosso dinheiro, dos nossos impostos. Somos nós que sustentamos essa “chulice” de comodismo e de
desenraizados que poluem muitos bairros da nossa terra.
São os proxenetas do nosso trabalho, as sanguessugas dos nossos impostos.
São os nacionais desenrascadinhos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

As aparências....

Tinha um porte que merecia respeito.
As mulheres, sempre que aparecia no escritório, ficavam doidonas e davam gritinhos de aprovação.
Diziam que era um pão, que era a receita exacta para ser genro das suas mães, e outros sem número de baboseiras.
Na realidade tinha uma bonita figura, alto, esguio e com um porte atlético invejável. Era, quase, um Adónis.
Tinha um cabelo loiro, ondulado, revolto e que mantinha numa estudada forma de casualidade.
Os olhos tinham uma cor indefinida, que se estendia entre um azul-turquesa e um cinzento claro.
O sorriso, sempre afivelado, deixava luzir uns dentes brancos e bem tratados.
De uma cortesia que por vezes se tornava servil, mantinha os corações de todas as “gajas” daquele escritório, num constante alvoroço de suspiros.
Todas à espera de um convite para o cinema ou para uma visita a um qualquer museu. Sim, naquela altura mais do que isso, seria arrojo.
O seu passado tinha algo de romântico e secreto o que ajudava toda aquela aura de mistério e desejo.
Era cubano, refugiado. Tinha fugido a um regime que o não aceitava.
Confesso que nós, os outros homens, sentíamos alguma inveja com tanta deferência.
Mas tínhamos que nos render a uma evidencia, de facto o G., vou chamar-lhe assim, tinha sido bafejado pelo distribuidor da beleza num dia e que todos os outros estavam distraídos.
Um dia, recordo como se fosse hoje, a noticia chegou como uma bala.
As mulheres não acreditavam, diziam que eram estórias de invejas. Vi mesmo algumas lágrimas rebeldes.
Os homens, esses, rejubilavam empolados, com toda a testerona à flor da pele.
O G., foi apanhado de joelhos em frente ao seu ajudante e, disso temos a certeza, não estava a rezar.
Nunca mais soubemos do tipo.
Tal como tinha surgido se eclipsou. No nada



As fantasias de um sonho......



De verdade eles amavam-se, mas era uma relação amorfa, sem motivações, sem aventura, sem aqueles momentos em que o primitivo e o preconceituoso deixam de fazer parte da realidade.
Seguiam as regras de uma cartilha ultrapassada e desactualizada. Faziam amor como se fosse uma rotina obediente a cânones antigos e estafados. Sem chama, sem rasgos.
Era apenas doçura e satisfação. Sem aventura, sem explosões.
Era um classicismo bacoco, estafado e monocórdico. Era, apenas, como o cumprir de uma regra, de uma tradição.
Ele parecia conformado com a sua falta de ambição. Sem o rasgo da diferença. Apenas com o dever cumprido.
Ela sonhava, sonhava com fantasias que não tinha coragem de falar e adormecia na ilusão de um cavaleiro que a transportasse na garupa de um alazão e, em qualquer praia deserta a despia, com os dedos a percorrer em suaves carícias um corpo prenhe de desejo.
Sentia a roupa a pouco e pouco ser despojada e o corpo estremecia em frémitos de gozos há muito contidos.
Experimentava uns lábios que a percorriam e uma língua terna e húmida que lhe moldava o pescoço em carícias ternas, lhe descobria o corpo, lhe beijava todos os contornos em fantasias voluptuosas de calor e ternura.
Gozava o fogo que a invadia em espirais de lascívia e de sensualidade.
Deliciava-se com seiva que a percorria e que brotava em míriadas de estrelas que irrompiam no seu cérebro, em explosões de loucura e em gritos de prazer.
Sentia-se a ser trespassada em fogo de glória e de loucura.
Acordou no êxtase de um calor húmido e reconfortante.
Ao lado, o marido, ressonava suavemente.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Bom dia.......



Todos os dias passava à minha rua deixando no ar a fragrância de flores acabadas de colher.
Não se pode dizer que fosse bonita, mas tinha um encanto muito especial.
Rosto um pouco anguloso, pouco feminino. Lábios carnudos e palpitantes e uns olhos negros, penetrantes que prediziam um mundo de promessas e paixão.
Os cabelos de um negro corvino balançavam ao ritmo de um andar bamboleante. Caminhava com um saracotear que obrigava os nossos olhos a um balançar constante.
Transportava no regaço dois hemisférios, marmóreos e palpitantes.
Corpo esguio, curvilíneo e com uma “felinidade” que nos deixava presos num mar de pensamentos, de emoções e de desejos.
Era o nosso madrigal para um dia motivado.
Era como o café da manhã. Quente e reconfortante.
Sabia que fazia os corações palpitar ao ritmo do seu andar.
Sorria, num sorriso de dentes alvos. Gozava com o desconforto e a basbaques dos mirones de boca-aberta.
Sentia-se feliz, distribuindo encanto.
Passava confortável com o desconforto dos que se alimentavam do aroma que os inebriavam.
Era o motivo para um dia mais feliz.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Não acredito......



Muitas vezes me confronto com a incerteza de não saber ao que vim e porque vim.
Dizem, e eu tenho que acreditar nos que sabem mais do eu, que todos viemos com um fim, com um objectivo, com uma tarefa.
Fomos programados para cumprir algo que não sabemos e que é.
Isso é um erro! Levar a consecução de qualquer tarefa na ignorância é como caminhar no escuro.
Não conduz a um bom fim. Logo se erramos a culpa é de quem nos destinou a fazer o que não sabemos e, se não sabemos não o podemos fazer de forma certa e tranquila.
Eu sei que estou a ser um pouco Advogado do Diabo e a contrariar as preconcebidas teorias da existência.
Seria mais fácil aceitar o que me tem impingido e deixar-me de conjecturas mais ou menos rebuscadas, mas não o consigo fazer. Não sou capaz sem compreender a essência e a razão da minha tarefa.
Quem me conhece sabe que não sou complicado, que sou prático e racional, mas vivo na ânsia de saber ao que vim e porque vim.
Será que no fim o vou saber?
Duvido e vou esperar.
Mas...acreditar, não acredito!