segunda-feira, 15 de março de 2010

Em três actos




Olhou-a de forma mais intensa, quase descarada. Há muito que a notava e estava decidido a fazer-se notar.

Sentia que ela não ficava indiferente aos seus olhares. Furtava os olhos mas sentia um sorriso de satisfação.

Hoje, estava decidido, iria tentar uma abordagem um pouco mais ousada.

Aproximou-se da sua mesa, perfilou-se e, com o sorriso mais cativante que descortinou, perguntou:

-Posso sentar-me à tua mesa para tomar o meu café?

Corou, um ténue rubor tingiu as suas faces. Desejava este momento mas, na verdade, não estava preparada para ele.

-Sou o Jorge foi dizendo enquanto ocupava o lugar à mesa.
Vejo-a todos os dias a tomar o seu café mas só hoje arranjei coragem para dar este passo. Gostava de a conhecer melhor. Será que logo, quando sairmos do trabalho, nos poderíamos voltar a encontrar aqui?

-És mesmo descarado, mas às seis e quinze estarei á tua espera.

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Foi uma tarde longa, os minutos pareciam eternos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava das seis horas.

Nem sequer sabia o seu nome, com a ansiedade nem lho chegou a perguntar. Não fazia mal, logo iria saber isso tudo e muito mais.

Era curioso, mal a conhecia e já sentia algo que não sabia explicar.

Chegada a hora saiu disparado. Na sua cabeça apenas estava o desejo de chegar junto dela, de a ver, de a ouvir.

Atravessou a avenida de forma desabrida, não olhou.

Foi o ruído intenso de uma travagem desesperada, um corpo pelo ar.

Baque brutal no asfalto.

Gritos, desespero.

Depois o silencio.

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Ela foi pontual, à hora aprazada estava sentada na mesma mesa.

Olhou para o relógio mais uma vez. Nada.

Seis e meia e tudo na mesma. Não apareceu, era mentira,

Não valia a pena, os homens são todos a mesma coisa.



sexta-feira, 12 de março de 2010

Mudar de vida




Vestiu-se quase mecanicamente, movimentos simples e automáticos.

O pensamento bailava na sua cabeça, irreal, sem nexo.

Catadupas de ideias acotovelavam-se num tropel de confusão e irrealismos.

Sempre fora covarde, ou melhor, sempre fora um homem simples e comedido que fugia às confusões para poder viver em paz.

Em criança foi o bombo na escola, todos lhe batiam e ele fugia, dizia, não por medo mas porque não queria alimentar guerras, pois sabia que atrás de violência mais violência viria.

Andou na vida de forma calma e comedida, sem atropelos, quase despercebido.

Cumpriu, sempre, todas as regras sem nunca perguntar: - porque ou para que?

Agora tinha chegado ao limite, não podia mais.

Estava farto de sorrir, de dizer sim.

Estava cansado de ser atropelado e ultrapassado. Não queria mais ser pisado e vexado.

Tentou reagir mas ninguém o levou a sério.

Gritou que estava farto, mas todos se riram.

Hoje estava calmo embora confuso.

Olhou-se ao espelho e a imagem que se reflectia era diferente da habitual,havia nos olhos um ódio que nunca tinha sabido, uma firmeza que desconhecia, uma determinação que estranhava.

Abotoou o caso e confirmou que tinha a arma bem segura no bolso.

Suspirou como se, hoje, fosse o princípio de um mudar de rumo.

Quando entrou no gabinete do chefe já sabia que daqui para diante tudo seria diferente.

Ouviu-se um tiro seco seguido de um baque.

Depois fez-se o silêncio.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A última oração



Hoje sentia-se mais triste do que nos outros dias. Havia uma angústia que a invadia de forma diferente, quase confortável.

Não sabia explicar, mas olhou o dia cinzento de uma maneira desigual, sem recriminações.

Aceitou, pela primeira vez, sem protestar aquela rotina que lhe era imposta.

Enquanto tomava o pequeno-almoço, pão com aquela detestável margarina e um café com um leite que mais parecia água, olhou os companheiros de todos os dias. Os mesmos gestos cansados e resignados. Os mesmos olhares distantes, vagos e distantes.

De verdade, nenhum tinha pedido para vir para aqui, afinal todos se sentiam depositados como lixo, mas lixo que já não podia ser reciclado.

Mas agora, não sabia porque, as coisas estavam diferentes. Sentia como que uma leveza que a deixava etérea. Uma tranquilidade sem ressentimentos.

Estava, até, disposta a esquecer a maldade que os filhos lhe haviam feito.
Sim, pela primeira vez, estava preparada para os perdoar porque um dia, com palavrinhas meigas, a tinham levado para aquele lar.

Sentou-se no sofá de todos os momentos, procurou no bolso o terço que sempre a acompanhava e foi dedilhando as contas com gestos repetidos milhares de vezes.

Encostou a cabeça, sorriu como não sorria há muito.

Fechou os olhos e partiu tranquila.


domingo, 7 de março de 2010

Triste



Triste?

Sim, embora a tristeza não seja um estado da alma.

A tristeza é diferente, a tristeza é algo que se apodera das pessoas e as vai minando por dentro, como o bicho da madeira que não se vê mas que corrói de forma sistemática, inexorável e impiedosa.

Toma conta de nós, apodera-se do nosso pensamento, do nosso ser, da nossa vontade. É como que uma espiral de sentimentos, difusos e confusos, que se enrolam no emaranhado das emoções que já não sabemos gerir.

Por vezes reagimos e escondemos a tristeza. Aprendemos a viver com ela, camuflamos esse sentimento.

Mas há tristezas que fazem parte de nós, que nos acompanham e que, tal como nós, acabam quando a vida acabar.

A minha não terá sorte diferente.



terça-feira, 2 de março de 2010

Morreu o coronel




Era a confusão generalizada no lugar da Dona Odete.

O estabelecimento é quase como uma tertúlia onde se cosculham e debatem os grandes e pequenos acontecimentos do bairro.

Enquanto se escolhem as hortaliças, ou se apalpam os tomates para salada do almoço, são dissecados os eventos que animam o dia-a-dia.

Mas hoje a agitação ultrapassava o habitual.

Dona Perpetua, pujante nos seus 98 quilos, não se cansava de repetir:

-Mas como vamos dizer à pobre da Dona Alzira que o coronel está morto. Sim… porque ele está mesmo morto. Eu vi com estes que a terra há-de comer. Coitadinho, estava mais tesinho que um carapau.

Dona Odete espetou um dedo e com ar, quase, ameaçador gritou:

-Mulher tenha mais cuidado, pois com tanto apalpar deixa-me os tomates mais moles que uns que eu cá sei. Escolha os que quer e deixe os outros em paz!

-Mas Dona Odete, gritou a acusada, está preocupada com a merda de uns tomates quando temos um problema mais grave? Sim, é preciso ir alguém dar a triste notícia à pobre da senhora. Afinal ela tem que saber que o pobre coronel se finou.

Esperou a aprovação geral, sei lá, se calhar umas palmas seriam mesmo a calhar.

Mas não, todas ficaram caladas esperando, expectantes, uma ideia salvadora. Sim, ir dizer à triste da Dona Alzira que o seu coronel tinha esticado o pernil não era tarefa fácil. A pobre senhora já estava bem passada, pela idade, e o coração podia pregar uma partida.

Algumas, das freguesas, iam guardando as hortaliças e escapavam pela direita baixa, quase como a querer passar despercebidas. Essa coisa de levar notícias necrológicas não vinha nada a calhar.

Dona Perpetua, com toda a imponência que o seu aspecto difundia, colocou as mãos nos “apneusados” quadris e vociferou:

-Já sei! Vai-me calhar a mim, estão todas a fugir, acagassadas, com o rabinho entre as pernas e cá a Perpetua que se amanhe.
Eu vou! Alguém tem que o fazer.

Mas logo me havia de calhar a mim. Sim a mim… que até detestava o maldito cão que todos os dias me ia mijar à porta.

Mas tem que ser.

Eu vou, pronto eu vou!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Há dias assim



Nem sempre me apetece.

Tenho dias em que as coisas fluem em catadupas e, há outras em que o cérebro embota e por mais que se tente nada sai.

Muitos dirão que não estamos inspirados, embora eu não acredite nessa coisa de inspiração, direi antes que as palavras se enrolam e amorfam , as ideais se atropelam e giram numa espiral de confusão, sem nexo.

A estória estava estruturada, os personagens alinhados, a semântica preparada mas, o pensamento disperso.

Comecei, como sempre começo, de forma ligeira, deixando que as frases nasçam no encadeado lógico daquilo que quero para pintar a folha branca do Word.

Mas as coisas não saem, há um atropelo de ideias, um desencadear de sentimentos, uma confluência de reflexões e um emaranhado de emoções que não deixam que a estória brote.

Foi o que me aconteceu hoje, o cansaço venceu.

Desisti, vou dormir.

Espero que amanhã seja diferente.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Arvore Genealógica



NÂO RESISTI À TENTAÇÃO DE DAR A CONHECER.
Foi publicado, no Brasil, pelo jornalista Luís Veríssimo, filho do grande escritor Eurico Veríssimo.

Mãe, vou casar!
Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?
Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto
psicótico?
Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que
talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...
Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou
isso.
Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea
Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...
E quando eu vou conhecer o meu.. A minha... O Murilo?
Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.
Tá ! Biscoito... Já gostei dele.. Alguém com esse apelido só pode ser uma
pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?
Por quê?
Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.
Você acha que o Papai não vai aceitar?
Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver.. .
Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade.
E olha que espectáculo: as duas metades com bigode.
Mãe, que besteira... Hoje em dia praticamente todos os meus amigos são gays.

Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.
A Bel já tá namorando.
A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?
Uma tal de Veruska.
Como?
Veruska...
Ah bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.
Mãe!!
Tá, tá... Tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou
ter um neto.
Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os
espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?
Quando ele era hétero... A Veruska.
Que Veruska?
Namorada da Bel...
Peraí. A ex-namorada do teu atual namorado... É a atual namorada da tua irmã
Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...
É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero..
De quem?
Da Bel.
Mas logo da Bel ?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do
Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska .
Isso.
Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito,
filha da Veruska e filha da Bel.
Em termos....
A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a
Bel.
Por aí....
Por outro lado, a Bel, além de mãe, é tia... Ou tio... Porque é tua irmã.
Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra
com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska...
Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.
Exacto!
Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...
Entendeu o quê?
Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
Que swing, mãe?!
É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma
hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...
Mas....
Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto
no meio!
A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
Sei! E quando elas quiserem ter filhos...
Nós ajudamos.
Quer saber ? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide.
.. A única coisa que eu entendi é que...
Que...?
Fazer árvore genealógica daqui p’ra frente vai ser f...!


(Luiz Fernando Veríssimo)