Olhou-a de forma mais intensa, quase descarada. Há muito que a notava e estava decidido a fazer-se notar.
Sentia que ela não ficava indiferente aos seus olhares. Furtava os olhos mas sentia um sorriso de satisfação.
Hoje, estava decidido, iria tentar uma abordagem um pouco mais ousada.
Aproximou-se da sua mesa, perfilou-se e, com o sorriso mais cativante que descortinou, perguntou:
-Posso sentar-me à tua mesa para tomar o meu café?
Corou, um ténue rubor tingiu as suas faces. Desejava este momento mas, na verdade, não estava preparada para ele.
-Sou o Jorge foi dizendo enquanto ocupava o lugar à mesa. Vejo-a todos os dias a tomar o seu café mas só hoje arranjei coragem para dar este passo. Gostava de a conhecer melhor. Será que logo, quando sairmos do trabalho, nos poderíamos voltar a encontrar aqui?
-És mesmo descarado, mas às seis e quinze estarei á tua espera.
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Foi uma tarde longa, os minutos pareciam eternos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava das seis horas.
Nem sequer sabia o seu nome, com a ansiedade nem lho chegou a perguntar. Não fazia mal, logo iria saber isso tudo e muito mais.
Era curioso, mal a conhecia e já sentia algo que não sabia explicar.
Chegada a hora saiu disparado. Na sua cabeça apenas estava o desejo de chegar junto dela, de a ver, de a ouvir.
Atravessou a avenida de forma desabrida, não olhou.
Foi o ruído intenso de uma travagem desesperada, um corpo pelo ar.
Baque brutal no asfalto.
Gritos, desespero.
Depois o silencio.
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Ela foi pontual, à hora aprazada estava sentada na mesma mesa.
Olhou para o relógio mais uma vez. Nada.
Seis e meia e tudo na mesma. Não apareceu, era mentira,
Não valia a pena, os homens são todos a mesma coisa.
Vestiu-se quase mecanicamente, movimentos simples e automáticos.
O pensamento bailava na sua cabeça, irreal, sem nexo.
Catadupas de ideias acotovelavam-se num tropel de confusão e irrealismos.
Sempre fora covarde, ou melhor, sempre fora um homem simples e comedido que fugia às confusões para poder viver em paz.
Em criança foi o bombo na escola, todos lhe batiam e ele fugia, dizia, não por medo mas porque não queria alimentar guerras, pois sabia que atrás de violência mais violência viria.
Andou na vida de forma calma e comedida, sem atropelos, quase despercebido.
Cumpriu, sempre, todas as regras sem nunca perguntar: - porque ou para que?
Agora tinha chegado ao limite, não podia mais.
Estava farto de sorrir, de dizer sim.
Estava cansado de ser atropelado e ultrapassado. Não queria mais ser pisado e vexado.
Tentou reagir mas ninguém o levou a sério.
Gritou que estava farto, mas todos se riram.
Hoje estava calmo embora confuso.
Olhou-se ao espelho e a imagem que se reflectia era diferente da habitual,havia nos olhos um ódio que nunca tinha sabido, uma firmeza que desconhecia, uma determinação que estranhava.
Abotoou o caso e confirmou que tinha a arma bem segura no bolso.
Suspirou como se, hoje, fosse o princípio de um mudar de rumo.
Quando entrou no gabinete do chefe já sabia que daqui para diante tudo seria diferente.
Hoje sentia-se mais triste do que nos outros dias. Havia uma angústia que a invadia de forma diferente, quase confortável.
Não sabia explicar, mas olhou o dia cinzento de uma maneira desigual, sem recriminações.
Aceitou, pela primeira vez, sem protestar aquela rotina que lhe era imposta.
Enquanto tomava o pequeno-almoço, pão com aquela detestável margarina e um café com um leite que mais parecia água, olhou os companheiros de todos os dias. Os mesmos gestos cansados e resignados. Os mesmos olhares distantes, vagos e distantes.
De verdade, nenhum tinha pedido para vir para aqui, afinal todos se sentiam depositados como lixo, mas lixo que já não podia ser reciclado.
Mas agora, não sabia porque, as coisas estavam diferentes. Sentia como que uma leveza que a deixava etérea. Uma tranquilidade sem ressentimentos.
Estava, até, disposta a esquecer a maldade que os filhos lhe haviam feito. Sim, pela primeira vez, estava preparada para os perdoar porque um dia, com palavrinhas meigas, a tinham levado para aquele lar.
Sentou-se no sofá de todos os momentos, procurou no bolso o terço que sempre a acompanhava e foi dedilhando as contas com gestos repetidos milhares de vezes.
Encostou a cabeça, sorriu como não sorria há muito.
Sim, embora a tristeza não seja um estado da alma.
A tristeza é diferente, a tristeza é algo que se apodera das pessoas e as vai minando por dentro, como o bicho da madeira que não se vê mas que corrói de forma sistemática, inexorável e impiedosa.
Toma conta de nós, apodera-se do nosso pensamento, do nosso ser, da nossa vontade. É como que uma espiral de sentimentos, difusos e confusos, que se enrolam no emaranhado das emoções que já não sabemos gerir.
Por vezes reagimos e escondemos a tristeza. Aprendemos a viver com ela, camuflamos esse sentimento.
Mas há tristezas que fazem parte de nós, que nos acompanham e que, tal como nós, acabam quando a vida acabar.
Era a confusão generalizada no lugar da Dona Odete.
O estabelecimento é quase como uma tertúlia onde se cosculham e debatem os grandes e pequenos acontecimentos do bairro.
Enquanto se escolhem as hortaliças, ou se apalpam os tomates para salada do almoço, são dissecados os eventos que animam o dia-a-dia.
Mas hoje a agitação ultrapassava o habitual.
Dona Perpetua, pujante nos seus 98 quilos, não se cansava de repetir:
-Mas como vamos dizer à pobre da Dona Alzira que o coronel está morto. Sim… porque ele está mesmo morto. Eu vi com estes que a terra há-de comer. Coitadinho, estava mais tesinho que um carapau.
Dona Odete espetou um dedo e com ar, quase, ameaçador gritou:
-Mulher tenha mais cuidado, pois com tanto apalpar deixa-me os tomates mais moles que uns que eu cá sei. Escolha os que quer e deixe os outros em paz!
-Mas Dona Odete, gritou a acusada, está preocupada com a merda de uns tomates quando temos um problema mais grave? Sim, é preciso ir alguém dar a triste notícia à pobre da senhora. Afinal ela tem que saber que o pobre coronel se finou.
Esperou a aprovação geral, sei lá, se calhar umas palmas seriam mesmo a calhar.
Mas não, todas ficaram caladas esperando, expectantes, uma ideia salvadora. Sim, ir dizer à triste da Dona Alzira que o seu coronel tinha esticado o pernil não era tarefa fácil. A pobre senhora já estava bem passada, pela idade, e o coração podia pregar uma partida.
Algumas, das freguesas, iam guardando as hortaliças e escapavam pela direita baixa, quase como a querer passar despercebidas. Essa coisa de levar notícias necrológicas não vinha nada a calhar.
Dona Perpetua, com toda a imponência que o seu aspecto difundia, colocou as mãos nos “apneusados” quadris e vociferou:
-Já sei! Vai-me calhar a mim, estão todas a fugir, acagassadas, com o rabinho entre as pernas e cá a Perpetua que se amanhe. Eu vou! Alguém tem que o fazer.
Mas logo me havia de calhar a mim. Sim a mim… que até detestava o maldito cão que todos os dias me ia mijar à porta.
Tenho dias em que as coisas fluem em catadupas e, há outras em que o cérebro embota e por mais que se tente nada sai.
Muitos dirão que não estamos inspirados, embora eu não acredite nessa coisa de inspiração, direi antes que as palavras se enrolam e amorfam , as ideais se atropelam e giram numa espiral de confusão, sem nexo.
A estória estava estruturada, os personagens alinhados, a semântica preparada mas, o pensamento disperso.
Comecei, como sempre começo, de forma ligeira, deixando que as frases nasçam no encadeado lógico daquilo que quero para pintar a folha branca do Word.
Mas as coisas não saem, há um atropelo de ideias, um desencadear de sentimentos, uma confluência de reflexões e um emaranhado de emoções que não deixam que a estória brote.