domingo, 11 de abril de 2010

O Avejão



Esta história parece mais uma estória mas não, aconteceu mesmo numa pequena aldeia alentejana.


Foi há muitos anos mas as coisas continuam presentes como se tivesse sido ontem.

O tempo passa e muitas recordações vão-se esvaindo no percurso de um esquecimento que a pouco e pouco nos vai tomando, mas outras ficam enraizadas e passam a fazer parte de nós, como um sinal que nos marca e não nos deixa nunca mais.

Quando tento que as recordações que me perseguem, se esfumem no entorpecimento natural dum cérebro que envelhece, fico surpreendido porque elas persistem com um brilho que as torna cada vez mais firmes.

Às vezes, são tantas vezes, quero esquecer e deixo os meus pensamentos entrarem por outros meandros, ziguezagueando em quiméricos pensamentos e, as ideias, ficam perdidas como se nunca tivesses existido.

Mas essa quietude rapidamente se desvanece e as recordações voltam e ficam exigindo que as não deixe esquecer.

O Outono corria célere e as tardes eram curtas, pois o escuro bem cedo tomava conta do dia, e obrigava a que todos tivessem pressa de se aconchegar junto às lareiras que aqueciam as frias noites. Os mais afoitos, por vezes, acalentavam a alma e o corpo num copo antes de se recolherem ao seguro das portas, bem trancadas, das suas casas.

Depois das nove não se via vivalma na aldeia, pois o medo estava instalado e mesmo os mais afoitos, ou que se diziam como tal, fumavam o ultimo cigarro para a janela do quintal, pois para a rua a coragem não os deixava.

Era por essa hora que as coisas estranhas e demoníacas, como pensavam, se tornavam mais intensas e os barulhos de correntes que se arrastavam penosamente só podiam ser de almas que tinham que carregar todos os pecados que as acompanharam.

Ninguém se atrevia a espreitar pois, diziam os mais entendidos, que quem as avistasse podia ficar possuído para todo o sempre, pela penosa incumbência de trazer amarrada ao corpo a desdita de um arrastar de tantos males.

Um dia, houve quem se arriscasse a espreitar por uma fisga da velha porta e pareceu-lhe lobrigar, entre o escuro da noite, um vulto negro onde pequenos reflexos de fogo queriam iluminar, fugazmente, um rosto perdido no breu.

O medo estava instalado, as mulheres já tinham receio de sair mesmo de dia. Os homens, esses, diziam-se valentes mas andavam silenciosos e cabisbaixos.

Era preciso tomar uma solução e as autoridades da aldeia tinham-se escusado a tratar de coisas não terrenas pois, diziam eles, a sua incumbência era resguardar da ordem e respeito público.

Foi então que José da Boina, Chico da Aurora e Policarpo do Café Central resolveram fazer uma espera a esses penados medos que os atormentavam e dar descanso a quem lhos estava a tirar.

Muniram-se das coisas necessárias para estas incumbências, um crucifixo benzido pelo Padre Miguel, um frasco com água benta para aspergir alguma alma mais afoita e uns dentes de alho para refrear algum instinto mais vampiresco e lá foram ficar de tocaia na esquina da Travessa Nova, que era o sítio onde mais se notavam os fenómenos.

Pouco passava das 10 da noite e os corpos dos três foram percorridos por frémito de medo pois o barulho que se aproximava era aquele que ali os tinha levado.

Chico da Aurora, tal como lhe ensinaram, saltou com o crucifixo ao alto saiu gritando:

-Vá de retro Satanás

O pobre espírito ainda quis fugir mas as pernas enredaram-se nas correntes e estatelou-se no empedrado da rua, para tranquilidade dos três valentes que lhe fizeram frente.

As almas penadas, perdão a alma penada, era o Professor Simões que arranjou esta artimanha para poder ir ter com a sua amante sem arriscar ser visto por alguém que, um dia, pudesse contar ao ausente marido os devaneios da esposa solitária.

Afinal o medo que a todos apoquentava era só um artifício que o amor arranjou.

Acho que o deviam perdoar.

sábado, 3 de abril de 2010

O milagre



Há muito que o pensamento não o deixava tranquilo.

Queria mas não era fácil.

Muitas noites acordava com uma voz que lhe gritava aos ouvidos:
-Vai, tens que o fazer!

No decorrer do dia ia deixando que os pensamentos negros se esfumassem nos problemas do quotidiano.

Havia uma monotonia de factos, uma onda de vazios que enchiam o eco que o acompanhavam.

Não eram propriamente insónias que lhe perturbavam e confundiam o sono, mas sobretudo um choque de pesadelos fantasmagóricos que povoavam a sua conturbada mente.

Por vezes, tantas vezes, acordava alagado no suor da perturbação de pensamentos que o conduziam a uma falsa libertação.

Ouvia gritos, gritos que queriam ser libertadores mas apenas tinham o condão de o deixarem mais, e mais, agarrado a essa louca necessidade de acabar com o sofrimento de um vazio que o enchia de medos e frustrações, que se alapavam no seu conturbado pensamento.

Não queria mas parecia ser a única solução, a única forma de o libertar dessa amálgama de medos que o sufocavam e angustiavam.

Nada lhe saía bem. A mulher, sem olhar para trás, partiu com um funâmbulo do circo que visitou a aldeia. Deixou num pequeno papel razões para essa fuga ao ócio num panorama limitado. Queria mais, precisava de espaço.

Inácio quis chorar, quis gritar toda a frustração do abandona mas as lágrimas tinham secado e a garganta calou os sons.

Queria desistir, o fim podia ser o princípio do descanso que a vida lhe tinha tirado.
Tinha um baraço forte, de sisal entrançado, que servia para segurar o baloiço onde ELA se deixava embalar, ao fim do dia, no remanso de uma canção do Júlio Iglésias.

Ia fazer um laço à volta do pescoço e tal como o outro, o da Bíblia, escolheria uma oliveira, árvore que dá vida e que pode levar a existência de quem da vida mais nada espera.

Manhã cedo, na timidez de um Sol que despertava para o dia, foi à procura da árvore da vida.

Era uma oliveira imponente, nodosa e onde os reflexos dum Sol que despertava inundavam o olhar de verde de oiro.

Subiu na força do braço onde repousava inerte o baraço que o ia libertar de todo o cansaço.

Prendeu-o no tronco mais forte capaz de o segurar quando se libertasse na procura do espaço que nunca encontrou.

Olhou em redor numa despedida, quiçá, já com saudades desta vida.

Ali, mesmo ao lado, num ninho tosco e desajeitado pipilavam duas aves implumes, bicos abertos num desespero de olhos fechados, quase monstros na agonioza procura de uma mãe que não apareceu quando se libertaram daqueles cascas em que metamorfosearam durante doze dias.

Deu-se o milagre Inácio encontrou, finalmente, uma razão.

Tirou a corda, pegou no ninho e correu para casa.

Queria viver para cuidar das duas rolas que o destino lhe colocou no caminho.

Agora tinha um motivo

http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt

quinta-feira, 25 de março de 2010

Eu




Eu não quero ver e fecho os olhos como se de olhos fechados deixasse de ver os pensamentos, que por vezes, me avassalam.

Eu quero matar o pensamento e deixá-lo agoniar lentamente para ele sentir, também, a angústia das longas noites de insónias.

Eu quero controlar as emoções como se as emoções se deixassem controlar, amarfanha-las em rodilhas feitas de nada para que o vento as possa levar.

Eu quero que o tempo deixe de ser hoje e volte a outros tempos para eu poder sentir, outra vez, o sentido da vida.

Eu quero acreditar, como antes acreditava, e deixar morrer o ímpio que plantaram dentro de mim.

Eu quero ser outra vez EU, embora saiba que esse EU nunca mais pode existir.


terça-feira, 23 de março de 2010

Ab imo corde




Sinto no rosto o frio da noite, enquanto um desencanto se esvai nas espirais de fumo de um cigarro que arde no tédio de umas mãos frias.

Os pensamentos povoam a imensidão de um cérebro vazio, enquanto um chiar ensurdecedor enxameia os meus ouvidos.

A névoa que me tolda os olhos, apenas me deixa lobrigar as sombras ténuas de orgias de segredos que não consigo desvendar.

Os silêncios doem como estiletes no sabugo duma indiferença que me possui, como se o meu sentir fosse o sentimento de uma prostituta que se evapora em lascivos gestos de torpor.

Compreendo os que precisam do ácido que lhes aqueça os sentidos e lhes liberte os pensamentos.

Entendo o afogar, no álcool, das agruras da escuridão dos pensamentos que nos minam e nos possuem.

Aceito os que desistem de viver e se apagam num flash, na procura de uma escuridão que os liberte do desconforto de uma luz que oprime.

Compreendo, entendo e aceito do fundo do coração.


domingo, 21 de março de 2010

A Rosinha



Alguém me pediu para amenizar, por isso, deixo isto a contra-gosto.
Os outros que me perdoem.



Há quem diga que é bonita e eu não quero tomar qualquer posição nesse assunto.

Cada um de nós tem o seu próprio conceito de beleza e, felizmente, nem sempre podemos estar de acordo.

De facto a rapariga é vistosa, têm um peito profícuo e um rabo que parece falar quando ela se saracoteia pelas ruas do bairro.

A cara, bem quanto à cara, as opiniões estão um pouco mais divididas.

Como disse, eu, não vou tomar partido e até acho que o mal não vem por ai.

Tem um rosto agradável, bem emoldurado por uns fartos cabelos negros, onde uns olhos dengosos, mas agradáveis, conseguem dar um certo ar de mistério.

Ela, a Rosinha como lhe chamam, é muito jovem, logo, a vida ainda não teve tempo para deixar marca a precisar de camuflagem, só algumas borbulhas irritantes precisam, por vezes, ser disfarçadas com um milagroso creme de beleza.

Mas isso são, apenas, contingências que facilmente se ultrapassam.

Logo como se vê a moça pode, com toda a certeza, aventurar-se a” miss” qualquer coisa, pois pelo aspecto é sempre uma séria candidata a uma coroa.

É o seu sonho e tentou.

Um amigo inscreveu-a num concurso de “Miss bairro dos aflitos» mas, foi uma verdadeira catástrofe.

Desfilou.

Deslumbrou e tudo parecia correr estar muito bem.

Mas chegou a hora da entrevista, ai… abriu a boca e foi um desastre, a magia acabou.

Afinal a beleza é algo mais do que o aspecto.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O meu neto





Hoje apenas quero apresentar o meu neto Rodrigo.

Foto tirado no dia em que fez quatro meses.

Sou um avô babado mas, penso, tenho razões para isso.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Em três actos




Olhou-a de forma mais intensa, quase descarada. Há muito que a notava e estava decidido a fazer-se notar.

Sentia que ela não ficava indiferente aos seus olhares. Furtava os olhos mas sentia um sorriso de satisfação.

Hoje, estava decidido, iria tentar uma abordagem um pouco mais ousada.

Aproximou-se da sua mesa, perfilou-se e, com o sorriso mais cativante que descortinou, perguntou:

-Posso sentar-me à tua mesa para tomar o meu café?

Corou, um ténue rubor tingiu as suas faces. Desejava este momento mas, na verdade, não estava preparada para ele.

-Sou o Jorge foi dizendo enquanto ocupava o lugar à mesa.
Vejo-a todos os dias a tomar o seu café mas só hoje arranjei coragem para dar este passo. Gostava de a conhecer melhor. Será que logo, quando sairmos do trabalho, nos poderíamos voltar a encontrar aqui?

-És mesmo descarado, mas às seis e quinze estarei á tua espera.

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Foi uma tarde longa, os minutos pareciam eternos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava das seis horas.

Nem sequer sabia o seu nome, com a ansiedade nem lho chegou a perguntar. Não fazia mal, logo iria saber isso tudo e muito mais.

Era curioso, mal a conhecia e já sentia algo que não sabia explicar.

Chegada a hora saiu disparado. Na sua cabeça apenas estava o desejo de chegar junto dela, de a ver, de a ouvir.

Atravessou a avenida de forma desabrida, não olhou.

Foi o ruído intenso de uma travagem desesperada, um corpo pelo ar.

Baque brutal no asfalto.

Gritos, desespero.

Depois o silencio.

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Ela foi pontual, à hora aprazada estava sentada na mesma mesa.

Olhou para o relógio mais uma vez. Nada.

Seis e meia e tudo na mesma. Não apareceu, era mentira,

Não valia a pena, os homens são todos a mesma coisa.