Quando comecei, no dia 27 de Junho de 2007, era apenas uma tentativa de provar a mim mesmo que podia, tal como os outros, compartilhar com todos os meus pensamentos.
Eu queria que alguém, que todos vós, que me visitam me deixassem essas palavras que me tem alimentado.
Hoje atravesso uma fase difícil, o trabalho tomou conta de mim e o cansaço têm-me embotado o sentido e não me tem dado tempo para fazer mais.
Tem sido difícil esta luta entre o querer e o poder, entre o desejo e a necessidade.
Hoje já sei que sou capaz, tenho a certeza do vosso apoio, por isso vou vencer a luta e racionalizar o meu tempo.
Quero, daqui a um ano, estar aqui a recordar mais um aniversário.
Parabéns a todos quantos aqui me mantém, a todos que braço a braço me tem dado as palavras que me alimentam, a força que me motiva.
Olho em redor e não encontro nada a não ser uma angústia que sorrateiramente se apodera de mim e me consome ardilosamente.
Não sei explicar, mas as palavras morrem cá dentro, agrilhoadas num desconforto que dói, ficam presas e desaparecem num silêncio que magoa.
Quero reagir mas o cansaço anicha-me nos seus braços e vai minando uma vontade que deixou de existir.
As ideias agitam-se na minha cabeça, a inspiração continua a fervilhar esperando que as mãos botem em frases coloridas este emaranhado de coisas que quero dizer, que quero libertar.
Mas o cansaço é maior que a vontade, esta fadiga que se apodera do desejo apenas me levam a adiar o que quero contar hoje.
Penso que depois vai ser mais fácil, mas a seguir é como hoje e o cansaço adormece o desejo. Só me resta adiar.
Era uma casa à beira mar, bonita mas a precisar de umas boas obras. O tempo, a intempérie e a salinidade tinham-se encarregue de todas as mazelas que apresentava.
Apesar de tudo continuava a ser uma bela casa, amplas janelas rasgadas para um oceano alteroso, onde as vagas num contínuo vaivém deixavam no ar os sons poderosos da natureza.
A casa fascinava-me, não sei explicar muito bem porque, mas havia um encantamento que se colava à minha pele.
Dizem os mais antigos, não sei se è verdade, mas os mais velhos embora enredados pelos sonhos que lhes povoam a cabeça encontram sempre laivos de veracidade nas suas recordações. Mas, como ia dizendo, contam os mais antigos que foi ali que morreu de forma estranha Maria do Amparo.
Era, contam eles, a rapariga mais bonita e alegre que conheciam, cabelos de oiro emolduravam um rosto angelical, onde dois olhos da cor do céu pareciam enfeitiçar quem se atrevia a fita-los.
Era, diziam, linda como os anjos, doce como o mel e radiosa como a estrela polar. Não havia homem na aldeia que não sonhasse, todos os dias, com a candura daquele sorriso que os levava enlevados.
José da Bernarda, diziam, era o único que parecia prender o interesse da Maria do Amparo mas, por desgraça parecia ser o único que não se mostrava interessado na rapariga.
Os olhos dela, lagos de água cristalinos, capazes de afogar o mais afoito bem se derramavam sobre o homem que o seu coração assinalara como o eleito, mas ele parecia arredado e indiferente aquela paixão que se deixava adivinhar.
Um dia, contam os antigos, a rapariga em rodeios de mariposa pôs a delicada mão no ombro do José e com um sorriso capaz de encadear o Sol e convidou-o para um café. José com um sorriso delicado, retirou a mão que havia aterrado e pediu desculpa por não aceitar, mas corajosamente explicou que as mulheres não lhe despertavam interesse.
Dizem, os mais antigos, que Maria do Amparo nunca mais saiu de casa e definhou como uma flor arrancada da terra.
Deixou de aparecer e quando foram por ela encontraram o cadáver sentado em frente à janela onde uns olhos já apagados pareciam querer abarcar o mar que ondeava indiferente.
Passaram muitos anos e a casa continua vazia, as paredes sentem as mazelas do abandono e, como dizem todos, a alma de Maria do Amparo continua a encher nas noites escuras a casa à beira mar.
O cão não tinha culpa mas levou um pontapé e ganiu de dor.
Foi-se anichar debaixo de uma mesa com um olhar tão triste que metia dó.
Era sempre assim, irascível com os mais fracos e na sua covarde frustração batia nos que não se podiam defender.
Hoje foi humilhado, enxovalhado na presença de todos. Corou, resmungou entre dentes, boca cheia de impropérios que ninguém percebeu. Meteu o rabo entre as pernas e saiu espumando a raiva em frases surdas.
Foi jurando vingança que começou no pobre animal que sem saber porque, sentiu no lombo o bico da bota. Se não fosse o dono as coisas seriam diferentes, pois não era bicho para se ficar.
A segunda vítima foi uma cadeira que voou contra a parede e se quedou estática de pernas para o ar.
Depois largou tudo e, no refúgio do lar, chorou todo o seu desapontamento em soluços, convulsivos, fundos de ódio e de vinganças anunciadas.
Quando acalmou fez uma festa no pobre bicho que se tinha enroscado aos seus pés, com um olhar tão triste que metia dó.
-Desculpa tu não tens culpa, mas enquanto não descobrir e matar o sacana do padre que me desgraçou perco as estribeiras e não dou conta de mim.
O Lorde parece que percebeu, abanou a cauda e lambeu a bota que, há pouco, tão mal o tratara.
-Ouve cão, eu vou descobrir esse malvado, vou-lhe furar os olhos, arrancar-lhe a língua e cortar-lhe algo que os padres não deviam usar.
O animal ficou assustado, toda essa raiva estava a meter-lhe medo e ele não sabia que parte lhe podia estar reservada. Mas o dono, desta vez, percebeu o receio e tranquilizou:
-Não te assustes, quando matar o filho da puta que me violou, há quinze anos na catequese, o meu pesadelo termina e vou ser o melhor dono do mundo.
O cão latiu, abanou o rabo e voltou a enroscar-se aos pés do dono.
As imagens são longínquas e encontram-se muito esbatidas no álbum da memória.
Fogachos iluminam, a curto espaço, a dormência de um cérebro confuso num emaranhado de emoções que morrem logo que tentam nascer.
Por vezes, parece querer sorrir e a boca desdentada faz um ligeiro esgar numa procura de articulação, que teima em não responder ao fraco estímulo de um cérebro já meio parado.
O olhar, difuso, vagueia como chama a bruxulear num sopro, numa aparente tentativa de encontrar algo que já não sabe bem o que é.
Os olhos piscos, deixam antever fogachos de uns recônditos flashes de memória que logo se esbatem em ténuas imagens pardacentas.
Esteve, até ontem, num pardieiro a que chamavam lar. Depósito de velhos que estiolam no recôndito de lembranças, olhos parados no tempo. Abandonados em recordações que os povoam e na tristeza em não descobrir o motivo. Largados, quase esquecidos. A filha, doutora, é a recompensa duma vida de lutas e sacrifícios.
O coração cansou e deu o primeiro alerta.
Hoje na cama o hospital espera, não sabe bem o que, mas espera.
Sabe que o fim não tarda já soam, ao longe, as trombetas que ribombam, já vislumbra o anjo negro que se aproxima.
Ainda olhou num olhar desbotado mas a filha não apareceu.
Há coisas que já não sei descrever. Não porque me falte o engenho, mas a memória perde-se nos meandros de outras histórias, que se deixam entrelaçar e acabam confundidas no emaranhado de recordações que habitam nas conexões sinápticas do meu cansado cérebro.
Tenho a ideia, um pouco baralhada, dos rostos que povoam o meu pensamento mas os nomes, esses, já os vou misturando.
As cenas andam presentes nos episódios que guardo na ânsia de um dia os expor nestas linhas, alinhadas num ordenado carreiro de lembranças, são momentos que me marcaram e que se me colaram à pele, como tatuagens que nem o tempo consegue apagar.
Os sítios são, sempre, aqueles onde os meus pés calcorrearam a desinquietude própria de quem tem pressa de crescer para encontrar o espaço a que julgava ter direito.
Quando me lembro há sempre umas lágrimas a adornar um sulco na saudade. Não da magia dos tempos maus e difíceis, mas da nostalgia duns pés que caminhavam sem cansaço e de um corpo escorreito e incólume ao frio e ao calor. É uma melancolia da vida.
Depois, deixo-me embrenhar nestas cogitações e acabo por olvidar o que tinha para contar.
Confesso que me esqueci e garanto que era importante.