
Hoje o caminho estava diferente.
A rua parecia estar ao sabor de ondas.
Bem queria manter o passo certo, mas havia um tremor que o não deixava. O passeio estava aos altos e baixos. Tentava formar os movimentos mas o chão não estava quieto.
Ia avançando com muita dificuldade, pondo os pés para que o chão não andasse nesse movimento que a sua cabeça seguia.
Sabia que tinha bebido mais do que a conta, mas não podia deixar os amigos e o pitéu estava mesmo bom. Aquele gajo, o Zé da Corneta, era mesmo especialista em arranjar estas petiscarias.
Não sei bem o que aquilo era, mas que estava bom estava. Não é que tivesse comido muito, porque o vinho da colheita do João Nabo era uma pinga de se lhe tirar o chapéu.
Agora estava neste mar de tormentas para descobrir a sua casa. Dava um passo, recuava dois e tinha que apoiar a mão na parede senão ainda malhava com os cornos na calçada.
Mas devagar lá ia indo, toldado e com um zunido na cabeça que mais parecia que um enxame de abelhas se tinha instalado na cachimónia.
Tinha prometido à Zulmira que chegava cedo e até estava com ganas de se atirar a mulher, pois há muito tempo que ia esquecendo dela.
Mas neste estado as coisas não iam ser fáceis.
Ia ouvir muitas e boas e o raio da mulher quando queria era mesmo muito agressivo e tinha uma língua sibilina, mas isso ia superar com as promessas do costume.
Ele quando prometia era para cumprir, mas era fraco e perante um bom copo de tinto depressa olvidava todas as juras.
O caminho estava cada vez mais difícil, agora não era só a cabeça que girava, as pernas também estavam desengonçadas.
Parou um pouco a tentar encontrar força para o resto da caminhada, procurou nos bolsos um cigarro mas nada.
Parava para recuperar forças e para restabelecer um equilíbrio que teimava em o levar aos repelões.
Bem olhava, mas o raio da sua rua tardava em aparecer, até já tinha dúvidas donde morava. A sua casa até era bem visível, pois o amarelo contrastava com o branco das restantes.
Será que mudaram a rua? Esses gajos da Câmara andavam sempre com invenções e se calhar mudaram a rua! Mas, também, uma rua não se muda assim de repente.
Ia continuar. Perfilou-se numa vertical muito duvidosa. Pernas bambas. Oscilou e o passo não saiu.
Sentou-se num portado que parecia ter sido ali posto para ele.
Fechou os olhos e adormeceu profundamente.

