
Habituei-me a vê-la todos os dias sentada num pequeno banco à porta da sua casa.
Tinha uma idade indefinida, a pele encarquilhada em sulcos de pergaminho emolduravam uns olhos vivos, inquietos. Andavam sempre num constante vaivém na procura de quem vinha, de quem ia e de quem passava. Nada lhe escapava.
Foi, talvez, no ano passado que a conheci, foi uma coisa do acaso, daquelas situações que nos acontecem.
Ia eu apressado a caminho do transporte quando de forma inesperada um pombo me atingiu na manga do casaco com aquela coisa mal cheiroso que os queridos animais largam sem pedir licença.
Fiquei, devem calcular, pior que estragado olhando para uma manga besuntada daquele tão mau aromático produto.
Ouvi, então,a Dona Carmem, numa voz lamentosa chamar:
-Meu senhor, venha cá que eu limpo o seu casaco com um pouco de água quente.
Fui mesmo, não me podia apresentar à entrevista naquele estado.
Limpou a porcaria e depois com um pano embebido em água quente deixou a manga como se nada tivesse existido.
Desta forma começou a nossa amizade e, agora, sempre que passo pela rua da Dona Carmem temos um largo paleio.
-Sabe meu senhor eu não me chamo Carmem! Quando vim servir para Lisboa, tinha 16 anos, a minha senhora disse que o meu nome não era próprio para uma menina e eu escolhi outro, escolhi Carmem.
Gostava desse nome, era igual ao de uma artista espanhola que me encantava.
Fiquei Carmem e esqueci o nome que a minha madrinha me tinha dado que era Hermengarda, como se isso fosse nome para gente.
Foi uma senhora muito importante na minha vida, tratou-me como se eu fosse da família. Estive nessa casa até casar, casei com 22 anos e vim morar para aqui.
O casamento foi o maior erro da minha vida. Enquanto namoramos ele era o rapaz mais gentil que conheci, educado, cheio de atenções e no primeiro ano de casados também foi assim, Depois mudou e os maus tratos começaram, chegava perdido de bêbado, implicava com tudo e daí até as agressões não tardava nada. Andava toda negrinha.
-Mas, balbuciei eu, porque não fez queixa dele?
Abriu os olhos, fez um beicinho que lhe vincou mais as rugas do rosto.
-Naquele tempo? Não valia a pena, a polícia dizia que entre marido e mulher ninguém metia a colher.
Era levar e andar calada porque até, com vergonha, escondía das vizinhas.
Fiquei sem saber o que dizer, mas ela continuou:
-Foram 10 anos de sofrimento até que ele desapareceu de uma vez por todas.
Mas, perguntei eu:
-Desapareceu?
-Sim, faz no dia 10, do mês que vem, 35 anos que o maldito desapareceu para nunca mais voltar.
Sabe que nunca esqueço o dia, porque foi nesse que eu cimentei o meu quintal, era de terra muito macia, mas eu cimentei-o. Já tinha comprado as pedrinhas, julgo que se chamam gravilha, e o cimento. E eu próprio fiz o trabalho, tinha visto como o meu pai, que era trolha, fazia.
E, perguntei eu:
-O seu marido nunca mais deu noticias?
-Nunca mais para alegria da minha alma. Passados dois anos a polícia chamou-me para dizer que desistiram da busca, que se calhar tinha ido para o estrangeiro.
Para o estrangeiro! Só sei que o maldito nunca mais me apoquentou.
-Mas, perguntei eu, porque cimentou o quintal nesse dia? Isso faz-me confusão.
Olhou-me com o sorriso mais enigmático que eu alguma vez tinha visto. Sorriu e baixando a voz segredou-me:
-Sabe porque lhe faz confusão eu ter cimentado o quintal?
Sabe?
-É porque o senhor é mais esperto que os polícias todos.


