domingo, 12 de setembro de 2010

Um jantar prometido




Alguém me perguntou se eu não poderia escrever um conto com um final feliz.
Tentei. Será que consegui?




Foram os melhores amigos na infância. Brincavam longas tardes sem se aperceberem das diferenças que um dia iriam definir os seus destinos.

Ela, Maria Helena, filha de um próspero e abastado comerciante, ele Ricardo, filho de um pobre balconista de uma sapataria da moda. Mas esta diferença de estatutos não incomodava as crianças que em toda a sua inocência brincavam, sob a vigilância da empregada, nos jardins da vivenda da família abastada.

-Um dia, quando tiver muito dinheiro, vamos jantar, os dois, aquele restaurante da esquina, dizia Ricardo.

-Aquele que tem muitas luzes!! Exclamou ela batendo palmas.

O tempo rolou, as crianças cresceram e enquanto Ricardo continuou a estudar na sua cidade, Maria Helena foi aprender para um colégio na Suíça.

Ricardo acabou o curso e atirou-se ao trabalho que era a única solução para amenizar as dificuldades daquela família.

Teve sorte na vida, talvez influenciado pela profissão do pai, enveredou pela indústria do calçado e com muita dedicação e saber tornou-se num grande magnata.

Á primeira fábrica seguiram mais duas, depois do mercado nacional vieram as exportações.

Era um trabalho que o absorvia mas, Ricardo, nunca a esqueceu e todos os dias dava por si a olhar embevecido os jardins onde passou dos mais belos momentos da sua infância.

Fechava os olhos e via os loiros caracóis da Maria Helena a brilhar com os reflexos do Sol que os iluminavam.

Quinze anos foram passados. Maria Helena voltou, da menina que tinha partido apenas restavam os longos caracóis dourados, porque o tempo encarregou-se de dar forma a um corpo de criança e transformá-lo num radioso corpo de mulher.

Ricardo quando a avistou sentiu uma alegria como há muito não experimentava, e o grito saiu sem que ele o pudesse reprimir.

-Maria Helena de volta?

Ela, olhou-o com uma altivez que o regelou.

-Para si Doutora Maria Helena e, julgo, não o conhecer de nenhum lado.
Virou as costas, entrou no descapotável vermelho e saiu disparada como se fosse a dona de todas as ruas

Ricardo cerrou os punhos de raiva, mordeu os lábios de desespero e jurou nunca mais olhar aquele jardim que agora ia odiar com toda a sua força.

Os dias perfilaram-se uns atrás dos outros, deram lugar aos meses que por sua vez se foram transformando em anos.

A voragem dos tempos, as crises e as depressões foram transformando as vidas das pessoas.

O pai da Maria Helena foi apanhado no ruir das bolsas e viu toda a sua fortuna ser devorada. Foi à falência.
Não aguentou e um dia foram encontrar o pobre homem pendurado, pelo pescoço, numa trave da velha adega. Rosto roxo e língua pendente num esgar de morte que até aos mais corajosos causou alguma angustia.

Num instante os credores se encarregaram em deixar as duas mulheres com as roupas e as jóias que conseguiram guardar das vistas dos credores.

Por caridade uma velha tia deu-lhes guarida.

Maria Helena procurou emprego de forma continuada, respondeu a tudo que havia para responder, foi a todas as entrevistas que conseguiu mas sem êxito. Para uns era nova de mais, para outros já tinha muita idade, nuns lados tinha habilitações a mais, para outros tinha experiencia a menos.

Dona Perpétua, mãe de Maria Helena, não aguentou a pressão e um dia tomou todos os comprimidos de uma caixa de soporíferos, quando a filha a encontrou estava às portas da morte.

Está no hospital à espera do pior desenlace.
É uma questão de meses dizem os médicos.

Ricardo, bafejado pela sorte, conseguiu com as desgraças alheias aumentar o seu negócio, investiu e comprou velhas industria que tornou em Empresas modernas e prósperas. É um hábil homem de negócios que tem conquistado os mercados internacionais.

Maria Helena chegou ao ponto em que mais nada lhe resta, o desalento já se começou a apoderar das poucas forças que ainda lhe sobram.

Não quer seguir o exemplo dos pais, quer viver porque a mãe, mesmo moribunda, precisa dela.

Desesperada arranjou coragem, nem ela sabe bem como, e esperou por Ricardo à porta da sua Empresa.

Quando o viu, com a voz mais humilde que encontrou dirigiu-se ao seu antigo amigo:

-Ricardo dá-me um momento por favor?

Olhou-a de forma intensa, o coração num batimento desmedido, mas arranjou coragem para dizer:

-Para si doutor Ricardo, e, não me lembro da conhecer lado nenhum.
Sabe menina! Não tenho a perder, bom dia!

-Ouve! Insistiu ela, tens todas as razões do mundo para me desprezares mas Deus já me castigou o suficiente, já sofri o que tinha a sofrer, por isso esquece por favor e por toda a nossa amizade de crianças, que levianamente deitei a perder, ouve o que
tenho para te dizer.

Preciso de um emprego, qualquer um, faz isso pelas nossas recordações e pela minha mãe.

Ficou sem saber o que dizer, limpou o rosto num disfarce no desconforto da situação.
Olhou aqueles olhos que nunca esqueceu, aqueles lábios com que tanto sonhou e sem ser capaz de a olhar de frente, murmurou:

-Passa amanhã, de manhã, pelo Departamento de Recursos humano vai ter com o Doutor Inácio. Eu vou dar instruções para te atender.

Entrou no carro e partiu disparado como se fosse o dono de todas as ruas.

Começou a trabalhar na secção de exportação, o facto de saber Inglês e Francês foram
pontos a seu favor. Trabalhou como nunca, a primeira a chegar e a ultima sair. Ganhou o respeito dos colegas e dos chefes pelas capacidades de trabalho, pela humildade e pela forma como se conseguiu impor.

Ricardo ia assistindo, discretamente, ao renascer da menina que um dia tinha ido para a Suíça.

Foi numa segunda-feira ao chegar, de manhã, ao seu gabinete, Maria Helena, encontrou na secretária um cravo vermelho em cima de um envelope castanho.

Abriu e leu:



Maria Helena
Aceitas aquele jantar que há muito te prometi?
Não pode ser no Restaurante da esquina, mas conheço outros.
Ricardo










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sábado, 28 de agosto de 2010

O segredo de um quintal cimentado




Habituei-me a vê-la todos os dias sentada num pequeno banco à porta da sua casa.
Tinha uma idade indefinida, a pele encarquilhada em sulcos de pergaminho emolduravam uns olhos vivos, inquietos. Andavam sempre num constante vaivém na procura de quem vinha, de quem ia e de quem passava. Nada lhe escapava.

Foi, talvez, no ano passado que a conheci, foi uma coisa do acaso, daquelas situações que nos acontecem.

Ia eu apressado a caminho do transporte quando de forma inesperada um pombo me atingiu na manga do casaco com aquela coisa mal cheiroso que os queridos animais largam sem pedir licença.

Fiquei, devem calcular, pior que estragado olhando para uma manga besuntada daquele tão mau aromático produto.

Ouvi, então,a Dona Carmem, numa voz lamentosa chamar:

-Meu senhor, venha cá que eu limpo o seu casaco com um pouco de água quente.

Fui mesmo, não me podia apresentar à entrevista naquele estado.

Limpou a porcaria e depois com um pano embebido em água quente deixou a manga como se nada tivesse existido.

Desta forma começou a nossa amizade e, agora, sempre que passo pela rua da Dona Carmem temos um largo paleio.

-Sabe meu senhor eu não me chamo Carmem! Quando vim servir para Lisboa, tinha 16 anos, a minha senhora disse que o meu nome não era próprio para uma menina e eu escolhi outro, escolhi Carmem.

Gostava desse nome, era igual ao de uma artista espanhola que me encantava.
Fiquei Carmem e esqueci o nome que a minha madrinha me tinha dado que era Hermengarda, como se isso fosse nome para gente.

Foi uma senhora muito importante na minha vida, tratou-me como se eu fosse da família. Estive nessa casa até casar, casei com 22 anos e vim morar para aqui.

O casamento foi o maior erro da minha vida. Enquanto namoramos ele era o rapaz mais gentil que conheci, educado, cheio de atenções e no primeiro ano de casados também foi assim, Depois mudou e os maus tratos começaram, chegava perdido de bêbado, implicava com tudo e daí até as agressões não tardava nada. Andava toda negrinha.

-Mas, balbuciei eu, porque não fez queixa dele?

Abriu os olhos, fez um beicinho que lhe vincou mais as rugas do rosto.

-Naquele tempo? Não valia a pena, a polícia dizia que entre marido e mulher ninguém metia a colher.

Era levar e andar calada porque até, com vergonha, escondía das vizinhas.

Fiquei sem saber o que dizer, mas ela continuou:

-Foram 10 anos de sofrimento até que ele desapareceu de uma vez por todas.

Mas, perguntei eu:

-Desapareceu?

-Sim, faz no dia 10, do mês que vem, 35 anos que o maldito desapareceu para nunca mais voltar.

Sabe que nunca esqueço o dia, porque foi nesse que eu cimentei o meu quintal, era de terra muito macia, mas eu cimentei-o. Já tinha comprado as pedrinhas, julgo que se chamam gravilha, e o cimento. E eu próprio fiz o trabalho, tinha visto como o meu pai, que era trolha, fazia.

E, perguntei eu:

-O seu marido nunca mais deu noticias?

-Nunca mais para alegria da minha alma. Passados dois anos a polícia chamou-me para dizer que desistiram da busca, que se calhar tinha ido para o estrangeiro.
Para o estrangeiro! Só sei que o maldito nunca mais me apoquentou.

-Mas, perguntei eu, porque cimentou o quintal nesse dia? Isso faz-me confusão.

Olhou-me com o sorriso mais enigmático que eu alguma vez tinha visto. Sorriu e baixando a voz segredou-me:

-Sabe porque lhe faz confusão eu ter cimentado o quintal?
Sabe?

-É porque o senhor é mais esperto que os polícias todos.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Roteiro de umas férias




Programámos a saída para as 8 da manhã, saímos às 10, os habituais atrasos das mulheres.

Rumámos a Porto Covo à procura da tranquilidade das tardes calmas desta vila. Foram três dias de pura ociosidade, com umas idas à praia ao entardecer, quando o Sol já não deixa marcas no corpo. Ficávamos até o astro desaparecer num horizonte avermelhado, prenúncio de mais um dia de calor intenso.

Ao fim do dia íamos até ao Café Marques beber a bica e acabávamos a noite lambuzados por um gelado, daqueles que engordam mesmo... mas que nos sabem tão bem. Férias são férias.

Depois, como que num regresso às origens e numa procura do alento que nos alimenta a alma, nos conforta o espírito e nos acalma as saudades fomos ao Alentejo profundo, aos recônditos de uma província esquecida.

Foi uma travessia por entre os raios de um Sol abrasador que tornava a estrada um tapete luzente e cheio de reflexos. Paramos em tudo onde os líquidos frescos pudessem mitigar esta secura que se apoderava de nós.

Finalmente Amareleja, terra parada no tempo, onde o sossego só é quebrado por alguma mosca entediada que teima em nos azucrinar a paciência.

Amareleja, vila perdida na imensidão do nada, onde o calor fustiga de forma tão intensa que até as próprias aves que se afoitam a cruzar o espaço caiem numa agonia de morte.

Quando a tarde ia esmorecendo os raios de calor, continuámos até Sobral d’Adiça, pequena aldeia empoleirada na serra do mesmo nome. Ruas desertas. Só à porta de alguma taberna, mais fresca, alguns homens olhavam curiosos para quem se atrevia a bulir com a calma de uma tarde quente.

Foi apenas uma passagem na tentativa de descobrir um mistério que anda comigo, que faz parte de mim. Mas... ainda não foi desta.

O dia estava a acabar e o nosso apetite leva-nos até Safara, ao Restaurante Arcada. Para mim é poiso obrigatório. Pelo telefone já tinha encomendado o Ensopado de Borrego, nem todos quiseram, mas eu não dispenso. Estava, como sempre, divinal.

Fomos pernoitar a Santo Aleixo da Restauração, pequena aldeia onde o tempo parou, mas que me enche de tão boas e gratas recordações. Só me apetece fechar os olhos e ficar numa letargia que me retempere.

No dia seguinte, depois de um pequeno-almoço diferente, com um pão próprio, um queijo especial, umas “popias” alentejanas e uns bolinhos folhados com gila, deixámos já com saudades, este pequeno pedaço do passado e continuamos para a derradeira fase destas curtas férias.

Que me perdoem os que se arvoram na defesa do “faça férias em Portugal”, mas os hábitos, os preços e as condições levam-me a outras paragens, tão próximas e tão diferentes.

Punta Umbria foi o destino seguinte.
Magnifica, feita para o turismo. Imensos quilómetros de praias com dunas de areias douradas, mar calmo, duma tranquilidade que convida e com águas com uma temperatura que corpo agradece.

De manhã partíamos à descoberta, para a tarde escolhemos a Praia de La Bota. Porque? Calhou, gostamos de uma praia isolada entre pinhais, dunas de areia fina, águas quentes.

Havia muita gente, mas pela dimensão não se notava.

Ficávamos até que o Sol mergulhava, também, na quietude do mar.

À noite perdíamo-nos na multidão, no marisco fresco, nas “cañas” geladas e nas conversas até que o sono nos vencia.

Agora olho para os papéis que esperam por mim, para o computador que hiberna até que lhe carregue no botão.

Adeus férias, voltemos ao trabalho









terça-feira, 3 de agosto de 2010

Finalmente






Vou de férias.

Vou andar por ai ao sabor da vontade, sem horários e sem roteiros.

Quero espreguiçar-me ao Sol, rebolar na areia, tomar o pequeno-almoço na esplanada, vou esquecer que existe televisão e não vou comprar jornais.

Vai ser mesmo BOM


sexta-feira, 30 de julho de 2010

A caixa de bombons




Olhou ao longo do bar numa forma até certo ponto desafiadora. Foi um olhar que pretendia ser intimidatório mas acabou por ser um pouco ridículo, pois naquela imensidão de corpos a retorcerem-se ao som de uma banda da moda ninguém parecia interessada em olhares que pretendiam ser tesos.

Ficou um pouco frustrado, pois andou ensaiando esse ar de duro durante toda a semana para fazer uma entrada triunfal e poder impressionar a Leonor.
Pensava, ele, que a rapariga podia ficar seduzida por um olhar de macho latino, um olhar que pretendia varar o coração da doce mulher que o mantinha perdidamente apaixonado.

Já tinha tentado, mais do que uma vez, uma aproximação subtil mas a rapariga parecia não notar as tentativas de acerco de Faísca. Bom, Faísca não era o seu verdadeiro nome mas apenas uma alcunha herdade do seu pai, que por sua vez a tinha herdado do avô.

Tinha pensado ir ao bar, pois ali ao som da música e no frenesim da dança as coisas podiam ser mais fáceis.
Nunca tinha ida a um bar, mas nos filmes via entrar o artista com um ar electrizante, dar um murro no balcão, sorver uma bebida forte e passado um nada estar a beijar sofregamente a rapariga.

Se nos filmes era assim e, como dizem que os filmes são o espelho da realidade, Faísca pensou, vou fazer o mesmo e no fim a Leonor deixa o balcão onde enche copos e anicha-se nos braços do seu herói.

Mas coisas não saíram como planeara, pois ninguém o levou a sério, não conseguiu chegar ao balcão para a tal bebida e a rapariga nem sequer a viu.

Não aguentou a pressão e saiu desiludido. Voltaria outro dia com a lição melhor estudada e, certo de, finalmente conseguir conquistar esse coração que tão arisco se estava a tornar.

Se calhar foi um pouco brusco nessa investida de rompante e, quem sabe, a Leonor tão doce não gostava das coisas dessa maneira.

Ia pedir ajuda ao seu amigo Inácio, tipo sabido e prático nessas coisas de mulheres.
Diziam que nenhuma lhe escapava.

O Inácio aconselhou-o a enviar um ramo de flores, mas não tinha jeito para essas coisas que lhe pareciam tão amaricadas. Onde se viu um homem, macho, com um raminho de flores na mão a caminho do bar? Não, essa de flores não pega, flores é coisa de tipos abichanados e o Faísca não era dessas coisas.

A Leonor era um primor, rapariga alinhada que não dava confiança a qualquer um. Na rua andava sempre aprumada, olhando em frente e sem perder tempo a falar ou cumprimentar os vizinhos. Mostrava ser uma cachopa ocupada e responsável.

As pessoas não sabiam bem qual era a sua vida mas, diziam, devia ganhar bem, pois andava sempre muito bem vestida e tinha um belo carro. Tinham dito que era empregada de balcão num bar famoso, se calhar gerente ou quem sabe até dona.

Por fortuna tinha descoberto onde trabalhava , pois ela não o dizia a ninguém, mas o Adérito um dia tinha topada a tipa a entrar para o bar e o porteiro confirmou-lhe que trabalhava ali, foi uma sorte do caraças.

Faísca estava preocupado, pois estava interessado em conquistar aquele difícil coração. A primeira tentativa não tinha corrido lá muito bem, pois saiu confundido daquele barulhento bar sem sequer ter visto a mulher que levava no pensamento. Não a enxergou ao balcão, se calhar como era gerente devia estar num gabinete coberto de espelhos, tal como se via nas fitas.

Voltou a falar com o Inácio, experiente em mulheres, e ele tenha aconselhado uma visita especial, bem preparada e que deixaria logo a garota impressionada.

Ia aparecer bem vestido e perfumado, se calhar até tomava um banho, embora isso não se visse, mas sempre refrescava o corpo.

Já tinha encomendado na pastelaria do Tinoco uma caixa de bombos com um embrulho bem caprichado.

Ela não ia resistir e, não tardava, andariam a passear à beira mar de mãos bem entrelaçadas.

Andava nervoso, já tinha namorado algumas garinas, mas sem interesse, gajas básicas que nem sabiam andar de saltos altos como a Leonor, que se bamboleava naquelas andas como se isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Era lindo de se ver em suaves requebros, que levavam a cabeça de um homem embalada em pensamentos lascivos e sensuais.

Estava preparado para sábado à noite, até comprou na loja do chinês uma gravata, pois a que tinha estava mais sebosa que a bata do Zé do talho.

Não ia tomar aqueles ares radicais como da última vez, porque afinal ninguém lhe ligou e só fez uma figura um pouco parva.

Estava um pouco sem jeito, com o embrulho dos bombos na mão, mas o Inácio dizia que era importante e o gajo percebia de engates.

O bar estava a abarrotar, a musica entrava nos ouvidos e deixava um tipo atordoado.

O pessoal abanava-se uns frente aos outros numa espécie de dança parva, pois em vez de estarem agarrados apenas se abanavam sem se perceber quem dançava com quem.
Mas para o Faísca pouco interessava, ele queria mesmo era descortinar naquela multidão a sua eleita.

Andou perdido nos encontrões, olhou todos os cantos do balcão, espreitou todas as portas a ver se alguma se abria e fazia surgir a sua paixão.

De repente descobriu na mesa do canto a Leonor, sentada no colo de um velho gordo, sendo apalpada por umas mãos papudas e em risadas vendidas ia beijando a testa suada do javardo que a tinha alapada.

Não quis ver mais nada, saiu disparado daquela confusão, respirou o ar fresco da noite e sentou-se num degrau a comer os bombos da desilusão.

Afinal a Leonor não era dona, nem gerente mas apenas uma prostituta no bar.


sábado, 24 de julho de 2010

A recusa







Pousou os cotovelos no encardido balcão mirou a empregada nos olhos e pediu um café.

Estava nervoso e isso via-se na forma como se agitava, no entrelaçar das mãos e num ligeiro tique nos olhos.

Olhou, mais uma vez, a empregada que de soslaio também o ia observando enquanto maquinalmente ia tirando o café.

-O senhor parece preocupado, atirou ela.

Olhou-a de forma displicente e sorriu.

-Estou um pouco chateado. Sabe? É a vida.

Ela acenou a cabeça em sinal de compreensão, sabia como a vida era difícil.

O homem continuava no canto do balcão, sorvendo o café em pequenos goles e olhando abstracto para um vazio que só ele via.

Era agora ela que parecia agitada, limpando a louça de forma um pouco descoordenada e olhando, de forma um pouco descarada, o cliente que continuava absorto contemplando uma chávena vazia.

Era um homem interessante, pensava Beatriz, enquanto paulatinamente ia arrumando as chávenas que ia retirando da máquina de lavar.

-Vou fechar, disse ela com um sorriso enlevado.

-Quer ir jantar comigo? Atirou ele, com um esgar a fingir um sorriso que não chegou a nascer

Beatriz corou, um intenso rubor tomou conta do seu rosto. Ficou sem saber que dizer, não queria parecer fácil, a vontade dizia-lhe que sim mas a prudência dizia-lhe que não.

Fingiu não ter ouvido o convite na esperança que ele o repetisse.

-Dá-me uma garrafa de água fresca, pediu o homem.

-Aqui está, agora desculpe, mas tenho que fechar o café disse Beatriz.

Ele, com o mesmo trejeito, repetiu o convite:

-Mas não quer vir jantar comigo?

-Mas eu não o conheço! Disse Beatriz com um ar tão cândido que, quase, parecia verdade.

Mirou-a com um franzir de sobrolho, rutilou os olhos num fogacho sem brilho. Atirou umas moedas para cima do balcão e saiu para o escuro da noite que ia caindo.

Beatriz ainda lhe apeteceu fazer a vontade ao que a desejo lhe pedia, quis aceitar esse jantar que o destino lhe colocou no balcão encardido do pequeno café, onde as ilusões morriam diluídas nos cheiros acres dos bagaços que as gargantas ressequidas tragavam em sorvos ligeiros.

*********

Apagou as luzes, fechou a porta e embrenhou-se no breu que a tragou na esquina da rua.

Foi então que uns braços fortes lhe envolveram o pescoço, mal podia respirar e apenas o hálito quente do homem lhe aquecia a nuca e a voz áspera lhe agredia os ouvidos:

-Ouve, minha puta, convidei-te para jantar e apenas o silencio me respondeu. Não aceito negas. Se tivesses vindo talvez te comesse e te deixasse ir à tua vida, mas quisestes ser pudica e agora vais pagar.

*********

Encontraram-na de madrugada, ainda tinha sinais de vida que lentamente se ia esvaindo pelo corte profundo que a havia degolado



quinta-feira, 15 de julho de 2010

O convite





Talvez fossem os olhos que me fascinaram.
Fundos e de uma negrura que me deixaram perturbado.

Não é que eu me atarante com facilidade, mas aqueles olhos mexiam comigo.
Eram intensos e frios, pareciam dois gumes de aço prontos a cortar.

E era pena, pois o sorriso era radioso como o nascer do Sol.

Mas os olhos, esses tinham algo de soturno e, ao mesmo tempo de misterioso, que me deixava desconfortável.

Quando se sentou na cadeira, à frente da minha secretária, não cruzou as pernas deixando-me um pouco desiludido pois, nos filmes, é normal cruzarem as pernas num enorme mostrar de calcinha.

Mas tive azar, apenas juntou os joelhos e puxou a saia numa forma natural. Gesto casual mas de uma elegância que denotava ser pessoa de requinte.

Olhou-me com um sorriso de dentes que cintilavam em suaves reflexos de pérolas, os olhos rebolaram de uma forma tão lânguida que senti um formigueiro a tomar conta de mim.

Tentei fingir não me deixar impressionar e aguçando a voz perguntei:
-A que devo a sua simpática visita?

Olhou-me, mais uma vez, daquela maneira que arrepia, pousou as mãos na minha secretária, aproximou a boca do meu ouvido e segredou:
-Quero pagar-lhe para matar o meu marido! Quanto leva?

Fiquei siderado, primeiro pela visão que um farto decote proporcionava, depois pelo insólito da desconcertante pergunta.

-Matar o seu marido? Quando levo? Mas a senhora endoideceu?

Olhou-me do fundo daqueles lagos frios e, com um calma desconcertante atirou:

-Não seja tonto eu sei que é detective e que se encarrega de casos difíceis.

-Minha senhora, balbuciei, eu trato de casos difíceis mas não sou assassino.

Sorriu, mostrou mais um pouco do que o decote tinha para desvendar. Semicerrou os olhos que ficaram como dois traços cintilantes e, com um rilhar de dentes sibilou:

-Não se faça difícil seu sacana!

Deitou-me as mãos ao pescoço e começou violentamente a sacudir-me.

Estava totalmente transtornada, colérica.

Tentei defender-me, gesticulei em vão. Era mais forte do que pensava e começava a sentir dificuldade em respirar, arrisquei lutar e ripostei com força. Levantei os braços e as pernas numa tentativa de me libertar.

Ia caindo da cama.

Maldito pesadelo.