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Com a ponta do sapato esmagou, contra o chão, o cigarro que acabara de fumar.
Depois ficou esquecido a olhar a vastidão do mar que se alongava no horizonte, os últimos raios de sol davam uma tonalidade única aquele entardecer.
Acendeu outro, mas um súbito ataque de tosse fez saltar o cigarro que tombou faiscando. Pisou, como fazia sempre, não fosse o vento levar alguma centelha.
Olhou as gaivotas que num vozear estranho se aglomeravam numa rocha que as ondas iam fustigando.
Queria deixar este maldito vício, já em tempos tentara e conseguiu estar quase dois meses sem fumar, foi uma luta amenizada com rebuçados e pastilhas elásticas. Andava com um humor de cão em dia de trovoada. Respondão, sem paciência e totalmente amofinado.
Um dia, a vontade venceu, fumou uma cigarrilha. Depois foi o descalabro para a volta ao vício.
****
A noite ia caindo com um manto de neblina que se entranhava dos ossos. Era melhor voltar para casa.
Acendeu um para o caminho, inspirou uma longa baforada e deleitou-se com as espirais que o nariz ia soltando.
Voltou a tossir, toque seca e irritante que o deixava num desconforto feito de receios e dúvidas.
Tinha que ir ao médico para ver se ele lhe receitava um xarope que lhe abrandasse esta rouquidão que, a pouco e pouco, o ia deixando inquietado.
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Foi para a cama angustiado, não estava habituado à casa vazia, aos silêncios que o invadiam. Tinha saudades da Cristiana a mulher que sempre o tinha acompanhado.
Agora ela tinha ido embora, sem explicações, sem se quer olhar para trás. Foi embora e pronto. Estava farta do nada, da monotonia, de uma vida sem emoção.
Tinha ido embora apenas para respirar, para voltar a encontrar a identidade perdida. Um dia, que sabe, podia voltar e se ele quisesse podiam começar de um novo nada, num renascer sem emoções.
Quando acordou os primeiros raios de Sol filtravam-se pelas frestas da persiana. Ao seu lado continuava um lugar vazio.
***
Foi uma noite angustiante, a tosse, o mau estar e aquela sensação de um peso no peito que o não deixava respirar em condições.
Agora ia para o trabalho e tudo iria melhorar.
Acendeu o primeiro da manhã, deixou os pulmões serem invadidos pela moléstia que lhe saciava o desejo.
***
O dia correu tão mal que foi obrigado a ceder, foi ao médico.
Saiu com uma enormidade de análises para fazer e também uma radiografia. Tudo muito urgente, para ontem, disse o Doutor Meireles,
Desta vez cumpriu e passados poucos dias voltou à consulta munido de RX, relatórios e análises. Também, pensava ele, este médico é mesmo miudinho pois para receitar umas pastilhas e um xarope precisa de todas estas coisas. Mas ele é que sabia.
O Doutor olhou a radiografia presa num grampo contra uma luz. Franzia o sobrolho enquanto ia lendo aqueles palavrões que estavam escritos no relatório. Olhou-o com um ar soturno:
-Senhor Menezes há quanto tempo anda nesta situação? Por que não veio antes a uma consulta? Homem de Deus, vou escrever uma carta para um meu colega do IPO e vai JÁ tratar de arranjar uma consulta.
-Mas, titubeou, é grave senhor doutor?
O médico cofiou o queixo num movimento mecânico enquanto procurava as palavras.
-Caro amigo o que eu penso é grave mas a medicina está tão avançada que hoje em dia há soluções para quase tudo. Não perca tempo, porque não temos muito.
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Saiu desolado, acendeu um cigarro num gesto mecânico mas o sabor era diferente. Chutou-o para longe.
-Vou deixar de fumar, desta vez vou mesmo! Juro que desta vez deixo de vez.
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Já era tarde, a medicina está avançada, mas milagres ainda não.
Foi o desmoronar de uma vida, a quimioterapia, a queda do cabelo o degradar de uma existência.
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A morte foi a única cura para tanto sofrimento.
Faleceu serenamente na graça do todo-poderoso.
Mas cumpriu a sua promessa, deixou de fumar para sempre.




