Tinha algo que a tornava diferente, não sei bem se a cor indefinida dos olhos, os fulgurantes cabelos ruivos ou se aquele ar de ingenuidade que a caracterizava.
Não era propriamente linda mas, meu Deus, sempre que a olhava algo encaracolava dentro de mim. Sentia um formigueiro subir pelas pernas e o coração acelerava de tal maneira que tinha que fechar a boca para ele não saltar.
Andei assim algum tempo, confuso, sem saber o que fazer. Como sabem eu não sou homem de me encolher, gosto de ir à luta e quando uma mulher bule comigo eu ataco logo.
Mas agora era diferente, havia um conflito dentro de mim. Eu queria mas a vontade entorpecia os movimentos e ficava quedo a contemplar.
Queria ir à contenda, cortejar, usar todo o meu charme, fazer aquele olhar que as deixas loucas mas, uma paralisia se apossava de mim e não me deixava avançar.
Hoje passou e sorriu, um sorriso mesclado de sedução e desafio. Fiquei com uma tremedeira que me paralisou e limitei-me a vê-la bamboleante numas apertadas calcas de ganga em dança que deixavam um refego a dividir dois hemisférios bailando ao som de bater do meu coração.
Sonhei com ela, lasciva, avançando com os lábios húmidos de desejo e o corpo em oferendas de prazer. Senti as suas mãos percorrerem o meu corpo em espirais de carícias. Deixei-me enredar nos afagos loucos do seu calor. Corpos colados numa amálgama de loucura e prazer, emoções, desejos loucos. Tremores, suspiros abafados no calor húmido do desejo. Movimentos descontrolados, seivas brotando, rebentar de voluptuosidade num ritmo louco da voracidade do desejo. Ondas de fogo ardendo em explosões de vida.
Acordei em agonia e num estado lastimoso. Um duche recuperou o corpo.
Ao pequeno-almoço a minha mãe olhou-me daquela forma que só as mães sabem olhar.
-Rui que se passa contigo? Estás estranho! Queres falar com a tua mãe?
Fiquei embaraçado mas arranjei coragem para dizer:
-Mãe, gosto muito duma rapariga!
-E isso é mau? Perguntou ela.
-Sabes mãe, é muito bom mas eu não arranjei coragem para lhe dizer nada. Ando perdido, sonho com ela, ando com ela na minha cabeça, mas não fui capaz de ir além disto.
Olhou-me com um ar tão trocista que me senti, quase, envergonhado.
-Rapaz, que se passa? Estás mesmo apaixonado! Quem é essa rapariga?
-Não sei muito bem, só a vejo passar por mim todos os dias. Mora naquela casa amarela ao fundo da nossa rua. É uma ruiva linda, sensual, cara de anjo e com um sorriso lindo.
A mãe olhou-me de uma forma muito misteriosa. Aguçou a voz e disse-me:
-Ainda te lembras do Gonçalinho? Aquele rapar que foi há, para aí, dois anos estudar para Londres?
-Mãe o que tem a ver o Gonçalinho com esta mulher linda que se cruza comigo todos os dias comigo?
-Tem muito a ver e sabes porque? O Gonçalinho voltou, agora chama-se Raquel mas julgo que continua a ter entre as pernas a mesma coisa tu.
A notícia correu o bairro, entrou em todos os lugares, entoou como um cântico nos claustros de uma Igreja.
Havia um misto de consternação e uma onda de curiosidade invadiu tudo e todos.
-Morreu o Senhor Varela, apregoavam os miúdos como se espalhar a noticia fosse uma prédica anunciada.
Nas tabernas os homens, enquanto escorropichavam os copos, iam abanando a cabeça num sinal de desolação.
Na Mercearia do Senhor Isidoro as mulheres cochichavam de forma tão camuflada que pareciam ter medo de alguma coisa. É verdade que não gostavam muito do Senhor Varela, libertino mor, instigador das pândegas que levavam os homens às noitadas e às memoráveis bebedeiras. Rara era a semana em que o Varela não organizava uma qualquer comemoração para festejar algo que seria inventado se necessário.
Depois era o descalabro, noitada na Sociedade Recreativa, onde o Varela era Presidente, com o petisco e o vinho a correr abundante de mesa em mesa.
Os homens voltavam tarde e a má hora ao remanso dos lares, avinhados e sem disposição de cumprir os rituais a que as mulheres se iam desabituando.
Agora, com a morte do homem, a calma e o sossego podia estar de volta aos lares do bairro, mas, embora pensando assim nenhuma se atrevia a dizer o que lhe ia na alma.
Apesar de essa oculta conspiração ser notória a consternação envolvia os homens como se fosse algum ente chegado a juntar os pés e a partir desta para melhor.
O velório ia ser no Clube, afinal era o Presidente, e que melhor poderiam fazer os seus consócios do que o homenagear na casa onde passara a maior parte dos seus dias e muito especialmente das noites.
Bandeira à meia haste. A mesa do bilhar tapada com crepes pretos, serviria para colocar o caixão onde todos e todas, iriam prestar homenagem ao homem que dinamizava os grandes acontecimentos socioculturais do bairro, bailes, campeonatos de sueca e até mesmo grandes torneios de snooker.
O velório era um acontecimento que ultrapassava tudo o que de interessante alguma vez tivesse acontecido naquele lugar. As luzes veladas, os crepes negros e os reposteiros vermelhos, com que taparam as portas, davam ao lugar um ar lúgubre e soturno como convinha para esta ocasião.
Em cima do pedestal improvisado, ninguém diria que o era, o caixão era o alvo de todas as atenções.
Iam entrando e enquanto uns se postavam numa meditação mexendo os lábios num simular de oração, outros apenas se perfilavam, destapavam o rosto como para se certificar e retiravam devagar para a sala de espera.
A Dona Cacilda companheira de toda a vida do pobre Varela estava inconsolável, quem lhe havia de dizer que assim sem mais nem menos, a ia deixar tão só e abandonada.
Choramingava enquanto se lamentava:
-Estava tão bem disposto, jantou e de repente sentiu-se mal, foi para a cama e, desafortunado, já não acordou. Ainda chamei o Doutor Idalécio mas, coitado, nada pode fazer a não ser passar a certidão de óbito.
Suspirou, um suspiro tão fundo e sentido, que foi um dó de alma escutar tanto sofrimento.
Dona Carminda, a sua melhor vizinha, não aguentou o tédio desta morna sessão de homenagem e deixou-se vencer pelo sono. Abriu a boca e num suave roncar deixou-se embalar nas asas de Morfeu. Valeu uma cotovelada da Dona Cacilda para por termo a tão desapropriado acontecimento.
Corria o velório nesta tediosa maneira quando de repente, Varela se sentou no caixão e esfregando os olhos para se habituar à semi-obscuridade clamou:
-Ainda bem que estão aqui todos!
O pessoal levantou-se com gritos histéricos de pavor, desarvoraram em louca correria em procura da rua que os libertassem deste inesperado regressar dos mortos. Só a pobre da Dona Carminda que desmaiou com tamanho susto ficou a fazer companhia ao morto, que afinal estava vivo.
Varela ficou confuso, não percebia este atropelo e este desandar desesperado de todos os seus amigos. Não percebia o que se passava.
Tentou levantar-se desse emaranhado de roupas e crepes negros com que o enfeitaram em tantas horas de catalepsia mas, os movimentos não obedeceram à vontade e baldou com estrondo para cima das cadeiras alinhadas em redor da improvisada peanha.
O estouro trouxe os mais afoitos ao lugar do culto e tiveram que conter o riso com o quadro que se lhes deparou.
Dona Carminda descomposta, com as pernas à vela e com umas vistosas culotes floridas a proteger as partes mais íntimas dos olhares curiosos. Escarranchado no seu peito o pobre senhor Varela olhava aparvalhado sem compreender o que se estava a passar.
Com a ponta do sapato esmagou, contra o chão, o cigarro que acabara de fumar.
Depois ficou esquecido a olhar a vastidão do mar que se alongava no horizonte, os últimos raios de sol davam uma tonalidade única aquele entardecer.
Acendeu outro, mas um súbito ataque de tosse fez saltar o cigarro que tombou faiscando. Pisou, como fazia sempre, não fosse o vento levar alguma centelha.
Olhou as gaivotas que num vozear estranho se aglomeravam numa rocha que as ondas iam fustigando.
Queria deixar este maldito vício, já em tempos tentara e conseguiu estar quase dois meses sem fumar, foi uma luta amenizada com rebuçados e pastilhas elásticas. Andava com um humor de cão em dia de trovoada. Respondão, sem paciência e totalmente amofinado.
Um dia, a vontade venceu, fumou uma cigarrilha. Depois foi o descalabro para a volta ao vício. **** A noite ia caindo com um manto de neblina que se entranhava dos ossos. Era melhor voltar para casa.
Acendeu um para o caminho, inspirou uma longa baforada e deleitou-se com as espirais que o nariz ia soltando.
Voltou a tossir, toque seca e irritante que o deixava num desconforto feito de receios e dúvidas.
Tinha que ir ao médico para ver se ele lhe receitava um xarope que lhe abrandasse esta rouquidão que, a pouco e pouco, o ia deixando inquietado.
**** Foi para a cama angustiado, não estava habituado à casa vazia, aos silêncios que o invadiam. Tinha saudades da Cristiana a mulher que sempre o tinha acompanhado.
Agora ela tinha ido embora, sem explicações, sem se quer olhar para trás. Foi embora e pronto. Estava farta do nada, da monotonia, de uma vida sem emoção.
Tinha ido embora apenas para respirar, para voltar a encontrar a identidade perdida. Um dia, que sabe, podia voltar e se ele quisesse podiam começar de um novo nada, num renascer sem emoções.
Quando acordou os primeiros raios de Sol filtravam-se pelas frestas da persiana. Ao seu lado continuava um lugar vazio.
*** Foi uma noite angustiante, a tosse, o mau estar e aquela sensação de um peso no peito que o não deixava respirar em condições.
Agora ia para o trabalho e tudo iria melhorar.
Acendeu o primeiro da manhã, deixou os pulmões serem invadidos pela moléstia que lhe saciava o desejo.
***
O dia correu tão mal que foi obrigado a ceder, foi ao médico.
Saiu com uma enormidade de análises para fazer e também uma radiografia. Tudo muito urgente, para ontem, disse o Doutor Meireles,
Desta vez cumpriu e passados poucos dias voltou à consulta munido de RX, relatórios e análises. Também, pensava ele, este médico é mesmo miudinho pois para receitar umas pastilhas e um xarope precisa de todas estas coisas. Mas ele é que sabia.
O Doutor olhou a radiografia presa num grampo contra uma luz. Franzia o sobrolho enquanto ia lendo aqueles palavrões que estavam escritos no relatório. Olhou-o com um ar soturno:
-Senhor Menezes há quanto tempo anda nesta situação? Por que não veio antes a uma consulta? Homem de Deus, vou escrever uma carta para um meu colega do IPO e vai JÁ tratar de arranjar uma consulta.
-Mas, titubeou, é grave senhor doutor?
O médico cofiou o queixo num movimento mecânico enquanto procurava as palavras.
-Caro amigo o que eu penso é grave mas a medicina está tão avançada que hoje em dia há soluções para quase tudo. Não perca tempo, porque não temos muito.
******
Saiu desolado, acendeu um cigarro num gesto mecânico mas o sabor era diferente. Chutou-o para longe.
-Vou deixar de fumar, desta vez vou mesmo! Juro que desta vez deixo de vez.
*******
Já era tarde, a medicina está avançada, mas milagres ainda não.
Foi o desmoronar de uma vida, a quimioterapia, a queda do cabelo o degradar de uma existência.
*******
A morte foi a única cura para tanto sofrimento.
Faleceu serenamente na graça do todo-poderoso.
Mas cumpriu a sua promessa, deixou de fumar para sempre.
Alguém me perguntou se eu não poderia escrever um conto com um final feliz. Tentei. Será que consegui?
Foram os melhores amigos na infância. Brincavam longas tardes sem se aperceberem das diferenças que um dia iriam definir os seus destinos.
Ela, Maria Helena, filha de um próspero e abastado comerciante, ele Ricardo, filho de um pobre balconista de uma sapataria da moda. Mas esta diferença de estatutos não incomodava as crianças que em toda a sua inocência brincavam, sob a vigilância da empregada, nos jardins da vivenda da família abastada.
-Um dia, quando tiver muito dinheiro, vamos jantar, os dois, aquele restaurante da esquina, dizia Ricardo.
-Aquele que tem muitas luzes!! Exclamou ela batendo palmas.
O tempo rolou, as crianças cresceram e enquanto Ricardo continuou a estudar na sua cidade, Maria Helena foi aprender para um colégio na Suíça.
Ricardo acabou o curso e atirou-se ao trabalho que era a única solução para amenizar as dificuldades daquela família.
Teve sorte na vida, talvez influenciado pela profissão do pai, enveredou pela indústria do calçado e com muita dedicação e saber tornou-se num grande magnata.
Á primeira fábrica seguiram mais duas, depois do mercado nacional vieram as exportações.
Era um trabalho que o absorvia mas, Ricardo, nunca a esqueceu e todos os dias dava por si a olhar embevecido os jardins onde passou dos mais belos momentos da sua infância.
Fechava os olhos e via os loiros caracóis da Maria Helena a brilhar com os reflexos do Sol que os iluminavam.
Quinze anos foram passados. Maria Helena voltou, da menina que tinha partido apenas restavam os longos caracóis dourados, porque o tempo encarregou-se de dar forma a um corpo de criança e transformá-lo num radioso corpo de mulher.
Ricardo quando a avistou sentiu uma alegria como há muito não experimentava, e o grito saiu sem que ele o pudesse reprimir.
-Maria Helena de volta?
Ela, olhou-o com uma altivez que o regelou.
-Para si Doutora Maria Helena e, julgo, não o conhecer de nenhum lado. Virou as costas, entrou no descapotável vermelho e saiu disparada como se fosse a dona de todas as ruas
Ricardo cerrou os punhos de raiva, mordeu os lábios de desespero e jurou nunca mais olhar aquele jardim que agora ia odiar com toda a sua força.
Os dias perfilaram-se uns atrás dos outros, deram lugar aos meses que por sua vez se foram transformando em anos.
A voragem dos tempos, as crises e as depressões foram transformando as vidas das pessoas.
O pai da Maria Helena foi apanhado no ruir das bolsas e viu toda a sua fortuna ser devorada. Foi à falência. Não aguentou e um dia foram encontrar o pobre homem pendurado, pelo pescoço, numa trave da velha adega. Rosto roxo e língua pendente num esgar de morte que até aos mais corajosos causou alguma angustia.
Num instante os credores se encarregaram em deixar as duas mulheres com as roupas e as jóias que conseguiram guardar das vistas dos credores.
Por caridade uma velha tia deu-lhes guarida.
Maria Helena procurou emprego de forma continuada, respondeu a tudo que havia para responder, foi a todas as entrevistas que conseguiu mas sem êxito. Para uns era nova de mais, para outros já tinha muita idade, nuns lados tinha habilitações a mais, para outros tinha experiencia a menos.
Dona Perpétua, mãe de Maria Helena, não aguentou a pressão e um dia tomou todos os comprimidos de uma caixa de soporíferos, quando a filha a encontrou estava às portas da morte.
Está no hospital à espera do pior desenlace. É uma questão de meses dizem os médicos.
Ricardo, bafejado pela sorte, conseguiu com as desgraças alheias aumentar o seu negócio, investiu e comprou velhas industria que tornou em Empresas modernas e prósperas. É um hábil homem de negócios que tem conquistado os mercados internacionais.
Maria Helena chegou ao ponto em que mais nada lhe resta, o desalento já se começou a apoderar das poucas forças que ainda lhe sobram.
Não quer seguir o exemplo dos pais, quer viver porque a mãe, mesmo moribunda, precisa dela.
Desesperada arranjou coragem, nem ela sabe bem como, e esperou por Ricardo à porta da sua Empresa.
Quando o viu, com a voz mais humilde que encontrou dirigiu-se ao seu antigo amigo:
-Ricardo dá-me um momento por favor?
Olhou-a de forma intensa, o coração num batimento desmedido, mas arranjou coragem para dizer:
-Para si doutor Ricardo, e, não me lembro da conhecer lado nenhum. Sabe menina! Não tenho a perder, bom dia!
-Ouve! Insistiu ela, tens todas as razões do mundo para me desprezares mas Deus já me castigou o suficiente, já sofri o que tinha a sofrer, por isso esquece por favor e por toda a nossa amizade de crianças, que levianamente deitei a perder, ouve o que tenho para te dizer.
Preciso de um emprego, qualquer um, faz isso pelas nossas recordações e pela minha mãe.
Ficou sem saber o que dizer, limpou o rosto num disfarce no desconforto da situação. Olhou aqueles olhos que nunca esqueceu, aqueles lábios com que tanto sonhou e sem ser capaz de a olhar de frente, murmurou:
-Passa amanhã, de manhã, pelo Departamento de Recursos humano vai ter com o Doutor Inácio. Eu vou dar instruções para te atender.
Entrou no carro e partiu disparado como se fosse o dono de todas as ruas.
Começou a trabalhar na secção de exportação, o facto de saber Inglês e Francês foram pontos a seu favor. Trabalhou como nunca, a primeira a chegar e a ultima sair. Ganhou o respeito dos colegas e dos chefes pelas capacidades de trabalho, pela humildade e pela forma como se conseguiu impor.
Ricardo ia assistindo, discretamente, ao renascer da menina que um dia tinha ido para a Suíça.
Foi numa segunda-feira ao chegar, de manhã, ao seu gabinete, Maria Helena, encontrou na secretária um cravo vermelho em cima de um envelope castanho.
Abriu e leu:
Maria Helena Aceitas aquele jantar que há muito te prometi? Não pode ser no Restaurante da esquina, mas conheço outros. Ricardo
Habituei-me a vê-la todos os dias sentada num pequeno banco à porta da sua casa. Tinha uma idade indefinida, a pele encarquilhada em sulcos de pergaminho emolduravam uns olhos vivos, inquietos. Andavam sempre num constante vaivém na procura de quem vinha, de quem ia e de quem passava. Nada lhe escapava.
Foi, talvez, no ano passado que a conheci, foi uma coisa do acaso, daquelas situações que nos acontecem.
Ia eu apressado a caminho do transporte quando de forma inesperada um pombo me atingiu na manga do casaco com aquela coisa mal cheiroso que os queridos animais largam sem pedir licença.
Fiquei, devem calcular, pior que estragado olhando para uma manga besuntada daquele tão mau aromático produto.
Ouvi, então,a Dona Carmem, numa voz lamentosa chamar:
-Meu senhor, venha cá que eu limpo o seu casaco com um pouco de água quente.
Fui mesmo, não me podia apresentar à entrevista naquele estado.
Limpou a porcaria e depois com um pano embebido em água quente deixou a manga como se nada tivesse existido.
Desta forma começou a nossa amizade e, agora, sempre que passo pela rua da Dona Carmem temos um largo paleio.
-Sabe meu senhor eu não me chamo Carmem! Quando vim servir para Lisboa, tinha 16 anos, a minha senhora disse que o meu nome não era próprio para uma menina e eu escolhi outro, escolhi Carmem.
Gostava desse nome, era igual ao de uma artista espanhola que me encantava. Fiquei Carmem e esqueci o nome que a minha madrinha me tinha dado que era Hermengarda, como se isso fosse nome para gente.
Foi uma senhora muito importante na minha vida, tratou-me como se eu fosse da família. Estive nessa casa até casar, casei com 22 anos e vim morar para aqui.
O casamento foi o maior erro da minha vida. Enquanto namoramos ele era o rapaz mais gentil que conheci, educado, cheio de atenções e no primeiro ano de casados também foi assim, Depois mudou e os maus tratos começaram, chegava perdido de bêbado, implicava com tudo e daí até as agressões não tardava nada. Andava toda negrinha.
-Mas, balbuciei eu, porque não fez queixa dele?
Abriu os olhos, fez um beicinho que lhe vincou mais as rugas do rosto.
-Naquele tempo? Não valia a pena, a polícia dizia que entre marido e mulher ninguém metia a colher.
Era levar e andar calada porque até, com vergonha, escondía das vizinhas.
Fiquei sem saber o que dizer, mas ela continuou:
-Foram 10 anos de sofrimento até que ele desapareceu de uma vez por todas.
Mas, perguntei eu:
-Desapareceu?
-Sim, faz no dia 10, do mês que vem, 35 anos que o maldito desapareceu para nunca mais voltar.
Sabe que nunca esqueço o dia, porque foi nesse que eu cimentei o meu quintal, era de terra muito macia, mas eu cimentei-o. Já tinha comprado as pedrinhas, julgo que se chamam gravilha, e o cimento. E eu próprio fiz o trabalho, tinha visto como o meu pai, que era trolha, fazia.
E, perguntei eu:
-O seu marido nunca mais deu noticias?
-Nunca mais para alegria da minha alma. Passados dois anos a polícia chamou-me para dizer que desistiram da busca, que se calhar tinha ido para o estrangeiro. Para o estrangeiro! Só sei que o maldito nunca mais me apoquentou.
-Mas, perguntei eu, porque cimentou o quintal nesse dia? Isso faz-me confusão.
Olhou-me com o sorriso mais enigmático que eu alguma vez tinha visto. Sorriu e baixando a voz segredou-me:
-Sabe porque lhe faz confusão eu ter cimentado o quintal? Sabe?
-É porque o senhor é mais esperto que os polícias todos.
Programámos a saída para as 8 da manhã, saímos às 10, os habituais atrasos das mulheres.
Rumámos a Porto Covo à procura da tranquilidade das tardes calmas desta vila. Foram três dias de pura ociosidade, com umas idas à praia ao entardecer, quando o Sol já não deixa marcas no corpo. Ficávamos até o astro desaparecer num horizonte avermelhado, prenúncio de mais um dia de calor intenso.
Ao fim do dia íamos até ao Café Marques beber a bica e acabávamos a noite lambuzados por um gelado, daqueles que engordam mesmo... mas que nos sabem tão bem. Férias são férias.
Depois, como que num regresso às origens e numa procura do alento que nos alimenta a alma, nos conforta o espírito e nos acalma as saudades fomos ao Alentejo profundo, aos recônditos de uma província esquecida.
Foi uma travessia por entre os raios de um Sol abrasador que tornava a estrada um tapete luzente e cheio de reflexos. Paramos em tudo onde os líquidos frescos pudessem mitigar esta secura que se apoderava de nós.
Finalmente Amareleja, terra parada no tempo, onde o sossego só é quebrado por alguma mosca entediada que teima em nos azucrinar a paciência.
Amareleja, vila perdida na imensidão do nada, onde o calor fustiga de forma tão intensa que até as próprias aves que se afoitam a cruzar o espaço caiem numa agonia de morte.
Quando a tarde ia esmorecendo os raios de calor, continuámos até Sobral d’Adiça, pequena aldeia empoleirada na serra do mesmo nome. Ruas desertas. Só à porta de alguma taberna, mais fresca, alguns homens olhavam curiosos para quem se atrevia a bulir com a calma de uma tarde quente.
Foi apenas uma passagem na tentativa de descobrir um mistério que anda comigo, que faz parte de mim. Mas... ainda não foi desta.
O dia estava a acabar e o nosso apetite leva-nos até Safara, ao Restaurante Arcada. Para mim é poiso obrigatório. Pelo telefone já tinha encomendado o Ensopado de Borrego, nem todos quiseram, mas eu não dispenso. Estava, como sempre, divinal.
Fomos pernoitar a Santo Aleixo da Restauração, pequena aldeia onde o tempo parou, mas que me enche de tão boas e gratas recordações. Só me apetece fechar os olhos e ficar numa letargia que me retempere.
No dia seguinte, depois de um pequeno-almoço diferente, com um pão próprio, um queijo especial, umas “popias” alentejanas e uns bolinhos folhados com gila, deixámos já com saudades, este pequeno pedaço do passado e continuamos para a derradeira fase destas curtas férias.
Que me perdoem os que se arvoram na defesa do “faça férias em Portugal”, mas os hábitos, os preços e as condições levam-me a outras paragens, tão próximas e tão diferentes.
Punta Umbria foi o destino seguinte.
Magnifica, feita para o turismo. Imensos quilómetros de praias com dunas de areias douradas, mar calmo, duma tranquilidade que convida e com águas com uma temperatura que corpo agradece.
De manhã partíamos à descoberta, para a tarde escolhemos a Praia de La Bota. Porque? Calhou, gostamos de uma praia isolada entre pinhais, dunas de areia fina, águas quentes.
Havia muita gente, mas pela dimensão não se notava.
Ficávamos até que o Sol mergulhava, também, na quietude do mar.
À noite perdíamo-nos na multidão, no marisco fresco, nas “cañas” geladas e nas conversas até que o sono nos vencia.
Agora olho para os papéis que esperam por mim, para o computador que hiberna até que lhe carregue no botão.