Sabem que esta pequena estória podia ser verdadeira? Eu sei que não é, mas que podia..podia!
A Alice tinha uma pita e andava ufana. Dizia a toda a gente:
-A minha pita é linda e não há outra igual.
No pátio, onde vivia, já todos estavam cansados de a ouvir elogiar a pita. As mulheres olhavam de lado e passavam mostrando total desinteresse, os homens não passavam sem querer fazer um afago na pita da Alice.
Os tempos iam passando e a pita ia crescendo, era linda, fofinha apetecia mesmo fazer uma festinha.
Mas nem pensar a Alice não deixava ninguém mexer na sua pita. Era dela e só dela.
Hoje a pita está enorme, delicada e muito branquinha, parece que a neve a veio enfeitar de alvos e imaculados flocos.
A mãe da Alice, essa, não anda nada satisfeita, pois a pita não é asseada e pita que não é asseada deita mau cheiro.
A mãe ia avisando a Alice:
-Se não cuidas em condições da tua pita ainda vais ter um desgosto, toma atenção e depois não digas que eu não te avisei.
A filha resmungava:
-Pois tens inveja da minha pita e até acho que gostavas de ter uma como a minha, mas não penses porque a minha é única, é especial. Pergunta ao meu namorado porque é ele quem mais brinca com ela. Vá lá! Pergunta!
A mãe não gostava nada destes desaforos da filha e rilhando os dentes ia ameaçando:
-Depois não me venhas dizer que eu não te avisei!
*******
Um dia, há sempre um dia, Alice chegou a casa e não viu a pita:
-Mãe onde está a minha franga?
-Eu avisei, não avisei? Não me destes ouvidos e agora a tua pita está na panela. Deu uma bela canja. Oh se deu!
Joana tinha acabado de fazer treze anos, era muito infantil e ainda gostava de brincar com o seu boneco “Nenuco”, mas tinha que o fazer às escondidas porque o seu irmão, Jorge de 18 anos, gozava com ela.
Os pais eram, como ela dizia, porreiros mas andavam sempre a discutir.
Hoje, entrou na cozinha e com o ar mais natural deste mundo gritou:
-Pessoal acho que estou grávida!
A mãe abriu a boca de espanto e ficou muda com um olhar esgazeado. O pai não se conteve e encontrou logo ali o bode expiatório, a mulher:
-A culpa é toda tua, se a tens educado como se educa uma rapariga nada disto teria acontecido, mas não, vocês mulheres são todas a mesma coisa.
A mulher olhou-o de través e, chispando, como um toiro enraivecido atirou:
-Mas quem és tu para falar, inútil que nunca se importou nada com os filhos, que nunca os acompanhou. Carregas tudo para cima de mim. És um zero que sempre tens descartado os problemas e pões o cu de fora quando os há para resolver.
O filho mais velho olhava os coroas sem perceber aonde queria chegar com esta discussão. Se a Joana estava grávida havia que saber quem era o gajo e dar-lhe um enxerto de porrada e o assunto ficava resolvido. Mas não, os cotas discutiam sem saber resolver um assunto tão simples.
A Joana, coitada, estava meia confundida com o impacto que a sua exclamação tinha provocado. Mas afinal o que é que ela tinha feito assim de tão mal?
-Oh mãe porque é toda essa zaragata?
A mãe olhou-a, quase irada, e com um embargo na voz soltou:
-Joana não sabes o que dizes se calhar nem te apercebes que podes ter estragado a tua e até a nossa vida!
A rapariga olhava a mãe, o pai e o irmão sem perceber onde estava o drama. O que tinha acontecido de tão grave para todos a olharem desta forma tão colérica. Desatou a chorar num pranto tão sentido que a mãe não resistiu e correu a abraçar a filha.
-Querida, grávida na tua idade! Isso nunca nos passou pela cabeça. Mas afinal quem é o culpado dessa desgraça?
Joana olhou a mãe cada vez muito confusa.
-Culpado? Acho que foi o feijão!
O pai esbugalhou os olhos.
O irmão esfregou a cabeça num gesto de quem não está a perceber nada do que se está a passar e gritou;
-Quem é esse feijão que eu parto-o todo.
O pai mais comedido:
-Vamos resolver isto de uma forma civilizada.
A mãe, olhos brilhando de lágrimas:
-Querida quem é esse feijão?
Joana com os soluços a embargarem a voz exclamou.
-Mãe... foi o teu feijão. Comi o feijão guisado que deixas-te para o almoço e, não sei porque, comecei a ficar com a barriga inchada. Doía e fui ver à Internet o que fazer para me tratar. Procurei e dizia lá que barriga inchada podia ser sinal de gravidez.
Desatou num choro convulsivo, soluços que metiam dó:
-Pensei que o feijão me tinha deixado grávida. Eu não sabia que isso era mau.
Foi um raio de Sol que rompeu pela minha janela e que brincando com os meus olhos me trouxe para a realidade do dia.
Esfreguei os olhos tentando, por mais uns minutos, gozar da doçura da cama.
Levantei-me com algum esforço, os ossos já não são como antigamente e todas as articulações se vão queixando à medida que se têm que mover.
O dia estava lindo, e o chilreado dos pássaro era o pronuncio de um dia de calor.
Olhei pela janela e a azáfama diária já se ia instalando nas ruas. O homem do quiosque pendurava os jornais diários na expectativa que os títulos mais gritantes trouxessem os possíveis clientes.
Dona Rosalina saiu esbaforida do prédio e gritava de uma forma tão histérica que as pessoas tinham dificuldade em perceber o que ela dizia.
Estava totalmente transtornada, com um espanador na mão e os olhos esbugalhados ia apregoando:
-Está morto, mataram o Senhor Isidro! Chamem a polícia!
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Dona Rosalina fazia a limpeza no escritório que ficava no rés-do-chão do prédio em frente do meu.
Como em todos os outros dias, chegou cedo para poder estar despachada antes da entrada do pessoal mas, hoje, estranhou a luz acesa no gabinete do patrão, o Senhor Isidro.
Parecia estar a dormir, cabeça na secretária, olhos abertos mirando o vago.
-Que susto que o senhor me pregou! Exclamou Dona Rosalina.
Aproximou-se a medo e só então reparou que a poça de sangue que se espalhava no soalho escorria da cabeça do pobre homem.
Correu para a rua em gritos doidos e desesperados.
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A polícia estava totalmente confundida com as características deste crime.
Pelas análises periciais chegaram conclusão que a morte se terá verificado entre as 9 horas e as 23 horas da noite anterior e tinha sido agredido na zona anterior do crânio com um objecto contundente.
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O Senhor Isidro era o dono de uma empresa de artes gráficas, tinha a oficina nos arredores da cidade e o escritório neste prédio onde sucedeu o nefasto acontecimento, onde além do próprio, trabalhavam também o Senhor Onofre como responsável pela contabilidade, a menina Gracinda que se encarregava do secretariado e o senhor Pires encarregado do sector comercial.
Todos foram interrogados e conferidos os seus álibis. Não encontraram nada que os pudesse colocar no local do crime.
A menina Gracinda saiu, como todos os dias, por volta da 18, 30 h e foi directamente para casa onde ficou juntamente com o marido e a filha.
Os outros saíram, os dois, cerca das 19 horas, beberam uma cerveja no café ao lado do escritório e seguiram para as residências.
O senhor Onofre vivia com uma filha e o genro que puderam confirmar que chegou por volta das oito e meia e só voltou a sair de manhã para ir trabalhar.
O senhor Pires, que ainda vive com os pais, chegou por volta das oito horas, jantou e adormeceu frente ao televisor até a mãe o acordar para ir para a cama.
Os três garantiram que o patrão ficou no seu gabinete, que disseram até à manhã mas, como de costume, ele não respondeu.
O senhor Isidro tinha um feitio muito irascível, implicativo e sempre pronto a encontrar defeitos em tudo que os outros faziam. Para ele, só os clientes contavam, tudo o mais, era secundário.
Era, como dizia o senhor Pires, um indivíduo em que era difícil contar os inimigos e muito, mas mesmo muito, fácil contar os amigos.
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Passaram oito meses sem nunca terem descoberto quem possa ter dado cabo do canastro ao pobre senhor e, segundo parece, ninguém se mostrou muito preocupado com isso.
A Empresa voltou à rotina normal, o cargo da gerência foi ocupado por um irmão do morto, que fez com que a harmonia voltasse aquele escritório.
A polícia arquivou, parece que por inconclusivo, o processo.
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Hoje levantei-me mais cedo do que habitual e, por puro acaso, encontrei a Dona Rosalina que me sorriu:
-Olá senhor Doutor há muito que não o via, onde tem andado?
-Oh Dona Gracinda, o trabalho sabe como é! E a senhora que tem feito? Já não a via desde o dia em que o encontrou, sabe, no dia em que descobriu aquilo.
Com sorriso respondeu:
-Ah quando encontrei o gajo morto? Já foi para ai há nove meses.
Estranhei a calma da resposta mas:
-Pois foi! E nunca descobriram nada? Pobre homem!
Fez uma cara de desagrado e quase gritou:
-Pobre homem? Teve o que merecia, para não se meter com quem não devia. Sabe que ando doida por desabafar mas tenho medo.
-Mas fale comigo, sou um tumulo.
-Tenho receio, não vá o senhor doutor lixar-me.
-Mulher fale à vontade que eu juro, haja o que houver, diga o que disser que nunca a minha boca se irá abrir.
-Então antes que rebente aqui vai, fui eu que estoirou os cornos daquele gajo!
Nesse dia fui à noite fazer a limpeza e o tipo ainda lá estava. Começou com graças pensando que eu era uma qualquer. Mandei vir com ele e até pareceu que se acalmou até que entrei no seu gabinete o aspirar. Vai dai o sacana apalpou-me o rabo com a maior desfaçatez. Fiquei furiosa e dei-lhe com o tubo do aspirador nos cornos. Não se mexeu mais.
Juro senhor doutor que não queria fazer aquilo, só me defendi mas se calhar foi com força demais. Pirei-me logo para casa e voltei no outro dia de manhã como se não fosse nada comigo.
Fiz toda aquela fita e nunca ninguém me perguntou nada.
É para ver a polícia que temos!
Fiquei siderado, fui-me raspando enquanto lhe ia respondendo:
-Nunca me contou nada, juro que nunca falei consigo. Passe bem Dona Rosalina.
Ela, Dona Emília, tem uns olhos azuis encovados, orlados por um rendilhado de rugas, que mal deixam perceber aquelas duas pequenas safiras que miram o mundo de uma forma muito especial.
É tão velha que ela própria já perdeu a conta aos anos, fala em coisas de um passado longínquo, lembra acontecimentos de há muitos anos como se tivessem passado ainda ontem.
Ele, Senhor Sebastião, é tão velho como ela, mas os olhos já deixaram de brilhar. O tempo apagou a luz que o guiava, as pernas já deixaram de obedecer e o tino, muitas vezes, atraiçoa o pensamento. Já não consegue andar sozinho e é o braço fraco da Dona Emília que o ampara até ao banco onde, à porta, adormece perante os raios de Sol.
Vivem os dois naquele rés-do-chão do pátio das violetas. Os vizinhos são o seu amparo e a assistência social o seu modo de vida.
As queridas meninas, como diz a Dona Emília, todos os dias lhe levam a marmita com o alimento que os mantém.
No resto a Dona Emília consegue manter a casa, pensa ela, como sempre a tem mantido.
Tiveram uma filha que um dia abalou com um estrangeiro. Nunca mais deu notícias.
Trata do marido com um carinho e de forma tão protectora que, por vezes, faz esquecer que já dobrou há muito a idade dourada.
Ela fala muito com ele, não sabemos se a escuta, pois em regra a sua mente anda longe, muito longe, tão distante quê se perde no tempo e se encaixa nos seus anos de juventude.
-Sabes Sebastião, hoje as meninas trouxeram a sopa que tu gostas. É de cenoura e tem massinhas. Não tarda vou tratar do teu almocinho, mas vais engolir tudo e não ficas com a comida a brincar na boca. As vezes és mesmo como um miúdo!
Ele não escutava nada, parecia olhar aquela voz que lhe era familiar, mas os olhos tinham perdido a luz e os ouvidos apenas lhe levavam um zunido que o embalava num emaranhado de recordações perdidas no tempo.
Era enternecedor ver a Dona Emília, alquebrada, sem forças a arrastar com tanto carinho o seu marido para o aconchego do lar, logo que o Sol se escondia. Punha um braço pela cintura e com o outro segurava a bengala e lá o ia arrastando docemente, com um sorriso nos olhos e um esgar de dor nos lábios.
Há dias que não via o Senhor Sebastião e isso preocupou-me, pelo que me atrevi a perguntar:
-Ti Emília que é feito do nosso homem?
Olhou-me da profundeza do azul apagado dos seus olhos e quase num soluço respondeu:
-Sabe que há dois dias que o não consigo arrastar do cadeirão, nem para aqui nem para a cama. Está teimoso, nem a sopinha lhe consigo dar, lá lhe meto umas colheradas pela boca abaixo mas é mais a que vai por cima do cobertor. Não sei que fazer, tenho que arranjar maneira de o levar ao médico.
Fiquei muito mais preocupado e descansei-a:
-Deixe estar que eu vou aos bombeiros e eles tratam de levar o seu marido ao hospital.
Vislumbrei umas lágrimas nos olhos cansados.
-Obrigado menino e que Deus o ajude.
Os bombeiros chegaram tarde, o pobre homem há três dias que estava morto. Deitado num cadeirão de verga, tapado com um cobertor cheio de sopa. Já começava a exalar um cheiro desagradável.
Trataram de todas as formalidades e levaram o pobre coitado.
Alguém iria tratar do funeral.
Dona Emília não acreditou na morte do seu homem. Pensou, foi para o hospital mas vai voltar.
Passava os dias, sentada no seu banco, perscrutando ao longo da rua na esperança de o ver aparecer.
Os dias iam correndo e o seu amor tardava, o esmorecimento ia minando a esperança, a solidão era a única coisa que lhe restava.
Não podia esperar mais, ele não vinha, ela ia ter com ele.
Eu sei que não vão acreditar. É difícil mas juro que aconteceu comigo. Há muito tempo mas aconteceu
Estava uma daquelas noites que metiam medo.
A chuva e o vento buliam com as minhas janelas de forma assustadora, mas havia um bater que me perturbava um pouco.
Era constante, como que um roçar.
Acendi a luz e espreitei pelo ralo porque não me atrevia a abrir a porta, morava no campo, estava só e, confesso, tinha medo.
Não conseguia ver nada além da chuva e do faiscar constante a romper o breu da noite.
Não deve ser nada, vou esquecer! Impossível o ruído continuava.
A solução era subir ao outro piso e espreitar pela varanda, ia apanhar uma molha mas sossegava.
Vi então, era uma pequena corça, que com muita insistência esfregava as ancas na porta numa tentativa de chamar atenção.
Coisa estranha! Uma corça, um animal que fugia dos humanos estava à minha porta encharcada e em pânico. Que seria que estava a acontecer?
Ganhei coragem, desci e escancarei a porta suavemente para não a assustar mais do que já devia estar.
Mal a abri entrou tremendo, enregelada, com um ar de súplica nos olhos. Deixou-me, totalmente, sem jeito, sem saber o que fazer.
Foi-se encostar ao calor da lareira, olhando-me com uns olhos tão ternos, quase que a rogar que a deixasse ficar.
Devia ter fome, mas confesso, não sabia que lhe dar de comer.
Calculei que fosse vegetariana, mas só isso.
Arrisquei. Parti umas maças, juntei um pacote de milho das pipocas, deitei numa tigela e coloquei na frente do animal.
Comeu sofregamente.
Alimentou-se, deu dois passos na minha direcção e carinhosamente aproximou o focinho da minha cara na tentava de um afago.
Não resisti e dei um beijo no focinho do animal.
Puuuummmm……um feixe de fumo coloriu o espaço e deu-se o impensável.
A corça transformou-se numa mulher de sonho. Linda, corpo esculpido por uma artista divino. Curvas perfeitas, peito empinado com dois botões rosados a encimar duas belas cordilheiras. No umbigo um rubi provocava iridescentes reflexos. Apenas um diáfano véu, rosado, a cobrir esta maravilha que a natureza me tinha colocado na frente.
Olhou-me com olhos de mel e contorceu-se num bailado sensual que me ia deixando próximo da loucura.
Rodopiava, fazendo o véu mostrar, de forma artística, o corpo maravilhoso, coleante em sensuais requebros que me levavam embalado em pensamentos libidinosos.
Depois parou em posição semi-deitada com um joelho em terra e estendeu a mão, ornada de anéis, e com a voz mais quente que algum dia me foi dado ouvir, disse:
-Libertastes-me do encanto, és o meu amo. Os teus desejos, para mim, serão ordens, estou aqui para te servir meu senhor!
Voltou a dançar, só para mim.
Encheu a sala de magia e encanto, bamboleando a arte em voluptuosas voltas que me sussurravam aos ouvidos, me enchia os olhos e me aqueciam a alma.
Uma música, não sabia donde vinha, dava encanto àquela magia que me tinha, agora, a mim enfeitiçado.
Lá fora a chuva parou e o vento amainou.
Em suave deslizar foi-se aproximando, lábios escorrendo sensualidade, corpo coleante em suaves requebros.
Tinha algo que a tornava diferente, não sei bem se a cor indefinida dos olhos, os fulgurantes cabelos ruivos ou se aquele ar de ingenuidade que a caracterizava.
Não era propriamente linda mas, meu Deus, sempre que a olhava algo encaracolava dentro de mim. Sentia um formigueiro subir pelas pernas e o coração acelerava de tal maneira que tinha que fechar a boca para ele não saltar.
Andei assim algum tempo, confuso, sem saber o que fazer. Como sabem eu não sou homem de me encolher, gosto de ir à luta e quando uma mulher bule comigo eu ataco logo.
Mas agora era diferente, havia um conflito dentro de mim. Eu queria mas a vontade entorpecia os movimentos e ficava quedo a contemplar.
Queria ir à contenda, cortejar, usar todo o meu charme, fazer aquele olhar que as deixas loucas mas, uma paralisia se apossava de mim e não me deixava avançar.
Hoje passou e sorriu, um sorriso mesclado de sedução e desafio. Fiquei com uma tremedeira que me paralisou e limitei-me a vê-la bamboleante numas apertadas calcas de ganga em dança que deixavam um refego a dividir dois hemisférios bailando ao som de bater do meu coração.
Sonhei com ela, lasciva, avançando com os lábios húmidos de desejo e o corpo em oferendas de prazer. Senti as suas mãos percorrerem o meu corpo em espirais de carícias. Deixei-me enredar nos afagos loucos do seu calor. Corpos colados numa amálgama de loucura e prazer, emoções, desejos loucos. Tremores, suspiros abafados no calor húmido do desejo. Movimentos descontrolados, seivas brotando, rebentar de voluptuosidade num ritmo louco da voracidade do desejo. Ondas de fogo ardendo em explosões de vida.
Acordei em agonia e num estado lastimoso. Um duche recuperou o corpo.
Ao pequeno-almoço a minha mãe olhou-me daquela forma que só as mães sabem olhar.
-Rui que se passa contigo? Estás estranho! Queres falar com a tua mãe?
Fiquei embaraçado mas arranjei coragem para dizer:
-Mãe, gosto muito duma rapariga!
-E isso é mau? Perguntou ela.
-Sabes mãe, é muito bom mas eu não arranjei coragem para lhe dizer nada. Ando perdido, sonho com ela, ando com ela na minha cabeça, mas não fui capaz de ir além disto.
Olhou-me com um ar tão trocista que me senti, quase, envergonhado.
-Rapaz, que se passa? Estás mesmo apaixonado! Quem é essa rapariga?
-Não sei muito bem, só a vejo passar por mim todos os dias. Mora naquela casa amarela ao fundo da nossa rua. É uma ruiva linda, sensual, cara de anjo e com um sorriso lindo.
A mãe olhou-me de uma forma muito misteriosa. Aguçou a voz e disse-me:
-Ainda te lembras do Gonçalinho? Aquele rapar que foi há, para aí, dois anos estudar para Londres?
-Mãe o que tem a ver o Gonçalinho com esta mulher linda que se cruza comigo todos os dias comigo?
-Tem muito a ver e sabes porque? O Gonçalinho voltou, agora chama-se Raquel mas julgo que continua a ter entre as pernas a mesma coisa tu.
A notícia correu o bairro, entrou em todos os lugares, entoou como um cântico nos claustros de uma Igreja.
Havia um misto de consternação e uma onda de curiosidade invadiu tudo e todos.
-Morreu o Senhor Varela, apregoavam os miúdos como se espalhar a noticia fosse uma prédica anunciada.
Nas tabernas os homens, enquanto escorropichavam os copos, iam abanando a cabeça num sinal de desolação.
Na Mercearia do Senhor Isidoro as mulheres cochichavam de forma tão camuflada que pareciam ter medo de alguma coisa. É verdade que não gostavam muito do Senhor Varela, libertino mor, instigador das pândegas que levavam os homens às noitadas e às memoráveis bebedeiras. Rara era a semana em que o Varela não organizava uma qualquer comemoração para festejar algo que seria inventado se necessário.
Depois era o descalabro, noitada na Sociedade Recreativa, onde o Varela era Presidente, com o petisco e o vinho a correr abundante de mesa em mesa.
Os homens voltavam tarde e a má hora ao remanso dos lares, avinhados e sem disposição de cumprir os rituais a que as mulheres se iam desabituando.
Agora, com a morte do homem, a calma e o sossego podia estar de volta aos lares do bairro, mas, embora pensando assim nenhuma se atrevia a dizer o que lhe ia na alma.
Apesar de essa oculta conspiração ser notória a consternação envolvia os homens como se fosse algum ente chegado a juntar os pés e a partir desta para melhor.
O velório ia ser no Clube, afinal era o Presidente, e que melhor poderiam fazer os seus consócios do que o homenagear na casa onde passara a maior parte dos seus dias e muito especialmente das noites.
Bandeira à meia haste. A mesa do bilhar tapada com crepes pretos, serviria para colocar o caixão onde todos e todas, iriam prestar homenagem ao homem que dinamizava os grandes acontecimentos socioculturais do bairro, bailes, campeonatos de sueca e até mesmo grandes torneios de snooker.
O velório era um acontecimento que ultrapassava tudo o que de interessante alguma vez tivesse acontecido naquele lugar. As luzes veladas, os crepes negros e os reposteiros vermelhos, com que taparam as portas, davam ao lugar um ar lúgubre e soturno como convinha para esta ocasião.
Em cima do pedestal improvisado, ninguém diria que o era, o caixão era o alvo de todas as atenções.
Iam entrando e enquanto uns se postavam numa meditação mexendo os lábios num simular de oração, outros apenas se perfilavam, destapavam o rosto como para se certificar e retiravam devagar para a sala de espera.
A Dona Cacilda companheira de toda a vida do pobre Varela estava inconsolável, quem lhe havia de dizer que assim sem mais nem menos, a ia deixar tão só e abandonada.
Choramingava enquanto se lamentava:
-Estava tão bem disposto, jantou e de repente sentiu-se mal, foi para a cama e, desafortunado, já não acordou. Ainda chamei o Doutor Idalécio mas, coitado, nada pode fazer a não ser passar a certidão de óbito.
Suspirou, um suspiro tão fundo e sentido, que foi um dó de alma escutar tanto sofrimento.
Dona Carminda, a sua melhor vizinha, não aguentou o tédio desta morna sessão de homenagem e deixou-se vencer pelo sono. Abriu a boca e num suave roncar deixou-se embalar nas asas de Morfeu. Valeu uma cotovelada da Dona Cacilda para por termo a tão desapropriado acontecimento.
Corria o velório nesta tediosa maneira quando de repente, Varela se sentou no caixão e esfregando os olhos para se habituar à semi-obscuridade clamou:
-Ainda bem que estão aqui todos!
O pessoal levantou-se com gritos histéricos de pavor, desarvoraram em louca correria em procura da rua que os libertassem deste inesperado regressar dos mortos. Só a pobre da Dona Carminda que desmaiou com tamanho susto ficou a fazer companhia ao morto, que afinal estava vivo.
Varela ficou confuso, não percebia este atropelo e este desandar desesperado de todos os seus amigos. Não percebia o que se passava.
Tentou levantar-se desse emaranhado de roupas e crepes negros com que o enfeitaram em tantas horas de catalepsia mas, os movimentos não obedeceram à vontade e baldou com estrondo para cima das cadeiras alinhadas em redor da improvisada peanha.
O estouro trouxe os mais afoitos ao lugar do culto e tiveram que conter o riso com o quadro que se lhes deparou.
Dona Carminda descomposta, com as pernas à vela e com umas vistosas culotes floridas a proteger as partes mais íntimas dos olhares curiosos. Escarranchado no seu peito o pobre senhor Varela olhava aparvalhado sem compreender o que se estava a passar.