Nas pastagens cobertas de neve as ovelhas procuram as ervas escondidas nas pedras que enxameiam as alcantiladas encostas.
A pacatez da aldeia foi quebrada, de repente, com o grito de Romana Chilrito, a filha Cláudia tinha desaparecido.
Cláudia é uma linda menina de seis anos, ladina e cheia de imaginação, passa os dias brincando com as bonecas de trapo que a avó Germana faz para ela.
Hoje a menina desapareceu, não está em nenhum dos locais de brincadeira.
-Vais ver que anda para aí!
Dizem as vizinhas, enquanto vasculham as redondezas, espreitam o poço e vão olhando os currais das ovelhas e o chiqueiro onde os porcos pachorrentamente chafurdam na lama.
Nada da Cláudia, a menina sumiu de tal forma que parece que a terra a engoliu.
Os bombeiros e a Guarda já vasculharam tudo o que é sítio, todos os poços e buracos foram vistoriados e a todos foi procurado se tinham visto, ou, escutado a criança.
Nada, desapareceu como se houvesse eclipsado, como se nunca tivesse existido.
A GNR começou a investigar a hipótese de rapto, a menina era linda, mas não havia indícios de estranhos na aldeia. Nos últimos tempos, ninguém tinha violado a pacatez do lugar.
Foi numa quinta-feira, iam passados três dias do desaparecimento, quando o pastor José Inácio descobre entre as pedras duma lura um corpo de uma criança, rosto agrumulado pelo rigor do tempo que na serra é muito severo.
Então o choro tomou conta da povoação, as mulheres carpiram a dor em prantos que entoaram para além do local, os homens cabisbaixos andavam enrolados em capotes que os protegiam do gélido e os mantinham isolados da dor e da dúvida.
Foi a Judiciária que lançou a suspeita, o professor Almerindo há pouco na terra, foi chamado para um interrogatório que deixou a população em alerta. O professor tinha sido colocado este ano na escola e o seu relacionamento muito meloso, com as crianças, não agradava a todos, mas era só isso porque no resto parecia ser um bom mestre.
Nada se apurou e, embora a angustia fosse notória, a vida retomou o seu curso na dureza da terra, na solidão do pastoreio ou nas vicissitudes de uma existência feita de nada.
A morte da Cláudia estava presente, sentia-se no ar, nos rostos tisnados pelo frio, nos olhares enviesados, na desconfiança e na profunda tristeza que passou a fazer parte o quotidiano desta gente.
As primeiras flores anunciavam a Primavera e a neve ia deixando a faldas mais escapadas da serra, as urzes iam perfumando o ar puro.
Hoje a aldeia estava num reboliço tremendo e as suspeitas entraram novamente na vida de todos, o Professor Almerindo foi encontrado a caminho de casa com a pequena Susana pela mão e embora a sua garantia de que apenas ir recolher um livro esquecido o povo, desde logo, fez ali o seu veredicto:
-CULPADO
Na reunião de emergência com as autoridades, o Presidente da junta e direcção escolar foi de, forma unânime, decidido que no dia seguinte o professor deixaria a Escola e a Aldeia.
Para o povo não era suficiente, a evidência era demasiado para ficar, assim, impune a morte da pequena Cláudia e todo o desconforto que tinha transformado a pacatez daquela gente.
****
Quando o encontraram parecia um porco acabado de matar, numa nudez que chocava, peito empapado de uma massa viscosa que ia secando em redor da faca que lhe atravessava o peito, no sítio, onde ficava o coração.
Uma hora depois apresentaram-se, no posto da guarda, os 378 anos habitantes, adultos, da aldeia e todos eles se vinham declarar como culpados pela execução do professor.
****
Vão passados dois anos, o esquecimento vai libertando as mentes daquela gente que retomaram a plácida rotina de outros tempos.
A justiça arquivou o processo por falta de provas, havia uma única facada e apresentaram-se 756 mãos a reivindicar esse privilégio.
Tinha umas mãos longas e de uma beleza que faziam inveja, brancas e com umas unhas bem cuidadas, cortadas numa linha recta, cobertas com um verniz rosado e decoradas com pequenas flores vermelhas.
Se os artistas tivessem mãos diferentes de todos os outros, eu diria que tinha mãos de artista, mas conheço artistas com mãos nodosas.
Olhei-a não querendo parecer muito impressionado.
Era, quase, uma escultura renascentista onde a beleza dos traços se confundiam com a delicadeza das formas nas proporções certas, nos locais exactos.
-A que devo o prazer da sua visita?
Sentada numa posição quase “cleópatrica”, pernas unidas numa postura estudada e que servia para realçar algo que passa a fronteira do imaginável, pois são perfeitas até nos joelhos onde, em regra, quase todas falham. Mas estas, meu Deus, até nisso eram correctas. Lindas, longas, torneadas e com uns contornos onde os ossos não estragavam o conjunto.
O rosto, meu Senhor o rosto, tinha a doçura de um Anjo, a candura de um bebé e a beleza de uma Afrodite. Era quase irreal.
Olhou-me do alto de uns olhos azuis, penetrantes e com um sorriso foi dizendo:
-Andei-me informando e todos são unânimes em dizer que o senhor é o melhor, até me dizem que será o Mourinho dos detectives. Preciso dos seus serviços, preciso muito.
Sorriu e pareceu-me que o Sol tinha nascido no meu escritório.
Rolei entre os dedos um lápis, gesto mecânico que me ficou quando deixei de fumar. Olhei-a tentando descobrir o que se escondia debaixo daquele ar de anjo.
-Minha senhora, não sei se sou o melhor e isso pouco me interessa, cumpro bem para aquilo que me pagam. Se lhe puder ser prestável, desde que dentro da legalidade, estou pronto a ouvir o que tem para me dizer.
Fez como que um beicinho e fiquei sem saber o que fazer, se fugir desta tentação ou se correr para ela e aconchega-la nos meus braços.
Contive as maquinações do meu pensamento, olhei-a bem nos olhos e insisti:
-Bom, em que poderei ser útil?
-Senhor Gilberto, julgo que é esse o seu nome, preciso que descubra quem anda a ameaçar o meu marido:
-Ameaçar, mas ameaçar como? Para esses casos nada como avisar a polícia!
Humedeceu os lábios com a ponta da língua, gesto maquinal mas cheio de uma sensualidade estudada.
-Não quero a polícia, quero resolver particularmente este assunto. O meu marido é um homem muito importante no mundo dos negócios e, como deve saber, nesta situação é fácil arranjar muitos inimigos. A inveja impera e temos que nos manter atentos.
Continuei a rolar o lápis enquanto o meu pensamento tentava enquadrar aonde esta conversa me podia estar a levar. A mulher era demasiado perfeita para estar a falar verdade. Era pedir muito. Tentei o meu melhor sorriso e perguntei:
-Mas porque não é o seu marido a procurar ajuda para este caso?
Fez o gesto de cruzar a perna e o meu coração parou, mas desistiu e o meu coração retomou o ritmo normal.
-Como lhe disse o meu marido é um importante homem de negócios e o trabalho absorve-lhe o tempo por completo, não tem tempo para mais nada.
O meu pensamento não pode deixar de ser um pouco pecaminoso, pois com uma mulher como esta e apenas com tempo para o trabalho era um pouco estranho, mas isto sou eu a pensar pois se calhar ainda lhe resta tempo para mais algumas coisas.
Sorri, um sorriso um pouco amorfo mas foi um sorriso:
-Bom… Vou ficar com todos os elementos para começar. Vai-me deixar um sinal para despesas.
Entregou-me um envelope, perfumado, com todas as indicações e onde juntou um molhe de notas:
-É suficiente para as primeiras despesas? Perguntou com um sorriso capaz de fazer desabrochar uma flor.
Estendeu-me uma a mão gelada e saiu num deslizar de suavidade e sedução.
Abri o envelope, contei os 1.200 Euros, passei um recibo que guardei na carteira e dei um olhar atento pelas indicações que, numa caligrafia miudinha, me eram fornecidas por aquele monumento que acabara de sair.
Nos papéis dizia que era a Senhora Dona Marta Cascudo, casada com o industrial José Maria Cascudo. Nunca tinha ouvido, ou lido, tais nomes mas, possivelmente, era ignorância minha.
As ameaças, eram todas feitas em colagens muito pouco originais.
Guardei tudo na pasta e sai para um jantar rápido.
No Bar do Elias nada de novo. Balcão corrido onde alguns personagens que pareciam ter saído de algum romance de Raymond Chandler, iam digerindo, em gestos mecânicos, os restos do que parecia ter sido uma refeição.
Sentei-me na mesa do costume, no canto, onde podia observar passando despercebido.
Enquanto tragava, o bife grelhado, fui estudando os elementos que a Dona Marta me deixou. Pouco coisa de interesse, apenas hábitos, horas e locais. Amanhã ia começar, ia postar-me em frente à residência para poder seguir o dia desse Senhor Cascudo.
Paguei e segui para casa.
O dia estava frio e a relento parecia querer roer as nossas articulações. O carro, como sempre com a humidade, só pegou depois de muita insistência. Mas pegou.
O trânsito era o do costume, taxistas acelerados desrespeitando tudo e todos, senhoras e senhores em andar morno provocando filas e todas as tropelias de uma manhã dos apressados a caminho dos empregos.
Cheguei, antes das oito horas, à morada que estava nas instruções mas, estranho, não havia nenhuma habitação no local, apenas uma pequena oficina de bate-chapas, um armazém de hortaliças, um clube nocturno de aspecto um pouco duvidoso e um local de estacionamento onde antes teria sido um edifico.
Perguntei na oficina se estava no sítio certo. Estava no sítio certo mas no local errado. A morada era essa mas ninguém habitava esta rua.
Era estranho, podia ser brincadeira, mas tinha deixado um sinal de 1.200 Euros.
Entrei num café na esquina da travessa. Um par de namorados estavam tão embevecidos a treinar comerem os dois com a mesma boca que tive que me desviar para não estorvar tão bela tentativa.
Ao balcão uma senhora, tão gorda que só se conseguia deslocar de lado, olhou para mim com um olhar tão interrogativo que fiquei na dúvida se também serviriam café, mas tentei.
-Uma bica curta.
Arrastou o corpo de uma forma tão diligente até à máquina que pensei que afinal a gordura era apenas aparente.
-Aqui tem o seu cafezito! É novo por aqui, nunca o tinha visto?
Afivelei um sorriso e respondi:
-Estou de passagem, vinha a ver se encontrava o Senhor José Maria Cascudo mas, devo estar enganado na morada.
-O Doutor Cascudo! Exclamou a mulher.
Senti a esperança renascer e, agora sim, com um sorriso verdadeiro perguntei:
-Sim, sim, conhece?
Olhou-me com uns olhos piscos muito velhacos. Passou a língua, gorda como o resto, por uns lábios ressequidos e com um ar enigmático disparou:
-Conheci sim senhor, foi um bom cliente!
Comecei a ficar um pouco perplexo, a criatura estava-me a parecer por demais enigmática.
-Mas já não conhece?
Sorriu, da forma como só as cascavéis sabem sorrir. Sibilina, enigmática.
-Conheço como se podem conhecer os mortos. O senhor Doutor que morava, na casa que foi demolida, aí na travessa, morreu mais a esposa num grande acidente de automóvel, no ano passado. Não leu nos jornais?
Fiquei confundido, duas pessoas a gozarem comigo num período de 24 horas era demais.
-Será o mesmo?
-Isso não sei, mas com esse nome não deve ser fácil haver muitos.
Parecia lógico, arrisquei;
-Como era a mulher?
Olhou-me com um ar reprovador, pensando sei lá o que.
-Uma cabra, linda e jeitosa como todas as mulheres gostariam de ser, mas uma cabra que não deixava o homem respirar, não o largava um instante. Ciumenta até da própria sombra, mas não lhe valeu de nada. Morreram juntos. Ficaram feitos em carvão, nada se aproveitou.
Fez um trejeito de choro, mas não se saiu nada bem.
Paguei, meti-me no carro e sai disparado. Há coisas na vida que não sei explicar.
Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.
Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.
Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.
Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:
-Senhor compre uns!
Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:
-Tens fome?
Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.
-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!
Vi medo no corpo franzino:
-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.
Sosseguei-a:
-Vamos juntos e eles deixam.
Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:
-Que te apetece comer?
Olhou tudo e encolheu os ombros.
-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.
Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.
-Pode ser, respondeu a medo.
Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.
Reparou que a estava a observar e perguntou:
-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?
Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:
-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.
Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.
-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!
Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.
Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.
-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.
-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.
-E a tua mãe?
-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.
-Tens irmãos?
-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.
Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.
-Senhor porque me pagou esta comida?
-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?
Sorriu mais uma vez.
-Tens filhas? Perguntou muito séria.
-Não, não tenho filhas.
Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.
Percebi que algo ficou por dizer e insisti:
-O que ias dizer?
-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.
Sabem que esta pequena estória podia ser verdadeira? Eu sei que não é, mas que podia..podia!
A Alice tinha uma pita e andava ufana. Dizia a toda a gente:
-A minha pita é linda e não há outra igual.
No pátio, onde vivia, já todos estavam cansados de a ouvir elogiar a pita. As mulheres olhavam de lado e passavam mostrando total desinteresse, os homens não passavam sem querer fazer um afago na pita da Alice.
Os tempos iam passando e a pita ia crescendo, era linda, fofinha apetecia mesmo fazer uma festinha.
Mas nem pensar a Alice não deixava ninguém mexer na sua pita. Era dela e só dela.
Hoje a pita está enorme, delicada e muito branquinha, parece que a neve a veio enfeitar de alvos e imaculados flocos.
A mãe da Alice, essa, não anda nada satisfeita, pois a pita não é asseada e pita que não é asseada deita mau cheiro.
A mãe ia avisando a Alice:
-Se não cuidas em condições da tua pita ainda vais ter um desgosto, toma atenção e depois não digas que eu não te avisei.
A filha resmungava:
-Pois tens inveja da minha pita e até acho que gostavas de ter uma como a minha, mas não penses porque a minha é única, é especial. Pergunta ao meu namorado porque é ele quem mais brinca com ela. Vá lá! Pergunta!
A mãe não gostava nada destes desaforos da filha e rilhando os dentes ia ameaçando:
-Depois não me venhas dizer que eu não te avisei!
*******
Um dia, há sempre um dia, Alice chegou a casa e não viu a pita:
-Mãe onde está a minha franga?
-Eu avisei, não avisei? Não me destes ouvidos e agora a tua pita está na panela. Deu uma bela canja. Oh se deu!
Joana tinha acabado de fazer treze anos, era muito infantil e ainda gostava de brincar com o seu boneco “Nenuco”, mas tinha que o fazer às escondidas porque o seu irmão, Jorge de 18 anos, gozava com ela.
Os pais eram, como ela dizia, porreiros mas andavam sempre a discutir.
Hoje, entrou na cozinha e com o ar mais natural deste mundo gritou:
-Pessoal acho que estou grávida!
A mãe abriu a boca de espanto e ficou muda com um olhar esgazeado. O pai não se conteve e encontrou logo ali o bode expiatório, a mulher:
-A culpa é toda tua, se a tens educado como se educa uma rapariga nada disto teria acontecido, mas não, vocês mulheres são todas a mesma coisa.
A mulher olhou-o de través e, chispando, como um toiro enraivecido atirou:
-Mas quem és tu para falar, inútil que nunca se importou nada com os filhos, que nunca os acompanhou. Carregas tudo para cima de mim. És um zero que sempre tens descartado os problemas e pões o cu de fora quando os há para resolver.
O filho mais velho olhava os coroas sem perceber aonde queria chegar com esta discussão. Se a Joana estava grávida havia que saber quem era o gajo e dar-lhe um enxerto de porrada e o assunto ficava resolvido. Mas não, os cotas discutiam sem saber resolver um assunto tão simples.
A Joana, coitada, estava meia confundida com o impacto que a sua exclamação tinha provocado. Mas afinal o que é que ela tinha feito assim de tão mal?
-Oh mãe porque é toda essa zaragata?
A mãe olhou-a, quase irada, e com um embargo na voz soltou:
-Joana não sabes o que dizes se calhar nem te apercebes que podes ter estragado a tua e até a nossa vida!
A rapariga olhava a mãe, o pai e o irmão sem perceber onde estava o drama. O que tinha acontecido de tão grave para todos a olharem desta forma tão colérica. Desatou a chorar num pranto tão sentido que a mãe não resistiu e correu a abraçar a filha.
-Querida, grávida na tua idade! Isso nunca nos passou pela cabeça. Mas afinal quem é o culpado dessa desgraça?
Joana olhou a mãe cada vez muito confusa.
-Culpado? Acho que foi o feijão!
O pai esbugalhou os olhos.
O irmão esfregou a cabeça num gesto de quem não está a perceber nada do que se está a passar e gritou;
-Quem é esse feijão que eu parto-o todo.
O pai mais comedido:
-Vamos resolver isto de uma forma civilizada.
A mãe, olhos brilhando de lágrimas:
-Querida quem é esse feijão?
Joana com os soluços a embargarem a voz exclamou.
-Mãe... foi o teu feijão. Comi o feijão guisado que deixas-te para o almoço e, não sei porque, comecei a ficar com a barriga inchada. Doía e fui ver à Internet o que fazer para me tratar. Procurei e dizia lá que barriga inchada podia ser sinal de gravidez.
Desatou num choro convulsivo, soluços que metiam dó:
-Pensei que o feijão me tinha deixado grávida. Eu não sabia que isso era mau.
Foi um raio de Sol que rompeu pela minha janela e que brincando com os meus olhos me trouxe para a realidade do dia.
Esfreguei os olhos tentando, por mais uns minutos, gozar da doçura da cama.
Levantei-me com algum esforço, os ossos já não são como antigamente e todas as articulações se vão queixando à medida que se têm que mover.
O dia estava lindo, e o chilreado dos pássaro era o pronuncio de um dia de calor.
Olhei pela janela e a azáfama diária já se ia instalando nas ruas. O homem do quiosque pendurava os jornais diários na expectativa que os títulos mais gritantes trouxessem os possíveis clientes.
Dona Rosalina saiu esbaforida do prédio e gritava de uma forma tão histérica que as pessoas tinham dificuldade em perceber o que ela dizia.
Estava totalmente transtornada, com um espanador na mão e os olhos esbugalhados ia apregoando:
-Está morto, mataram o Senhor Isidro! Chamem a polícia!
********
Dona Rosalina fazia a limpeza no escritório que ficava no rés-do-chão do prédio em frente do meu.
Como em todos os outros dias, chegou cedo para poder estar despachada antes da entrada do pessoal mas, hoje, estranhou a luz acesa no gabinete do patrão, o Senhor Isidro.
Parecia estar a dormir, cabeça na secretária, olhos abertos mirando o vago.
-Que susto que o senhor me pregou! Exclamou Dona Rosalina.
Aproximou-se a medo e só então reparou que a poça de sangue que se espalhava no soalho escorria da cabeça do pobre homem.
Correu para a rua em gritos doidos e desesperados.
******
A polícia estava totalmente confundida com as características deste crime.
Pelas análises periciais chegaram conclusão que a morte se terá verificado entre as 9 horas e as 23 horas da noite anterior e tinha sido agredido na zona anterior do crânio com um objecto contundente.
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O Senhor Isidro era o dono de uma empresa de artes gráficas, tinha a oficina nos arredores da cidade e o escritório neste prédio onde sucedeu o nefasto acontecimento, onde além do próprio, trabalhavam também o Senhor Onofre como responsável pela contabilidade, a menina Gracinda que se encarregava do secretariado e o senhor Pires encarregado do sector comercial.
Todos foram interrogados e conferidos os seus álibis. Não encontraram nada que os pudesse colocar no local do crime.
A menina Gracinda saiu, como todos os dias, por volta da 18, 30 h e foi directamente para casa onde ficou juntamente com o marido e a filha.
Os outros saíram, os dois, cerca das 19 horas, beberam uma cerveja no café ao lado do escritório e seguiram para as residências.
O senhor Onofre vivia com uma filha e o genro que puderam confirmar que chegou por volta das oito e meia e só voltou a sair de manhã para ir trabalhar.
O senhor Pires, que ainda vive com os pais, chegou por volta das oito horas, jantou e adormeceu frente ao televisor até a mãe o acordar para ir para a cama.
Os três garantiram que o patrão ficou no seu gabinete, que disseram até à manhã mas, como de costume, ele não respondeu.
O senhor Isidro tinha um feitio muito irascível, implicativo e sempre pronto a encontrar defeitos em tudo que os outros faziam. Para ele, só os clientes contavam, tudo o mais, era secundário.
Era, como dizia o senhor Pires, um indivíduo em que era difícil contar os inimigos e muito, mas mesmo muito, fácil contar os amigos.
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Passaram oito meses sem nunca terem descoberto quem possa ter dado cabo do canastro ao pobre senhor e, segundo parece, ninguém se mostrou muito preocupado com isso.
A Empresa voltou à rotina normal, o cargo da gerência foi ocupado por um irmão do morto, que fez com que a harmonia voltasse aquele escritório.
A polícia arquivou, parece que por inconclusivo, o processo.
**********
Hoje levantei-me mais cedo do que habitual e, por puro acaso, encontrei a Dona Rosalina que me sorriu:
-Olá senhor Doutor há muito que não o via, onde tem andado?
-Oh Dona Gracinda, o trabalho sabe como é! E a senhora que tem feito? Já não a via desde o dia em que o encontrou, sabe, no dia em que descobriu aquilo.
Com sorriso respondeu:
-Ah quando encontrei o gajo morto? Já foi para ai há nove meses.
Estranhei a calma da resposta mas:
-Pois foi! E nunca descobriram nada? Pobre homem!
Fez uma cara de desagrado e quase gritou:
-Pobre homem? Teve o que merecia, para não se meter com quem não devia. Sabe que ando doida por desabafar mas tenho medo.
-Mas fale comigo, sou um tumulo.
-Tenho receio, não vá o senhor doutor lixar-me.
-Mulher fale à vontade que eu juro, haja o que houver, diga o que disser que nunca a minha boca se irá abrir.
-Então antes que rebente aqui vai, fui eu que estoirou os cornos daquele gajo!
Nesse dia fui à noite fazer a limpeza e o tipo ainda lá estava. Começou com graças pensando que eu era uma qualquer. Mandei vir com ele e até pareceu que se acalmou até que entrei no seu gabinete o aspirar. Vai dai o sacana apalpou-me o rabo com a maior desfaçatez. Fiquei furiosa e dei-lhe com o tubo do aspirador nos cornos. Não se mexeu mais.
Juro senhor doutor que não queria fazer aquilo, só me defendi mas se calhar foi com força demais. Pirei-me logo para casa e voltei no outro dia de manhã como se não fosse nada comigo.
Fiz toda aquela fita e nunca ninguém me perguntou nada.
É para ver a polícia que temos!
Fiquei siderado, fui-me raspando enquanto lhe ia respondendo:
-Nunca me contou nada, juro que nunca falei consigo. Passe bem Dona Rosalina.
Ela, Dona Emília, tem uns olhos azuis encovados, orlados por um rendilhado de rugas, que mal deixam perceber aquelas duas pequenas safiras que miram o mundo de uma forma muito especial.
É tão velha que ela própria já perdeu a conta aos anos, fala em coisas de um passado longínquo, lembra acontecimentos de há muitos anos como se tivessem passado ainda ontem.
Ele, Senhor Sebastião, é tão velho como ela, mas os olhos já deixaram de brilhar. O tempo apagou a luz que o guiava, as pernas já deixaram de obedecer e o tino, muitas vezes, atraiçoa o pensamento. Já não consegue andar sozinho e é o braço fraco da Dona Emília que o ampara até ao banco onde, à porta, adormece perante os raios de Sol.
Vivem os dois naquele rés-do-chão do pátio das violetas. Os vizinhos são o seu amparo e a assistência social o seu modo de vida.
As queridas meninas, como diz a Dona Emília, todos os dias lhe levam a marmita com o alimento que os mantém.
No resto a Dona Emília consegue manter a casa, pensa ela, como sempre a tem mantido.
Tiveram uma filha que um dia abalou com um estrangeiro. Nunca mais deu notícias.
Trata do marido com um carinho e de forma tão protectora que, por vezes, faz esquecer que já dobrou há muito a idade dourada.
Ela fala muito com ele, não sabemos se a escuta, pois em regra a sua mente anda longe, muito longe, tão distante quê se perde no tempo e se encaixa nos seus anos de juventude.
-Sabes Sebastião, hoje as meninas trouxeram a sopa que tu gostas. É de cenoura e tem massinhas. Não tarda vou tratar do teu almocinho, mas vais engolir tudo e não ficas com a comida a brincar na boca. As vezes és mesmo como um miúdo!
Ele não escutava nada, parecia olhar aquela voz que lhe era familiar, mas os olhos tinham perdido a luz e os ouvidos apenas lhe levavam um zunido que o embalava num emaranhado de recordações perdidas no tempo.
Era enternecedor ver a Dona Emília, alquebrada, sem forças a arrastar com tanto carinho o seu marido para o aconchego do lar, logo que o Sol se escondia. Punha um braço pela cintura e com o outro segurava a bengala e lá o ia arrastando docemente, com um sorriso nos olhos e um esgar de dor nos lábios.
Há dias que não via o Senhor Sebastião e isso preocupou-me, pelo que me atrevi a perguntar:
-Ti Emília que é feito do nosso homem?
Olhou-me da profundeza do azul apagado dos seus olhos e quase num soluço respondeu:
-Sabe que há dois dias que o não consigo arrastar do cadeirão, nem para aqui nem para a cama. Está teimoso, nem a sopinha lhe consigo dar, lá lhe meto umas colheradas pela boca abaixo mas é mais a que vai por cima do cobertor. Não sei que fazer, tenho que arranjar maneira de o levar ao médico.
Fiquei muito mais preocupado e descansei-a:
-Deixe estar que eu vou aos bombeiros e eles tratam de levar o seu marido ao hospital.
Vislumbrei umas lágrimas nos olhos cansados.
-Obrigado menino e que Deus o ajude.
Os bombeiros chegaram tarde, o pobre homem há três dias que estava morto. Deitado num cadeirão de verga, tapado com um cobertor cheio de sopa. Já começava a exalar um cheiro desagradável.
Trataram de todas as formalidades e levaram o pobre coitado.
Alguém iria tratar do funeral.
Dona Emília não acreditou na morte do seu homem. Pensou, foi para o hospital mas vai voltar.
Passava os dias, sentada no seu banco, perscrutando ao longo da rua na esperança de o ver aparecer.
Os dias iam correndo e o seu amor tardava, o esmorecimento ia minando a esperança, a solidão era a única coisa que lhe restava.
Não podia esperar mais, ele não vinha, ela ia ter com ele.