terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte 2





Levantei-me bastante cedo. Noite povoada de sonhos estranhos, de mulheres lindas que de repente se esfumavam num riso sarcástico e provocante.

Depois de um banho ligeiro sai na procura de um suculento pequeno-almoço que me desse animo para enfrentar o dia.

O ar da rua estava gélido e as pessoas esfregavam as mãos tentando que a circulação desse uma ajuda nos enregelados dedos.

Entrei no café habitual e a Joana com um sorriso fresco serviu-me o costume.

O meu carro, contrariando os últimos dias, reagiu à primeira e o som do motor deu-me a satisfação de me embrenhar na confusa citadina.

Ia voltar ao café da senhora gorda, tinha que vasculhar melhor toda esta história que me estava a confundir e a deixar totalmente baralhado. Nunca, nada igual, me tinha a acontecido. Não me entrava na cabeça que uma morta me incumbisse de um serviço inexistente, me deixasse 1 200 Euros bem vivos e se esfumasse como se na realidade não existisse.

Estacionei o carro no espaço onde antes, segundo me disseram, existiu uma vivenda onde morava um casal composto por uma volátil deusa e o afortunado marido.

Quando entrei no café a Dona Inocência, assim se chama a gorda, olhou-me como se de repente o Arnold Schwarzenegger tivesse entrado no estabelecimento para beber uma bica curta, fez um sorriso cascavélico e perguntou:

-Então amigo gostou do meu café e voltou?

Mostrei-lhe os dentes e com a voz mais doce que encontrei retorqui:

-Gostei muito, mas também gostava de fazer umas perguntas.

Olhou-me com ar admirado.

-Mau, mau, mas que posso eu saber que lhe seja útil?

-Sabe aquela história do casal Cascudo? Preciso de saber algo mais e acho que a senhora me pode ajudar.

-Mas que posso ajudar mais?

Contei-lhe toda a história, a visita daquele monumento de mulher que me veio contratar, do pagamento que me fez.

Olhou-me de forma estranha, persignou-se e limitou-se a dizer:

-No seu caso ia falar com o padre.

Fiz esforço para não me irritar.

-Mas eu não acredito em coisas sobrenaturais!

Desta vez ela ficou feliz, e foi com uma gargalhada que disse:

-Mas o casal Cascudo era muito crente, ia todas as semanas à missa e o nosso padre era amigo e visita da casa, por isso acho que falar com o padre pode ajudar.

Raio da gorda que desta vez me passou uma rasteira. Engoli em seco, agradeci e sai.

Já tinha passado á Igreja mais do que uma vez pelo que foi fácil localiza-la.

Havia poucos fiéis quando atravessei o templo a caminho da sacristia, pois penso ser o local mais provável para encontrar o padre.

Era um homem com um ar muito doce, sereno e de modos muito delicados. Olhou-me com grande curiosidade e perguntou:

-Meu filho em que lhe posso ser útil?

Estudei as palavras, não queria criar desconfianças, e com o melhor sorriso respondi:

-Obrigado por me atender. Tenho uma grande necessidade em tirar a limpo uma situação que me tem dado cabo da cabeça e para a qual não consigo encontrar explicação. Contei tudo o que tinha acontecido desde a visita daquela senhora a contratar os meus serviços.

Olhou-me de forma interrogadora e fiquei sem saber se estava a duvidar ou se pensava que eu tinha perdido o juízo. Pigarreou, limpou os lábios com um lenço de papel, olhou-me por cima dos óculos e quase com esforço disse-me:

-Sabe, meu amigo, que não sei bem o que pensar. Eu fui muito amigo desse desditoso casal, bons cristãos, pessoas de bem, beneméritos que muita falta ficaram a fazer a esta paróquia mas, essa descrição que me fez não corresponde à Dona Marta. Era uma mulher muito interessante, bonita mas dessas coisas de “monumento”, como disse, percebo pouco. Era, de facto, uma mulher linda e de grande vivacidade, muito recatada e de grande sensibilidade.

Fiquei inquieto, algo estava a ficar descontextualizado, o caso começava a ficar no reino de inverosímil. Insisti:

-Mas Senhor Padre o que me pode adiantar mais? Os óbitos foram confirmados? Quem era a família? Quem mandou demolir a vivenda onde o casal habitada? Conte-me tudo que me possa ajudar a resolver este imbróglio em que me meteram.

Coçou, ligeiramente, a orelha direita e voltou a catarrear. Olhou-me com simpatia e, pareceu-me, que com algum desconforto contou-me:

-Como lhe disse, eu, era amigo pessoal do casal e fiquei muito consternado quando me chegou a notícia de tão grande desgraça. Como deve calcular não me preocupei muito com confirmação do óbito, as autoridades devem ter feito o suficiente para confirmar.

Sei que o Senhor José Maria tinha uma irmã e um sobrinho embora, segundo me parece, não havia um grande relacionamento. A Dona Marta tinha os pais e um irmão, que vivem na terra natal e que se dedicam à agricultura. É tudo quanto sei. Despediu-se.

Voltou atrás para dizer que a vivenda, segundo sabia, era alugada por isso era natural que os proprietários a tivessem demolido. Saiu de vez e encaminhou-se para o altar onde o esperavam para dar início a uma cerimónia.

Quando me dirigia ao local onde tinha o carro vi disparar um Audi branco tendo ao volante a mulher que me tinha criado todo este sarilho. Arrancou muito rápido mas tive tempo para ver a matrícula.

Tentar seguir era pura utopia, pois o meu velho chaço não tinha qualquer hipótese.

Voltei ao café da gorda que me recebeu com um sorriso capaz de fazer murchar uma flor.

-Então Senhor Detective vem mais santo?

Olhei-a de tal forma que o sorriso voltou para o mesmo sítio donde tinha vindo.

-Não viu parado ali em frente um carro branco? Um que arrancou fazendo uma chiadeira dos diabos?

Olhou-me irritada e, quase, gritou:

-Eu estou cá para encher uns copos aos bêbados que por aqui vão vegetando e para tirar umas bicas curtas aos detectives que me caem de pára-quedas, não tenho tempo para olhar para os carros da rua. Boa tarde!

Saí, o sítio cheirava mal, entrei no carro e segui para a cidade.

-Merda de dia!

Perdi o dia embrenhado em cogitações e deambulando na esperança de voltar a ver o carro. Em vão.

Fui jantar ao Bar do Elias e segui para casa.

***

Manhã cedo fui direito ao Registo automóvel, tinha lá um amigo que me devia alguns favores e, que agora, eu ia cobrar.

Quando me viu exclamou com satisfação:

-Olha o meu amigo Gilberto por estes lados. Gaivota em terra temporal no mar. De que é que precisas?

Sorri, ele estava bem-disposto.

-Olha amigo preciso saber tudo o que me possas dizer sobre este carro. Dei-lhe um cartão com a matrícula.

Olhou com atenção e, franzindo a testa, introduziu alguns dados num computador e esperou, enquanto ia coçando o ouvido com o dedo mindinho. Andou com o cursor para trás e para a frente, observou, franziu a testa antes de me dizer:

-Estás com azar pá! Este carro já não existe, foi abatido em Outubro do ano passado, teve um acidente, ardeu totalmente ele e os ocupantes, por isso já não existe.

-Fogo, exclamei! Começo a ficar farto desta trampa. Como pode não existir se ainda ontem o vi?

Soltou uma gargalhada, antes de dizer:

-Foi depois de um bom almoço e já não vias bem as coisas!

-Nada disso. De quem era o carro?

-Dum tal José Maria Cascudo.

Agradeci e sai para o frio do dia.

Que sorte a minha!

-Será que a tipa morreu mesmo?




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa




Tinha uns olhos tão tristes como uma chuvosa noite de Inverno e hoje essa tristeza estava mais vincada, hoje a solidão fazia parte dessa angústia sua companheira de todos os dias.

O aniversário é sempre uma data que aviva a memória e em que a reminiscências do passado alimentam a nostalgia que nos acompanha nas noites tristes de Inverno.

Hoje, se ainda alguém se lembrasse, fazia 79 anos mas a família já o tinha esquecido, talvez até não se recordassem bem que ainda existia.

Tudo começou quando se negou a vendar a casa e a ir para um lar, foi nesse dia que os filhos o votaram ao esquecimento como se fosse mais um trapo velho sem utilidade.

Mas isso é coisa que já perdoou.

Nasceu em 1931, ano de todas as lutas, numa pobre aldeia perdida na imensidão da pobreza da planície alentejana.

Neste dia mais um ano se cumpria na sua vida, mais uma etapa no acumular da solidão que todos os dias ia consumindo e, mais uma vez, a esperança que a campainha da porta lhe trouxesse a prenda com que mais sonhava, os netos e os filhos que há muito o haviam esquecido.

O relógio de cuco ia martelando as horas em ritmados cantares e o diáfano manto da noite ia escurecendo, mais e mais, o negrume da alma do pobre
Hipólito.

Todo o dia alimentou a esperança que fosse hoje que os filhos esquecessem a ganância do dinheiro, pela venda do andar, a troco do depósito do velho num lar onde se espera calmamente pela hora.

O dia passou, enxugou com a manga da camisa a lágrima que sem pedir licença escorreu entre as rugas do cansado rosto.

Pensou em comer a sopa, tomar os medicamentos que o prendiam à vida e ir para a cama mas não queria que o seu aniversário, quem sabe o último, fosse assim.

Vestiu o casaco e saiu para o escuro da noite. Voltou uma hora depois, pousou as compras e foi pôr a mesa.

Um bolo de aniversário, o primeiro de há muitos anos, uma garrafa de espumante, pensou em champanhe mas era muito caro.

Encarou os ausentes e fez um discurso, não lhe saiu muito bem, mas disse o que lhe ia na alma.

Abriu a garrafa com um estrondo de circunstância e encheu as taças que tinha disposto na mesa. Partiu o bolo e distribuiu pelos pratos.

Foi o aniversariante e foi os convidados.

Estava feliz, tão feliz que cantou em voz cansada:

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Comeu do bolo e foi vazando, com satisfação, os diversos copos de espumante.

Sentou-se no sofá e adormeceu sem precisar dos medicamentos da Doutora Odete. Dormiu bem e tranquilo.

Sonhou com a mãe que o embalava embrulhado num velho xaile. Andou pelos campos com o pai juntando as ovelhas. Dançou com a mulher que a doença lhe levou. Brincou com os filhos no largo do jardim. Foi buscar os netos à escola. Sorriu numa satisfação que há muito não experimentava.

Acordou com o sol a entrar pela janela.

Olhou a desarrumação, os copos vazios, os pratos sujos de bolo e os restos de uma festa de aniversário.

Soltou uma rouca gargalhada e pensou:

-Oh Hipólito estás mesmo a ficar caquéctico, então os filhos fizeram-te uma festa e não te lembras de nada!!!!!

Sorriu para o dia que lá fora o saudava.








terça-feira, 23 de novembro de 2010

756




É uma aldeia perdida na encosta da serra.

Nas pastagens cobertas de neve as ovelhas procuram as ervas escondidas nas pedras que enxameiam as alcantiladas encostas.

A pacatez da aldeia foi quebrada, de repente, com o grito de Romana Chilrito, a filha Cláudia tinha desaparecido.

Cláudia é uma linda menina de seis anos, ladina e cheia de imaginação, passa os dias brincando com as bonecas de trapo que a avó Germana faz para ela.

Hoje a menina desapareceu, não está em nenhum dos locais de brincadeira.

-Vais ver que anda para aí!

Dizem as vizinhas, enquanto vasculham as redondezas, espreitam o poço e vão olhando os currais das ovelhas e o chiqueiro onde os porcos pachorrentamente chafurdam na lama.

Nada da Cláudia, a menina sumiu de tal forma que parece que a terra a engoliu.

Os bombeiros e a Guarda já vasculharam tudo o que é sítio, todos os poços e buracos foram vistoriados e a todos foi procurado se tinham visto, ou, escutado a criança.

Nada, desapareceu como se houvesse eclipsado, como se nunca tivesse existido.

A GNR começou a investigar a hipótese de rapto, a menina era linda, mas não havia indícios de estranhos na aldeia. Nos últimos tempos, ninguém tinha violado a pacatez do lugar.

Foi numa quinta-feira, iam passados três dias do desaparecimento, quando o pastor José Inácio descobre entre as pedras duma lura um corpo de uma criança, rosto agrumulado pelo rigor do tempo que na serra é muito severo.

Então o choro tomou conta da povoação, as mulheres carpiram a dor em prantos que entoaram para além do local, os homens cabisbaixos andavam enrolados em capotes que os protegiam do gélido e os mantinham isolados da dor e da dúvida.

Foi a Judiciária que lançou a suspeita, o professor Almerindo há pouco na terra, foi chamado para um interrogatório que deixou a população em alerta. O professor tinha sido colocado este ano na escola e o seu relacionamento muito meloso, com as crianças, não agradava a todos, mas era só isso porque no resto parecia ser um bom mestre.

Nada se apurou e, embora a angustia fosse notória, a vida retomou o seu curso na dureza da terra, na solidão do pastoreio ou nas vicissitudes de uma existência feita de nada.

A morte da Cláudia estava presente, sentia-se no ar, nos rostos tisnados pelo frio, nos olhares enviesados, na desconfiança e na profunda tristeza que passou a fazer parte o quotidiano desta gente.

As primeiras flores anunciavam a Primavera e a neve ia deixando a faldas mais escapadas da serra, as urzes iam perfumando o ar puro.

Hoje a aldeia estava num reboliço tremendo e as suspeitas entraram novamente na vida de todos, o Professor Almerindo foi encontrado a caminho de casa com a pequena Susana pela mão e embora a sua garantia de que apenas ir recolher um livro esquecido o povo, desde logo, fez ali o seu veredicto:

-CULPADO

Na reunião de emergência com as autoridades, o Presidente da junta e direcção escolar foi de, forma unânime, decidido que no dia seguinte o professor deixaria a Escola e a Aldeia.

Para o povo não era suficiente, a evidência era demasiado para ficar, assim, impune a morte da pequena Cláudia e todo o desconforto que tinha transformado a pacatez daquela gente.

****

Quando o encontraram parecia um porco acabado de matar, numa nudez que chocava, peito empapado de uma massa viscosa que ia secando em redor da faca que lhe atravessava o peito, no sítio, onde ficava o coração.

Uma hora depois apresentaram-se, no posto da guarda, os 378 anos habitantes, adultos, da aldeia e todos eles se vinham declarar como culpados pela execução do professor.

****

Vão passados dois anos, o esquecimento vai libertando as mentes daquela gente que retomaram a plácida rotina de outros tempos.

A justiça arquivou o processo por falta de provas, havia uma única facada e apresentaram-se 756 mãos a reivindicar esse privilégio.

Impossível.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma bica curta





Estava na minha frente.

Tinha umas mãos longas e de uma beleza que faziam inveja, brancas e com umas unhas bem cuidadas, cortadas numa linha recta, cobertas com um verniz rosado e decoradas com pequenas flores vermelhas.

Se os artistas tivessem mãos diferentes de todos os outros, eu diria que tinha mãos de artista, mas conheço artistas com mãos nodosas.

Olhei-a não querendo parecer muito impressionado.

Era, quase, uma escultura renascentista onde a beleza dos traços se confundiam com a delicadeza das formas nas proporções certas, nos locais exactos.

-A que devo o prazer da sua visita?

Sentada numa posição quase “cleópatrica”, pernas unidas numa postura estudada e que servia para realçar algo que passa a fronteira do imaginável, pois são perfeitas até nos joelhos onde, em regra, quase todas falham. Mas estas, meu Deus, até nisso eram correctas. Lindas, longas, torneadas e com uns contornos onde os ossos não estragavam o conjunto.

O rosto, meu Senhor o rosto, tinha a doçura de um Anjo, a candura de um bebé e a beleza de uma Afrodite. Era quase irreal.

Olhou-me do alto de uns olhos azuis, penetrantes e com um sorriso foi dizendo:

-Andei-me informando e todos são unânimes em dizer que o senhor é o melhor,
até me dizem que será o Mourinho dos detectives. Preciso dos seus serviços,
preciso muito.

Sorriu e pareceu-me que o Sol tinha nascido no meu escritório.

Rolei entre os dedos um lápis, gesto mecânico que me ficou quando deixei de fumar. Olhei-a tentando descobrir o que se escondia debaixo daquele ar de anjo.

-Minha senhora, não sei se sou o melhor e isso pouco me interessa, cumpro bem para aquilo que me pagam. Se lhe puder ser prestável, desde que dentro da legalidade, estou pronto a ouvir o que tem para me dizer.

Fez como que um beicinho e fiquei sem saber o que fazer, se fugir desta tentação ou se correr para ela e aconchega-la nos meus braços.

Contive as maquinações do meu pensamento, olhei-a bem nos olhos e insisti:

-Bom, em que poderei ser útil?

-Senhor Gilberto, julgo que é esse o seu nome, preciso que descubra quem anda a ameaçar o meu marido:

-Ameaçar, mas ameaçar como? Para esses casos nada como avisar a polícia!

Humedeceu os lábios com a ponta da língua, gesto maquinal mas cheio de uma sensualidade estudada.

-Não quero a polícia, quero resolver particularmente este assunto. O meu marido é um homem muito importante no mundo dos negócios e, como deve saber, nesta situação é fácil arranjar muitos inimigos. A inveja impera e temos que nos manter atentos.

Continuei a rolar o lápis enquanto o meu pensamento tentava enquadrar aonde esta conversa me podia estar a levar. A mulher era demasiado perfeita para estar a falar verdade. Era pedir muito. Tentei o meu melhor sorriso e perguntei:

-Mas porque não é o seu marido a procurar ajuda para este caso?

Fez o gesto de cruzar a perna e o meu coração parou, mas desistiu e o meu coração retomou o ritmo normal.

-Como lhe disse o meu marido é um importante homem de negócios e o trabalho absorve-lhe o tempo por completo, não tem tempo para mais nada.

O meu pensamento não pode deixar de ser um pouco pecaminoso, pois com uma mulher como esta e apenas com tempo para o trabalho era um pouco estranho, mas isto sou eu a pensar pois se calhar ainda lhe resta tempo para mais algumas coisas.

Sorri, um sorriso um pouco amorfo mas foi um sorriso:

-Bom… Vou ficar com todos os elementos para começar. Vai-me deixar um sinal para despesas.

Entregou-me um envelope, perfumado, com todas as indicações e onde juntou um molhe de notas:

-É suficiente para as primeiras despesas? Perguntou com um sorriso capaz de fazer desabrochar uma flor.

Estendeu-me uma a mão gelada e saiu num deslizar de suavidade e sedução.

Abri o envelope, contei os 1.200 Euros, passei um recibo que guardei na carteira e dei um olhar atento pelas indicações que, numa caligrafia miudinha, me eram fornecidas por aquele monumento que acabara de sair.

Nos papéis dizia que era a Senhora Dona Marta Cascudo, casada com o industrial José Maria Cascudo. Nunca tinha ouvido, ou lido, tais nomes mas, possivelmente, era ignorância minha.

As ameaças, eram todas feitas em colagens muito pouco originais.

Guardei tudo na pasta e sai para um jantar rápido.

No Bar do Elias nada de novo.
Balcão corrido onde alguns personagens que pareciam ter saído de algum romance de Raymond Chandler, iam digerindo, em gestos mecânicos, os restos do que parecia ter sido uma refeição.

Sentei-me na mesa do costume, no canto, onde podia observar passando despercebido.

Enquanto tragava, o bife grelhado, fui estudando os elementos que a Dona Marta me deixou. Pouco coisa de interesse, apenas hábitos, horas e locais. Amanhã ia começar, ia postar-me em frente à residência para poder seguir o dia desse Senhor Cascudo.

Paguei e segui para casa.

O dia estava frio e a relento parecia querer roer as nossas articulações. O carro, como sempre com a humidade, só pegou depois de muita insistência. Mas pegou.

O trânsito era o do costume, taxistas acelerados desrespeitando tudo e todos, senhoras e senhores em andar morno provocando filas e todas as tropelias de uma manhã dos apressados a caminho dos empregos.

Cheguei, antes das oito horas, à morada que estava nas instruções mas, estranho, não havia nenhuma habitação no local, apenas uma pequena oficina de bate-chapas, um armazém de hortaliças, um clube nocturno de aspecto um pouco duvidoso e um local de estacionamento onde antes teria sido um edifico.

Perguntei na oficina se estava no sítio certo. Estava no sítio certo mas no local errado. A morada era essa mas ninguém habitava esta rua.

Era estranho, podia ser brincadeira, mas tinha deixado um sinal de 1.200 Euros.

Entrei num café na esquina da travessa. Um par de namorados estavam tão embevecidos a treinar comerem os dois com a mesma boca que tive que me desviar para não estorvar tão bela tentativa.

Ao balcão uma senhora, tão gorda que só se conseguia deslocar de lado, olhou para mim com um olhar tão interrogativo que fiquei na dúvida se também serviriam café, mas tentei.

-Uma bica curta.

Arrastou o corpo de uma forma tão diligente até à máquina que pensei que afinal a gordura era apenas aparente.


-Aqui tem o seu cafezito! É novo por aqui, nunca o tinha visto?

Afivelei um sorriso e respondi:

-Estou de passagem, vinha a ver se encontrava o Senhor José Maria Cascudo mas, devo estar enganado na morada.

-O Doutor Cascudo! Exclamou a mulher.

Senti a esperança renascer e, agora sim, com um sorriso verdadeiro perguntei:

-Sim, sim, conhece?

Olhou-me com uns olhos piscos muito velhacos. Passou a língua, gorda como o resto, por uns lábios ressequidos e com um ar enigmático disparou:

-Conheci sim senhor, foi um bom cliente!

Comecei a ficar um pouco perplexo, a criatura estava-me a parecer por demais enigmática.

-Mas já não conhece?

Sorriu, da forma como só as cascavéis sabem sorrir. Sibilina, enigmática.

-Conheço como se podem conhecer os mortos. O senhor Doutor que morava, na casa que foi demolida, aí na travessa, morreu mais a esposa num grande acidente de automóvel, no ano passado. Não leu nos jornais?

Fiquei confundido, duas pessoas a gozarem comigo num período de 24 horas era demais.

-Será o mesmo?

-Isso não sei, mas com esse nome não deve ser fácil haver muitos.

Parecia lógico, arrisquei;

-Como era a mulher?

Olhou-me com um ar reprovador, pensando sei lá o que.

-Uma cabra, linda e jeitosa como todas as mulheres gostariam de ser, mas uma cabra que não deixava o homem respirar, não o largava um instante. Ciumenta até da própria sombra, mas não lhe valeu de nada. Morreram juntos. Ficaram feitos em carvão, nada se aproveitou.

Fez um trejeito de choro, mas não se saiu nada bem.

Paguei, meti-me no carro e sai disparado. Há coisas na vida que não sei explicar.

-Será que a tipa morreu mesmo?



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Aquele almoço




Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.

Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.

Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.

Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:

-Senhor compre uns!

Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:

-Tens fome?

Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.

-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!

Vi medo no corpo franzino:

-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.

Sosseguei-a:

-Vamos juntos e eles deixam.

Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:

-Que te apetece comer?

Olhou tudo e encolheu os ombros.

-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.

Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.

-Pode ser, respondeu a medo.

Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.

Reparou que a estava a observar e perguntou:

-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?

Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:

-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.

Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.

-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!

Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.

Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.

-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.

-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.

-E a tua mãe?

-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.

-Tens irmãos?

-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.

Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.

-Senhor porque me pagou esta comida?

-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?

Sorriu mais uma vez.

-Tens filhas? Perguntou muito séria.

-Não, não tenho filhas.

Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.

Percebi que algo ficou por dizer e insisti:

-O que ias dizer?

-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.

Deu-me um beijo rápido e desapareceu.

Nunca mais a vi.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Pita da Alice






Sabem que esta pequena estória podia ser verdadeira?
Eu sei que não é, mas que podia..podia!




A Alice tinha uma pita e andava ufana. Dizia a toda a gente:

-A minha pita é linda e não há outra igual.

No pátio, onde vivia, já todos estavam cansados de a ouvir elogiar a pita. As mulheres olhavam de lado e passavam mostrando total desinteresse, os homens não passavam sem querer fazer um afago na pita da Alice.

Os tempos iam passando e a pita ia crescendo, era linda, fofinha apetecia mesmo fazer uma festinha.

Mas nem pensar a Alice não deixava ninguém mexer na sua pita. Era dela e só dela.

Hoje a pita está enorme, delicada e muito branquinha, parece que a neve a veio enfeitar de alvos e imaculados flocos.

A mãe da Alice, essa, não anda nada satisfeita, pois a pita não é asseada e pita que não é asseada deita mau cheiro.

A mãe ia avisando a Alice:

-Se não cuidas em condições da tua pita ainda vais ter um desgosto, toma atenção e depois não digas que eu não te avisei.


A filha resmungava:

-Pois tens inveja da minha pita e até acho que gostavas de ter uma como a minha, mas não penses porque a minha é única, é especial. Pergunta ao meu namorado porque é ele quem mais brinca com ela. Vá lá! Pergunta!

A mãe não gostava nada destes desaforos da filha e rilhando os dentes ia ameaçando:

-Depois não me venhas dizer que eu não te avisei!

*******

Um dia, há sempre um dia, Alice chegou a casa e não viu a pita:

-Mãe onde está a minha franga?

-Eu avisei, não avisei? Não me destes ouvidos e agora a tua pita está na panela.
Deu uma bela canja. Oh se deu!






segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A gravidez da Joana





Joana tinha acabado de fazer treze anos, era muito infantil e ainda gostava de brincar com o seu boneco “Nenuco”, mas tinha que o fazer às escondidas
porque o seu irmão, Jorge de 18 anos, gozava com ela.

Os pais eram, como ela dizia, porreiros mas andavam sempre a discutir.

Hoje, entrou na cozinha e com o ar mais natural deste mundo gritou:

-Pessoal acho que estou grávida!

A mãe abriu a boca de espanto e ficou muda com um olhar esgazeado. O pai não se conteve e encontrou logo ali o bode expiatório, a mulher:

-A culpa é toda tua, se a tens educado como se educa uma rapariga nada disto
teria acontecido, mas não, vocês mulheres são todas a mesma coisa.

A mulher olhou-o de través e, chispando, como um toiro enraivecido atirou:

-Mas quem és tu para falar, inútil que nunca se importou nada com os filhos,
que nunca os acompanhou. Carregas tudo para cima de mim. És um zero que
sempre tens descartado os problemas e pões o cu de fora quando os há para resolver.

O filho mais velho olhava os coroas sem perceber aonde queria chegar com esta discussão. Se a Joana estava grávida havia que saber quem era o gajo e dar-lhe um enxerto de porrada e o assunto ficava resolvido. Mas não, os cotas discutiam sem saber resolver um assunto tão simples.

A Joana, coitada, estava meia confundida com o impacto que a sua exclamação tinha provocado. Mas afinal o que é que ela tinha feito assim de tão mal?

-Oh mãe porque é toda essa zaragata?

A mãe olhou-a, quase irada, e com um embargo na voz soltou:

-Joana não sabes o que dizes se calhar nem te apercebes que podes ter
estragado a tua e até a nossa vida!

A rapariga olhava a mãe, o pai e o irmão sem perceber onde estava o drama. O que tinha acontecido de tão grave para todos a olharem desta forma tão colérica. Desatou a chorar num pranto tão sentido que a mãe não resistiu e correu a abraçar a filha.

-Querida, grávida na tua idade! Isso nunca nos passou pela cabeça. Mas afinal quem é o culpado dessa desgraça?

Joana olhou a mãe cada vez muito confusa.

-Culpado? Acho que foi o feijão!

O pai esbugalhou os olhos.

O irmão esfregou a cabeça num gesto de quem não está a perceber nada do que
se está a passar e gritou;

-Quem é esse feijão que eu parto-o todo.

O pai mais comedido:

-Vamos resolver isto de uma forma civilizada.

A mãe, olhos brilhando de lágrimas:

-Querida quem é esse feijão?

Joana com os soluços a embargarem a voz exclamou.

-Mãe... foi o teu feijão. Comi o feijão guisado que deixas-te para o almoço e, não sei porque, comecei a ficar com a barriga inchada. Doía e fui ver à Internet o que fazer para me tratar. Procurei e dizia lá que barriga inchada podia ser sinal de gravidez.

Desatou num choro convulsivo, soluços que metiam dó:

-Pensei que o feijão me tinha deixado grávida. Eu não sabia que isso era mau.

Desculpem!