segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte3




Acordei com humor de cão. A boca sabia-me a esfregão do chão, os tinnitus nos ouvidos pareciam querer estourar com a minha cabeça. A culpa era do whisky, não devia ter bebido tanto mas precisava de acalmar, os meus pensamentos estavam num turbilhão e precisava de coordenar as ideias. A bebida não foi a melhor solução mas sempre ajudou.

Desde que a minha ex fez as malas e desapareceu, tal como um D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, fiquei para aqui perdido neste casarão. O que me vale é a Dona Carminda que cuida de mim como se fosse dum filho. Trata-me da casa e da roupa e por vezes ainda me mimoseia com uns petiscos para me lembrar de uma vida que já tive.

Tomei um duche, quase frio, na tentativa de que a vida voltasse a este corpo, ajeitei-me o melhor possível e sai para o frio da manhã.

A Joana quando me viu fez sinal de que o meu pequeno-almoço estava a ser tratado.

O café surtiu algum efeito, o cérebro começou, lentamente, a trabalhar e a tentar arrumar as ideias que andavam totalmente tresmalhadas.

O meu velho Dodge esperava por mim e, para minha satisfação, respondeu à primeira tentativa da chave.

Precisava falar, de novo, com o padre, havia informações que só ele me podia dar.

Recebeu-me com o mesmo ar de beatitude, sorriso bondoso num rosto calmo.

-Então filho porque, de novo, na casa do Senhor?

Sorri, estudei as palavras e perguntei:

-Sabe Senhor Padre, preciso falar com os familiares do casal Cascudo e só o senhor me pode ajudar. Disse-me que sabia dos pais e de um irmão da Dona Marta e de uma irmã e do sobrinho do Senhor José Maria. Para poder arquivar este estranho caso preciso falar com todos eles. Posso contar com a sua ajuda?

Pensei que ia ficar irritado, mas não, sorriu e disse-me:

-Não sei se ajudo muito, os pais da Marta vivem numa aldeia próximo de Tomar, já lhe dou o nome exacto, não me lembro bem, espero ter na minha agenda. Quanto á irmã é mais difícil, talvez a Dona Inocência, não sei se conhece, é a senhora do café.
Quando o José Maria estava entre nós ela era o elo de ligação com a irmã. A relação com a cunhada não era boa e era através da senhora do café que trocavam notícias.

Deu-me o nome da aldeia, apertou-me a mão e com muita delicadeza terminou a conversa.

Má sorte a minha, estava outra vez nas mãos daquela mal encarada mulher.
Seja o que Deus quiser!

À porta do café um tipo, com cara de fuinha, tentava acender um cigarro com um isqueiro “bic”, sem conseguir com o vento forte que se sentia.

Arrisquei:

-Amigo porque não entra, será muito mais fácil.

Olhou-me com uns olhos desbotados e, baixando a voz, segredou-me:

-A bruxa não deixa entrar com cigarros.

Sorri e preparei-me para a encarar.

Quando me viu mudou o semblante e esboçou um sorriso:

-Bom dia e bons olhos o vejam. Vem beber uma bica curta?

Fiquei admirado com tão calorosa recepção.

-Venho sim, minha senhora, mas também queria uma informação. Preciso falar com a irmã do Senhor José Cascudo e sei que tem o telefone, preciso que mo diga.

Olhou-me com um ar tão admirado que parecia que o Arnold tinha voltado ao café.

-Bom, e se tiver acha que lho ia dar? Pensa que os números de telefone de amigos se dão assim a qualquer um?

-Vai dar porque se não der nem sabe os sarilhos que eu sou capaz de lhe arranjar!

Olhou-me com uma raiva incontida mas foi dizendo:

-Só lhe passo o número se me jurar que nunca vai dizer que fui eu que o fiz.

Fiz uma cruz sobre a boca e ela percebeu o gesto. Deu-me o número e insistiu:

-Por amor de Deus mantenha-me fora de tudo isto.

Jurei que sim e segui a caminho do meu escritório, precisava ver o correio e de fazer alguns telefonemas.

Este caso estava a ser mais complicado do que à primeira vista me parecia, tinha combinado receber 1.200 Euros no inicio, 1.200 a meio e 2.600 no fim e pelos vistos só o valor inicial estava certo e mal dava para as despesas. Mas que fazer? A vida de investigador tinha destas coisas.

No escritório continuava o odor a “Ralph Lauren” e era estranho que ao fim de tantos dias o cheiro ainda se mantivesse.

Seria a minha imaginação?

Vi o correio, facturas para pagar e publicidade sem interesse.

Tirei o bilhete com número de telefone que a gorda me deu e ia começara preparar uma mentira a ver se resultava:

-Boa tarde! È a Dona Helena Cascudo? Preciso falar, pessoalmente, com a senhora.
Quando me poderá receber? Sim, sou o perito da companhia de seguros e necessito fechar o processo dos seus malogrados parentes e a sua assinatura é indispensável. Amanhã às 11 horas? Óptimo, lá estarei. Confirma-me a morada? Obrigado!

Parece que resultou.

Sai cedo, tinha alguns quilómetros pela frente e continuo com a mania da pontualidade.

Era uma vivenda simpática, ladeada de um jardim com flores amarelas.
A Dona Helena era uma mulher muito interessante e recebeu-me com um sorriso afável:

-É o senhor dos seguros, não é verdade?

Sorri antes de confirmar:

-Sou, para formalizarmos isto fale-me um pouco sobre o seu irmão.

-O Zé Maria foi uma jóia até casar com aquela megera que o absorvia e que não o deixava sequer privar com a família. Antes de casar aparecia por ai, ajudava-nos e presenteava muito o sobrinho, depois de casar só às escondidas é que telefonava, era a Dona Inocência, do café, quem nos servia de intermediária.
Agora o meu mano está morto, coitado, foi uma tragédia.

Fez beicinho e fingiu enxugar uma lágrima.

-Mas, perguntei eu, porque seria que a Dona Marta o afastava de família?

Fez um esgar com os lábios antes de responder.

-Dizia que a família eram sanguessugas que viviam agarradas a ele, eu e o meu Mário nunca o pressionamos para nada, sempre que ele nos ajudava é porque gostava da família e porque podia, a vida corria-lhe bem e gostava de ajudar, de repente tudo acabou, aquela cobra fazia dele o que queria.
Agora, graças à herança nós estamos bem e para eles, infelizes, tudo acabou tudo.

Agora chorou mesmo, vi a lágrima fazer um risco no rímel. Limpou o nariz antes de continuar:

-Casei muito nova e fiquei viúva quando o meu filho tinha três anos, foi o Zé Maria que tomou conta de nós, foi um verdadeiro pai para o Mário. Foi ele quem o criou até aos 16 anos.

Voltei a casar mas a sorte não quis nada comigo e voltei a ficar viúva. O meu segundo marido, bom homem, nunca foi bem aceite pelo enteado e eu sofri muito com isso. Nessa altura, para o Mário, o tio foi um grande apoio até que aconteceu a desgraça.

-Desgraça? Interroguei eu.

Fungou, mais uma vez.

-Sim uma grande desgraça! O meu marido gostava muito de pescar e um dia, ninguém sabe explicar o que aconteceu, o motor do barco explodiu e ele desapareceu no rio.
Só ao fim de três dias encontraram o corpo a uns 30 quilómetros daqui.
Jurei que nunca mais me voltaria a casar e olhe que não é por falta de pretendentes, que os tenho tido, mas acho que os casamentos só atraíram a desgraça. Jurei para nunca mais!

-E o seu filho?

-O Mário está na oficina, ele tem uma firma de coisas da electrónica, sempre foi um apaixonado por essas modernices. Faz comandos à distância e essas coisas assim, é um rapaz muito esperto. Foi com a herança que recebeu do tio que conseguiu.
Se quiser falar com ele é perto está a oito quilómetros, na vila aqui do lado.

-Não é preciso, depois mando o relatório para assinar, menti eu, pois não haveria nenhum relatório.

A viagem de volta foi rápida. Quando cheguei ao escritório o cheiro a perfume era muito mais acentuado.

Em cima da minha secretária estava um envelope com 1.200 Euros e um cartão onde, laconicamente, numa letra desenhada se podia ler - 2º pagamento.

Como era possível, a porta não estava arrombada e a única chave existente era esta que tenho em meu poder. Liguei para a portaria e o porteiro confirmou que ninguém, com o aspecto que lhe indiquei, tinha entrado no prédio.

Não me vou deixar levar por essas coisas do sobrenatural, mas o meu pensamento não deixa de se interrogar:

-Será que a tipa morreu mesmo?



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte 2





Levantei-me bastante cedo. Noite povoada de sonhos estranhos, de mulheres lindas que de repente se esfumavam num riso sarcástico e provocante.

Depois de um banho ligeiro sai na procura de um suculento pequeno-almoço que me desse animo para enfrentar o dia.

O ar da rua estava gélido e as pessoas esfregavam as mãos tentando que a circulação desse uma ajuda nos enregelados dedos.

Entrei no café habitual e a Joana com um sorriso fresco serviu-me o costume.

O meu carro, contrariando os últimos dias, reagiu à primeira e o som do motor deu-me a satisfação de me embrenhar na confusa citadina.

Ia voltar ao café da senhora gorda, tinha que vasculhar melhor toda esta história que me estava a confundir e a deixar totalmente baralhado. Nunca, nada igual, me tinha a acontecido. Não me entrava na cabeça que uma morta me incumbisse de um serviço inexistente, me deixasse 1 200 Euros bem vivos e se esfumasse como se na realidade não existisse.

Estacionei o carro no espaço onde antes, segundo me disseram, existiu uma vivenda onde morava um casal composto por uma volátil deusa e o afortunado marido.

Quando entrei no café a Dona Inocência, assim se chama a gorda, olhou-me como se de repente o Arnold Schwarzenegger tivesse entrado no estabelecimento para beber uma bica curta, fez um sorriso cascavélico e perguntou:

-Então amigo gostou do meu café e voltou?

Mostrei-lhe os dentes e com a voz mais doce que encontrei retorqui:

-Gostei muito, mas também gostava de fazer umas perguntas.

Olhou-me com ar admirado.

-Mau, mau, mas que posso eu saber que lhe seja útil?

-Sabe aquela história do casal Cascudo? Preciso de saber algo mais e acho que a senhora me pode ajudar.

-Mas que posso ajudar mais?

Contei-lhe toda a história, a visita daquele monumento de mulher que me veio contratar, do pagamento que me fez.

Olhou-me de forma estranha, persignou-se e limitou-se a dizer:

-No seu caso ia falar com o padre.

Fiz esforço para não me irritar.

-Mas eu não acredito em coisas sobrenaturais!

Desta vez ela ficou feliz, e foi com uma gargalhada que disse:

-Mas o casal Cascudo era muito crente, ia todas as semanas à missa e o nosso padre era amigo e visita da casa, por isso acho que falar com o padre pode ajudar.

Raio da gorda que desta vez me passou uma rasteira. Engoli em seco, agradeci e sai.

Já tinha passado á Igreja mais do que uma vez pelo que foi fácil localiza-la.

Havia poucos fiéis quando atravessei o templo a caminho da sacristia, pois penso ser o local mais provável para encontrar o padre.

Era um homem com um ar muito doce, sereno e de modos muito delicados. Olhou-me com grande curiosidade e perguntou:

-Meu filho em que lhe posso ser útil?

Estudei as palavras, não queria criar desconfianças, e com o melhor sorriso respondi:

-Obrigado por me atender. Tenho uma grande necessidade em tirar a limpo uma situação que me tem dado cabo da cabeça e para a qual não consigo encontrar explicação. Contei tudo o que tinha acontecido desde a visita daquela senhora a contratar os meus serviços.

Olhou-me de forma interrogadora e fiquei sem saber se estava a duvidar ou se pensava que eu tinha perdido o juízo. Pigarreou, limpou os lábios com um lenço de papel, olhou-me por cima dos óculos e quase com esforço disse-me:

-Sabe, meu amigo, que não sei bem o que pensar. Eu fui muito amigo desse desditoso casal, bons cristãos, pessoas de bem, beneméritos que muita falta ficaram a fazer a esta paróquia mas, essa descrição que me fez não corresponde à Dona Marta. Era uma mulher muito interessante, bonita mas dessas coisas de “monumento”, como disse, percebo pouco. Era, de facto, uma mulher linda e de grande vivacidade, muito recatada e de grande sensibilidade.

Fiquei inquieto, algo estava a ficar descontextualizado, o caso começava a ficar no reino de inverosímil. Insisti:

-Mas Senhor Padre o que me pode adiantar mais? Os óbitos foram confirmados? Quem era a família? Quem mandou demolir a vivenda onde o casal habitada? Conte-me tudo que me possa ajudar a resolver este imbróglio em que me meteram.

Coçou, ligeiramente, a orelha direita e voltou a catarrear. Olhou-me com simpatia e, pareceu-me, que com algum desconforto contou-me:

-Como lhe disse, eu, era amigo pessoal do casal e fiquei muito consternado quando me chegou a notícia de tão grande desgraça. Como deve calcular não me preocupei muito com confirmação do óbito, as autoridades devem ter feito o suficiente para confirmar.

Sei que o Senhor José Maria tinha uma irmã e um sobrinho embora, segundo me parece, não havia um grande relacionamento. A Dona Marta tinha os pais e um irmão, que vivem na terra natal e que se dedicam à agricultura. É tudo quanto sei. Despediu-se.

Voltou atrás para dizer que a vivenda, segundo sabia, era alugada por isso era natural que os proprietários a tivessem demolido. Saiu de vez e encaminhou-se para o altar onde o esperavam para dar início a uma cerimónia.

Quando me dirigia ao local onde tinha o carro vi disparar um Audi branco tendo ao volante a mulher que me tinha criado todo este sarilho. Arrancou muito rápido mas tive tempo para ver a matrícula.

Tentar seguir era pura utopia, pois o meu velho chaço não tinha qualquer hipótese.

Voltei ao café da gorda que me recebeu com um sorriso capaz de fazer murchar uma flor.

-Então Senhor Detective vem mais santo?

Olhei-a de tal forma que o sorriso voltou para o mesmo sítio donde tinha vindo.

-Não viu parado ali em frente um carro branco? Um que arrancou fazendo uma chiadeira dos diabos?

Olhou-me irritada e, quase, gritou:

-Eu estou cá para encher uns copos aos bêbados que por aqui vão vegetando e para tirar umas bicas curtas aos detectives que me caem de pára-quedas, não tenho tempo para olhar para os carros da rua. Boa tarde!

Saí, o sítio cheirava mal, entrei no carro e segui para a cidade.

-Merda de dia!

Perdi o dia embrenhado em cogitações e deambulando na esperança de voltar a ver o carro. Em vão.

Fui jantar ao Bar do Elias e segui para casa.

***

Manhã cedo fui direito ao Registo automóvel, tinha lá um amigo que me devia alguns favores e, que agora, eu ia cobrar.

Quando me viu exclamou com satisfação:

-Olha o meu amigo Gilberto por estes lados. Gaivota em terra temporal no mar. De que é que precisas?

Sorri, ele estava bem-disposto.

-Olha amigo preciso saber tudo o que me possas dizer sobre este carro. Dei-lhe um cartão com a matrícula.

Olhou com atenção e, franzindo a testa, introduziu alguns dados num computador e esperou, enquanto ia coçando o ouvido com o dedo mindinho. Andou com o cursor para trás e para a frente, observou, franziu a testa antes de me dizer:

-Estás com azar pá! Este carro já não existe, foi abatido em Outubro do ano passado, teve um acidente, ardeu totalmente ele e os ocupantes, por isso já não existe.

-Fogo, exclamei! Começo a ficar farto desta trampa. Como pode não existir se ainda ontem o vi?

Soltou uma gargalhada, antes de dizer:

-Foi depois de um bom almoço e já não vias bem as coisas!

-Nada disso. De quem era o carro?

-Dum tal José Maria Cascudo.

Agradeci e sai para o frio do dia.

Que sorte a minha!

-Será que a tipa morreu mesmo?




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa




Tinha uns olhos tão tristes como uma chuvosa noite de Inverno e hoje essa tristeza estava mais vincada, hoje a solidão fazia parte dessa angústia sua companheira de todos os dias.

O aniversário é sempre uma data que aviva a memória e em que a reminiscências do passado alimentam a nostalgia que nos acompanha nas noites tristes de Inverno.

Hoje, se ainda alguém se lembrasse, fazia 79 anos mas a família já o tinha esquecido, talvez até não se recordassem bem que ainda existia.

Tudo começou quando se negou a vendar a casa e a ir para um lar, foi nesse dia que os filhos o votaram ao esquecimento como se fosse mais um trapo velho sem utilidade.

Mas isso é coisa que já perdoou.

Nasceu em 1931, ano de todas as lutas, numa pobre aldeia perdida na imensidão da pobreza da planície alentejana.

Neste dia mais um ano se cumpria na sua vida, mais uma etapa no acumular da solidão que todos os dias ia consumindo e, mais uma vez, a esperança que a campainha da porta lhe trouxesse a prenda com que mais sonhava, os netos e os filhos que há muito o haviam esquecido.

O relógio de cuco ia martelando as horas em ritmados cantares e o diáfano manto da noite ia escurecendo, mais e mais, o negrume da alma do pobre
Hipólito.

Todo o dia alimentou a esperança que fosse hoje que os filhos esquecessem a ganância do dinheiro, pela venda do andar, a troco do depósito do velho num lar onde se espera calmamente pela hora.

O dia passou, enxugou com a manga da camisa a lágrima que sem pedir licença escorreu entre as rugas do cansado rosto.

Pensou em comer a sopa, tomar os medicamentos que o prendiam à vida e ir para a cama mas não queria que o seu aniversário, quem sabe o último, fosse assim.

Vestiu o casaco e saiu para o escuro da noite. Voltou uma hora depois, pousou as compras e foi pôr a mesa.

Um bolo de aniversário, o primeiro de há muitos anos, uma garrafa de espumante, pensou em champanhe mas era muito caro.

Encarou os ausentes e fez um discurso, não lhe saiu muito bem, mas disse o que lhe ia na alma.

Abriu a garrafa com um estrondo de circunstância e encheu as taças que tinha disposto na mesa. Partiu o bolo e distribuiu pelos pratos.

Foi o aniversariante e foi os convidados.

Estava feliz, tão feliz que cantou em voz cansada:

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Comeu do bolo e foi vazando, com satisfação, os diversos copos de espumante.

Sentou-se no sofá e adormeceu sem precisar dos medicamentos da Doutora Odete. Dormiu bem e tranquilo.

Sonhou com a mãe que o embalava embrulhado num velho xaile. Andou pelos campos com o pai juntando as ovelhas. Dançou com a mulher que a doença lhe levou. Brincou com os filhos no largo do jardim. Foi buscar os netos à escola. Sorriu numa satisfação que há muito não experimentava.

Acordou com o sol a entrar pela janela.

Olhou a desarrumação, os copos vazios, os pratos sujos de bolo e os restos de uma festa de aniversário.

Soltou uma rouca gargalhada e pensou:

-Oh Hipólito estás mesmo a ficar caquéctico, então os filhos fizeram-te uma festa e não te lembras de nada!!!!!

Sorriu para o dia que lá fora o saudava.








terça-feira, 23 de novembro de 2010

756




É uma aldeia perdida na encosta da serra.

Nas pastagens cobertas de neve as ovelhas procuram as ervas escondidas nas pedras que enxameiam as alcantiladas encostas.

A pacatez da aldeia foi quebrada, de repente, com o grito de Romana Chilrito, a filha Cláudia tinha desaparecido.

Cláudia é uma linda menina de seis anos, ladina e cheia de imaginação, passa os dias brincando com as bonecas de trapo que a avó Germana faz para ela.

Hoje a menina desapareceu, não está em nenhum dos locais de brincadeira.

-Vais ver que anda para aí!

Dizem as vizinhas, enquanto vasculham as redondezas, espreitam o poço e vão olhando os currais das ovelhas e o chiqueiro onde os porcos pachorrentamente chafurdam na lama.

Nada da Cláudia, a menina sumiu de tal forma que parece que a terra a engoliu.

Os bombeiros e a Guarda já vasculharam tudo o que é sítio, todos os poços e buracos foram vistoriados e a todos foi procurado se tinham visto, ou, escutado a criança.

Nada, desapareceu como se houvesse eclipsado, como se nunca tivesse existido.

A GNR começou a investigar a hipótese de rapto, a menina era linda, mas não havia indícios de estranhos na aldeia. Nos últimos tempos, ninguém tinha violado a pacatez do lugar.

Foi numa quinta-feira, iam passados três dias do desaparecimento, quando o pastor José Inácio descobre entre as pedras duma lura um corpo de uma criança, rosto agrumulado pelo rigor do tempo que na serra é muito severo.

Então o choro tomou conta da povoação, as mulheres carpiram a dor em prantos que entoaram para além do local, os homens cabisbaixos andavam enrolados em capotes que os protegiam do gélido e os mantinham isolados da dor e da dúvida.

Foi a Judiciária que lançou a suspeita, o professor Almerindo há pouco na terra, foi chamado para um interrogatório que deixou a população em alerta. O professor tinha sido colocado este ano na escola e o seu relacionamento muito meloso, com as crianças, não agradava a todos, mas era só isso porque no resto parecia ser um bom mestre.

Nada se apurou e, embora a angustia fosse notória, a vida retomou o seu curso na dureza da terra, na solidão do pastoreio ou nas vicissitudes de uma existência feita de nada.

A morte da Cláudia estava presente, sentia-se no ar, nos rostos tisnados pelo frio, nos olhares enviesados, na desconfiança e na profunda tristeza que passou a fazer parte o quotidiano desta gente.

As primeiras flores anunciavam a Primavera e a neve ia deixando a faldas mais escapadas da serra, as urzes iam perfumando o ar puro.

Hoje a aldeia estava num reboliço tremendo e as suspeitas entraram novamente na vida de todos, o Professor Almerindo foi encontrado a caminho de casa com a pequena Susana pela mão e embora a sua garantia de que apenas ir recolher um livro esquecido o povo, desde logo, fez ali o seu veredicto:

-CULPADO

Na reunião de emergência com as autoridades, o Presidente da junta e direcção escolar foi de, forma unânime, decidido que no dia seguinte o professor deixaria a Escola e a Aldeia.

Para o povo não era suficiente, a evidência era demasiado para ficar, assim, impune a morte da pequena Cláudia e todo o desconforto que tinha transformado a pacatez daquela gente.

****

Quando o encontraram parecia um porco acabado de matar, numa nudez que chocava, peito empapado de uma massa viscosa que ia secando em redor da faca que lhe atravessava o peito, no sítio, onde ficava o coração.

Uma hora depois apresentaram-se, no posto da guarda, os 378 anos habitantes, adultos, da aldeia e todos eles se vinham declarar como culpados pela execução do professor.

****

Vão passados dois anos, o esquecimento vai libertando as mentes daquela gente que retomaram a plácida rotina de outros tempos.

A justiça arquivou o processo por falta de provas, havia uma única facada e apresentaram-se 756 mãos a reivindicar esse privilégio.

Impossível.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma bica curta





Estava na minha frente.

Tinha umas mãos longas e de uma beleza que faziam inveja, brancas e com umas unhas bem cuidadas, cortadas numa linha recta, cobertas com um verniz rosado e decoradas com pequenas flores vermelhas.

Se os artistas tivessem mãos diferentes de todos os outros, eu diria que tinha mãos de artista, mas conheço artistas com mãos nodosas.

Olhei-a não querendo parecer muito impressionado.

Era, quase, uma escultura renascentista onde a beleza dos traços se confundiam com a delicadeza das formas nas proporções certas, nos locais exactos.

-A que devo o prazer da sua visita?

Sentada numa posição quase “cleópatrica”, pernas unidas numa postura estudada e que servia para realçar algo que passa a fronteira do imaginável, pois são perfeitas até nos joelhos onde, em regra, quase todas falham. Mas estas, meu Deus, até nisso eram correctas. Lindas, longas, torneadas e com uns contornos onde os ossos não estragavam o conjunto.

O rosto, meu Senhor o rosto, tinha a doçura de um Anjo, a candura de um bebé e a beleza de uma Afrodite. Era quase irreal.

Olhou-me do alto de uns olhos azuis, penetrantes e com um sorriso foi dizendo:

-Andei-me informando e todos são unânimes em dizer que o senhor é o melhor,
até me dizem que será o Mourinho dos detectives. Preciso dos seus serviços,
preciso muito.

Sorriu e pareceu-me que o Sol tinha nascido no meu escritório.

Rolei entre os dedos um lápis, gesto mecânico que me ficou quando deixei de fumar. Olhei-a tentando descobrir o que se escondia debaixo daquele ar de anjo.

-Minha senhora, não sei se sou o melhor e isso pouco me interessa, cumpro bem para aquilo que me pagam. Se lhe puder ser prestável, desde que dentro da legalidade, estou pronto a ouvir o que tem para me dizer.

Fez como que um beicinho e fiquei sem saber o que fazer, se fugir desta tentação ou se correr para ela e aconchega-la nos meus braços.

Contive as maquinações do meu pensamento, olhei-a bem nos olhos e insisti:

-Bom, em que poderei ser útil?

-Senhor Gilberto, julgo que é esse o seu nome, preciso que descubra quem anda a ameaçar o meu marido:

-Ameaçar, mas ameaçar como? Para esses casos nada como avisar a polícia!

Humedeceu os lábios com a ponta da língua, gesto maquinal mas cheio de uma sensualidade estudada.

-Não quero a polícia, quero resolver particularmente este assunto. O meu marido é um homem muito importante no mundo dos negócios e, como deve saber, nesta situação é fácil arranjar muitos inimigos. A inveja impera e temos que nos manter atentos.

Continuei a rolar o lápis enquanto o meu pensamento tentava enquadrar aonde esta conversa me podia estar a levar. A mulher era demasiado perfeita para estar a falar verdade. Era pedir muito. Tentei o meu melhor sorriso e perguntei:

-Mas porque não é o seu marido a procurar ajuda para este caso?

Fez o gesto de cruzar a perna e o meu coração parou, mas desistiu e o meu coração retomou o ritmo normal.

-Como lhe disse o meu marido é um importante homem de negócios e o trabalho absorve-lhe o tempo por completo, não tem tempo para mais nada.

O meu pensamento não pode deixar de ser um pouco pecaminoso, pois com uma mulher como esta e apenas com tempo para o trabalho era um pouco estranho, mas isto sou eu a pensar pois se calhar ainda lhe resta tempo para mais algumas coisas.

Sorri, um sorriso um pouco amorfo mas foi um sorriso:

-Bom… Vou ficar com todos os elementos para começar. Vai-me deixar um sinal para despesas.

Entregou-me um envelope, perfumado, com todas as indicações e onde juntou um molhe de notas:

-É suficiente para as primeiras despesas? Perguntou com um sorriso capaz de fazer desabrochar uma flor.

Estendeu-me uma a mão gelada e saiu num deslizar de suavidade e sedução.

Abri o envelope, contei os 1.200 Euros, passei um recibo que guardei na carteira e dei um olhar atento pelas indicações que, numa caligrafia miudinha, me eram fornecidas por aquele monumento que acabara de sair.

Nos papéis dizia que era a Senhora Dona Marta Cascudo, casada com o industrial José Maria Cascudo. Nunca tinha ouvido, ou lido, tais nomes mas, possivelmente, era ignorância minha.

As ameaças, eram todas feitas em colagens muito pouco originais.

Guardei tudo na pasta e sai para um jantar rápido.

No Bar do Elias nada de novo.
Balcão corrido onde alguns personagens que pareciam ter saído de algum romance de Raymond Chandler, iam digerindo, em gestos mecânicos, os restos do que parecia ter sido uma refeição.

Sentei-me na mesa do costume, no canto, onde podia observar passando despercebido.

Enquanto tragava, o bife grelhado, fui estudando os elementos que a Dona Marta me deixou. Pouco coisa de interesse, apenas hábitos, horas e locais. Amanhã ia começar, ia postar-me em frente à residência para poder seguir o dia desse Senhor Cascudo.

Paguei e segui para casa.

O dia estava frio e a relento parecia querer roer as nossas articulações. O carro, como sempre com a humidade, só pegou depois de muita insistência. Mas pegou.

O trânsito era o do costume, taxistas acelerados desrespeitando tudo e todos, senhoras e senhores em andar morno provocando filas e todas as tropelias de uma manhã dos apressados a caminho dos empregos.

Cheguei, antes das oito horas, à morada que estava nas instruções mas, estranho, não havia nenhuma habitação no local, apenas uma pequena oficina de bate-chapas, um armazém de hortaliças, um clube nocturno de aspecto um pouco duvidoso e um local de estacionamento onde antes teria sido um edifico.

Perguntei na oficina se estava no sítio certo. Estava no sítio certo mas no local errado. A morada era essa mas ninguém habitava esta rua.

Era estranho, podia ser brincadeira, mas tinha deixado um sinal de 1.200 Euros.

Entrei num café na esquina da travessa. Um par de namorados estavam tão embevecidos a treinar comerem os dois com a mesma boca que tive que me desviar para não estorvar tão bela tentativa.

Ao balcão uma senhora, tão gorda que só se conseguia deslocar de lado, olhou para mim com um olhar tão interrogativo que fiquei na dúvida se também serviriam café, mas tentei.

-Uma bica curta.

Arrastou o corpo de uma forma tão diligente até à máquina que pensei que afinal a gordura era apenas aparente.


-Aqui tem o seu cafezito! É novo por aqui, nunca o tinha visto?

Afivelei um sorriso e respondi:

-Estou de passagem, vinha a ver se encontrava o Senhor José Maria Cascudo mas, devo estar enganado na morada.

-O Doutor Cascudo! Exclamou a mulher.

Senti a esperança renascer e, agora sim, com um sorriso verdadeiro perguntei:

-Sim, sim, conhece?

Olhou-me com uns olhos piscos muito velhacos. Passou a língua, gorda como o resto, por uns lábios ressequidos e com um ar enigmático disparou:

-Conheci sim senhor, foi um bom cliente!

Comecei a ficar um pouco perplexo, a criatura estava-me a parecer por demais enigmática.

-Mas já não conhece?

Sorriu, da forma como só as cascavéis sabem sorrir. Sibilina, enigmática.

-Conheço como se podem conhecer os mortos. O senhor Doutor que morava, na casa que foi demolida, aí na travessa, morreu mais a esposa num grande acidente de automóvel, no ano passado. Não leu nos jornais?

Fiquei confundido, duas pessoas a gozarem comigo num período de 24 horas era demais.

-Será o mesmo?

-Isso não sei, mas com esse nome não deve ser fácil haver muitos.

Parecia lógico, arrisquei;

-Como era a mulher?

Olhou-me com um ar reprovador, pensando sei lá o que.

-Uma cabra, linda e jeitosa como todas as mulheres gostariam de ser, mas uma cabra que não deixava o homem respirar, não o largava um instante. Ciumenta até da própria sombra, mas não lhe valeu de nada. Morreram juntos. Ficaram feitos em carvão, nada se aproveitou.

Fez um trejeito de choro, mas não se saiu nada bem.

Paguei, meti-me no carro e sai disparado. Há coisas na vida que não sei explicar.

-Será que a tipa morreu mesmo?



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Aquele almoço




Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.

Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.

Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.

Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:

-Senhor compre uns!

Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:

-Tens fome?

Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.

-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!

Vi medo no corpo franzino:

-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.

Sosseguei-a:

-Vamos juntos e eles deixam.

Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:

-Que te apetece comer?

Olhou tudo e encolheu os ombros.

-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.

Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.

-Pode ser, respondeu a medo.

Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.

Reparou que a estava a observar e perguntou:

-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?

Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:

-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.

Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.

-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!

Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.

Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.

-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.

-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.

-E a tua mãe?

-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.

-Tens irmãos?

-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.

Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.

-Senhor porque me pagou esta comida?

-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?

Sorriu mais uma vez.

-Tens filhas? Perguntou muito séria.

-Não, não tenho filhas.

Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.

Percebi que algo ficou por dizer e insisti:

-O que ias dizer?

-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.

Deu-me um beijo rápido e desapareceu.

Nunca mais a vi.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Pita da Alice






Sabem que esta pequena estória podia ser verdadeira?
Eu sei que não é, mas que podia..podia!




A Alice tinha uma pita e andava ufana. Dizia a toda a gente:

-A minha pita é linda e não há outra igual.

No pátio, onde vivia, já todos estavam cansados de a ouvir elogiar a pita. As mulheres olhavam de lado e passavam mostrando total desinteresse, os homens não passavam sem querer fazer um afago na pita da Alice.

Os tempos iam passando e a pita ia crescendo, era linda, fofinha apetecia mesmo fazer uma festinha.

Mas nem pensar a Alice não deixava ninguém mexer na sua pita. Era dela e só dela.

Hoje a pita está enorme, delicada e muito branquinha, parece que a neve a veio enfeitar de alvos e imaculados flocos.

A mãe da Alice, essa, não anda nada satisfeita, pois a pita não é asseada e pita que não é asseada deita mau cheiro.

A mãe ia avisando a Alice:

-Se não cuidas em condições da tua pita ainda vais ter um desgosto, toma atenção e depois não digas que eu não te avisei.


A filha resmungava:

-Pois tens inveja da minha pita e até acho que gostavas de ter uma como a minha, mas não penses porque a minha é única, é especial. Pergunta ao meu namorado porque é ele quem mais brinca com ela. Vá lá! Pergunta!

A mãe não gostava nada destes desaforos da filha e rilhando os dentes ia ameaçando:

-Depois não me venhas dizer que eu não te avisei!

*******

Um dia, há sempre um dia, Alice chegou a casa e não viu a pita:

-Mãe onde está a minha franga?

-Eu avisei, não avisei? Não me destes ouvidos e agora a tua pita está na panela.
Deu uma bela canja. Oh se deu!