
Acordei com humor de cão. A boca sabia-me a esfregão do chão, os tinnitus nos ouvidos pareciam querer estourar com a minha cabeça. A culpa era do whisky, não devia ter bebido tanto mas precisava de acalmar, os meus pensamentos estavam num turbilhão e precisava de coordenar as ideias. A bebida não foi a melhor solução mas sempre ajudou.
Desde que a minha ex fez as malas e desapareceu, tal como um D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, fiquei para aqui perdido neste casarão. O que me vale é a Dona Carminda que cuida de mim como se fosse dum filho. Trata-me da casa e da roupa e por vezes ainda me mimoseia com uns petiscos para me lembrar de uma vida que já tive.
Tomei um duche, quase frio, na tentativa de que a vida voltasse a este corpo, ajeitei-me o melhor possível e sai para o frio da manhã.
A Joana quando me viu fez sinal de que o meu pequeno-almoço estava a ser tratado.
O café surtiu algum efeito, o cérebro começou, lentamente, a trabalhar e a tentar arrumar as ideias que andavam totalmente tresmalhadas.
O meu velho Dodge esperava por mim e, para minha satisfação, respondeu à primeira tentativa da chave.
Precisava falar, de novo, com o padre, havia informações que só ele me podia dar.
Recebeu-me com o mesmo ar de beatitude, sorriso bondoso num rosto calmo.
-Então filho porque, de novo, na casa do Senhor?
Sorri, estudei as palavras e perguntei:
-Sabe Senhor Padre, preciso falar com os familiares do casal Cascudo e só o senhor me pode ajudar. Disse-me que sabia dos pais e de um irmão da Dona Marta e de uma irmã e do sobrinho do Senhor José Maria. Para poder arquivar este estranho caso preciso falar com todos eles. Posso contar com a sua ajuda?
Pensei que ia ficar irritado, mas não, sorriu e disse-me:
-Não sei se ajudo muito, os pais da Marta vivem numa aldeia próximo de Tomar, já lhe dou o nome exacto, não me lembro bem, espero ter na minha agenda. Quanto á irmã é mais difícil, talvez a Dona Inocência, não sei se conhece, é a senhora do café.
Quando o José Maria estava entre nós ela era o elo de ligação com a irmã. A relação com a cunhada não era boa e era através da senhora do café que trocavam notícias.
Deu-me o nome da aldeia, apertou-me a mão e com muita delicadeza terminou a conversa.
Má sorte a minha, estava outra vez nas mãos daquela mal encarada mulher.
Seja o que Deus quiser!
À porta do café um tipo, com cara de fuinha, tentava acender um cigarro com um isqueiro “bic”, sem conseguir com o vento forte que se sentia.
Arrisquei:
-Amigo porque não entra, será muito mais fácil.
Olhou-me com uns olhos desbotados e, baixando a voz, segredou-me:
-A bruxa não deixa entrar com cigarros.
Sorri e preparei-me para a encarar.
Quando me viu mudou o semblante e esboçou um sorriso:
-Bom dia e bons olhos o vejam. Vem beber uma bica curta?
Fiquei admirado com tão calorosa recepção.
-Venho sim, minha senhora, mas também queria uma informação. Preciso falar com a irmã do Senhor José Cascudo e sei que tem o telefone, preciso que mo diga.
Olhou-me com um ar tão admirado que parecia que o Arnold tinha voltado ao café.
-Bom, e se tiver acha que lho ia dar? Pensa que os números de telefone de amigos se dão assim a qualquer um?
-Vai dar porque se não der nem sabe os sarilhos que eu sou capaz de lhe arranjar!
Olhou-me com uma raiva incontida mas foi dizendo:
-Só lhe passo o número se me jurar que nunca vai dizer que fui eu que o fiz.
Fiz uma cruz sobre a boca e ela percebeu o gesto. Deu-me o número e insistiu:
-Por amor de Deus mantenha-me fora de tudo isto.
Jurei que sim e segui a caminho do meu escritório, precisava ver o correio e de fazer alguns telefonemas.
Este caso estava a ser mais complicado do que à primeira vista me parecia, tinha combinado receber 1.200 Euros no inicio, 1.200 a meio e 2.600 no fim e pelos vistos só o valor inicial estava certo e mal dava para as despesas. Mas que fazer? A vida de investigador tinha destas coisas.
No escritório continuava o odor a “Ralph Lauren” e era estranho que ao fim de tantos dias o cheiro ainda se mantivesse.
Seria a minha imaginação?
Vi o correio, facturas para pagar e publicidade sem interesse.
Tirei o bilhete com número de telefone que a gorda me deu e ia começara preparar uma mentira a ver se resultava:
-Boa tarde! È a Dona Helena Cascudo? Preciso falar, pessoalmente, com a senhora.
Quando me poderá receber? Sim, sou o perito da companhia de seguros e necessito fechar o processo dos seus malogrados parentes e a sua assinatura é indispensável. Amanhã às 11 horas? Óptimo, lá estarei. Confirma-me a morada? Obrigado!
Parece que resultou.
Sai cedo, tinha alguns quilómetros pela frente e continuo com a mania da pontualidade.
Era uma vivenda simpática, ladeada de um jardim com flores amarelas.
A Dona Helena era uma mulher muito interessante e recebeu-me com um sorriso afável:
-É o senhor dos seguros, não é verdade?
Sorri antes de confirmar:
-Sou, para formalizarmos isto fale-me um pouco sobre o seu irmão.
-O Zé Maria foi uma jóia até casar com aquela megera que o absorvia e que não o deixava sequer privar com a família. Antes de casar aparecia por ai, ajudava-nos e presenteava muito o sobrinho, depois de casar só às escondidas é que telefonava, era a Dona Inocência, do café, quem nos servia de intermediária.
Agora o meu mano está morto, coitado, foi uma tragédia.
Fez beicinho e fingiu enxugar uma lágrima.
-Mas, perguntei eu, porque seria que a Dona Marta o afastava de família?
Fez um esgar com os lábios antes de responder.
-Dizia que a família eram sanguessugas que viviam agarradas a ele, eu e o meu Mário nunca o pressionamos para nada, sempre que ele nos ajudava é porque gostava da família e porque podia, a vida corria-lhe bem e gostava de ajudar, de repente tudo acabou, aquela cobra fazia dele o que queria.
Agora, graças à herança nós estamos bem e para eles, infelizes, tudo acabou tudo.
Agora chorou mesmo, vi a lágrima fazer um risco no rímel. Limpou o nariz antes de continuar:
-Casei muito nova e fiquei viúva quando o meu filho tinha três anos, foi o Zé Maria que tomou conta de nós, foi um verdadeiro pai para o Mário. Foi ele quem o criou até aos 16 anos.
Voltei a casar mas a sorte não quis nada comigo e voltei a ficar viúva. O meu segundo marido, bom homem, nunca foi bem aceite pelo enteado e eu sofri muito com isso. Nessa altura, para o Mário, o tio foi um grande apoio até que aconteceu a desgraça.
-Desgraça? Interroguei eu.
Fungou, mais uma vez.
-Sim uma grande desgraça! O meu marido gostava muito de pescar e um dia, ninguém sabe explicar o que aconteceu, o motor do barco explodiu e ele desapareceu no rio.
Só ao fim de três dias encontraram o corpo a uns 30 quilómetros daqui.
Jurei que nunca mais me voltaria a casar e olhe que não é por falta de pretendentes, que os tenho tido, mas acho que os casamentos só atraíram a desgraça. Jurei para nunca mais!
-E o seu filho?
-O Mário está na oficina, ele tem uma firma de coisas da electrónica, sempre foi um apaixonado por essas modernices. Faz comandos à distância e essas coisas assim, é um rapaz muito esperto. Foi com a herança que recebeu do tio que conseguiu.
Se quiser falar com ele é perto está a oito quilómetros, na vila aqui do lado.
-Não é preciso, depois mando o relatório para assinar, menti eu, pois não haveria nenhum relatório.
A viagem de volta foi rápida. Quando cheguei ao escritório o cheiro a perfume era muito mais acentuado.
Em cima da minha secretária estava um envelope com 1.200 Euros e um cartão onde, laconicamente, numa letra desenhada se podia ler - 2º pagamento.
Como era possível, a porta não estava arrombada e a única chave existente era esta que tenho em meu poder. Liguei para a portaria e o porteiro confirmou que ninguém, com o aspecto que lhe indiquei, tinha entrado no prédio.
Não me vou deixar levar por essas coisas do sobrenatural, mas o meu pensamento não deixa de se interrogar:
-Será que a tipa morreu mesmo?





