quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A troca




Quando desceu na estação pareceu-lhe ter aterrado num mundo diferente, aquele edifício enorme, apinhado de gente apressada que entrava e saia dos comboios dava-lhe a sensação de um mundo que não era o seu.

Tinha nascido numa aldeia perdida nos contrafortes de uma serra, onde quase nada da civilização ainda tinha chegado, apenas a televisão no café do Sr. Romão e uns jornais que apareciam quando as noticias já estavam gastas.

Agora estava aqui perdida e confusa na esperança que a senhora que a tinha contratado estivesse à sua espera. Fora o senhor Padre Zé que lhe tinha arranjado esta vinda para fugir a uma vida de pobreza que se lhe adivinhava.

O pai foi um bom homem mas uma doença, que o médico não sabia bem o que era, levou-o o quando ela tinha dois anos e a mãe, sem recursos, entregou-a à madrinha e foi em demanda de melhor vida. Nunca mais deu notícias.

A madrinha, Dona Carminho, era uma alma caridosa que vivia no medo do pecado, nunca tivera um homem na sua vida, a oração e a penitência era o seu maior alimento. Tratou da afilhada como se fora sua filha, nos princípios da Igreja e no temor a um Deus que um dia a iria receber e compensar pela sua conduta isenta de pecados libidinosos.

Quando completou 18 anos, Alice, pediu à madrinha para a deixar ir para a cidade trabalhar, pois ali na terra estava condenada a uma vida sem grandes expectativas.

-Mas Alicinha, exclamou a madrinha, na grande cidade é onde abunda o pecado que poderá perder a tua alma.

Mas, pensou, talvez se for o senhor Padre a tratar ele a pudesse livrar de todos os perigos que a cidade pode acarretar a uma donzela como a Alice.

E, foi assim que se viu no comboio com uma velha mala, com muitas autocolantes de hotéis, onde levava todos os seus haveres e pertences.

Ia para casa de um casal, pessoas de bem, onde iria servir e aprender todas as artes de uma boa dona de casa.

Havia de os encontrar, pois alguém estaria à sua espera com uma folha de papel com o seu nome escrito.

Deixou-se ir na vaga que abandonava o comboio a caminho da saída e lá estavam eles, um casal com uma folha encostada ao peito onde se podia ler ALICE.

Como ficou contente em ver o seu nome nas mãos de umas pessoas tão chiques.

Era uma senhora cheiinha de formas, um chapéu preto com umas plumas da mesma cor enfeitavam uma cabeça onde já se notavam alguns cabelos brancos. Ao seu lado um senhor todo janota, cabelo preto, com algumas cãs, penteado para trás, a que um fino bigode dava um ar de pessoa importante.

Quando os viu fez uma vénia, como o senhor padre lhe havia ensinado, e muito envergonhada disse:

-Boa tarde, sou a Alice uma vossa criada.

Deve ter-se saído bem, porque os dois sorriram, a senhora deu-lhe um beijo na face e o senhor estendeu uma mão muito bem cuidada.

Entrou no carro, nunca tinha andado de automóvel mas não teve medo. Os dois senhores nos lugares da frente e ela, depois de por a mala no porta bagagens, foi assim que lhe chamaram, recolheu-se no banco de trás.

O senhor devia ser muito habilidoso, pois andou por aquelas ruas desviando-se dos outros carros com muita perícia pois chegou a casa sem ter tropeçado com nenhum.

Já era tarde, aquela hora nos outros dias estava recolhida, mas a senhora mostrou-lhe a casa, nunca tinha visto nada assim a não ser nas telenovelas que espreitava quando ia ao café do senhor Romão comprar pastilhas de mentol para a madrinha.

A patroa, antes de a deixar num quarto que iria ser seu deu-lhe os primeiros ensinamentos.

-Olha Alice vou-te ensinar como nos deves tratar, a mim por Madame e ao meu marido por senhor Engenheiro, agora vai comer qualquer coisa e vai dormir, amanhã começo a ensinar-te os teus deveres.

Quando acordou estranhou o sítio onde se encontrava, não tinha ouvido o galo cantar nem o ladrar dos cães do senhor Vitorino. A pouco e pouco foi dando de si e levantou-se lista, antes que a madame pensasse que ela era uma preguiçosa.

Foi para a cozinha e esperou até que alguém lhe viesse dizer o que devia fazer.

Apareceu o senhor Engenheiro que a olhou de tal forma que ela se sentiu como se a despissem e a deixassem como viera ao mundo. Chegou a colocar as mãos à frente para que não lhe vissem as partes pudibundas, mas acalmou quando o homem lhe disse com uma voz amável:

-Vai preparando a mesa para o pequeno-almoço que a senhora está a chegar. Põe aqui mesmo na cozinha.

Ficou mais calma mas ainda sentia o rubor que lhe afogueava as faces.

Depois, foi aquela rotina que não lhe era muito estranha pois a madrinha Carminho muito lhe tinha ensinado sobre as lidas domésticas e a arte da cozinha.

***

Como o tempo passa depressa! Parece que chegou ontem e já vai fazer dois anos que deixou a sua aldeia a caminho desta cidade que afinal não é tão grande como as que agora vê na televisão que a madame lhe pôs no quarto.

Não sabe bem o que se passa mas hoje acordou indisposta, vómitos e um mau estar que não é habitual mas, esteve a pensar e pode ter sido das favas que comeu ontem ao almoço, estavam tão boas que abusou um pouco.

***

Foi no minimercado que o conheceu, a madame mandou-a comprar dois quilos de açúcar, e uma dúzia de ovos para fazer o bolo de que o senhor engenheiro tanto gosta e ele estava lá. Achou-o lindo e quando se lhe dirigiu corou como se tivesse sido apanhada a roubar o chupa-chupa a uma criança.

-Menina, sabe que é muito bonita? Será que a posso acompanhar a casa?

Ficou entabulada sem saber que responder, mas ganhou coragem para dizer

-A rua é livre, porque não! Pelo canto do olho foi observando o farto cabelo loiro do homem que caminhava a seu lado.

Era vendedor de produtos de limpeza, vivia com a mãe e uma irmã. Pediu para a voltar a ver pois, disse, gostou muito de falar com ela.

-Todos os dias por volta das cinco horas levo a Birrita a passear, se quiser pode acompanhar-me. Não posso demorar mais do que 45 minutos.

-Serve, melhor 45 minutos do que nada, respondeu alegremente.

E, nos dias que se seguiram Jaime estava de plantão postado em frente à vivenda aguardando, ansiosamente, por Irene.

As primeiras saídas foram de uma timidez confrangedora mas o tempo foi abrindo caminho a um afoitar de carícias e, enquanto a cadela cheirava e aliviava as suas necessidades, os beijos surgiram, primeiro em suaves e tímidos afagos e depois um pouco mais afoitos, quase em fúria.

Jaime olhando nos olhos a sua amada perguntou:

-Irene este fim-de-semana, na tua folga, podíamos ir os dois para um sítio lindo que eu conheço no Magoito, é a casa da minha avó, está às nossas ordens porque ela está agora na terra com as irmãs, podemos ir passear até à praia.

Irene ficou sem saber que responder, o coração dizia sim mas a razão parecia, querer complicar esta decisão. O coração venceu.

Há muito que não se sentia tão feliz.

Foi um fim-de-semana que nunca mais iria esquecer.

***

Foi a patroa que estranhou a mudança de comportamento da Alice e chamando-a de parte perguntou:

-Alice tens com algum namorado?

Corou até à raiz do cabelo, baixou os olhos antes de responder:

-Tenho sim madame há dois meses.

A patroa franziu os olhos, coçou o pescoço e sem a menor hesitação exclamou:

-Ou me engano muito ou estás grávida. Vai já à farmácia comprar o que te vou escrever num papel

-Eu? Disse Alice enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces. Que vergonha madame, o que vai dizer a minha madrinha e o senhor padre?

-Vai à farmácia e depois pensamos no resto.

A madame tinha razão, os enjoos eram indício de alguma coisa.

O pranto de Alice encheu a casa. Chorou não por estar prenha, mas pela vergonha das pessoas lá da terra.

Dona Celeste com um ar muito maternal mandou-a sentar antes lhe falar:

-Ouve bem o que te vou dizer. Na tua idade e nas tuas condições um filho não vai ajudar nada. Não vais fazer nenhuma asneira, se tens uma criança dentro de ti, temos que tratar para que nasça bem, não podes pensar em fazer nenhum disparate.

-Credo madame, isso que está a pensar eu nunca iria fazer, disse Alice entre soluços.

Dona Celeste baixou a voz e enquanto lhe punha uma mão no ombro, quase que lhe segredou ao ouvido:

-Querida deixa vir essa criança que eu e o senhor engenheiro ficamos com ela e nada na vida lhe vai faltar. Sempre quisemos um filho mas Deus não nos deixou ter essa felicidade. Nós ficamos com a criança.

Alice enxugou as lágrimas e com uma decisão que nunca lhe tinham visto, fixou a madame no rosto.

-Isso não, a vida nada me tem dado, agora se me dá um filho eu não o vou enjeitar. Desculpe madame, mas melhor ou pior, o hei-de criar.

Levantou-se e foi para a cozinha arrumar a loiça que a máquina tinha lavado.

Quando às cinco horas foi levar a cadela à rua ia estudando o que devia dizer ao seu Jaime e estava receosa com a reacção. Foram descuidados e não pensaram que isto podia acontecer.

Jaime ficou radiante com a noticia, era o sonho da mãe, ser avó.

A filha esteve casada 5 anos e, seca como figo, nunca foi capaz de lhe dar um neto.

Jaime soltou uma gargalhada tão sonora que a Birrita começou a ladrar e foi preciso Alice afagar o bicho para se acalmar.

-Sabes Alice, disse Jaime, prepara as coisas para te mudares lá para casa, vou tratar com a mãe que te irá receber como se fosses uma princesa.

-Mas, respondeu Alice, temos tempo e posso trabalhar mais uns meses porque o dinheiro vai fazer falta.

-Bom, respondeu ele, então na tua folga vais conhecer a minha mãe e a minha irmã, vais almoçar connosco.

Foi recebida, efectivamente, como uma princesa. Nunca na vida se sentiu tão acarinhada, achou até exagero não a deixarem sequer arredar a cadeira.

-Não faça isso, gritou a mãe do Jaime, nada de esforços. Cuidado porque o meu neto tem que nascer forte e saudável. Tenho estado a pensar que se for menino vai ser Ernesto, como o meu pai e se for menina quero que se chame Susana, que é o nome que eu queria para a minha filha, mas o raio do pai quando a foi registar não me fez a vontade. Raios o partam que também não se gozou muito, a porra de uma doença levou-o para descanso de todos nós.

-Acho que não vão ser esses nomes, disse Alice, não gosto muito. Susana, vai que não vai, agora Ernesto nem pensar.

A mulher mordeu os lábios e teve que fazer esforço para se acalmar, olhou a futura nora com azedume antes de responder:

-Mas o filho também é do Jaime e ele não vai contrariar a mãe, por isso vá-se habituando aos nomes que eu lhe disse para quando chegar a altura não sofrer uma decepção.

Mas onde eu vim parar, pensou Alice, agora vem esta jarreta a querer decidir sobre o meu filho, isso é que era bom, vai ser ou André ou Mafalda e nada do que ela disse, sou eu que vai parir sou eu quem vai decidir.

***

O tempo passou depressa e Alice estava com uma barriga que já lhe custava a carregar e aceitou a oferta do namorado. Fez a velha mala, onde os autocolantes começavam a ficar tão desbotados que já era difícil adivinhar o que diziam.

A candidata a sogra recebeu-a como se a pequena divergência sobre os nomes fosse coisa do passado.

-Que barrigona, disse, certo que vai sair um grande rapaz. O nosso Ernesto vai ser a alegria desta família.

Bom, pensou Alice, a gaja está muito enganada mas deixa pensar o que quiser, na hora logo o vou registar como André.

Foi um parto difícil, o rapaz era grande e só com cesariana foi possível por cá fora o matulão.

Fizeram uma festa, Jaime, a mãe e a irmã estavam doidos para ver o bebé, quando a enfermeira o mostrou através do vidro ficaram em êxtase. Que lindo! Disseram em uníssono.

Na hora da visita foi a confusão, cada um falava para seu lado, ninguém se entendia. Todos queriam reivindicar a sua parte da criança, tão absorvidos que quase se esqueceram de quem o tinha deitado cá para fora.

A enfermeira deu por finda a barafunda:

-A mãe da criança precisa descansar, vão e amanhã voltam. Está bem?

***

Quando saíram, Alice pegou no telemóvel e ligou ao patrão. Esperou e quando a atendeu disse:

-Senhor Engenheiro é a Alice. Não quer vir conhecer o seu filho? É lindo e tem os olhos iguais aos seus. Não senhor engenheiro, não é do meu namorado, quando o conheci já estava grávida, E sabe de quem, não sabe? Não quero nada do senhor mas acho que tem o direito a conhecer o menino, porque também é seu. Nasceu ontem ao fim do dia. Estou na maternidade que o senhor sabe. Pois senhor Engenheiro é nessa mesma.

No dia seguinte, ao meio da manhã, lá estava o senhor Engenheiro, ansioso e ofegante.

-Alice essa criança linda é mesmo minha? Pensei….bom…estava convencido…

-Pensou mal, quando conheci o Jaime já andava com agonias e a madame já estava desconfiada.

-E agora? Perguntou o engenheiro.

-Agora que já o viu pode seguir a sua vida que eu hei-de criar esta criança. O Jaime pensa que é o pai e vai ajudar.

-Alice não quero isso, a relação com a minha mulher está podre e para ela e para mim o divórcio é a solução, aliás, eu e ela já tínhamos falado nisso. Se tu quiseres casamos os dois e vamos criar essa criança como um príncipe. Aceitas?

Fingiu pensar, torceu a boca, criou expectativa e exclamou:

-Aceito João. Posso tratar-te assim? Vou ter alta amanhã ao meio-dia, os outros vem para a visita as três a essa hora já não penso estar aqui. Vens-me buscar?

Sorriu, com um sorriso baboso antes de dizer:

-Podes crer meu amor, vou tratar da nossa futura casa. Amanhã ao meio-dia aqui estarei.

***

Deixou sair o ex-patrão pegou, outra vez, no telemóvel e ligou para o Jaime:

-Jaime não te queria dar este desgosto mas não sou capaz de te enganar, tens sido muito bom para mim e não mereces que eu te engane. O menino não é teu é do meu patrão, quando te conheci já estava grávida mas não tive coragem para te dizer. Não venhas mais porque é pior para os dois, mas juro que gosto muito de ti.

Jaime chorou e a mãe quando soube, desabafou:

-Aquela cabra nunca me enganou, mas tu continuas parvo como sempre.

****

E dois anos vão passados, Alice é agora a mulher do senhor Engenheiro e o André está um rapagão que é um regalo.

A mãe afagou-lhe os abundantes caracóis louros e sussurrou:

-Tens o cabelo lindo como o teu pai, nunca o vais conhecer mas assim é melhor para ti.
Tens uma vida e um futuro e com outro não tinhas nada, além de uma avó maluca.

Espero que me perdoes.


domingo, 2 de janeiro de 2011

Crónica de Um Fim do Ano




Ninguém decerto notou a minha ausência, mas eu senti um pouco a falta desta página, pois é aqui que eu boto as pequenas veleidades que me assomam e me alimentam no quotidiano mas, desta vez, quis fugir do frio que me desconforta e desta chuva que me importuna.

Acabado o Natal, que detesto, arrumei os papéis que me perseguem, agarrei a mala e fui em procura de um Sol que me anime, uma praia que me tonifique e um modo de vida que quebre a rotina que me inquieta.

Que me perdoem aqueles, alguns meus amigos, que lutam por "um não gaste lá fora, alimente quem nos suga o sangue e nos deixa cada vez mais pobres", mas a White que é portuguesa, a Operadora que é de cá e a Agencia de viagem que é nacional ofereceram-me um bom programa de fim do ano, vestido de branco e no conforto dum clima ameno.

E lá fui, aliás, fomos!

Da viagem nada que alimente a crónica. Tranquila na possibilidade de quem não gosta muito de andar pelos ares, mas a coragem inventa-se e o medo fica letárgico no nosso pensamento.

Nos restantes dias foi o aproveitar do Sol e do clima magnífico para tonificar, tostando e mergulhando nas águas de Pituba, Piatã, Flamengo e, até, nas do Corsário.

Nas praias, a comodidade e mordomias deixam-nos com vontade de continuar, pois há sempre um “moleque” pronto a arranjar o chapéu e as cadeiras para um relaxante dia de banhos mas se quisermos uma água de coco, cerveja ou algo que seja possível é mesmo só pedir porque a reposta será:

-Vou arrumá já pra você.

Para não sermos rotineiros, uns passeios aos lugares que nos iam recomendando, faziam os dias passar de forma tão rápida que quando demos por nós estávamos a fazer as malas para o regresso e a pensar numa dieta porque a comida baiana dá cabo de qualquer regime.

As moquecas do Odoyá são algo que não vou esquecer. Uma fusão de sabores que nos deixam encantados e confesso que não tenho jeito, nem engenho nem arte, para as descrever.

Um dos meus acompanhantes, com uma simples frase, definiu bem a magia que senti:

-Manuel nunca te vi comer com tanta satisfação!

A passagem do ano foi feita de forma tranquila.
Festejei duas vezes, uma à meia-noite da minha terra e outra no virar do ano em Salvador da Baia.

Depois deixamo-nos mergulhar no frenesim, no fogo-de-artifício e no samba que encheu a noite até o sol raiar.

Foram 16 horas de viagem (8 para cada lado) mas, quase não dei por isso, pois foi tudo magnifico e se não fosse a tentativa de assalto que sofremos tudo teria sido perfeito.

Mas valeu, porque o ladrão teve uma noite para esquecer. Não conseguiu roubar os Iphones dos “portugas” e ainda ficou, como recordação, com uma mão bem mordida, pois nós defendemos o que é nosso com unhas e dentes.

Coitado, são ossos do ofício.



PS:
Só fiquei com uma curiosidade. Porque será que todas as baianas tem uma bunda grande?



domingo, 19 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Conclusão





Não gosto nada destes dias chuvosos, o trânsito fica mais complicado e tudo o que necessito fazer acaba por ficar prejudicado, mas tinha previsto uma visita aos pais da Dona Marta e ia esperar até que o tempo me deixasse meter ao caminho.

Tenho que por as ideias em ordem, este caso tem sido mais complicado e estranho do que alguma vez poderia pensar.

Duas mortes num acidente que não deixa pistas, alguém que aparece de forma inexplicável e se faz passar por uma das vítimas. Um padre que deve saber muito mais do que parece, disse não saber a morada dos pais da Dona Marta, que teria que consultar a agenda mas não o fez, escreveu sem sequer pensar.

Uma Dona Inocência que não tem aspecto de poder ser confidente de ninguém e aparece como sendo de confiança. Não me soa bem.

Uma suposta vitima de acidente aparece a requisitar os meus serviços e todos me dizem que morreu no desastre. Se isso aconteceu como aparece e até paga um serviço?

Terão simulado um desastre? Mas sendo assim porque iriam chamar a atenção para o assunto? Convinha que ninguém mexesse no caso. Estranho!

Começo a ter algumas ideias, mas preciso de as tornar consistentes e a visita aos pais da Dona Marta poderá acrescentar algo, ou pelo contrário, baralhar ainda mais a confusão que baila na minha cabeça.

A chuva começa a desaparecer, o melhor é preparar o GPS e rumar para mais uma visita.

A estrada está um pouco perigosa e algumas poças de água obrigam a alguma prudência.

De quando em vez a chuva volta com alguma intensidade.

Quando o GPS anunciou o chegou ao seu destino, o tempo parece que se solidarizou e uma nesga de Sol alegrou o dia.

É uma casa térrea a precisar de algumas obras e muito especialmente de pintura, paredes com uma cor já indefinida e onde algumas fissuras e remendos dão um sinal de abandono.

Tinha que inventar uma desculpa, pois não me devia apresentar como investigador, causa sempre algum desconforto.

Bati à porta com a velha albrada que em tempos deve ter sido decorativa e que agora não passa de um pedaço de ferro ferrugento pendurado numa porta em tão mau estado como o resto da casa.

Atendeu uma senhora pequenina, toda de preto e com a cabeça coberta por um lenço que lhe dava um ar muito austero.

Sorri o melhor que me foi possível:

-Bom dia, sou agente da Companhia de Seguros e preciso acabar o processo do acidente da sua filha. Posso roubar-lhe um bocadinho do seu tempo?

Deu-me um sorriso tão triste que até me parece que a nesga de Sol, que ia despontar, se escondeu outra vez.

-Vou chamar o meu marido porque eu não percebo muito dessas coisas, mas entre por favor e não repare na desarrumação e no desleixo mas a nossa vida parou desde que a nossa filha partiu.

O marido era um homem magro como um galgo, ossudo e com a cara coberta por uma barba branca que o deixavam com uma idade indefinida.
Estendeu-me uma mão firme e afectuosa.

-Em que podemos ajudar o senhor?

Sorri, mais uma vez, antes de dizer:

-Como já disse, à sua esposa, sou da companhia de seguro e venho para terminar o processo do acidente.

Olhou-me com doçura, cofiou a espessa barba e mandou-me sentar.

-Senhor, como é a sua graça?

-Gilberto, apressei-me a responder.

-Bem senhor Gilberto, o que lhe posso dizer?

-Gostava que me falasse da sua filha e do seu genro.

-A minha filha era um anjo e o meu genro o melhor que se pode desejar. Deus não quis e de três filhos apenas nos resta um, o Pedro, infelizmente com muitos problemas de saúde, vive agarrado a uma cadeira de rodas.

Quando eu e a minha mulher faltarmos não se sabe o vai ser dele. Se a irmã não tem tido a desdita do acidente, tenho a certeza que o iria amparar para sempre mas assim não sei o que o destino lhe reserva.

O meu filho, que era padre na paróquia da Marta, faleceu dois meses depois da irmã com uma doença má nos pulmões, ficamos nós dois velhos e um pobre inválido que depende dos pais. Estou a tentar, com o que recebemos da herança, que foi maior do que pensávamos, garantir o futuro ao Pedro, mas mesmo assim vai ser doloroso.

Ao canto, numa cadeira de rodas, estava um pobre coitado com as pernas embrulhadas numa manta.

-Não sabia do seu filho padre!

Olhou-me com uma tristeza nos olhos que fazia doer.

-O nosso filho era o Padre José Robalo, muito estimado por todas os paroquianos, homem bom, justo e o melhor filho que se pode desejar.

Despedi-me, meti-me no carro, precisava passar pela Igreja pois fazia-me impressão o padre nunca me ter falado no irmão da Dona Marta.

As coisas estavam cada vez mais confusas e parecia que as pessoas tinham algo a esconder.

Na igreja, meia dúzia de pessoas estavam recolhidas na oração. Atravessei no sentido da sacristia, onde um padre muito jovem, que não tinha visto antes, me mandou entrar e fez a pergunta que eu já esperava:

-Boa tarde meu filho em que lhe posso ser prestável?

Fiquei sem saber como começar, pois não esperava um padre diferente:

-Queria falar com o outro padre.

-O outro padre? Sou o único desta paróquia há 10 meses, o anterior foi chamado pelo nosso pai do céu.

-Mas na semana passada falei, duas vezes, com um seu colega aqui neste mesmo sitio.
Como pode dizer que é o único?


-Está a fazer confusão, não pode ter falado com outro sacerdote aqui, sou o único.

-Mas, argumentei eu, era alto e magro, cabelo branco ondulado. Usava uns óculos com aros de metal amarelo e, notei isso, um sinal azulado por cima do lábio.

-Credo! Esse era o nosso irmão José Robalo mas, como já lhe disse, o Senhor já o chamou no ano passado à sua divina presença. Ou está a fazer confusão ou já passou por aqui há muito tempo.

Nem me despedi, sai espavorido a caminho do café da Dona Inocência, que esperava que fosse verdade e que existisse antes de eu dar em maluco.

Existia e lá estava na esquina da travessa e ela, desta vez, vai contar tudo o que sabe. Podem crer que vai mesmo!

Hoje estava mais barulhento do que o costume, um grupo de homens conversavam alegremente sobre as peripécias dos jogos de futebol. Ao balcão uma jovem ia, com um pano, limpando o balcão. Quando me viu ficou à espera do meu pedido.

-Boa tarde, disse eu, queria falar com a Dona Inocência.

Fez com a boca um trejeito engraçado antes de responder

-Disse bem, queria, mas não quer porque não se pode falar com quem morreu já há alguns meses. Este café é meu, sou dona há oito meses, ela morreu com um AVC. Morreu por isso não pode falar com ela. Percebeu?

Não respondi, sai disparado e meti-me no carro sem saber o que pensar.

Parece que todos querem dar comigo em doidos.



****************

Tentei abrir, a muito custo, os olhos. Primeiro um e depois o outro, muito devagar.
Ao longe, dois vultos, estavam a olhar-me.

Pareceu-me estar numa cama, ligado por tubos. Tinha um no nariz para respirar. As dores eram muitas e não sabia por que estava aqui, nem o que estava a fazer.

Os vultos mexeram-se, era estranho. Porque estariam a olhar para mim?

Uma voz desconhecida falou:

-Finalmente, querido, acordou!

Que esquisito. Finalmente porque? Isto é irreal, não pode estar a acontecer.

A voz insistiu:

-Amor, vou chamar o médico.

E foi, pois desapareceu e só ficou um dos vultos. Parecia uma menina.

Voltou com um homem vestido de branco, talvez o tal médico.

Mas médico para que e porque?

O homem falou-me como se me conhecesse:

-Finalmente, Sr. Arnaldo, acordou de 18 dias de coma.

-Mas eu não sou Arnaldo sou Gilberto, tentei gritar mas apenas me saiu um lamento!

-Está confuso, é normal esteve 18 dias em coma profundo. Teve um desastre muito grande mas vai recuperar, vá lá descanse. A sua mulher e a sua filha estão aqui
e tem sido uma grande ajuda e de enorme coragem nesta longa espera.

-Mas eu, tentei gritar outra vez, não sou casado eu não tenho filha!

-Vá sossegue essa amnésia vai passar. É normal. Se tiver dores chame a enfermeira.
Amanhã já vai começar a raciocinar melhor.
Acordou, isso é o principal o resto vai devagar.

Dê graças a Deus.

Vá, agora, tente descansar!


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte3




Acordei com humor de cão. A boca sabia-me a esfregão do chão, os tinnitus nos ouvidos pareciam querer estourar com a minha cabeça. A culpa era do whisky, não devia ter bebido tanto mas precisava de acalmar, os meus pensamentos estavam num turbilhão e precisava de coordenar as ideias. A bebida não foi a melhor solução mas sempre ajudou.

Desde que a minha ex fez as malas e desapareceu, tal como um D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, fiquei para aqui perdido neste casarão. O que me vale é a Dona Carminda que cuida de mim como se fosse dum filho. Trata-me da casa e da roupa e por vezes ainda me mimoseia com uns petiscos para me lembrar de uma vida que já tive.

Tomei um duche, quase frio, na tentativa de que a vida voltasse a este corpo, ajeitei-me o melhor possível e sai para o frio da manhã.

A Joana quando me viu fez sinal de que o meu pequeno-almoço estava a ser tratado.

O café surtiu algum efeito, o cérebro começou, lentamente, a trabalhar e a tentar arrumar as ideias que andavam totalmente tresmalhadas.

O meu velho Dodge esperava por mim e, para minha satisfação, respondeu à primeira tentativa da chave.

Precisava falar, de novo, com o padre, havia informações que só ele me podia dar.

Recebeu-me com o mesmo ar de beatitude, sorriso bondoso num rosto calmo.

-Então filho porque, de novo, na casa do Senhor?

Sorri, estudei as palavras e perguntei:

-Sabe Senhor Padre, preciso falar com os familiares do casal Cascudo e só o senhor me pode ajudar. Disse-me que sabia dos pais e de um irmão da Dona Marta e de uma irmã e do sobrinho do Senhor José Maria. Para poder arquivar este estranho caso preciso falar com todos eles. Posso contar com a sua ajuda?

Pensei que ia ficar irritado, mas não, sorriu e disse-me:

-Não sei se ajudo muito, os pais da Marta vivem numa aldeia próximo de Tomar, já lhe dou o nome exacto, não me lembro bem, espero ter na minha agenda. Quanto á irmã é mais difícil, talvez a Dona Inocência, não sei se conhece, é a senhora do café.
Quando o José Maria estava entre nós ela era o elo de ligação com a irmã. A relação com a cunhada não era boa e era através da senhora do café que trocavam notícias.

Deu-me o nome da aldeia, apertou-me a mão e com muita delicadeza terminou a conversa.

Má sorte a minha, estava outra vez nas mãos daquela mal encarada mulher.
Seja o que Deus quiser!

À porta do café um tipo, com cara de fuinha, tentava acender um cigarro com um isqueiro “bic”, sem conseguir com o vento forte que se sentia.

Arrisquei:

-Amigo porque não entra, será muito mais fácil.

Olhou-me com uns olhos desbotados e, baixando a voz, segredou-me:

-A bruxa não deixa entrar com cigarros.

Sorri e preparei-me para a encarar.

Quando me viu mudou o semblante e esboçou um sorriso:

-Bom dia e bons olhos o vejam. Vem beber uma bica curta?

Fiquei admirado com tão calorosa recepção.

-Venho sim, minha senhora, mas também queria uma informação. Preciso falar com a irmã do Senhor José Cascudo e sei que tem o telefone, preciso que mo diga.

Olhou-me com um ar tão admirado que parecia que o Arnold tinha voltado ao café.

-Bom, e se tiver acha que lho ia dar? Pensa que os números de telefone de amigos se dão assim a qualquer um?

-Vai dar porque se não der nem sabe os sarilhos que eu sou capaz de lhe arranjar!

Olhou-me com uma raiva incontida mas foi dizendo:

-Só lhe passo o número se me jurar que nunca vai dizer que fui eu que o fiz.

Fiz uma cruz sobre a boca e ela percebeu o gesto. Deu-me o número e insistiu:

-Por amor de Deus mantenha-me fora de tudo isto.

Jurei que sim e segui a caminho do meu escritório, precisava ver o correio e de fazer alguns telefonemas.

Este caso estava a ser mais complicado do que à primeira vista me parecia, tinha combinado receber 1.200 Euros no inicio, 1.200 a meio e 2.600 no fim e pelos vistos só o valor inicial estava certo e mal dava para as despesas. Mas que fazer? A vida de investigador tinha destas coisas.

No escritório continuava o odor a “Ralph Lauren” e era estranho que ao fim de tantos dias o cheiro ainda se mantivesse.

Seria a minha imaginação?

Vi o correio, facturas para pagar e publicidade sem interesse.

Tirei o bilhete com número de telefone que a gorda me deu e ia começara preparar uma mentira a ver se resultava:

-Boa tarde! È a Dona Helena Cascudo? Preciso falar, pessoalmente, com a senhora.
Quando me poderá receber? Sim, sou o perito da companhia de seguros e necessito fechar o processo dos seus malogrados parentes e a sua assinatura é indispensável. Amanhã às 11 horas? Óptimo, lá estarei. Confirma-me a morada? Obrigado!

Parece que resultou.

Sai cedo, tinha alguns quilómetros pela frente e continuo com a mania da pontualidade.

Era uma vivenda simpática, ladeada de um jardim com flores amarelas.
A Dona Helena era uma mulher muito interessante e recebeu-me com um sorriso afável:

-É o senhor dos seguros, não é verdade?

Sorri antes de confirmar:

-Sou, para formalizarmos isto fale-me um pouco sobre o seu irmão.

-O Zé Maria foi uma jóia até casar com aquela megera que o absorvia e que não o deixava sequer privar com a família. Antes de casar aparecia por ai, ajudava-nos e presenteava muito o sobrinho, depois de casar só às escondidas é que telefonava, era a Dona Inocência, do café, quem nos servia de intermediária.
Agora o meu mano está morto, coitado, foi uma tragédia.

Fez beicinho e fingiu enxugar uma lágrima.

-Mas, perguntei eu, porque seria que a Dona Marta o afastava de família?

Fez um esgar com os lábios antes de responder.

-Dizia que a família eram sanguessugas que viviam agarradas a ele, eu e o meu Mário nunca o pressionamos para nada, sempre que ele nos ajudava é porque gostava da família e porque podia, a vida corria-lhe bem e gostava de ajudar, de repente tudo acabou, aquela cobra fazia dele o que queria.
Agora, graças à herança nós estamos bem e para eles, infelizes, tudo acabou tudo.

Agora chorou mesmo, vi a lágrima fazer um risco no rímel. Limpou o nariz antes de continuar:

-Casei muito nova e fiquei viúva quando o meu filho tinha três anos, foi o Zé Maria que tomou conta de nós, foi um verdadeiro pai para o Mário. Foi ele quem o criou até aos 16 anos.

Voltei a casar mas a sorte não quis nada comigo e voltei a ficar viúva. O meu segundo marido, bom homem, nunca foi bem aceite pelo enteado e eu sofri muito com isso. Nessa altura, para o Mário, o tio foi um grande apoio até que aconteceu a desgraça.

-Desgraça? Interroguei eu.

Fungou, mais uma vez.

-Sim uma grande desgraça! O meu marido gostava muito de pescar e um dia, ninguém sabe explicar o que aconteceu, o motor do barco explodiu e ele desapareceu no rio.
Só ao fim de três dias encontraram o corpo a uns 30 quilómetros daqui.
Jurei que nunca mais me voltaria a casar e olhe que não é por falta de pretendentes, que os tenho tido, mas acho que os casamentos só atraíram a desgraça. Jurei para nunca mais!

-E o seu filho?

-O Mário está na oficina, ele tem uma firma de coisas da electrónica, sempre foi um apaixonado por essas modernices. Faz comandos à distância e essas coisas assim, é um rapaz muito esperto. Foi com a herança que recebeu do tio que conseguiu.
Se quiser falar com ele é perto está a oito quilómetros, na vila aqui do lado.

-Não é preciso, depois mando o relatório para assinar, menti eu, pois não haveria nenhum relatório.

A viagem de volta foi rápida. Quando cheguei ao escritório o cheiro a perfume era muito mais acentuado.

Em cima da minha secretária estava um envelope com 1.200 Euros e um cartão onde, laconicamente, numa letra desenhada se podia ler - 2º pagamento.

Como era possível, a porta não estava arrombada e a única chave existente era esta que tenho em meu poder. Liguei para a portaria e o porteiro confirmou que ninguém, com o aspecto que lhe indiquei, tinha entrado no prédio.

Não me vou deixar levar por essas coisas do sobrenatural, mas o meu pensamento não deixa de se interrogar:

-Será que a tipa morreu mesmo?



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte 2





Levantei-me bastante cedo. Noite povoada de sonhos estranhos, de mulheres lindas que de repente se esfumavam num riso sarcástico e provocante.

Depois de um banho ligeiro sai na procura de um suculento pequeno-almoço que me desse animo para enfrentar o dia.

O ar da rua estava gélido e as pessoas esfregavam as mãos tentando que a circulação desse uma ajuda nos enregelados dedos.

Entrei no café habitual e a Joana com um sorriso fresco serviu-me o costume.

O meu carro, contrariando os últimos dias, reagiu à primeira e o som do motor deu-me a satisfação de me embrenhar na confusa citadina.

Ia voltar ao café da senhora gorda, tinha que vasculhar melhor toda esta história que me estava a confundir e a deixar totalmente baralhado. Nunca, nada igual, me tinha a acontecido. Não me entrava na cabeça que uma morta me incumbisse de um serviço inexistente, me deixasse 1 200 Euros bem vivos e se esfumasse como se na realidade não existisse.

Estacionei o carro no espaço onde antes, segundo me disseram, existiu uma vivenda onde morava um casal composto por uma volátil deusa e o afortunado marido.

Quando entrei no café a Dona Inocência, assim se chama a gorda, olhou-me como se de repente o Arnold Schwarzenegger tivesse entrado no estabelecimento para beber uma bica curta, fez um sorriso cascavélico e perguntou:

-Então amigo gostou do meu café e voltou?

Mostrei-lhe os dentes e com a voz mais doce que encontrei retorqui:

-Gostei muito, mas também gostava de fazer umas perguntas.

Olhou-me com ar admirado.

-Mau, mau, mas que posso eu saber que lhe seja útil?

-Sabe aquela história do casal Cascudo? Preciso de saber algo mais e acho que a senhora me pode ajudar.

-Mas que posso ajudar mais?

Contei-lhe toda a história, a visita daquele monumento de mulher que me veio contratar, do pagamento que me fez.

Olhou-me de forma estranha, persignou-se e limitou-se a dizer:

-No seu caso ia falar com o padre.

Fiz esforço para não me irritar.

-Mas eu não acredito em coisas sobrenaturais!

Desta vez ela ficou feliz, e foi com uma gargalhada que disse:

-Mas o casal Cascudo era muito crente, ia todas as semanas à missa e o nosso padre era amigo e visita da casa, por isso acho que falar com o padre pode ajudar.

Raio da gorda que desta vez me passou uma rasteira. Engoli em seco, agradeci e sai.

Já tinha passado á Igreja mais do que uma vez pelo que foi fácil localiza-la.

Havia poucos fiéis quando atravessei o templo a caminho da sacristia, pois penso ser o local mais provável para encontrar o padre.

Era um homem com um ar muito doce, sereno e de modos muito delicados. Olhou-me com grande curiosidade e perguntou:

-Meu filho em que lhe posso ser útil?

Estudei as palavras, não queria criar desconfianças, e com o melhor sorriso respondi:

-Obrigado por me atender. Tenho uma grande necessidade em tirar a limpo uma situação que me tem dado cabo da cabeça e para a qual não consigo encontrar explicação. Contei tudo o que tinha acontecido desde a visita daquela senhora a contratar os meus serviços.

Olhou-me de forma interrogadora e fiquei sem saber se estava a duvidar ou se pensava que eu tinha perdido o juízo. Pigarreou, limpou os lábios com um lenço de papel, olhou-me por cima dos óculos e quase com esforço disse-me:

-Sabe, meu amigo, que não sei bem o que pensar. Eu fui muito amigo desse desditoso casal, bons cristãos, pessoas de bem, beneméritos que muita falta ficaram a fazer a esta paróquia mas, essa descrição que me fez não corresponde à Dona Marta. Era uma mulher muito interessante, bonita mas dessas coisas de “monumento”, como disse, percebo pouco. Era, de facto, uma mulher linda e de grande vivacidade, muito recatada e de grande sensibilidade.

Fiquei inquieto, algo estava a ficar descontextualizado, o caso começava a ficar no reino de inverosímil. Insisti:

-Mas Senhor Padre o que me pode adiantar mais? Os óbitos foram confirmados? Quem era a família? Quem mandou demolir a vivenda onde o casal habitada? Conte-me tudo que me possa ajudar a resolver este imbróglio em que me meteram.

Coçou, ligeiramente, a orelha direita e voltou a catarrear. Olhou-me com simpatia e, pareceu-me, que com algum desconforto contou-me:

-Como lhe disse, eu, era amigo pessoal do casal e fiquei muito consternado quando me chegou a notícia de tão grande desgraça. Como deve calcular não me preocupei muito com confirmação do óbito, as autoridades devem ter feito o suficiente para confirmar.

Sei que o Senhor José Maria tinha uma irmã e um sobrinho embora, segundo me parece, não havia um grande relacionamento. A Dona Marta tinha os pais e um irmão, que vivem na terra natal e que se dedicam à agricultura. É tudo quanto sei. Despediu-se.

Voltou atrás para dizer que a vivenda, segundo sabia, era alugada por isso era natural que os proprietários a tivessem demolido. Saiu de vez e encaminhou-se para o altar onde o esperavam para dar início a uma cerimónia.

Quando me dirigia ao local onde tinha o carro vi disparar um Audi branco tendo ao volante a mulher que me tinha criado todo este sarilho. Arrancou muito rápido mas tive tempo para ver a matrícula.

Tentar seguir era pura utopia, pois o meu velho chaço não tinha qualquer hipótese.

Voltei ao café da gorda que me recebeu com um sorriso capaz de fazer murchar uma flor.

-Então Senhor Detective vem mais santo?

Olhei-a de tal forma que o sorriso voltou para o mesmo sítio donde tinha vindo.

-Não viu parado ali em frente um carro branco? Um que arrancou fazendo uma chiadeira dos diabos?

Olhou-me irritada e, quase, gritou:

-Eu estou cá para encher uns copos aos bêbados que por aqui vão vegetando e para tirar umas bicas curtas aos detectives que me caem de pára-quedas, não tenho tempo para olhar para os carros da rua. Boa tarde!

Saí, o sítio cheirava mal, entrei no carro e segui para a cidade.

-Merda de dia!

Perdi o dia embrenhado em cogitações e deambulando na esperança de voltar a ver o carro. Em vão.

Fui jantar ao Bar do Elias e segui para casa.

***

Manhã cedo fui direito ao Registo automóvel, tinha lá um amigo que me devia alguns favores e, que agora, eu ia cobrar.

Quando me viu exclamou com satisfação:

-Olha o meu amigo Gilberto por estes lados. Gaivota em terra temporal no mar. De que é que precisas?

Sorri, ele estava bem-disposto.

-Olha amigo preciso saber tudo o que me possas dizer sobre este carro. Dei-lhe um cartão com a matrícula.

Olhou com atenção e, franzindo a testa, introduziu alguns dados num computador e esperou, enquanto ia coçando o ouvido com o dedo mindinho. Andou com o cursor para trás e para a frente, observou, franziu a testa antes de me dizer:

-Estás com azar pá! Este carro já não existe, foi abatido em Outubro do ano passado, teve um acidente, ardeu totalmente ele e os ocupantes, por isso já não existe.

-Fogo, exclamei! Começo a ficar farto desta trampa. Como pode não existir se ainda ontem o vi?

Soltou uma gargalhada, antes de dizer:

-Foi depois de um bom almoço e já não vias bem as coisas!

-Nada disso. De quem era o carro?

-Dum tal José Maria Cascudo.

Agradeci e sai para o frio do dia.

Que sorte a minha!

-Será que a tipa morreu mesmo?




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa




Tinha uns olhos tão tristes como uma chuvosa noite de Inverno e hoje essa tristeza estava mais vincada, hoje a solidão fazia parte dessa angústia sua companheira de todos os dias.

O aniversário é sempre uma data que aviva a memória e em que a reminiscências do passado alimentam a nostalgia que nos acompanha nas noites tristes de Inverno.

Hoje, se ainda alguém se lembrasse, fazia 79 anos mas a família já o tinha esquecido, talvez até não se recordassem bem que ainda existia.

Tudo começou quando se negou a vendar a casa e a ir para um lar, foi nesse dia que os filhos o votaram ao esquecimento como se fosse mais um trapo velho sem utilidade.

Mas isso é coisa que já perdoou.

Nasceu em 1931, ano de todas as lutas, numa pobre aldeia perdida na imensidão da pobreza da planície alentejana.

Neste dia mais um ano se cumpria na sua vida, mais uma etapa no acumular da solidão que todos os dias ia consumindo e, mais uma vez, a esperança que a campainha da porta lhe trouxesse a prenda com que mais sonhava, os netos e os filhos que há muito o haviam esquecido.

O relógio de cuco ia martelando as horas em ritmados cantares e o diáfano manto da noite ia escurecendo, mais e mais, o negrume da alma do pobre
Hipólito.

Todo o dia alimentou a esperança que fosse hoje que os filhos esquecessem a ganância do dinheiro, pela venda do andar, a troco do depósito do velho num lar onde se espera calmamente pela hora.

O dia passou, enxugou com a manga da camisa a lágrima que sem pedir licença escorreu entre as rugas do cansado rosto.

Pensou em comer a sopa, tomar os medicamentos que o prendiam à vida e ir para a cama mas não queria que o seu aniversário, quem sabe o último, fosse assim.

Vestiu o casaco e saiu para o escuro da noite. Voltou uma hora depois, pousou as compras e foi pôr a mesa.

Um bolo de aniversário, o primeiro de há muitos anos, uma garrafa de espumante, pensou em champanhe mas era muito caro.

Encarou os ausentes e fez um discurso, não lhe saiu muito bem, mas disse o que lhe ia na alma.

Abriu a garrafa com um estrondo de circunstância e encheu as taças que tinha disposto na mesa. Partiu o bolo e distribuiu pelos pratos.

Foi o aniversariante e foi os convidados.

Estava feliz, tão feliz que cantou em voz cansada:

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Comeu do bolo e foi vazando, com satisfação, os diversos copos de espumante.

Sentou-se no sofá e adormeceu sem precisar dos medicamentos da Doutora Odete. Dormiu bem e tranquilo.

Sonhou com a mãe que o embalava embrulhado num velho xaile. Andou pelos campos com o pai juntando as ovelhas. Dançou com a mulher que a doença lhe levou. Brincou com os filhos no largo do jardim. Foi buscar os netos à escola. Sorriu numa satisfação que há muito não experimentava.

Acordou com o sol a entrar pela janela.

Olhou a desarrumação, os copos vazios, os pratos sujos de bolo e os restos de uma festa de aniversário.

Soltou uma rouca gargalhada e pensou:

-Oh Hipólito estás mesmo a ficar caquéctico, então os filhos fizeram-te uma festa e não te lembras de nada!!!!!

Sorriu para o dia que lá fora o saudava.








terça-feira, 23 de novembro de 2010

756




É uma aldeia perdida na encosta da serra.

Nas pastagens cobertas de neve as ovelhas procuram as ervas escondidas nas pedras que enxameiam as alcantiladas encostas.

A pacatez da aldeia foi quebrada, de repente, com o grito de Romana Chilrito, a filha Cláudia tinha desaparecido.

Cláudia é uma linda menina de seis anos, ladina e cheia de imaginação, passa os dias brincando com as bonecas de trapo que a avó Germana faz para ela.

Hoje a menina desapareceu, não está em nenhum dos locais de brincadeira.

-Vais ver que anda para aí!

Dizem as vizinhas, enquanto vasculham as redondezas, espreitam o poço e vão olhando os currais das ovelhas e o chiqueiro onde os porcos pachorrentamente chafurdam na lama.

Nada da Cláudia, a menina sumiu de tal forma que parece que a terra a engoliu.

Os bombeiros e a Guarda já vasculharam tudo o que é sítio, todos os poços e buracos foram vistoriados e a todos foi procurado se tinham visto, ou, escutado a criança.

Nada, desapareceu como se houvesse eclipsado, como se nunca tivesse existido.

A GNR começou a investigar a hipótese de rapto, a menina era linda, mas não havia indícios de estranhos na aldeia. Nos últimos tempos, ninguém tinha violado a pacatez do lugar.

Foi numa quinta-feira, iam passados três dias do desaparecimento, quando o pastor José Inácio descobre entre as pedras duma lura um corpo de uma criança, rosto agrumulado pelo rigor do tempo que na serra é muito severo.

Então o choro tomou conta da povoação, as mulheres carpiram a dor em prantos que entoaram para além do local, os homens cabisbaixos andavam enrolados em capotes que os protegiam do gélido e os mantinham isolados da dor e da dúvida.

Foi a Judiciária que lançou a suspeita, o professor Almerindo há pouco na terra, foi chamado para um interrogatório que deixou a população em alerta. O professor tinha sido colocado este ano na escola e o seu relacionamento muito meloso, com as crianças, não agradava a todos, mas era só isso porque no resto parecia ser um bom mestre.

Nada se apurou e, embora a angustia fosse notória, a vida retomou o seu curso na dureza da terra, na solidão do pastoreio ou nas vicissitudes de uma existência feita de nada.

A morte da Cláudia estava presente, sentia-se no ar, nos rostos tisnados pelo frio, nos olhares enviesados, na desconfiança e na profunda tristeza que passou a fazer parte o quotidiano desta gente.

As primeiras flores anunciavam a Primavera e a neve ia deixando a faldas mais escapadas da serra, as urzes iam perfumando o ar puro.

Hoje a aldeia estava num reboliço tremendo e as suspeitas entraram novamente na vida de todos, o Professor Almerindo foi encontrado a caminho de casa com a pequena Susana pela mão e embora a sua garantia de que apenas ir recolher um livro esquecido o povo, desde logo, fez ali o seu veredicto:

-CULPADO

Na reunião de emergência com as autoridades, o Presidente da junta e direcção escolar foi de, forma unânime, decidido que no dia seguinte o professor deixaria a Escola e a Aldeia.

Para o povo não era suficiente, a evidência era demasiado para ficar, assim, impune a morte da pequena Cláudia e todo o desconforto que tinha transformado a pacatez daquela gente.

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Quando o encontraram parecia um porco acabado de matar, numa nudez que chocava, peito empapado de uma massa viscosa que ia secando em redor da faca que lhe atravessava o peito, no sítio, onde ficava o coração.

Uma hora depois apresentaram-se, no posto da guarda, os 378 anos habitantes, adultos, da aldeia e todos eles se vinham declarar como culpados pela execução do professor.

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Vão passados dois anos, o esquecimento vai libertando as mentes daquela gente que retomaram a plácida rotina de outros tempos.

A justiça arquivou o processo por falta de provas, havia uma única facada e apresentaram-se 756 mãos a reivindicar esse privilégio.

Impossível.