Podes ser simplesmente uma pessoa para o mundo, mas para alguém o mundo és tu (Gabriel Garcia Marques)
Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.
Nos olhos fundos e encovados têm um brilho de lembranças encerradas num cérebro gasto pelos anos decorridos.
Na cadeira do lar olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri com um sorriso desdentada.
Olha em volta e fita um imenso horizonte de lembranças que o tempo vai apagando.
As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.
Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado longínquo que guarda e que vive.
Esquece o momento, confunde as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado de recordações que baralha ao sabor das suas fantasias.
Sente-se como quando a mãe lha arranjava as tranças e quando o pai, pelo mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.
Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.
Recorda o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.
Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.
Tem no pensamento as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.
Foi uma princesa, quiçá uma rainha.
Teve brilho nos olhos e na pele rosada a maciez do pêssego.
Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.
Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente. Dia a dia.
Na boca, desdentada, o sorriso velho e apagado vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada.
Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.
Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou.
Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar:
-Diogo abre o cu que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo.
Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou.
Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam.
Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a conviver com o nome que lhe tinham dado.
A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo.
Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de o ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou.
Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz.
Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar.
Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo.
Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida
Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico.
Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio.
O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções.
E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo.
Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida.
Andava do ar, tudo lhe parecia diferente.
Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam os seus pensamentos.
Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam.
Parecia, até, que já gostava do seu nome.
A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador.
Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam.
Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança.
-Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho?
-Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela não está indiferente. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido.
-Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer?
-Tia, é a vizinha do sexto esquerdo.
-Quem? Não pode ser!
-Queres dizer do quinto andar?
-Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei.
-Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?
A vingança não se serve. Apenas serve. (Mia Couto)
Não esperava o murro e o seu corpo tombou pesadamente com o rosto a bater com estrondo nas pedras da calçada.
O sabor a sangue invadiu-lhe a boca, uns zumbidos irritantes povoaram-lhe o cérebro.
Quis fazer um movimento para se levantar mas estava descoordenado e apenas o instinto o levou a desviar a cabeça dum pontapé.
Sentiu no ombro o impacto da bota.
Ficou numa prostração total, apenas ouvia os sons intervalados de mulheres gritando, de correrias, de homens agitando a bandeira da harmonia.
Não soube quanto tempo esteve naquela doce prostração. As ideias desconcertadas passaram como filme em câmara rápida. Viu as lutas na escola, o medo, as tareias com que os mais velhos o mimoseavam diariamente.
Lembrou-se da promessa que havia feito a si mesmo. A jura de nunca mais se deixar bater. De morrer, se necessário, mas de nunca mais ser o bombo de ninguém.
Agora estava vencido, dorido, com a sangue a empapar uma boca magoada. Tinha os pensamentos embotados. Estava confuso.
Levantou-se a custo, numa bebedeira de sons que lhe povoavam o cérebro. Olhou com a vista enevoada o agressor seguro pelos braços fortes do Aguinaldo e do Ramires.
Agarrou-se á parede para ajudar o equilíbrio que lentamente ia recuperando. Devagar foi-se aproximando até ter a sua cara encostada á face de quem tão cobardemente o agredira.
Rapidamente puxou da faca com que amanhava o peixe e por sete vezes a fez entrar no corpo do inimigo, sentiu a sangue jorrar e o gemido do porco na agonia. Os braços fortes não aguentaram o peso da morte e deixaram o corpo tombar e bater com força no basalto da calçada.
Olhou a posição grotesca do cadáver, mirou todos os que o rodeavam e disparou num choro convulsivo.
Até que a rapariga não cantava mal. Era uma daquelas baladas brasileiras a que a voz doce da cantora emprestava uma sensação de cócegas.
As pessoas mais preocupadas com o conteúdo dos pratos, pouca ou nenhuma atenção lhe votavam. Ela persistia na cantiga, onde o amor ainda havia de voltar.
Um pouco tímido cruzou os olhos com os da artista e mais timidamente ainda os deixou cair.
A voz dela parecia mais doce e a letra da canção era como se fosse só para ele.
Falava de tristezas passadas e de muitas promessas de um amor que iria acontecer.
Havia lamentos e todas as venturas de um dia que estava tão próximo. Falava de beijos quentes, de promessas que pareciam reais.
Ficou enlevado e procurou-lhe os olhos que num largo sorriso o deixou confuso.
Desviou o olhar e o rubor tomou conta do seu rosto, como de um rapazinho envergonhado.
No seu cérebro mil projectos se começaram a desenhar. A que horas sairia? Iria só, ou alguém e a iria esperar? E o sorriso? Meu Deus, aquele sorriso!
Ficou desajeitado como sempre, sem saber tomar uma decisão.
Pediu mais uma bebida, era a terceira e decerto não lhe iria cair muito bem. Não estava habituado mas a ocasião a isso o obrigava.
Em pequenos goles ia ficando inebriado com a letra que decerto lhe era dedicada.
Os acordes entravam nos ouvidos e as palavras daquele amor esquecido aqueciam uma existência tão vazia.
....Será hoje meu Deus, será hoje Que o amor vai surgir, assim, de repente Trazendo tudo o que quero e Aquecendo de forma tão boa a alma da gente.....
Estava enlevado na letra, inebriado na música.
....Quando sua boca me chama Eu corro apressada Rebolo consigo na cama Não preciso mais nada......
O pensamento levantou voo, os olhos fecharam-se num doce torpor.
Andou nas nuvens de mãos dadas, vogou ao sabor do vento, rodopiou agarrado aquela delicada cintura.
Beijou uns cabelos negros que lhe roçavam o rosto e que o deixavam louco.
Estava próximo daqueles lábios carnudos que em promessas se abriam para ele.
Já sentia o sabor de um beijo quente que se aproximava.
O corpo tremia de prazer.
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O susto foi enorme.
Acordou sobressaltado com alguém que lhe berrava aos ouvidos e não era a cantora:
-Então amigo, acorde que vamos fechar, o espectáculo acabou há muito!
Dona Emília estava orgulhosa do seu almoço, pois as visitas estavam deliciadas.
-Nunca tinha comido um arroz de pato como este, exclamou Vicente.
-É bondade sua menino.
-Não é Dona Emília, está mesmo divinal.
-Bem os patos eram bons, o chouriço é do nosso e o forno de lenha ajuda.
-Não seja modesta, pois sem a arte das suas mãos não seria possível esta iguaria.
-Fico sem jeito com tanto elogio, mas já o seu mano, o menino Jaime, também delirava com o nosso arrozinho de pato.
O Jacinto raspava, sem cerimónias, os restos do prato enquanto o seu pensamento estava longe, bem longe.
Desde que Mafalda tinha feito as malas e saíra de casa, sem qualquer aviso, a sua vida tinha mudado totalmente. Andava apático e, aceitara este almoço porque a insistência do Vicente foi muita e também aproveitava para matar saudades da herdade onde cresceu e onde se fez homem. Foi aqui que conheceu Mafalda, naquele Verão em que o irmão convidou os amigos de Lisboa para um fim-de-semana no monte. Desde o primeiro momento sentiu que o destino lhe tinha posto aquela mulher no seu caminho.
A atracção foi mútua e quando deram por isso estavam em lua-de-mel.
Foram dois anos intensos de paixão quando de repente, Mafalda, apanhou o avião e partiu para Paris.
*****
Nunca fora homem de desaforos, mas saber que a mulher tinha, sem explicações, acabado com dois anos de felicidade para fugir com um homem 20 anos mais velho era difícil de aceitar.
Não sabia o que mais lhe doía se era ter sido abandonada ou ser trocado por um gajo qualquer. Que poderia ter esse fulano a mais, que Jacinto não tivesse?
*******
Mafalda sempre esteve no lado bom da vida. Filha tardia de um abastado diplomata, cresceu cumulada de todas as atenções, menina mimada a quem a vida tudo deu. Foi uma boa aluna, estudou nos melhores colégios da Europa.
Quando acabou a licenciatura em Línguas, pensou em viver em Londres mas cedo mudou de ideias, pois o clima e a frieza britânica não se coadunavam com a sua personalidade.
Voltou a Portugal e conheceu o Jacinto. Foi, realmente, amor à primeira vista, tinha encontrado o homem com que sempre sonhara. Calmo, apaixonado, aventureiro. Foi tudo tão inesperado que quando deram por isso estavam casados. Viveram numa loucura total, numa constante procura do desconhecido, passeios pelos cantos mais misteriosos do mundo, o encanto das descobertas, o fascínio do exotismo oriental. Fizeram amor em cabanas no alto de grandes montanhas, em praias paradisíacas, foram felizes nos locais mais recônditos do mundo.
Prometeram que só a morte acabaria com essa loucura.
Viveram, em dois anos, uma existência, uma vida. Foram felizes sem perguntas, sem regressos ao passado.
***
Tinham acabado de chegar do Quénia e numa recepção na Embaixada conheu o doutor Viriato, homem maduro e com um encanto no falar que a deixou totalmente fascinada. Tinha uma experiência de vida que a perturbou, falava de tudo com um conhecimento sábio, com um encanto perturbador.
Quando ele lhe disse:
-Amanhã vou jantar ao La Coupole em Paris. Quer vir comigo?
Apenas lhe saiu:
-Claro que quero!
****
Jacinto deixou a mesa e com pressa dirigiu-se ao carro.
-Onde vais com tanta pressa? Perguntou Vicente.
Jacinto parou, olhou o infinito e com um sorriso respondeu
Não foi fácil tomar esta decisão, mas há muito que Emília o pensava fazer.
Veio para esta casa tinha seis anos, aqui casou, aqui nasceram os três filhos, daqui saiu, para o cemitério, o único homem que conheceu e a quem amou acima de todas as coisas.
Agora as coisas estavam diferentes, o Ernesto acabara de fazer 22 anos e ia casar, a Alzira estava a fazer os 18 e ia comprar uma casa, e não tardava a Célia com 16 também iria querer seguir o seu caminho.
Como se lembrava da primeira vez em que pela mão do pai foi á escola, metida naquela vestido branco com florinhas que a madrinha lhe tinha oferecido na Páscoa, e na fita que lhe prendia os fartos caracóis que lhe desciam pela nuca. O pai enfiado no seu melhor fato, apertado na frente e parecendo que os botões a todo o momento podiam rebentar.
O pai engordou mas a roupa continuava na mesma, embora a mãe tentasse fazer os impossíveis para remediar o que não tinha forma de ser remediado.
Foi um momento inesquecível quando me entregou á Dona Laura, a minha professora, com um sorriso de felicidade porque a sua menina, como dizia, ia começar um novo ciclo da vida.
Quando o pai morreu, tinha acabado de fazer 10 anos, foi como se o mundo desabasse de repente. Não sabia como a vida seria possível dali para a frente.
Foi difícil, mas a mãe com uma determinação que ninguém lhe conhecera, conseguiu desempenhar os dois papéis, trabalhou como nunca ninguém pensou, de dia na fábrica a fazer calças e á noite a lavar e a passar a ferro a roupa de quem a procurava.
Foram tempos difíceis, mas mesmo assim foi muito feliz.
Tinha 16 anos quando conheceu o Amadeu. A princípio não o tomou a sério, não estava disposta, mas as coisas acontecem sem que nós nos apercebamos.
Foi tudo tão de repente, e a forma como começou a amar aquele homem, a beber as suas palavras, a ter ciúmes das raparigas que falavam com ele, era verdadeiramente inacreditável. De menina insegura tornou-se uma mulher decidida e foi mesmo ela quem lhe propôs viverem juntos.
Os pais bem tentaram contrariar aquela asneira, assim diziam, mas estava determinada e nada a faria demover. Por fim aceitaram e depois de um casamento pobre, mas feliz, foram viver para casa dos criadores. ****** Agora, que já fizera 40 anos, olhava para o espelho para ver as pequenas rugas que se adivinhavam nos cantos dos olhos, mas ainda gostava da imagem que tinha na frente.
Tinha uma pele rosada, os grandes olhos cor de avelã brilhavam com a mesma juventude de sempre, os fartos caracóis louros já deixavam perceber alguns fios brancos que ficavam camuflados nos cachos de ouro que lhe emolduravam a testa.
Sentia que e menina se transformava depressa demais e não iria tardar para sentir que a velhice não estava muito longe.
Desde que o Amadeu morreu, daquela forma tão trágica, nunca tinha pensado que ainda estava a tempo de começar de novo, mas havia vezes em que começava a pensar que estaria a tempo de encontrar um novo rumo para a sua vida.
Ainda tinha presente quando lhe trouxeram o marido moribundo, trucidado pelo rodado do tractor. Nunca se chegou a saber como aconteceu, pois foi encontrado na vereda que levava á horta que os ajudava no sustento da casa. **** Tinha que pensar na sua vida, os filhos estavam criadas e não tardava iriam seguir o seu rumo. O Ernesto acabara o curso e ia trabalhar para o Porto como engenheiro numa fábrica de coisas eléctricas. A Alzira sempre foi uma menina difícil, descontente com tudo e todos, com uma cabeça cheia de sonhos. Namorava um rapaz, filho de boas famílias, e estavam dispostos a ir viver juntos. Ia ser uma relação difícil.
A Célia era a mais chegada á mãe. Ainda, hoje, não adormecia sem que não lhe desse um beijo de boas noites. Mas estava uma linda rapariga e os moços já começavam a rondar a porta.
A sua velha mãe cansada de trabalhar, deixou que o Alzheimer se apoderasse do que restava, e recolheu a um lar onde esperava, alheia a tudo, que a vida acabasse.
Agora estava decidida e ia ser difícil mudar de opinião. *** Ela bem notava a forma como o Heitor a olhava. Quando passava sentia os seus olhos percorrerem-lhe o corpo numa análise gulosa, sentia um formigueiro na nuca e havia como que um prazer que a invadia, de uma forma tão doce que ficava com vontade de voltar a passar.
Ainda o Amadeu, que Deus levou, era vivo e já ela notava que o Heitor a olhava e lhe falava de uma maneira diferente. Havia como que doçura na sua voz e os seus olhos brilhavam de uma forma que a deixava deslumbrada. Reparou, mas pensava que era a maneira de ser cortês, e, se calhar era mesmo assim. Inclinava sempre a cabeça com uma delicadeza a que não estava habituada.
Ainda se lembra daquela vez em que foi comprar uns elásticos para os calções do Ernesto e na altura de pagar reparou que não levava dinheiro. Ficou tão envergonha que nem teve coragem de o dizer. Saiu a correr para pegar na carteira que ficara esquecida na prateleira onde guardava as bilhas da água. Quando voltou ia corada, como se tivesse cometido um pecado. Quando ele lhe disse:
-Dona Emília que coisa tão grave fez com que fugisse de forma tão apressada?
Se estava corada, ainda mais ficou e apenas lhe saiu
-Senhor Ernesto, por amor de Deus, apenas deixei o porta-moedas em casa.
-Mas não valia a pena cansar essas lindas pernas, depois pagava.
Ficou tão envergonhada que saiu e deixou o elástico. Teve que pedir à Alzira para o ir buscar.
A partir desse dia sentiu que alguma coisa tinha mudado, e que Amadeu a perdoe, mas o Senhor Heitor passou a fazer parte do seu imaginário.
Hoje estava mais madura e, também, perdera muita da ingenuidade que sempre fizera parte da sua personalidade. Já não corava quando sentia que algum homem olhava aprovadoramente para o seu corpo, pelo contrário, lançava um olhar capaz de desconsertar o mais descarado.
Passou a tirar partido daquilo que Deus lhe tinha dado, e ficava vaidosa quando lhe diziam que as filhas mais pareciam suas irmãs.
Acabara de fazer um ano que o Amadeu foi enterrado e sentia que a vida sem um homem a seu lado era mais vazia. Não era só pela necessidade física, mas também pelo conforto de ter alguém para compartilhar as mágoas e alegrias. *** Heitor não era filho da terra, nasceu num monte alentejano. Filho de uns abastados agricultores que tinham, ninguém sabe como, amealhada uma considerável fortuna, que com a mesma facilidade com que a construíram também a conseguiram esbanjar.
Dona Alzira, a mãe, para esquecer as loucuras do marido vivia embrulhada em todos os trapos que os costureiros da moda punham no mercado. O pai, José Romão, passava os dias com as meninas que o adulavam, lhe satisfaziam os caprichos e lhe iam esvaziando a carteira com as ricas prendas que lhes comprava.
Á noite o casino fazia o resto. Quando deu por isso, tudo o que restava era um pedaço de terra e uma pequena casa, sobra de uma herança dos pais.
Dai em diante foi o desabar de uma família. José Romão foi encontrado certa manhã pendurado num chaparro, com um palmo de língua negra a sair da boca escancarada.
Dona Alzira nunca mais disse coisa com coisa e acabou por ficar no lar das freiras que acudiam a estes casos de misericórdia. Amadeu, na altura com 19 anos, apresentou-se como voluntário na tropa, *** O dia começou, de repente, a escurecer. Os pequenos cirros que há pouco cobriam o céu, começaram a tornar-se em nuvens escuras.
O vento abateu-se com fúria e a chuva desabou copiosamente, inundando tudo e todos.
O pequeno ribeiro saiu do seu leito e invadiu tudo como se fosse um oceano em fúria, arrastando árvores, invadindo as casas e deixando um rasto de morte e desolação.
Choveu copiosamente durante horas.
Houve quatro mortes a lamentar. *** Heitor lutou com todas as suas forças. A água invadia a loja e a fúria da corrente arrastou-o para a rua. Esbracejou, tentou agarrar as paredes, as árvores. Deixou as unhas vincadas no chão por onde o corpo se rebolava e se arrastava. Foi impotente, a fúria era maior. Tentou gritar, chamar Emília, apenas a imagem de Amadeu com o terror nos olhos, como quando o atirou para debaixo do tractor, lhe parecia acenar. A lama invadiu-lhe a boca, a faringe. Queria respirar mas já não conseguiu. Sentiu a vida a fugir no emaranhado de terra, da água, do frio. *** Emília fez as malas. Nada mais a prendia aquela terra.
A morte é velha e gorda Mas não tem rugas na cara… (Cristovam Pavia)
Era tão pequeno que ninguém lhe dava a idade que tinha.
Tão magro, que as costelas vincavam a camisa e lhe punham esse ar desajeitado que o tornava tão diferente.
Olhos fundos de um azul tão claro que mais pareciam de água.
A boca era apenas um pequeno traço que parecia suportar um nariz fino e delicado.
Andava pelos 17 anos, ninguém lhe dava mais de 14.
Tinha um sorriso tímido mas tão cativante.
Sonhava ser artista e cantar nos palcos de todo o Mundo.
Sabia de cor as músicas do Elton Jones, do Cat Stevens e do James Brown, que cantava sem sotaque e sem saber uma palavra de Inglês.
As letras entravam na sua cabeça e ai ficavam como se fizessem parte do seu corpo, palavras que não sabia o que queriam dizer, mas estavam de tal maneiras coladas à sua memória, que saíam como se fizessem parte da sua existência.
As músicas embalavam-lhe a vida e o ritmo batia ao mesmo compasso do coração.
Começava o dia pensando ser um Cat Stevens:
Oh, I’m bein followed by a moons hadow.............And are you gonna stay the misht? Moonshadw…………..
E terminava o dia como se fosse um James Brown:
Whoooau! I feel good; I knew what I would now! I feel good…………………………So good, so good, I got you
Pouco tempo depois de fazer dezassete anos a mãe chamou-o ao seu leito de enferma e pediu:
-Filho canta aquela cantiga de que a mãe tanto gosta. Quero ficar com ela nos ouvidos para sempre.
-Mas mãe, gostas de tantas!
-Amadeu, aquela especial que tu cantas muitas vezes para mim, aquela que tem o meu nome.
O som encheu o quarto, do quarto passou para a rua, da rua invadiu a cidade, da cidade alagou o mundo e parecia que todos acompanharam a melodia.
Well, it's always been my nature to take chances My right hand drawing back while my left hand advances Where the current is strong and the monkey dances To the tune of a concertina
Blood dryin' in my yellow hair as I go from shore to shore I know what it is that has drawn me to your door But whatever it could be, makes you think you've seen me before Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
His eyes were two slits that would make a snake proud with a face that any painter would paint as he walked through the crowd worshipping a god with the body of a woman well endowed and the head of a hyena
Do I need your permission to turn the other cheek? If you can read my mind, why must I speak? No, I have heard nothing about the man that you seek Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
In the valley of the giants where the stars and stripes explode The peaches they were sweet and the milk and honey flowed I was only following instructions when the judge sent me down the road With your subpoena
When you cease to exist, then who will you blame? I've tried my best to love you, but I cannot play this game Your best friend and my worst enemy is one and the same Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
There's a black Mercedes rollin' through the combat zone your servants are half dead; you're down to the bone Tell me, tall man, where would you like to be overthrown maybe down in Jerusalem or Argentina?
She was stolen from her mother when she was three days old Now her vengeance has been satisfied and her possessions have been sold He's surrounded by God's angels and she's wearin' a blindfold And so are you, Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
I see pieces of men marching; trying to take heaven by force I can see the unknown rider, I can see the pale white horse In God's truth tell me what you want, and you'll have it of course Just step into the arena
Beat a path of retreat up them spiral staircases Pass the tree of smoke, pass the angel with four faces Begging God for mercy and weepin' in unholy places Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
Foi um momento de êxtase.
Mágico.
A mãe continuava de olhos fechados e com um sorriso que nunca antes lhe tinham visto.
Acabara de partir, mas com tanta felicidade que o Sol brilhou mais, as aves chilrearam como nunca o tinham feito.
No Mundo, por momentos, não houve maldades, não nasceram crianças deficientes, as guerras pararam como por encanto, a fome foi mitigada na boca de todos os que a sofrem.
A dor desapareceu, não houve cheias, vulcões, maremotos, tufões.
Os maus esqueceram que o eram e sorriram.
Nenhum filho partiu antes dos pais.
Os ditadores proclamaram a democracia.
Os pedófilos amaram como se devem amar as crianças.
Não houve corrupção no futebol.
Nesse dia, dizem, que até o mentiroso, pela primeira vez, falou verdade.