De verdade eles amavam-se, mas era uma relação amorfa, sem motivações, sem aventura, sem aqueles momentos em que o primitivo e o preconceituoso deixa de fazer parte da realidade.
Seguiam as regras de uma cartilha ultrapassada e desactualizada. Faziam amor como se fosse uma rotina obediente a cânones antigos e estafados. Sem chama, sem rasgos.
Era apenas doçura e satisfação. Sem aventura, sem explosões.
Era um classicismo bacoco, estafado e monocórdico. Era, apenas, como o cumprir de uma regra, de uma tradição.
Ele parecia conformado com a sua falta de ambição. Sem o rasgo da diferença. Apenas com o dever cumprido.
Ela sonhava, sonhava com fantasias que não tinha coragem de falar e adormecia na ilusão de um cavaleiro que a transportava na garupa de um alazão e, em qualquer praia deserta a despia, com os dedos a percorrerem em suaves carícias um corpo prenhe de desejo.
Sentia a roupa a pouco e pouco ser despojada e o corpo estremecia em frémitos de desejos há muito contidos.
Experimentava uns lábios que a percorriam e uma língua terna e húmida que lhe moldava o pescoço em carícias ternas, lhe descobria o corpo, lhe beijava todos os contornos em fantasias voluptuosas de calor e ternura.
Gozava o fogo que a invadia em espirais de lascívia e de sensualidade.
Deliciava-se com seiva que a percorria e que brotava em míriadas de estrelas que irrompiam no seu cérebro, em explosões de loucura e em gritos de prazer.
Sentia-se a ser trespassada em fogo de glória e de loucura.
Acordava no êxtase de um calor húmido e reconfortante.
Mesmo acordado deixo a minha imaginação levar-me aonde, já, nada mais me pode conduzir.
Regresso ao passado, ando por caminhos que já trilhei.
Volto a um Alentejo onde os meus avós, me deixavam ser um príncipe livre e encantado.
Sinto-me a correr por campos, entre estevas, pisando as flores amarelas que atapetam os torrões secos.
Brinco fazendo bonecos com as papoilas. Corro atrás dos pulos dos gafanhotos. Tento surpreender, antes dos saltos, as rãs que papejam pousadas numa pedra da poça.
Persigo as borboletas que rodopiam entre as amareladas flores da carqueja.
Oiço os gritos de quem me leva.
-Põe o chapéu na cabeça.
Um chapéu de palha com uma fita branca.
Serve para tapar do Sol e para guardar qualquer bicho, mais afoito, que consigo surpreender.
Não era este que eu queria, eu pedi um chapéu de cowboy.
Está ali um cágado! Pachorrento entra na água e desaparece entre as pedras do fundo do charco.
As abelhas zumbem á volta de um tronco de uma velha azinheira.
Ao longe uma vaca, pachorrenta, masca as secas ervas que restam no solo.
O Sol torra e as aves ficam bem recolhidas numa sombra que as proteja deste braseiro de um Agosto solarengo.
Sinto que o Mundo é todo meu, tenho a liberdade que em todos os outros dias me falta.
Á noite, junto á luz de um bruxuleante candeeiro a petróleo leio, embevecido, umas páginas do “Olhai os Lírios no Campo” de Eurico Veríssimo e deixo-me conduzir pelo emaranhado da história de Eugénio e Olívia, até que o sono me vença.
Amanhã, quando acordar, vou fazer com uma cortiça que encontrei, o mais lindo carro puxado por dois machos.
Depois, vou andar á volta da nora a acompanhar o burro que, de olhos vendados, percorre um caminho imaginário.
Gosto mesmo de sonhar.
Gosto de voltar aos tempos em que a felicidade foi minha companheira.
Podes ser simplesmente uma pessoa para o mundo, mas para alguém o mundo és tu (Gabriel Garcia Marques)
Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.
Nos olhos fundos e encovados têm um brilho de lembranças encerradas num cérebro gasto pelos anos decorridos.
Na cadeira do lar olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri com um sorriso desdentada.
Olha em volta e fita um imenso horizonte de lembranças que o tempo vai apagando.
As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.
Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado longínquo que guarda e que vive.
Esquece o momento, confunde as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado de recordações que baralha ao sabor das suas fantasias.
Sente-se como quando a mãe lha arranjava as tranças e quando o pai, pelo mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.
Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.
Recorda o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.
Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.
Tem no pensamento as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.
Foi uma princesa, quiçá uma rainha.
Teve brilho nos olhos e na pele rosada a maciez do pêssego.
Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.
Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente. Dia a dia.
Na boca, desdentada, o sorriso velho e apagado vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada.
Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.
Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou.
Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar:
-Diogo abre o cu que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo.
Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou.
Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam.
Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a conviver com o nome que lhe tinham dado.
A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo.
Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de o ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou.
Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz.
Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar.
Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo.
Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida
Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico.
Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio.
O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções.
E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo.
Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida.
Andava do ar, tudo lhe parecia diferente.
Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam os seus pensamentos.
Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam.
Parecia, até, que já gostava do seu nome.
A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador.
Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam.
Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança.
-Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho?
-Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela não está indiferente. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido.
-Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer?
-Tia, é a vizinha do sexto esquerdo.
-Quem? Não pode ser!
-Queres dizer do quinto andar?
-Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei.
-Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?
A vingança não se serve. Apenas serve. (Mia Couto)
Não esperava o murro e o seu corpo tombou pesadamente com o rosto a bater com estrondo nas pedras da calçada.
O sabor a sangue invadiu-lhe a boca, uns zumbidos irritantes povoaram-lhe o cérebro.
Quis fazer um movimento para se levantar mas estava descoordenado e apenas o instinto o levou a desviar a cabeça dum pontapé.
Sentiu no ombro o impacto da bota.
Ficou numa prostração total, apenas ouvia os sons intervalados de mulheres gritando, de correrias, de homens agitando a bandeira da harmonia.
Não soube quanto tempo esteve naquela doce prostração. As ideias desconcertadas passaram como filme em câmara rápida. Viu as lutas na escola, o medo, as tareias com que os mais velhos o mimoseavam diariamente.
Lembrou-se da promessa que havia feito a si mesmo. A jura de nunca mais se deixar bater. De morrer, se necessário, mas de nunca mais ser o bombo de ninguém.
Agora estava vencido, dorido, com a sangue a empapar uma boca magoada. Tinha os pensamentos embotados. Estava confuso.
Levantou-se a custo, numa bebedeira de sons que lhe povoavam o cérebro. Olhou com a vista enevoada o agressor seguro pelos braços fortes do Aguinaldo e do Ramires.
Agarrou-se á parede para ajudar o equilíbrio que lentamente ia recuperando. Devagar foi-se aproximando até ter a sua cara encostada á face de quem tão cobardemente o agredira.
Rapidamente puxou da faca com que amanhava o peixe e por sete vezes a fez entrar no corpo do inimigo, sentiu a sangue jorrar e o gemido do porco na agonia. Os braços fortes não aguentaram o peso da morte e deixaram o corpo tombar e bater com força no basalto da calçada.
Olhou a posição grotesca do cadáver, mirou todos os que o rodeavam e disparou num choro convulsivo.
Até que a rapariga não cantava mal. Era uma daquelas baladas brasileiras a que a voz doce da cantora emprestava uma sensação de cócegas.
As pessoas mais preocupadas com o conteúdo dos pratos, pouca ou nenhuma atenção lhe votavam. Ela persistia na cantiga, onde o amor ainda havia de voltar.
Um pouco tímido cruzou os olhos com os da artista e mais timidamente ainda os deixou cair.
A voz dela parecia mais doce e a letra da canção era como se fosse só para ele.
Falava de tristezas passadas e de muitas promessas de um amor que iria acontecer.
Havia lamentos e todas as venturas de um dia que estava tão próximo. Falava de beijos quentes, de promessas que pareciam reais.
Ficou enlevado e procurou-lhe os olhos que num largo sorriso o deixou confuso.
Desviou o olhar e o rubor tomou conta do seu rosto, como de um rapazinho envergonhado.
No seu cérebro mil projectos se começaram a desenhar. A que horas sairia? Iria só, ou alguém e a iria esperar? E o sorriso? Meu Deus, aquele sorriso!
Ficou desajeitado como sempre, sem saber tomar uma decisão.
Pediu mais uma bebida, era a terceira e decerto não lhe iria cair muito bem. Não estava habituado mas a ocasião a isso o obrigava.
Em pequenos goles ia ficando inebriado com a letra que decerto lhe era dedicada.
Os acordes entravam nos ouvidos e as palavras daquele amor esquecido aqueciam uma existência tão vazia.
....Será hoje meu Deus, será hoje Que o amor vai surgir, assim, de repente Trazendo tudo o que quero e Aquecendo de forma tão boa a alma da gente.....
Estava enlevado na letra, inebriado na música.
....Quando sua boca me chama Eu corro apressada Rebolo consigo na cama Não preciso mais nada......
O pensamento levantou voo, os olhos fecharam-se num doce torpor.
Andou nas nuvens de mãos dadas, vogou ao sabor do vento, rodopiou agarrado aquela delicada cintura.
Beijou uns cabelos negros que lhe roçavam o rosto e que o deixavam louco.
Estava próximo daqueles lábios carnudos que em promessas se abriam para ele.
Já sentia o sabor de um beijo quente que se aproximava.
O corpo tremia de prazer.
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O susto foi enorme.
Acordou sobressaltado com alguém que lhe berrava aos ouvidos e não era a cantora:
-Então amigo, acorde que vamos fechar, o espectáculo acabou há muito!
Dona Emília estava orgulhosa do seu almoço, pois as visitas estavam deliciadas.
-Nunca tinha comido um arroz de pato como este, exclamou Vicente.
-É bondade sua menino.
-Não é Dona Emília, está mesmo divinal.
-Bem os patos eram bons, o chouriço é do nosso e o forno de lenha ajuda.
-Não seja modesta, pois sem a arte das suas mãos não seria possível esta iguaria.
-Fico sem jeito com tanto elogio, mas já o seu mano, o menino Jaime, também delirava com o nosso arrozinho de pato.
O Jacinto raspava, sem cerimónias, os restos do prato enquanto o seu pensamento estava longe, bem longe.
Desde que Mafalda tinha feito as malas e saíra de casa, sem qualquer aviso, a sua vida tinha mudado totalmente. Andava apático e, aceitara este almoço porque a insistência do Vicente foi muita e também aproveitava para matar saudades da herdade onde cresceu e onde se fez homem. Foi aqui que conheceu Mafalda, naquele Verão em que o irmão convidou os amigos de Lisboa para um fim-de-semana no monte. Desde o primeiro momento sentiu que o destino lhe tinha posto aquela mulher no seu caminho.
A atracção foi mútua e quando deram por isso estavam em lua-de-mel.
Foram dois anos intensos de paixão quando de repente, Mafalda, apanhou o avião e partiu para Paris.
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Nunca fora homem de desaforos, mas saber que a mulher tinha, sem explicações, acabado com dois anos de felicidade para fugir com um homem 20 anos mais velho era difícil de aceitar.
Não sabia o que mais lhe doía se era ter sido abandonada ou ser trocado por um gajo qualquer. Que poderia ter esse fulano a mais, que Jacinto não tivesse?
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Mafalda sempre esteve no lado bom da vida. Filha tardia de um abastado diplomata, cresceu cumulada de todas as atenções, menina mimada a quem a vida tudo deu. Foi uma boa aluna, estudou nos melhores colégios da Europa.
Quando acabou a licenciatura em Línguas, pensou em viver em Londres mas cedo mudou de ideias, pois o clima e a frieza britânica não se coadunavam com a sua personalidade.
Voltou a Portugal e conheceu o Jacinto. Foi, realmente, amor à primeira vista, tinha encontrado o homem com que sempre sonhara. Calmo, apaixonado, aventureiro. Foi tudo tão inesperado que quando deram por isso estavam casados. Viveram numa loucura total, numa constante procura do desconhecido, passeios pelos cantos mais misteriosos do mundo, o encanto das descobertas, o fascínio do exotismo oriental. Fizeram amor em cabanas no alto de grandes montanhas, em praias paradisíacas, foram felizes nos locais mais recônditos do mundo.
Prometeram que só a morte acabaria com essa loucura.
Viveram, em dois anos, uma existência, uma vida. Foram felizes sem perguntas, sem regressos ao passado.
***
Tinham acabado de chegar do Quénia e numa recepção na Embaixada conheu o doutor Viriato, homem maduro e com um encanto no falar que a deixou totalmente fascinada. Tinha uma experiência de vida que a perturbou, falava de tudo com um conhecimento sábio, com um encanto perturbador.
Quando ele lhe disse:
-Amanhã vou jantar ao La Coupole em Paris. Quer vir comigo?
Apenas lhe saiu:
-Claro que quero!
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Jacinto deixou a mesa e com pressa dirigiu-se ao carro.
-Onde vais com tanta pressa? Perguntou Vicente.
Jacinto parou, olhou o infinito e com um sorriso respondeu