
Tinha acabado de fazer 32 anos mas já sentia no corpo o peso de uma existência, dorido pela pancada e pelas frustrações de uma vida desperdiçada.
Sem horizontes, sem motivações. Tinham-lhe destruído a pouco e pouco a razão de viver.
Já fora feliz, já tinha olhado de frente para a vida e construído sonhos.
Teve momentos de alegria que de repente, sem motivos, lhe foram negados.
Maria Celeste apaixonou-se, há quatro anos, pelo Gilberto.
Foi um namoro cheio de ternura, de amor e de promessas.
Foi o sonho da vida que sempre desejou ao lado do homem que lhe dava todo o amor que precisava.
Teve um casamento de princesa e sentia-se a mais feliz entre as felizes.
Gilberto era carinhoso, doce e de uma ternura que a deixava num sonho de que não queria acordar.
Este encanto durou dois anos, lindos, preenchidos, de encantamento.
De repente tudo mudou, Gilberto, começou a chegar tarde, bebido e com uma agressividade que nunca lhe conhecera.
O homem que a adulava, desapareceu como por encanto.
Começou o martírio, os maus-tratos, as tareias que a deixavam negra.
Não sabia o que mais a magoava, se as pancadas que lhe moíam o corpo ou as palavras que lhe deliceravam a alma.
Quantas vezes teve que fugir e refugiar-se na casa da sua vizinha Gertrudes, que a acarinhava e a protegia, até o marido adormecer e poder voltar para casa.
Hoje estava decidida, ia por termo a esta negação de existência, ao sofrimento que a consumia dia a dia.
Possivelmente iria passar o resto da sua vida numa prisão onde se iria sentir mais livre do que agora se sentia.
Mas tudo seria melhor do que esta angústia e sofrimento.
Chegou como sempre, cambaleante, vociferando os impropérios do costume.
-Então cabra não esperavas que e viesse para meteres cá os teus amantes?
Depois descarregou toda a fúria no martirizado corpo da Maria Celeste, que cambaleou.
Não aguentou mais, tirou a faca com que partia o pão e com as duas mãos enterrou-o no peito do homem que tanto amava.
Sentiu a lâmina a dilacerar a carne e a pressão dos ossos ao serem desviados pela fúria incontida de uma vida destroçada.
Ficou esperando o sangue que não brotou, antes de cair no chão.
Enroscou-se como um bicho-de-conta no seu medo e pavor. Com os olhos dilatados ainda viu o esforço moribundo do marido, agarrando com as duas mãos o cabo de uma faca que lhe levava a vida.
Depois desmaiou.
Gilberto tentou mas não conseguia. Deu um passo em frente e ajoelhou, abriu os olhos como que procurando a causa do que estava a acontecer.
Depois baqueou e caiu sobre a lâmina que quebrou deixando, finalmente, o cabo livre entre as mãos que o seguravam, já sem força.
Maria Celeste acordou com as palavras da vizinha.
-Beba este cházinho que a vai acalmar. Já passou tudo. Não se preocupe, eu e o meu marido vimos o que aconteceu e já contamos aos senhores guardas. Eles já sabem como foi.
Ele bateu-lhe, como é costume, e queria espeta-la com a faca, mas estava bêbado, caiu e acabou por se espetar a ele próprio. Pobre coitado, teve o que merecia.
Quando lhe íamos acudir vimos tudo, somos suas testemunhas. Não se preocupe. Já acabou.
Tem uma nova vida para viver.
Beba o cházinho, vá....beba.





