quarta-feira, 23 de março de 2011

Que dia!




Avançava para mim de uma forma lasciva. Os bicos dos peitos, rosados, apontados como dois dardos às carícias das minhas mãos, os lábios carnudos quais duas cerejas maduras, pareciam, prontos a serem devorados pelos meus, sequiosos e sedentos das promessas que se adivinhavam.

Era o encantamento total, o êxtase, a loucura, o vibrar de toda a magia que o momento iria proporcionar.

De repente um estridente, Trrriiimmmmmmmmmmmmm..., matou o encanto.

O despertador acabou com o sonho, a magia desapareceu e a gaja foi com ele.

O dia começava mal, um bom sonho quebrado por este traste velho que todas as manhãs, de forma mecânica, me tira do descanso para a luta diária.

Como sou muito metódico deixo, á noite, tudo preparado para que o despertar não seja tão doloroso.

Está tudo a jeito. O café é só ligar a máquina e o pão é só colocar na torradeira..

Tudo se vai preparando enquanto faço a barba. Tarefa diária. Suplício masculino.

Porra! Já me cortei, lá tenho que estancar o sangue com algodão e água oxigenada.

Cheira a queimado. Meu Deus as torradas.

Não tenho tempo, é raspar e aproveitar o possível.

Raios, sujei a camisa de café. Tudo me acontece, tenho que vestir outra.

Começo a ficar atrasado. Toca correr escadas baixo. A porcaria do elevador está sempre fora de serviço. Um dia tenho que reclamar.

Só me faltava mais esta. Mal ponho os pés no passeio piso merda de cão. Malditos donos, que raio! Porcos!

É raspar na borda do passeio e esfregar na relva. Que cheiro horrível para começar o dia.

Oh...pá, só me faltava mais esta. Esqueci as chaves do carro, não podia deixar de ser, e as da casa estão juntas. Que azar o meu!

Resta-me correr para a camioneta. E eu que nem sei os horários. Seja o que Deus quiser.

Tenho sorte não está ninguém na paragem.

Meia hora depois lá vem ela, dengosa, velha, pintada de laranja.

Só duas pessoas na camioneta? Que se passa? Não acredito, oiço dizer tanto mal e afinal não é bem assim.

Vai um negro, auscultadores no ouvido, balouçando a cabeça ao ritmo da música. Uma senhora de mais idade, deixa duas agulhas bailarem nas mãos, entrelaçando, de forma ritmada, as linhas numa renda que vai surgindo.

A viagem é fastidiosa e sinto todos os solavancos, de uns amortecedores velhos e cansados a marcarem a minha coluna.

Finalmente a chegada e a corrida para a estação do metro.

Deve estar apinhada como de costume. Já me imagino apertado entre as mamas gordas de uma matrona e o cheiro do sovaco de um cabo-verdiano.

Estou a pensar no meu chefe, o Senhor Lopes, com um ar de beato em dia de quaresma, a resmungar por este atraso.

Eu não tenho culpa, EU sou o Qualimero desta desgraça.

Que é isto? Estação vazia e uma carruagem, quase, só para mim. Esta malta anda sempre a dizer mal de tudo e, afinal os transportes não são assim tão maus. É mesmo só vontade de falar.

Vou chegar a horas e ainda vou ter tempo para um cafezito antes de enfrentar a fera.

-Bom dia, uma bica faz favor.

-Para já. Hoje por aqui?

-Como todos os dias, qual a admiração?

-É que aos feriados não é costume!

Acabou de me cair o Mundo na cabeça. Vejam lá a sorte de um homem.

Sou ou não sou mesmo um Calimero?


sexta-feira, 18 de março de 2011

Beba o cházinho, vá...beba...




Tinha acabado de fazer 32 anos mas já sentia no corpo o peso de uma existência, dorido pela pancada e pelas frustrações de uma vida desperdiçada.
Sem horizontes, sem motivações. Tinham-lhe destruído a pouco e pouco a razão de viver.
Já fora feliz, já tinha olhado de frente para a vida e construído sonhos.
Teve momentos de alegria que de repente, sem motivos, lhe foram negados.
Maria Celeste apaixonou-se, há quatro anos, pelo Gilberto.
Foi um namoro cheio de ternura, de amor e de promessas.
Foi o sonho da vida que sempre desejou ao lado do homem que lhe dava todo o amor que precisava.
Teve um casamento de princesa e sentia-se a mais feliz entre as felizes.
Gilberto era carinhoso, doce e de uma ternura que a deixava num sonho de que não queria acordar.
Este encanto durou dois anos, lindos, preenchidos, de encantamento.

De repente tudo mudou, Gilberto, começou a chegar tarde, bebido e com uma agressividade que nunca lhe conhecera.
O homem que a adulava, desapareceu como por encanto.
Começou o martírio, os maus-tratos, as tareias que a deixavam negra.
Não sabia o que mais a magoava, se as pancadas que lhe moíam o corpo ou as palavras que lhe deliceravam a alma.
Quantas vezes teve que fugir e refugiar-se na casa da sua vizinha Gertrudes, que a acarinhava e a protegia, até o marido adormecer e poder voltar para casa.


Hoje estava decidida, ia por termo a esta negação de existência, ao sofrimento que a consumia dia a dia.
Possivelmente iria passar o resto da sua vida numa prisão onde se iria sentir mais livre do que agora se sentia.
Mas tudo seria melhor do que esta angústia e sofrimento.

Chegou como sempre, cambaleante, vociferando os impropérios do costume.
-Então cabra não esperavas que e viesse para meteres cá os teus amantes?
Depois descarregou toda a fúria no martirizado corpo da Maria Celeste, que cambaleou.

Não aguentou mais, tirou a faca com que partia o pão e com as duas mãos enterrou-o no peito do homem que tanto amava.
Sentiu a lâmina a dilacerar a carne e a pressão dos ossos ao serem desviados pela fúria incontida de uma vida destroçada.
Ficou esperando o sangue que não brotou, antes de cair no chão.
Enroscou-se como um bicho-de-conta no seu medo e pavor. Com os olhos dilatados ainda viu o esforço moribundo do marido, agarrando com as duas mãos o cabo de uma faca que lhe levava a vida.
Depois desmaiou.

Gilberto tentou mas não conseguia. Deu um passo em frente e ajoelhou, abriu os olhos como que procurando a causa do que estava a acontecer.
Depois baqueou e caiu sobre a lâmina que quebrou deixando, finalmente, o cabo livre entre as mãos que o seguravam, já sem força.

Maria Celeste acordou com as palavras da vizinha.
-Beba este cházinho que a vai acalmar. Já passou tudo. Não se preocupe, eu e o meu marido vimos o que aconteceu e já contamos aos senhores guardas. Eles já sabem como foi.
Ele bateu-lhe, como é costume, e queria espeta-la com a faca, mas estava bêbado, caiu e acabou por se espetar a ele próprio. Pobre coitado, teve o que merecia.
Quando lhe íamos acudir vimos tudo, somos suas testemunhas. Não se preocupe. Já acabou.
Tem uma nova vida para viver.

Beba o cházinho, vá....beba.


domingo, 13 de março de 2011

Ciúme...



Olhos fundos, lagos de ódio.

Um azul de emoções, setas apontadas, ciúme que mata.

Calafrios, mil corpos, noites escuras, mesclas de ironias, sorrisos matizados,

Ódios e vinganças, suspeitas que cegam, amores acabados.

Lábios entreabertos, pérolas de sangue escarlate, voz rouca de choro contido.

Nervos sofridos, ameaças veladas, vinganças de posse e desejo.

Corpo ondulante, curvas simétricas, espirais de desejos, rancores incontidos.

Arma que ladra, som do trovão, bala que mata.

Corpo que tomba, que se contorce, quer respirar mas não.

Sangue que jorra, vida que foge, esgar de dor, sorriso que morre, vida que abala.

Suspeita acabada, amor que ficou, paixão que se mata num corpo caído.

Algemas que fecham, um choro abafado.

Amor que finou, amor terminado.




terça-feira, 8 de março de 2011

As fantasias de um sonho.....




De verdade eles amavam-se, mas era uma relação amorfa, sem motivações, sem aventura, sem aqueles momentos em que o primitivo e o preconceituoso deixa de fazer parte da realidade.

Seguiam as regras de uma cartilha ultrapassada e desactualizada. Faziam amor como se fosse uma rotina obediente a cânones antigos e estafados. Sem chama, sem rasgos.

Era apenas doçura e satisfação. Sem aventura, sem explosões.

Era um classicismo bacoco, estafado e monocórdico. Era, apenas, como o cumprir de uma regra, de uma tradição.

Ele parecia conformado com a sua falta de ambição. Sem o rasgo da diferença. Apenas com o dever cumprido.

Ela sonhava, sonhava com fantasias que não tinha coragem de falar e adormecia na ilusão de um cavaleiro que a transportava na garupa de um alazão e, em qualquer praia deserta a despia, com os dedos a percorrerem em suaves carícias um corpo prenhe de desejo.

Sentia a roupa a pouco e pouco ser despojada e o corpo estremecia em frémitos de desejos há muito contidos.

Experimentava uns lábios que a percorriam e uma língua terna e húmida que lhe moldava o pescoço em carícias ternas, lhe descobria o corpo, lhe beijava todos os contornos em fantasias voluptuosas de calor e ternura.

Gozava o fogo que a invadia em espirais de lascívia e de sensualidade.

Deliciava-se com seiva que a percorria e que brotava em míriadas de estrelas que irrompiam no seu cérebro, em explosões de loucura e em gritos de prazer.

Sentia-se a ser trespassada em fogo de glória e de loucura.

Acordava no êxtase de um calor húmido e reconfortante.

Ao lado, o marido, ressonava suavemente.



domingo, 6 de março de 2011

Eu gosto de sonhar.



Mesmo acordado deixo a minha imaginação levar-me aonde, já, nada mais me pode conduzir.

Regresso ao passado, ando por caminhos que já trilhei.

Volto a um Alentejo onde os meus avós, me deixavam ser um príncipe livre e encantado.

Sinto-me a correr por campos, entre estevas, pisando as flores amarelas que atapetam os torrões secos.

Brinco fazendo bonecos com as papoilas. Corro atrás dos pulos dos gafanhotos. Tento surpreender, antes dos saltos, as rãs que papejam pousadas numa pedra da poça.

Persigo as borboletas que rodopiam entre as amareladas flores da carqueja.

Oiço os gritos de quem me leva.

-Põe o chapéu na cabeça.

Um chapéu de palha com uma fita branca.

Serve para tapar do Sol e para guardar qualquer bicho, mais afoito, que consigo surpreender.

Não era este que eu queria, eu pedi um chapéu de cowboy.

Está ali um cágado! Pachorrento entra na água e desaparece entre as pedras do fundo do charco.

As abelhas zumbem á volta de um tronco de uma velha azinheira.

Ao longe uma vaca, pachorrenta, masca as secas ervas que restam no solo.

O Sol torra e as aves ficam bem recolhidas numa sombra que as proteja deste braseiro de um Agosto solarengo.

Sinto que o Mundo é todo meu, tenho a liberdade que em todos os outros dias me falta.

Á noite, junto á luz de um bruxuleante candeeiro a petróleo leio, embevecido, umas páginas do “Olhai os Lírios no Campo” de Eurico Veríssimo e deixo-me conduzir pelo emaranhado da história de Eugénio e Olívia, até que o sono me vença.

Amanhã, quando acordar, vou fazer com uma cortiça que encontrei, o mais lindo carro puxado por dois machos.

Depois, vou andar á volta da nora a acompanhar o burro que, de olhos vendados, percorre um caminho imaginário.

Gosto mesmo de sonhar.

Gosto de voltar aos tempos em que a felicidade foi minha companheira.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crepúsculo




Podes ser simplesmente uma pessoa para o mundo, mas para alguém o mundo és tu
(Gabriel Garcia Marques)





Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Nos olhos fundos e encovados têm um brilho de lembranças encerradas num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri com um sorriso desdentada.

Olha em volta e fita um imenso horizonte de lembranças que o tempo vai apagando.

As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado longínquo que guarda e que vive.

Esquece o momento, confunde as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado de recordações que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como quando a mãe lha arranjava as tranças e quando o pai, pelo mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Recorda o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem no pensamento as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele rosada a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente. Dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho e apagado vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada.

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.




segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Diogo




Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou.

Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar:

-Diogo abre o cu que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo.

Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou.

Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam.

Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a conviver com o nome que lhe tinham dado.

A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo.

Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de o ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou.

Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz.

Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar.

Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo.

Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida

Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico.

Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio.

O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções.

E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo.

Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida.

Andava do ar, tudo lhe parecia diferente.

Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam os seus pensamentos.

Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam.

Parecia, até, que já gostava do seu nome.

A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador.

Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam.

Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança.

-Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho?

-Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela não está indiferente. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido.

-Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer?

-Tia, é a vizinha do sexto esquerdo.

-Quem? Não pode ser!

-Queres dizer do quinto andar?

-Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei.

-Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?

De repente o mundo desabou.


-Tia que merda de nome que me puseram!