terça-feira, 12 de abril de 2011

A última viagem





Tinha acabado de fazer 23 anos e parecia já ter vivido uma eternidade. Não tinha rugas no rosto mas tinha dentro do corpo as marcas de uma existência difícil.

Ficara órfão, de mãe, aos 7 anos e o pai, homem simples, perdeu todo o interesse pela vida e procurou no álcool o refúgio para a perca da mulher que, sempre, tinha sido a verdadeira razão da sua existência.
Ficou sem a mulher, sem o emprego, sem dignidade e estava próximo de perder o amor do filho.

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O dia estava lindo e o ribeiro corria em turbilhões pois a chuva dos últimos dias tinha aumentado consideravelmente o caudal.

Gustavo ia atirando pedras que em saltos iam deslizando sobre as águas. Havia três dias que não ia à escola, não se sentia bem junto dos outros rapazes com os calções tão delidos que a cada momento tinha receio de ficar com o rabo à mostra e ser o motivo da chacota dos colegas.

O Fernando era o único, verdadeiramente, seu amigo e que com ele, muitas vezes, dividia o lanche. Outras vezes era a dona Alzira que o chamava e lhe aconchegava o estômago com uma malga de sopa e uma bela fatia de pão untada com manteiga.

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Quando tentava olhar para o passado, apenas via um rapazinho que lutava contra a adversidade, que se alimentava da generosidade das vizinhas, com um pai de grande coração que vivia anestesiado nos copos de vinho que os amigos lhe iam pagando nas tascas da aldeia.

Quando fez 14 anos o senhor Arlindo deu-lhe um lugar na mercearia a troco de umas poucas moedas e por lhe encher a barriga em duas refeições diárias.

Aos 18 anos arranjou emprego, na vila, na cooperativa.

Era difícil ao fim de um dia de trabalho a pisar uvas, a girar o engenho para esmagar as azeitonas ou a carregar as sacas dos cereais, voltar a uma casa vazia, onde apenas o "mandrião", velho rafeiro amarelo, escanzelado e brincalhão o vinha receber com grandes festejos num alegre abanar de cauda.

Por toda a casa as recordações andavam de mãos dadas com as saudades de uma mãe de quem já, quase, esquecera o rosto e a imagem de um pai arrastando um desgosto afogado no álcool.

Era difícil olhar as paredes tão vazias e ao mesmo tempo tão cheias de lembranças.

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Neste domingo soalheiro, como habitualmente, procurou as margens do ribeiro onde as suas pedras faziam as melhores e mais longas derrapagens deixando círculos que suavemente iam morrendo nas margens. As libélulas, quais maquinas aladas, pousavam suavemente nos caules que emergiam das aguas. As aves em voos rasantes deixavam um risco de asa antes de mergulharem na superfície ondulada na procura de alimento. Em lado nenhum se sentia tão calmo, parecia que o murmúrio da aragem lhe sussurrava os conselhos com que a mãe o acompanhava. Por vezes era tão nítida que parecia que a voz não era trazida pelo vento, mas que a mãe estava tão presente que até doía.

Ao princípio tinha medo mas agora até ficava mais tranquilo. Fechava os olhos e imaginava-se aconchegado nos braços macios e banhado no perfume que nunca esqueceu e que entrava no seu corpo tomava conta dos seus nervos, embebia os seus músculos, enchia o seu sangue e percorria-o todo numa doce sensação de paz e de tranquilidade. Chegou a adormecer embebido nessa doce sensação de tranquilidade e quando acordava sentia, mas sentia mesmo, no ar aquele aroma que o corpo da mãe exalava e que lhe dava aquela paz que o tornava, por momentos, o mais feliz menino de mundo.

Ainda hoje, e já vão decorridos tantos anos, quando pousa a cabeça na sua almofada sente a mão da mãe aconchegando a dobra do lençol.

Fecha os olhos e tenta imaginar aquele rosto mas a imagem está um pouco difusa, não consegue descodificar os pontos que na sua mente tenta compor o todo que aos poucos se tem desvanecido. Quando contempla a amarelecida foto que religiosamente guarda entra as páginas da Bíblia parece que o sorriso se abre mais, mas está cada vez era mais esbatida. A mãe está sempre com ele, o seu cheiro, toda a sua essência mas o rosto estava a fugir, cada vez mais desbotado, como se quisesse envelhecer e não ficar na idade do filho que ia crescendo.

Naquela manhã a ribeira corre tranquila, no ar sente-se o cheiro das flores de loendro que florescem nas margens.

Gustavo estendeu-se numa pedra e ficou a contemplar o horizonte e a imaginar o que seria a vida para além daqueles montes, que ao longe, pareciam encostar ao céu e fazerem a fronteiro entre a sua existência e o outro mundo que um dia ia descobrir.

Sempre desejou fazer a trouxa e apanhar a carreira que o levasse para esse desconhecido da cidade, mas não podia deixar o pai.

Se ele partisse quem o iria recolher, ao fim do dia, à tasca do Onofre?

Voltou quando a fome o começou a apertar mais e as amoras não eram, já, suficientes para a enganar.
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Não demorou muito que uma cirrose levasse o pai, que até a hora da morte continuou, sempre a reclamar pela sua Lena, que tão cedo tinha partido.

Gustavo, ficou sozinho neste mundo onde o colocaram sem lhe pedir opinião e com poucas condições para poder lutar pela sobrevivência.

Agora não tinha mais ninguém no terra a não ser aquela desconhecida e longínqua tia que diziam ter na cidade.

A casa podia ficar fechada e de certo que a vizinha não se importaria de ficar com o velho rafeiro que desde a morte do pai deixara de abanar o cauda e ia definhando lentamente, deitado na soleira da porta.

Era uma decisão difícil, tinha medo do mundo que desconhecia, receava toda a confusão que via quando espreitava as notícias na televisão na taberna.

Agora já nada havia a fazer, já dissera ao seu chefe, senhor Pica, que deixaria de trabalhar na cooperativa e que ia abalar para a cidade.

A cabeça andava num turbilhão, as ideias estavam baralhadas, o medo tinha-se apoderado de todos os seus sentidos. Como ia enfrentar o desconhecido, como se iria orientar na cidade grande? O bulício, o frenesim, o trânsito louco e toda a voracidade que o iriam tragar numa loucura a que tinha que se habituar.

Tinha tudo programado, amanhã cedo apanhava a carreira que o levaria ao comboio, depois seria a grande aventura.

Foi uma noite de insónias, só via homens sem rosto que o perseguiam e quanto mais fugia mais se aproximavam, queriam à força que ele entrasse num comboio sem janelas, pintado de negro e donde saiam sons e gemidos que o arrepiavam. Acordou encharcado, corpo dorido.

Teve medo, há muito que o não sentia.

Voltou a adormecer e viu a mãe que, tal como os homens, tinha o rosto coberto por uma névoa, mas o perfume era o mesmo, doce, suave e reconfortante. Ficou inebriado e tranquilamente dormiu em paz o resto da noite.

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A cidade era enorme e a confusão ultrapassava tudo o que tinha imaginado, pessoas para a direita e para a esquerda num atropelo sem respeitarem nada nem ninguém.

Gustavo estava deslumbrado e confuso.

Quando agarrado à mala, enfrentou a rua ficou perdido sem saber o que fazer. Estava inquieto, baralhado e o seu olhar andava perdido ao tentar abarcar tudo o que o que o rodeava, aqueles prédios altos, os carros que se cruzavam e que só por milagre passavam sem nunca se baterem.

As moças de pernas longas e descobertas que se equilibravam em saltos tão altos que pareciam, mesmo, as andam que um dia o senhor Zé Adelino lhe tinha feito.

Uma, por sinal bem jeitosa, até lhe disse:

-Então filho hoje não queres nada?

Ficou ruborizado, tinha ouvido falar delas mas sempre pensou que eram fanfarronices de quem vinha à cidade, afinal era mesmo verdade.

Teve vontade de falar com a menina mas não sabia, mesmo, o que lhe dizer.

Arranjou um quarto numa pensão barata num terceiro andar com uma escada íngreme e mal cheirosa. A cama era pior da que deixara na aldeia, lençóis manchados e com cheiro a azedo de gordura e sexo. As paredes do quarto tinham manchas de humidade que aos seus olhos se tornavam em fantasmas que o iriam prosseguir ao longo da noite e logo aqui, tão longe, na cidade grande onde a mãe não o podia ajudar.

Precisava descansar, amanhã fazia 25 anos e tinha reservado, como presente, um dia de descanso para uma visita à cidade.

O cansaço foi seu aliado e a noite foi rápida. Quando acordou pensou que tinha que aproveitar o dia, e depois tinha que procurar uma ocupação pois o dinheiro que tinha depressa ia acabar. O quarto imundo era caro, o preço de uma refeição estava acima das suas possibilidades.

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Vagueou pelas ruas cheias, encheu os olhos de coisas que sabiam que existiam mas que ele nunca vira. Passeou por avenidas que pareciam não ter fim, andou ao acaso e de repente tinha a impressão de estar de volta a sítios por onde já tinha passado.

Encontrou o rio, que tal como a cidade, era enorme e sujo, com barcos que deitavam fumo das chaminés. Teve saudades da sua ribeira de águas limpas que corriam ligeiras saltando de fraga em fraga, com as margens enfeitadas de juncos.

Este rio era triste, as ondas espraiavam-se contra as margens onde os barcos baloiçavam acompanhando a cadência desse balanço.
Esteve horas olhando ao longe e a imaginar para onde iriam todos os barcos que o sulcavam.

Estava a entardecer e a fome obrigou-o a entrar numa tasca onde se ofereceu uma refeição acompanhada duma cerveja. Afinal era o seu aniversário.

Começou a pensar no regresso e nas voltas que teria que dar até encontrar a rua da sua pensão, tinha escrito num papel os nome, embora tivesse a certeza do a encontrar.

Seguindo o seu sentido atravessou o largo e seguiu a avenida, tinha a certeza, donde viera.

Ao fim teria que voltar à esquerda e seguir até encontrar aquela praça com a estátua de um cavaleiro.

Já a estava a ver ao longe e sorriu satisfeito.

Levava a cabeça cheia de sonhos e projectos, arranjar um emprego, alugar um quarto com uma cozinha para poder preparar as suas refeições, ter uma vida diferente.

Embrenhado nos seus pensamentos saiu do passeio.

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Ouviu um guinchar de travões, sentiu uma pancada bruta e viu-se a voar, Passou por cima carro e ficou estatelado na calçada. Sentiu uma dor aguda que parecia subir pelo seu corpo, mil estrelas brilhavam no seu cérebro, um liquido viscoso corria da sua cabeça um doce torpor ia tomando conta do seu corpo. Tinha muito sono e não queria ouvir o que diziam as pessoas que o rodeavam, só lhe apetecia dormir.

Junto a ele a mãe sorria, desta vez o seu rosto era tão nítido, estava rodeada de uma luz tão brilhante e a música era tão suave.

A aldeia estava linda com os campos cobertos de flores, o ribeiro corria manso, a sua casa estava rodeada de açucenas, o " mandrião" abanava a cauda de alegria.

A mãe, delicadamente, segurou as suas mãos.

Pela última vez sorriu.

Depois partiu feliz.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sonhar





Para si, Lalua´s, uma mensagem de esperança.






Nada nem ninguém nos pode coarctar os nossos desejos.

Todos temos direito a sonhar, todos podemos ter anseios de fantasias para realizar.

Sonhar é uma das poucas liberdades do homem, sem ter necessidade de permissões, licenças ou qualquer outra burocracia que os outros humanos inventaram, para cercear os desejos e os ensejos de todos nós.

Quem nos pode impedir de ambicionar, mesmo em sonhos, de alcançar aquilo, que sabemos, que nunca teremos na vida?

Sonhar é a liberdade de ter o que nunca tivemos, ou de voltar a ter aquilo que já perdemos.

É o querer estar com quem já não podemos.

É o desejar andar onde nunca poderemos caminhar.

É o pensar que somos o que queríamos esquecendo que somos o que nos fizeram.

É o desejar esquecer como se fosse possível passar uma borracha e começar de novo.

É a ambição de voltar ao passado e realizar o irrealizável.

Sonhar é ter dentro de nós a ilusão de alcançar aquilo a que nunca chegaremos.

Sonhar é a riqueza dos pobres e a fortuna dos que nada têm.

Para mim sonhar é, quase uma utopia, uma quimera,uma ilusão.

Tenho esperanças de um dia voltar a sonhar!


domingo, 3 de abril de 2011

Tristeza.



Hoje apeteceu-me chorar.

Queria que as minhas lágrimas rompessem, quase, num pranto convulsivo e deixassem sulcos indeléveis.

Que rasgassem todas as barreiras e corressem livres a caminho de um mar de tranquilidade.

Que arrastassem consigo todas as misérias para que nenhuma criança sentisse mais fome.

Para que os velhos pudessem passar os resto dos seus dias com um sorriso de felicidade.

Para que os hospitais fechassem por falta de doentes.

Para que o nascer fosse como o romper do dia, calmo, tranquilo e sem dor.

Para que as guerras deixassem de ser guerras e os beligerantes dançassem num alegre rodopio, ao som da música da harmonia.

Para que os tiranos passassem de opressores a oprimidos para poderem sentir bem o estigma e o opróbrio da dor e da revolta.

Mas os meus olhos secaram, as minhas lágrimas já não são mais lágrimas.



segunda-feira, 28 de março de 2011

Lágrimas






Quis limpar as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto;

Tentei ser solidário na sua na dor e compartilhar seu desgosto;

Desejava abafar no meu peito os seus soluços tão cansados;

Dizer-lhe as palavras certas e poder sentir contra mim o seu choro abafado;

Queria que sentisse que eu estava ao seu lado e dizer-lhe que estaria sempre aqui;

As palavras não me saíram, ficaram bem fundo coladas à impotência de não saber o que dizer;

Nada fiz, não consegui, fiquei mudo, fiquei calado sofrendo triste ao seu lado;

Então chorei com ela sentindo as suas lágrimas molhando-me o rosto;

Foi a única maneira, tornei NOSSO o seu desgosto.



quarta-feira, 23 de março de 2011

Que dia!




Avançava para mim de uma forma lasciva. Os bicos dos peitos, rosados, apontados como dois dardos às carícias das minhas mãos, os lábios carnudos quais duas cerejas maduras, pareciam, prontos a serem devorados pelos meus, sequiosos e sedentos das promessas que se adivinhavam.

Era o encantamento total, o êxtase, a loucura, o vibrar de toda a magia que o momento iria proporcionar.

De repente um estridente, Trrriiimmmmmmmmmmmmm..., matou o encanto.

O despertador acabou com o sonho, a magia desapareceu e a gaja foi com ele.

O dia começava mal, um bom sonho quebrado por este traste velho que todas as manhãs, de forma mecânica, me tira do descanso para a luta diária.

Como sou muito metódico deixo, á noite, tudo preparado para que o despertar não seja tão doloroso.

Está tudo a jeito. O café é só ligar a máquina e o pão é só colocar na torradeira..

Tudo se vai preparando enquanto faço a barba. Tarefa diária. Suplício masculino.

Porra! Já me cortei, lá tenho que estancar o sangue com algodão e água oxigenada.

Cheira a queimado. Meu Deus as torradas.

Não tenho tempo, é raspar e aproveitar o possível.

Raios, sujei a camisa de café. Tudo me acontece, tenho que vestir outra.

Começo a ficar atrasado. Toca correr escadas baixo. A porcaria do elevador está sempre fora de serviço. Um dia tenho que reclamar.

Só me faltava mais esta. Mal ponho os pés no passeio piso merda de cão. Malditos donos, que raio! Porcos!

É raspar na borda do passeio e esfregar na relva. Que cheiro horrível para começar o dia.

Oh...pá, só me faltava mais esta. Esqueci as chaves do carro, não podia deixar de ser, e as da casa estão juntas. Que azar o meu!

Resta-me correr para a camioneta. E eu que nem sei os horários. Seja o que Deus quiser.

Tenho sorte não está ninguém na paragem.

Meia hora depois lá vem ela, dengosa, velha, pintada de laranja.

Só duas pessoas na camioneta? Que se passa? Não acredito, oiço dizer tanto mal e afinal não é bem assim.

Vai um negro, auscultadores no ouvido, balouçando a cabeça ao ritmo da música. Uma senhora de mais idade, deixa duas agulhas bailarem nas mãos, entrelaçando, de forma ritmada, as linhas numa renda que vai surgindo.

A viagem é fastidiosa e sinto todos os solavancos, de uns amortecedores velhos e cansados a marcarem a minha coluna.

Finalmente a chegada e a corrida para a estação do metro.

Deve estar apinhada como de costume. Já me imagino apertado entre as mamas gordas de uma matrona e o cheiro do sovaco de um cabo-verdiano.

Estou a pensar no meu chefe, o Senhor Lopes, com um ar de beato em dia de quaresma, a resmungar por este atraso.

Eu não tenho culpa, EU sou o Qualimero desta desgraça.

Que é isto? Estação vazia e uma carruagem, quase, só para mim. Esta malta anda sempre a dizer mal de tudo e, afinal os transportes não são assim tão maus. É mesmo só vontade de falar.

Vou chegar a horas e ainda vou ter tempo para um cafezito antes de enfrentar a fera.

-Bom dia, uma bica faz favor.

-Para já. Hoje por aqui?

-Como todos os dias, qual a admiração?

-É que aos feriados não é costume!

Acabou de me cair o Mundo na cabeça. Vejam lá a sorte de um homem.

Sou ou não sou mesmo um Calimero?


sexta-feira, 18 de março de 2011

Beba o cházinho, vá...beba...




Tinha acabado de fazer 32 anos mas já sentia no corpo o peso de uma existência, dorido pela pancada e pelas frustrações de uma vida desperdiçada.
Sem horizontes, sem motivações. Tinham-lhe destruído a pouco e pouco a razão de viver.
Já fora feliz, já tinha olhado de frente para a vida e construído sonhos.
Teve momentos de alegria que de repente, sem motivos, lhe foram negados.
Maria Celeste apaixonou-se, há quatro anos, pelo Gilberto.
Foi um namoro cheio de ternura, de amor e de promessas.
Foi o sonho da vida que sempre desejou ao lado do homem que lhe dava todo o amor que precisava.
Teve um casamento de princesa e sentia-se a mais feliz entre as felizes.
Gilberto era carinhoso, doce e de uma ternura que a deixava num sonho de que não queria acordar.
Este encanto durou dois anos, lindos, preenchidos, de encantamento.

De repente tudo mudou, Gilberto, começou a chegar tarde, bebido e com uma agressividade que nunca lhe conhecera.
O homem que a adulava, desapareceu como por encanto.
Começou o martírio, os maus-tratos, as tareias que a deixavam negra.
Não sabia o que mais a magoava, se as pancadas que lhe moíam o corpo ou as palavras que lhe deliceravam a alma.
Quantas vezes teve que fugir e refugiar-se na casa da sua vizinha Gertrudes, que a acarinhava e a protegia, até o marido adormecer e poder voltar para casa.


Hoje estava decidida, ia por termo a esta negação de existência, ao sofrimento que a consumia dia a dia.
Possivelmente iria passar o resto da sua vida numa prisão onde se iria sentir mais livre do que agora se sentia.
Mas tudo seria melhor do que esta angústia e sofrimento.

Chegou como sempre, cambaleante, vociferando os impropérios do costume.
-Então cabra não esperavas que e viesse para meteres cá os teus amantes?
Depois descarregou toda a fúria no martirizado corpo da Maria Celeste, que cambaleou.

Não aguentou mais, tirou a faca com que partia o pão e com as duas mãos enterrou-o no peito do homem que tanto amava.
Sentiu a lâmina a dilacerar a carne e a pressão dos ossos ao serem desviados pela fúria incontida de uma vida destroçada.
Ficou esperando o sangue que não brotou, antes de cair no chão.
Enroscou-se como um bicho-de-conta no seu medo e pavor. Com os olhos dilatados ainda viu o esforço moribundo do marido, agarrando com as duas mãos o cabo de uma faca que lhe levava a vida.
Depois desmaiou.

Gilberto tentou mas não conseguia. Deu um passo em frente e ajoelhou, abriu os olhos como que procurando a causa do que estava a acontecer.
Depois baqueou e caiu sobre a lâmina que quebrou deixando, finalmente, o cabo livre entre as mãos que o seguravam, já sem força.

Maria Celeste acordou com as palavras da vizinha.
-Beba este cházinho que a vai acalmar. Já passou tudo. Não se preocupe, eu e o meu marido vimos o que aconteceu e já contamos aos senhores guardas. Eles já sabem como foi.
Ele bateu-lhe, como é costume, e queria espeta-la com a faca, mas estava bêbado, caiu e acabou por se espetar a ele próprio. Pobre coitado, teve o que merecia.
Quando lhe íamos acudir vimos tudo, somos suas testemunhas. Não se preocupe. Já acabou.
Tem uma nova vida para viver.

Beba o cházinho, vá....beba.


domingo, 13 de março de 2011

Ciúme...



Olhos fundos, lagos de ódio.

Um azul de emoções, setas apontadas, ciúme que mata.

Calafrios, mil corpos, noites escuras, mesclas de ironias, sorrisos matizados,

Ódios e vinganças, suspeitas que cegam, amores acabados.

Lábios entreabertos, pérolas de sangue escarlate, voz rouca de choro contido.

Nervos sofridos, ameaças veladas, vinganças de posse e desejo.

Corpo ondulante, curvas simétricas, espirais de desejos, rancores incontidos.

Arma que ladra, som do trovão, bala que mata.

Corpo que tomba, que se contorce, quer respirar mas não.

Sangue que jorra, vida que foge, esgar de dor, sorriso que morre, vida que abala.

Suspeita acabada, amor que ficou, paixão que se mata num corpo caído.

Algemas que fecham, um choro abafado.

Amor que finou, amor terminado.