Uma amiga, que muito prezo, escreveu um dia: Gosto como escreves, ainda vou pegar uma fase feliz sua...com finais mais felizes...
Para ti tentei este que espero que não o aches triste.
-Já viu amigo Jeremias aqueles moços que parecem iguais?
-Então amigo Meireles são gémeos, são os netos do Caga-Azeite. Aqueles rapazes são fruto de um milagre.
-Milagre?
-Sim milagre. A Isabelinha casou com um moço da Guarda Republicana, bom rapaz por acaso, e queriam á força ter um filho e nada. Até foram ao médico, mas a rapariga continuava seca como um carapau. Foi ai que alguém se lembrou de lhe dizer para ir ao Outeiro dos Milagres. Eles foram e o resultado está á vista.
-Conte lá isso melhor que eu não entendi nada.
-Então aqui vai. Dizem os mais antigos que quem tem algum problema para resolver e não consegue, deve ir ao Outeiro e levar uma enfusa de água que deixa ao luar. De hora a hora, conforme os casos, bebe um copo ou faz banhos com essa água. Dizem, eles, que se conseguem resolver todos os problemas.
-Custa a crer.
-Já sabe de um caso que até parece que foi lá resolvido. Até dizem, alguns, que os catraios foram lá feitos. É o que se diz.
-Aconteceu homem. É uma coincidência.
-Coincidência nada, há mais. O filho do tio Zé da Velha tinha um problema nas virilhas. O rapaz não se dava conta com a comichão e as borbulhas que o apoquentavam noite e dia. Correu médicos e mais médicos. Experimentou todas as mesinhas, unguentos, poções e nada. O moço andava desesperado e até evitava arranjar namorada com a vergonha. Foi ao Outeiro, levou a água que pôs numa bacia ao luar e de hora a hora foi lavando as partes. Foi milagre, está curado, nunca mais teve problemas. Até já arranjou namoro com a filha do Lino Coveiro.
-Estou a ficar admirado.
-Vou-lhe contar mais uma. A Joana, filha da Alzira Coxa, nasceu-lhe uma coisa ruim na barriga. A rapariga andava descorçoada, até foi ao Hospital na cidade, onde a queriam operar. Mas não lhe prometiam nada, pois só depois de a abrirem podiam saber o que tinha. A mãe não se conformou e levou á rapariga ao Outeiro. Passaram lá a noite a por pachos com a água que estava ao luar, foi remédio santo. No outro dia, ouviu-se um estrondo e pum, aquilo rebentou e encheu um balde de porcaria. Ficou curada.
-Se não fosse você a contar eu não acreditava, mas assim nem sei que dizer.
-Passe bem amigo Jeremias!
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-Então caro Meireles que cara é essa?
-Sabe aquilo que me contou ontem sobre o Outeiro dos Milagres? Pois quando deixei o amigo, fui a casa, peguei na minha Perpétua, num garrafão de água e numa bacia e pimba, fui a caminho do alto. Deitei a água na bacia que ficou ao luar. De hora a hora obriguei a mulher a lavar a cara com a água. Contrariada mas lá foi fazendo o que lhe disse.
-Então homem, qual era o problema da patroa?
-O problema, então não a conhece?
-Conheço e bem.
-Pois como pode ver não houve milagre nenhum. Foi feia e só não voltou pior, porque mais feia não se pode ser.
O meu telemóvel não costuma tocar tão cedo. Quem poderá ser a esta hora?
-És tu João? Que te deu hoje para seres tão matinal? Ok, está bem, se precisas falar comigo lá estarei. No café as 3 horas. Está certo?
Pontualmente às 3 horas o João entrou com um ar diferente do habitual. O sorriso pronto estava transformado num esgar tão triste que era confrangedor. Aquele olhar vivo que nos contagiava não era mais que uma pálida imagem de desalento.
-Que se passa João, nunca te vi assim tão em baixo. Olhou-me com um sorriso amargurado e foi-se sentando à minha frente.
-Sabes Eduardo a minha vida mudou, penso que a Susana me anda a enganar com alguém.
Senti um baque e de certo que o meu rosto mudou de cor.
-Porque dizes isso João? Tens alguma coisa que te leve a pensar assim?
-É o comportamento. Não é a mesma, evita-me e quando a procuro está sempre cansada. Está diferente.
-Se calhar está mesmo cansada, não comeces a arranjar um filme na tua cabeça.
-Não Eduardo conheço a minha mulher. Há qualquer coisa. Ou tem outra pessoa ou, então, já não gosta de mim. Vim falar contigo, és nosso amigo e a Susana tem muita confiança em ti e ouve muito bem o que lhe dizes. Fala com ela e tenta saber o que se passa. Sabes que eu faço tudo para a fazer feliz. Vá lá fala com ela. Fazes esse favor ao teu amigo?
Como entrou saiu, ombros caídos e parecendo arrastar o peso do mundo.
Peguei no telemóvel para ligar á Susana, mas não sabia bem como começar a conversa. O assunto era delicado e eu não estava muito á vontade. Mas tinha que ser!
-Olá Susana, Estás só? Não, não é isso. É grave, é muito grave mesmo. O João anda desconfiado contigo, não nos podemos encontrar mais. Foi bom e vou ter muitas saudades tuas, mas temos que nos afastar. Vá, volta a conquistar o teu marido.
Desliguei, assobiei baixinho a malagueña e segui o meu caminho.
As religiões são como os pirilampos, só brilham no escuro (desconhecido)
Eu acreditava. Seguia todos os passos que a cartilha me ensinara. Era medroso na fé que me incutiam. Cumpria com todas as estafadas regras de uma Igreja caduca que ainda vive agarrada a ideias já há muito ultrapassadas. Ia à missa, agradecia todas as refeições que EU ganhara. Rezava e pedia por tudo e por todos. Acreditava numa justiça divina, numa razão em que os bons seriam sempre lembrados, sem esquecer que os maus eram filhos do mesmo Deus. Vivi muitos anos agarrado a esse Deus que tudo me prometia e que afinal tudo me tirou.
Pedi, implorei e ofereci a minha vida. Ninguém me ouviu, todos me abandonaram, fiquei só. Perdi a crença, esqueci a fé, reneguei a vida.
Hoje ando porque tenho que andar, vivo porque querem que eu viva. Deixei de sonhar, perdi o amanhã. Existo, tal como a Igreja, num passado que me vai devorando lentamente.
Viver sem fé e sem esperança é difícil. Viver só de recordações é doloroso.
- Vou de férias e pronto. Todas as minhas amigas vão de férias e eu também sou gente.
-Mas tu és mais maluca do que eu pensava. Tu perdeste todo o juízo.
-Mas mãe eu também tenho direito a férias. Não tenho?
-Tens como? Estás há três meses neste emprego, o que já é um recorde, e queres já férias? A tua vida tem sido umas férias pegadas.
-Emprego arranjo outro, o que não arranjo é quem me leve de férias.
-Falei ao Augusto não me leva porque vai com a mulher, o Arnaldo não me atende o telefone, o Manuel diz que vai se eu pagar metade das despesas, o Chico mandou-me aquela parte, o Quicas vai acampar e eu disso não gosto, aquilo são só formigas e essas gaitas assim. Acampar não quero. Pronto!
-Valha-me Nossa Senhora que esta rapariga perdeu o pouco juízo que ainda lhe restava.
-Mas tu também estás sempre contra mim, também mãe.
-Vamos combinar uma coisa, aguentas e no Natal vamos até á minha terra.
-Àquela saloiada, não tás boa. No Inverno com um frio do caraças a ouvir as histórias parvas do tio Agostinho. Nem penses.
-Parva és tu! Quem te dera chegares aos calcanhares do teu tio
-Só se for pelo guito!
-Só pensas no dinheiro, só pensas em ti. Egoísta, nunca vais passar de uma inútil.
-Quero lá saber dessas merdas, eu quero é arranjar um bacano que me leve com ele de férias.
-Arranja. Vai e fica lá, será um descanso para todos.
-Oh mãe, também não sejas assim. Tu não sabias passar sem mim. Pois não? Ajuda-me lá.
-Maria Inês, mas como te posso ajudar, filha?
-É fácil, empresta-me dinheiro e eu posso ir com o Manuel.
Há momentos que passam a fazer parte de todos os outros momentos.
Nunca poderemos esquecer umas mãos de veludo que nos acariciam, uns lábios húmidos de desejos que devoram os nossos em arroubos de prazer e desejo.
Nunca poderemos votar ao esquecimento o concretizar dos nossos desejos, de poder beber a volúpia dos olhos que mais desejamos, da companhia que nos aquece, do abraço que nos deixa com a sensação de que apenas nós somos, todo, o Mundo.
O não concretizar dos nossos anseios é como caminhar de olhos vendados, sem horizonte e sem destino.
Andar suspirando, mordidos pelos dentes dum ciúme que nos devora é como não estar, como não existir, como viver uma existência que não existe.
Fico triste pelos que sofrem, mas compreendo os que nada podem fazer, mas tentam.
Sei que é difícil dividir, que é impossível saber o certo e o racional.
Somos humanos e o coração por vezes tem que esperar.
Quando leio amores incompreendidos, ou antes, amores não correspondidos fico um pouco com a sensação de uma amargura, de uma angústia, de uma frustração.