Partistes, de repente, num arco de flores Num terno adeus, num até mais não. Fiquei tão só, carpindo minhas dores, Na mais longa e dolorosa escuridão.
Nada mais interessa, nada mais existe, Só o espinhoso escuro da minha solidão. Morri... também... no dia em que partiste, Tudo acabou, mais nada existe... desde então.
Escuto a tua voz...suave...no meu pensamento Melodias de palavras murmuradas... só para mim Murmúrios doces...sons de puro encantamento;
Arco de flores... sorriso que o tempo já murchou, Morro devagar. Sentindo a dor do meu sofrimento. Que chegue a hora, não quero mais ser quem sou.
Estugou o passo. A pressa de chegar a casa e acabar de vez com essa situação deu-lhe forças. As pernas nem sempre correspondiam ao ritmo que tentava impor, mas a vontade era tanta que esquecia aquela dor que, há meses, não o deixava. O calor começava a apertar e na testa começavam a aparecer gotículas de suor. ------- No outro dia sentiu um peso no peito. Era uma sensação estranha. Parecia que estava oco, e uma dor aguda penetrava deixando uma sensação de desconforto. Respirou fundo tentando meter nos pulmões o ar que lhe parecia faltar. Tudo era estranho, a sua volta parecia que uma névoa se ia desprendendo. Sentia a cabeça a andar à volta. ------- Era uma coisa esquisita, era como uma agonia. A dor não era muito forte mas o desconforto era enorme. O peito parecia que transportava toda a angústia do mundo. Queria respirar mas o ar entrava com dificuldade. A cabeça zumbia como se de repente estivesse cercada de abelhas. ------ Olhou em volta e desfilou as más recordações da infância que não teve. Via-se enfiado num calções coçados e presos por um suspensório de pano que lhe cruzada o abaulado peito, coberto com uma bonita camisa feita com o pano velho de outra. A sacola era de serapilheira parda e os livros que transportava eram as sobras de um menino que um dia os vendeu no alfarrabista. A pedra onde fazia as contas, e que bem as sabia fazer, era a angústia constante. Por tudo e por nada se partia e iria sentir no corpo e nas faces o desabar do mundo. Não podia olhar os próprios olhos mas dizem que apesar de tudo deixavam transparecer ladinice, esperteza e uma vontade enorme de enfrentar a vida. -------- Os anos passavam tão rápido que nem deu porque estava a crescer. A vida estava marcada em todos os poros do corpo franzino. O trabalho era monótono, sem emoções, sem realização. Era… enfim, então Sr. Dr., como estão os meninos? Meninos, dois abortos feios como o pai, convencidos como toda a família e inúteis como todos os que os rodeavam e enchiam de mimos e prazer. ------------ Manhã cedo com o frio a entrar pela escassa roupa, era esperar pelo eléctrico operário, sempre era mais barato. As senhoras, poucas, abafavam o frio nos belos e felpudos casacos e alguns homens aconchegavam o gordo pescoço no sobretudo de lã de camelo. Um dia, talvez, ainda tivesse um. Mas seria difícil porque nos familiares não havia nenhum que um dia pudesse ser transformado. -------------- Houve um tempo em que pareceu que o tempo tinha parado. Foram umas férias feitas de emoções. Era como que o alvo de todas as atenções. Passaram tão rápido que ainda hoje sente na boca a doçura de tão bons momentos. Os dias eram longos e preenchidos de todas as brincadeiras. De repente era o herói de uma qualquer banda desenhada. Corria pelos campos e sentia no rosto a brisa da liberdade. À noite entre as pernas do avô, aconchegava a cabeça nos carinhos desconhecidos. ---------------- Um dia numa enorme fila quis ver como a morte leva os poderosos. A pouco e pouco avançava. Muito devagar, tão devagar que perecia que a própria fila não tinha principio. Mas, depois de horas, lá conseguiu ver aquela fraca figura estendida num esquife. O ar mais sereno que um morto pode ter. As pessoas passavam devagar. Algumas inventavam umas lágrimas e como carpideiras faziam a sua boa acção para que todos pensassem que era um desgosto sentido. Ele passou sereno, deslumbrado com tudo o que via. Pensava, porque conseguem chorar, quando todos sabiam que era apenas o medo que os levava aquele espectáculo. Mas, o presidente estava ali estendido, e um novo já se perfilava para continuar tudo aquilo que aquele não tinha feito. Iria de certo cortar muitas fitas, inaugurar o que os outros fizessem e receber os aplausos pelos discursos gastos e sem nada de novo. -------------------------- Lá fora a vida continuava naquele ritmo a que já nos habituamos. Na jardim da Estrela as criadas passeavam nos trajes domingueiros sempre na mira de um militar garboso que afoitamente desse um piropo. ---------------------------------- A dor continuava mas não queria dizer nada. Pensando que de certo já ia passar. O relógio que lhe trabalhava nos ouvidos deixava um enorme desconforto. O chilrear dos pássaros entrava pelas janelas e agudizavam os padecimentos. A cabeça não parava e de certo iria estoirar. --------------------- Estendeu o corpo magro no sofá. Fechou os olhos e esperou que o sono lhe desse algum alivio, que o libertasse de todo o mau estar e angustia que há muito se apoderara dele. Ficou tão leve que se sentiu a pairar, a dor passou e o mau estar foi como se nunca tivesse existido. -------------------- Tão estranho ver a sala de cima, a mesa com os restos de uma refeição inacabada, as cadeiras dispostas de forma simétrica, a televisão onde o pó brilhava no escuro do ecrã, o sofá com um corpo enroscado numa posição desconfortável. Parecia, mesmo, ser ele que ali estava estendido. O mesmo rosto amarelento e encovado, as mãos engelhadas, juntas, como numa última prece. Tudo tão irreal e tão confuso. Ao longe a música e a luz intensa pareciam estar a chamar, a dor desaparecera, os ouvidos já não chiavam no cérebro. Nunca se sentira tão bem.
Ele há tanta mulher! mas por que fantasia Entre tantas, só uma a nossa simpatia Distingue, escolhe e quer! Uma só avassala, Nos dulcifica o olhar e nos perturba a fala! (Marcelino Mesquita)
Estou preparado para o que vem a seguir, mas juro que gosto muito de todas...
Eu tenho um sonho. Eu sei que é quase irrealizável, senão impossível. Mas tenho esse sonho! Eu gostava de perceber as mulheres. Sei que é difícil, mesmo irrealizável. As crianças são transparentes. Os homens previsíveis. As mulheres são enigmáticas, fechadas e difíceis de contentar. Nunca estão satisfeitas, querem sempre mais. Gostam de receber muito e dar pouco. São ciumentas, possessivas, inconformadas. Gostam de mirar os homens, admiram muitos e sonham com alguns. Acham normal. Se calhar até é! Mas se um homem olha, de soslaio, um rabo mais audacioso é um drama. Se um homem contempla uma revista de corpos bonitos é um porco, mas elas podem olhar. Para elas é tudo inocente. Para eles é maldade. Uma mulher pode encontrar-se com um amigo e ir almoçar. É vulgar. É amizade! Se o homem vai almoçar com uma amiga é estranho. Há interesse escondido, é pecaminoso. Mas que fazer, são assim. O mal é que não há outras e já não as devem inventar!
Eu vivo com papéis, eu sonho com papéis, eu estou farto de papéis.
Quero-me libertar, quero ser livre.
Quero ir de férias sem pensar no monte que se irá acumular.
Quero ir para a cama sem levar na cabeça todos os que na minha secretária esperam por mim.
Estou atulhado de facturas, de débitos, de créditos, documentos bancários e de tantos outros que a burocracia inventou.
Estou farto de SNC, AAA, CIRC, NCRF, PCGA, IVA, IRS, IRC, CC-ME e de uma infinidade de acrónimos que me azucrinam a cabeça..
Estou cheio de relatórios, réditos, imparidades, activos biológicos e tudo o que os rodeia.
Estou cansado de balancetes, extractos, contas-correntes, balanços, actas e todas as, outras merdas, que me dilaceram o pensamento, me corroem a tranquilidade.
Eu quero fazer, com todos os meus papéis, uma pira que me liberte, um fogo em que os possa imolar um a um, metodicamente, sadicamente, gozando deliciado toda a labareda que os consume.
Quero ver os meus olhos rebrilharem com a luz da chama que os vai aniquilando e os transforme em espirais de fumo, em rolos esfiapados que se diluem no espaço.
Quero dançar sobre as cinzas libertadoras, pular de alegria e ser livre finalmente!