segunda-feira, 11 de julho de 2011

Percurso...




Saltei dos bancos da escola
Para a dureza da vida,
Deixei de lado a sacola,
Ficou a infância esquecida;

Fui poeta, fui cantor
Quanto amei e fui amado!
Fui camponês, lavrador.
Fui herói e fui soldado,

Andei por terras da além,
Sem saber que procurar.
Não encontrava ninguém
Ninguém me queria encontrar;

Por muitos fui esquecido
Nesta luta sem ter fim
Não perdi, nem fui vencido
Nesta existência ruim.

Só tenho o que me sobrou
Da caminhada esquecida,
O pão que o diabo amassou
É o que me resta na vida.

Tantas mulheres que eu amei
Muitas raças muitas cores,
Mas nunca as esquecerei
Diferentes nos seus amores.

Lutei, andei para frente
Nunca me deixei vencer,
Pois sempre tive na mente
Antes quebrar que torcer.

Mas um dia que já passou,
Finalmente fui vencido
Foi tudo, nada ficou
E agora ando perdido.

Perdido para todo o sempre
Por tudo o que me levou,
Ando esquecido entre a gente,
De mim, nada mais restou.

Eu era um crente total,
Até muitas vezes rezava,
Agora por bem ou para o mal
Já não creio em mais nada.


quinta-feira, 7 de julho de 2011

As aparências....





Alguém escreveu:

…sinto falta do escritor instigante, digamos "sapeca" e super criativo

Vou tentar matizar. Pode ser?






Tinha um porte que merecia respeito.

As mulheres, sempre que aparecia no escritório, ficavam doidonas e davam gritinhos de aprovação.

Diziam que era um pão, que era a receita exacta para ser genro das suas mães, e outros sem número de baboseiras.

Na realidade tinha uma bonita figura, alto, esguio e com um porte atlético invejável. Era, quase, um Adónis.

Tinha um cabelo loiro, ondulado, revolto e que mantinha numa estudada forma de casualidade.

Os olhos tinham uma cor indefinida, que se estendia entre um azul-turquesa e um cinzento claro.

O sorriso, sempre afivelado, deixava luzir uns dentes brancos e bem tratados.

De uma cortesia que por vezes se tornava servil, mantinha os corações de todas as “gajas” daquele escritório, num constante alvoroço de suspiros.

Todas à espera de um convite para o cinema ou para uma visita a um qualquer museu. Sim, naquela altura mais do que isso, seria arrojo.

O seu passado tinha algo de romântico e secreto o que ajudava toda aquela aura de mistério e desejo.

Era cubano, refugiado. Tinha fugido a um regime que o não aceitava.

Confesso que nós, os outros homens, sentíamos alguma inveja com tanta deferência.

Mas tínhamos que nos render a uma evidência, de facto o G., vou chamar-lhe assim, tinha sido bafejado pelo distribuidor da beleza num dia e que todos os outros estavam distraídos.

Um dia, recordo como se fosse hoje, a notícia chegou como uma bala.

As mulheres não acreditavam, diziam que eram estórias de invejas. Vi mesmo algumas lágrimas rebeldes.

Os homens, esses, rejubilavam empolados, com toda a testerona à flor da pele.

O G., foi apanhado de joelhos em frente ao seu ajudante e, disso temos a certeza, não estava a rezar.

Nunca mais soubemos do tipo.

Tal como tinha surgido se eclipsou.

No nada.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

HAHAHEL




A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se...... (Declaração dos direitos da criança).





Apeteceu-me tirar a mochila, enche-la de sonhos, esperanças e ilusões.

Fazer-me à estrada.

Voltar ao passado, percorrer caminhos já antes trilhados.

Reparar os sonhos nunca antes realizados.

Pedir a Hahahel umas asas, sólidas para que o Sol, tal como às de Ícaro, não as derreter.

Estar outra vez contigo, luz dos meus olhos, ouvir a tua voz sábia e beber
avidamente tudo o que não tivestes tempo de me dizer.

Pegar e reparar os estilhaços de amores mal resolvidos.

Não ir trabalhar aos doze anos. Ir para a escola. Ir estudar.

Mano António queria chegar a tempo de impedir que qualquer Deus te levasse. Preciso de ti, mal te conheci mas sinto tanto a tua falta.

Encontrar uma mão que me levasse é escola e me libertasse de todos os fantasmas.

Ter Natais como todas as outras crianças, com doces e brinquedos.

Não ter medo do escuro, da noite, da solidão.

Ser um menino como os outros e saber sorrir.






domingo, 3 de julho de 2011

Olhos negros……




Estavam ao meu lado os olhos mais negros que jamais me tinham fitado.

Corpo esguio, cabelos desgrenhados pela sujidade acumulada, rosto magro e
vincado pelos infortúnios do dia-a-dia.

Não tinha mais que oito anos mas parecia arrastar em si a decadência
de uma geração.

Mirava-me do fundo daqueles fundos lagos de escuridão com uma súplica
nos lábios gretados.
Na mão estendida a caixa de pensos rápidos, no rosto a tristeza vincada
por muitos medos que um sorriso triste não conseguia disfarçar.

Olhei fascinado para o mundo de tristeza e desespero que aquele olhar
deixava aperceber.

A custo uma cansada voz, deixou o pedido:

-Compre senhor!

Fiquei fascinado pelo sumido grito de desespero, pela reza do apelo.

Os olhos negros, profundos, presos na montra dos doces e a mão
estendida com a súplica na voz entoavam no mundo vazio que me rodeava.

-Queres um bolo? Perguntei para quebrar o drama de uma vida e disfarçar
a vergonha que de mim se apoderou.

Estendeu um magro dedo e apontou.

Agarrou e com um sorriso cinzento arrastou o corpo esquálido para o Sol que
lá fora, continuava a brilhar.

Deixei o donut, larguei o café e sai envergonhado por andar indiferente ou
não querer ver os dramas escondidos à vista de todos.


sábado, 25 de junho de 2011

Talvez?



Como estrela cadente rasguei o espaço
Apenas um fugaz traço sobrou no fim,
Cinzas, tristeza e um simples traço
Foi tudo, apenas, quanto ficou de mim,

Ergui as mãos, fiz preces aos céus
Com fé rezei, pedi, chorei e implorei
Acreditava na existência de um Deus,
Estava enganado, perdi porque acreditei.

Agora ando perdido, só, neste deserto,
Numa dor que me consome sem se ver,
Já não sei que fazer, nada está perto

Procuro em vão para saber quem sou
Quem procuro? Não sei bem ao certo!
Talvez deseje esse Deus que me deixou.


E quatro anos vão passados...



Não é muito importante mas o meu Blog faz hoje 4 anos.



Deixo, a todos os que me visitarem, uma fatia de bolo






E uma taça de espumante.




Obrigado por todo o carinho.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

O baile





Os homens voltavam do trabalho e os carros puxados pelas bestas cansadas, faziam uma enorme chiadeira nos solavancos das pedras da calçada.

O dia ia, lentamente, desaparecendo no horizonte. A noite adivinhava-se fria, pois o Sol não chegou para aquecer a terra.

Os rapazes e as raparigas da aldeia andavam num frenesim, pois hoje era o grande dia do baile da festa.

Na Sociedade Recreativa a azáfama era enorme.

O conjunto musical, composto por quatro rapazes, afinavam os instrumentos num desafinado conjunto de sons e sopros.

Não tardava os homens mais aperaltados, do que o habitual, iriam mirar as raparigas que a pouco e pouco ocupavam as cadeiras distribuídas ao redor do salão.

As mães, nas filas mais recuadas, estavam atentas não fosse algum rapaz mais atrevido abusar do tesouro que com tanto cuidado guardavam.

Olhei em redor e desde logo fiquei preso numa deusa que sobressaía entre as demais.

Estava na primeira fila. Toda vestida de branco, dum branco tão alvo que se confundia com a leitosa cor da tês. Naquele conjunto só o negro dos cabelos que em suaves caracóis lhe emolduravam a doçura do rosto angelical, punham alguma nota de cor.

Quando o conjunto, num som dissonante, começou pedi de imediato àquela visão para dançar. Enlaçou-se nos meus braços com uma leveza que mais parecia uma pena a deslizar ao sabor de uma brisa. Tinhas uns olhos negros, profundos, como dois lagos que me contemplavam com tanta doçura que as minhas mãos tremiam nas costas de tão suave criatura.

Não era da aldeia, segundo me disse, era da vila e viera de propósito ao baile.

Mas, perguntei eu:

-Quer dizer que depois vais embora e não te voltarei a ver?

-Nem pensar, estarei sempre na terra à tua espera. José Romão é o meu pai e todos o conhecem. Não tarda terei que abalar, à meia-noite alguém me vem buscar.

Encostou-me o rosto que estava gelado. A noite, de facto, prometia ser muito fria.

Tirei o meu cachecol vermelho e cobri-lhe os ombros.

-Amanhã já tenho um pretexto para a ir visitar, vou buscar o meu agasalho.

Sorriu de uma forma tão doce e desapareceu muito rápida no escuro da rua.

Foi uma noite de insónias. A moça não me saia da cabeça e nem sequer lhe tinha perguntado o nome. Mas decerto não seria difícil.

Mal acabei o pequeno-almoço tomei o rumo da vila, ansioso para contemplar aquele sorriso que me deixava tão transtornado.

Era uma jornada rápida, mas o tempo parecia não ter pressa de passar.

Cheguei à povoação. Um homem, à porta dum café, olhava-me curioso.

-Boa tarde, onde mora o senhor José Romão?

-Amigo, vem tarde o Zé Romão morreu, ou fez ou vai fazer um mês. Com ele já não pode

-Mas....eu... propriamente, gaguejei, não queria falar com ele, mas com a filha,
não me lembro do nome.

-Dá no mesmo. O Zé, a Celestinha e a mãe morreram no mesmo desastre. Foi além na curva que vai para a ponte do ribeiro. Como lhe disse deve ter sido há um mês. Foi uma desgraça muito grande.

-Não pode ser! Estive ontem a dançar com a Celeste!

-Alguém mangou consigo, amigo. Mas vá além ao cemitério e vai ver três campas novas ao fundo da vereda, tem lá as fotografias.

Agradeci, ganhei coragem e fui, e lá estavam as três campas.

Não precisei de ver mais nada.

O meu cachecol vermelho estava estendido em cima da pedra, junto a uma foto esmaltada da Celeste.

Não olhei para trás, entrei no carro e desapareci na curva da estrada.

Nunca mais danço com estranhas