quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um caso




Encontraram-no no Beco do Escarumba, aspecto grotesco,
enrolado como uma trouxa, um fio de sangue a escorrer ao canto da boca e uma poça escura a empapar o sítio onde o braço esquerdo se encontrava enrodilhado.
Foram os rapazes, ao perseguirem uma bola, que toparam com tão macabro achado.
A polícia vedou o local, um beco sujo, frequentado pelos
consumidores de droga e pelas profissionais do sexo, o resto das pessoas evitavam passar nas proximidades.
Em tempos este beco foi habitado por famílias envelhecidas que foram desaparecendo ficando, apenas, umas casas velhas ocupadas pelas ratazanas e pelos agarrados pelo vício.

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Foi fácil identificar o cadáver, era o Zé Navalhas, muito conhecido nas tabernas da vizinhança.
Um pobre coitado que vivia às atenças da mulher e passava o dia na esperança dos copos que um e outro lhe iam pagando.

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Nem sempre fora assim, mas uma doença que o deixou impotente, transformou de tal forma o modo deste homem, que se esqueceu da vida e se refugiou na bebida na tentativa de um entorpecimento, que o levou à total degradação.

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A mulher, Zefa Navalhas, quando foi procurada pela polícia não mostrou qualquer estranheza pelo marido não ter aparecido pois, disse, era muito normal ele ficar a curtir a bebedeira em qualquer recanto do bairro. Antes ainda o ia procurar e o tentava levar para casa, mas quando o fazia era mal tratada e acabava, sempre, por desistir.
Na véspera, confirmou ela, quando saiu de manhã para o trabalho ele dormia profundamente no sofá da sala, à noite não apareceu mas era tão natural que, pensou, que era um sossego, pois quando aparecia bebido era difícil de aturar.

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Agora jazia numa pedra fria da morgue, retalhado pelo bisturi hábil do médico legista.
Foi assassinado com um estilete agudo que lhe perfurou o coração e que, segundo o médico, lhe provocou morte imediata. A hora da morte era difícil de estimar, pois devido ao tempo quente o arrefecimento do corpo obrigava a prever um período mais alargado, pelo que podia ter acontecido entre as duas e as seis da manhã.

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A polícia interrogou todos os companheiros e conhecidos do Zé que confirmaram o que já se sabia, que esteve todo o santo dia, na taberna do André Garoto, emborcando os copos que os amigos iam pagando.
As dez da noite o André fechou a tasca e o Zé saiu aos repelões para a calor da noite, estava tão bêbado como de costume, não por ter bebido demais, mas neste estado, não precisava de muito para ficar numa triste figura.
Zefa trabalhou todo o santo dia, chegou a casa às nove da noite, o que foi confirmado pela vizinha do lado, Dona Odete, que lhe chegou mesmo a falar.

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Os rapazes, que por vezes se atreviam durante o dia, nunca mais se aproximaram do beco, a que agora chamavam Beco do Navalhas.
A Junta de Freguesia espera verbas para desactivar esse local e construir um centro de dia mas, isso só quando tiver fundos coisa, que segundo o povo irá acontecer no dia de são nunca à tarde.

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Zefa mudou totalmente a sua vida, trabalhava na mesma, mas agora tinha um homem que a ajudava e a fazia resfolgar na cama.
Pela primeira vez, desde que era adulta, que ia de férias com o seu companheiro, Fedor Soestrova, um ucraniano que trabalhava na padaria onde todos os dias ia comprar o pão para a patroa.
Na verdade já o conhecia há muitos meses e, mesmo quando o Zé era vivo, já se entendiam muito bem, aliás pensava ela, se um não come que coma o outro, antes que se estrague.
Estava feliz, por vezes lembrava o pobre coitado mas ela não tinha culpa porque foi ele que escolheu o próprio destino.
Agora iam passar uns dias com a tia Inácia, que tinha uma casa perto da praia, e que os convidou pois queria conhecer o novo homem da sobrinha.
Estava a fazer as malas e não conseguiu abrir o fecho de uma, foi procurar um alicate na caixa de ferramentas do Fedor, não viu nenhum mas, encontrou um picador grande e ferrugento manchado de tinta, vermelha escura, já muito seca.
Não era o ideal mas serviu perfeitamente para abrir a mala.
Ai os homens, pensou, são todos o mesmo, servem-se das ferramentas e depois guardam tudo sem limpar.



domingo, 28 de agosto de 2011

Requiem aeternam dona eis







Que se vão da lei da morte libertando...
(Camões)




Gostava de perpetuar em frases minhas a memória de um tempo.

Gostava, verdadeiramente, de ter a força e o engenho para deixar
para além de mim o tributo de um amor e de uma devoção.

Queria ser poeta e ter a magia das palavras para erguer um poema
que fosse a epopeia de uma vida.

Quem me dera poder talhar na pedra o vulto grande que me envolve,
pintar na tela a imagem de uma saudade que dói e que consome.

Poderia, talvez, ser trovador para levar por esse Mundo fora a cantiga
que tornasse imortal a dor que me oprime.

Quem nos governa nada me deu, apenas me deixou as lágrimas para verter,
um coração para albergar a saudade e o pensamento que me perturba e oprime.

De resto nada mais!

Esse Deus que muitos veneram e idolatram é apenas o refúgio para explicar o inexplicável.

É a desculpa para camuflar a dor e o infortúnio.

Esse Deus, a existir, não poderia ser tão cruel e impiedoso.

Não iria cercear a flor que está no apogeu da vida.

Não seria capaz de roubar a essência à existência, de escurecer a luz que nos ilumina,
de tirar a seiva que nos alimenta.

Como poderia ser tão injusto? Tão ilógico? Tão impiedoso?

Não posso crer em quem não me dá razão para acreditar.

Fostes tu, oh Deus, que assim me tornastes.

A culpa é tua!



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O meu cão







A ti Fuzzy, meu amigo, sei que não me deixastes, sinto que estás à minha espera.




O meu cão rebola a bola
Na relva deste jardim;
O meu cão rebola a bola
Rebola a bola p'ra mim.

O meu cão rebola a bola
E deixa a bola a saltar;
O meu cão rebola a bola
E espera p'ra eu apanhar.

O meu cão rebola a bola
Rebola vezes sem fim,
O meu cão rebola a bola
E toma conta de mim.

O meu cão já foi embora
Decerto não vai voltar;
Mas antes de fechar os olhos
Eu vi o meu cão chorar.

A bola já não rebola,
Nunca mas vai rebolar;
Na relva deste jardim
Não mais a vejo saltar.

Dizem que o meu cão partiu,
Que morreu que foi embora;
Mas juro que não acredito,
Pois senti o meu cão agora.

Está sempre ao pé de mim
Eu ouço a cauda a abanar;
Eu sei que não me deixou
Não me iria abandonar!

Ele sabe quanto preciso
Da sua maneira de olhar,
Do amor que lhe sentia,
De ver a bola a rolar.

O meu cão rebola a bola
 
Vejo a bola a rebolar;
O meu cão já foi embora,
Deixou-me aqui a chorar.












terça-feira, 16 de agosto de 2011

Encanto




Para ti Sónia, minha sobrinha, pelo carinho da tua presença e magia das tuas palavras nos momentos em que mais precisei.




Quando abri a porta senti a golfada de ar quente.

Na taberna, defronte, os homens pareciam hipnotizados pela mini gelada que emborcavam em goles pequenos.

As moscas, em voos simétricos, martirizavam as caras tisnadas dos bebedolas que iam matando o tempo, em total indolência, nas sombras da esplanada do Chico Cocho.

Abarquei, com nostalgia, este quadro do quotidiano e retive, na minha mente, todos os pormenores desta cena, quase bucólica, onde os personagens pareciam retirados de um quadro do Malhoa.

Os homens moviam-se em movimentos lentos, num sincronismo natural, onde o levantar ritmado da mini parecia a batuta da própria essência, como se não existisse, como se esse movimento fosse fruto do deslizar do pincel do pintor.

Hoje eu estava sensível a todos os movimentos, a tudo o que estava no meu horizonte, o próprio bailado das moscas parecia fazer parte de um momento que acompanhava o mundo que ia dentro de mim.

***

Alzira, quando a desafiei para vivermos na aldeia, longe do bulício da cidade, ficou radiante e garantiu-me ser o que mais desejava no mundo.

Os primeiros tempos foram um sonho, foi a descoberta diária de novos encantos, o coaxar das rãs, o manto de grilares que enchiam de magia a planície.
Era o sentir do grito vermelho das papoilas a salpicar, de sangue, o tapete colorido das marcelas.

Vivemos intensamente os frios do Inverno junto aos troncos que na lareira se desfaziam em ondas de calor, que nos aqueciam o corpo, pois a alma ia sendo aconchegada por um ponche "caliente" e reconfortante.

O Verão quente, tão quente que até as próprias aves se deixavam cair com o bico aberto na procura de uma vida que a canícula lhes ia roubando, era passado no remanso de uma casa onde a frescura das abobadas ia atenuando a escalmorreira que fazia lá fora.

Ia-mo-nos amando nos intervalos de uma vida feita de casualidades e de momentos parados na doçura do tempo.

De repente, como se as ideias se deixassem esfumar em doses de indiferenças, Alzira deixou de respirar o encanto da procura, deixou de sentir o enlevo da descoberta.

Amorfou, a tristeza entrou de repente na pintura, as formas deixaram-se diluir nas saudades do bulício, dos cinemas, dos centros comerciais.

Alzira perdeu o espaço, os movimentos ficaram tolhidos na imensidão da campina, os horizontes perderam-se nas saudades do trânsito, no atropelo dos transportes cheios.

Alzira não aguentou a imensidão e com o mesmo encanto com que chegou, apanhou a carreira numa manhã, no Largo da Igreja, e abalou sem querer olhar para as saudades que me ficaram.

Pensei seguir com ela, não deixou, precisava da distância para respirar, como se o espaço pudesse ser encontrado no desconforto da civilização.

****

Abro a porta de manhã, vejo os homens parados no tempo de uma mini fresca e penso na Alzira, nas gargalhadas que deixou perdidas na imensidão dos meus sentidos.

Já não sinto o encanto dos coaxares, os grilos perderam a entoação que refrescavam as tardes quentes, o pão arrefeceu e já não aceita o sabor do presunto que acabei de cortar no alto da vara.

Ainda é Verão e já sinto esse frio que se entranha nos ossos e que nos faz tiritar.

A lareira está apagada não a irei acender para que as labaredas dos chamiços não consigam apagar o cheiro de uma partida, na carreira no Largo da Igreja, numa manhã que nunca foi dia.

Hoje vejo o desconforto da paisagem que o tempo secou, não quero ver mais a paleta onde o pintor deixava em traços lavados o encanto do meu pensamento.

Aprendi, agora sei que saudade se escreve com A, com A como se escreve Alzira, que abalou numa carreira que saiu do Largo da Igreja.





sábado, 23 de julho de 2011

Vou de férias, mas volto breve.



Dançar é como caminhar nas nuvens em alegres rodopios


Estive, há dias, a apreciar um grupo de jovens a dançar.

Era uma mistura de rapazes e raparigas. Não se sabia bem quem dançava com quem.

A dançar, disseram eles, pois o que eu vi foi apenas um ritual de movimentos desconchavados e sem qualquer ligação com aquilo a que chamamos, normalmente, dançar.

 Um levantava o ombro direito, como se algo na roupa o estivesse a incomodar, enquanto na sua frente, o outro abanava a cabeça em suaves movimentos de rotação.

Uma das raparigas, parecia possuída de alguma desagradável comichão, pois o seu tronco, parecia coçar-se numa mão imaginária.

Havia, de facto, para todos os gostos. Desde os que abanavam um pé, como se quisessem confirmar que o mesmo ainda se encontrava agarrado à perna, enquanto outra rebolava as imensas nádegas num saracotear despropositado.

Todos com um ar absorto, alheios, como se não estivessem ali a abanar-se ao som de um tum...tum...tum....tum...que parecia não ter fim.

Lembrei-me, então, como antes era diferente o dançar. Agarrados num agradável amplexo, corpos cingidos num ritmo que nos embalava e conduzia.

Tempos modernos, coisas que me ultrapassam.

Mas que fazer quando se começa a ser coroa.

Que saudades!

domingo, 17 de julho de 2011

O café da manhã





Todos os dias passava à minha porta deixando no ar a fragrância de flores acabadas de colher.

Não se pode dizer que fosse bonita, mas tinha um encanto muito especial.

Rosto um pouco anguloso, pouco feminino. Lábios carnudos e palpitantes e uns olhos negros, penetrantes que prediziam um mundo de promessas e paixão.

Os cabelos de um negro corvino balançavam ao ritmo de um andar bamboleante.

Caminhava com um saracotear que obrigava os nossos olhos a um balançar constante.

Transportava no regaço dois hemisférios, marmóreos e palpitantes.

Corpo esguio, curvilíneo e com uma “felinidade” que nos deixava presos num mar de pensamentos, de emoções e de desejos.

Era o nosso madrigal para um dia motivado.

Era como o café da manhã. Quente e reconfortante.

Sabia que fazia os corações palpitar ao ritmo do seu andar.

Sorria, num sorriso de dentes alvos. Gozava com o desconforto dos basbaques e dos mirones de boca-aberta.

Sentia-se feliz, distribuindo encanto.

Passava confortável com o desconforto dos que se alimentavam do aroma que os inebriavam.

Era o motivo para um dia mais feliz.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

O meu canto






Os salpicos do meu Blogue, são lágrimas da minha vida;

Pedaços que o tempo deu, memória nunca esquecida;

São lamentos que eu deixei. São coisas do meu passado;

Ternuras que recebi, dum destino mal fadado;

Agruras nunca esquecidas, que carrego no meu ser;

Imagens que nunca morrem, não as quero deixar morrer;

Grito, lágrimas e desgosto que o destino me reservou;

Saudades, que me atormentam, de quem foi e me deixou:

São ressaltos disfarçados em poesia sem rima;

Para enganar a tristeza que me postaram em cima;

São canções que eu não canto e ninguém as quer cantar;

Emoção tão reprimida, que ainda me há-de me matar;

Lágrimas do meu sofrer. Poemas do meu sentir;

Saudades do que passou, medos do que está para vir;

Tormentas que me angustiam de forma tão dolorosa;

Saudade do que não tenho, nesta vida tão penosa;

Romance do infortúnio, que um dia hei-de escrever;

Palavras por mim gravadas que ninguém irá ler;

Renascer no tempo vindo, num tempo que chegará;

Num dia que não existe e que nunca existirá;

Morrer como quem nasce, na dor de quem nos pariu;

Deixar por fim esta vida... pensando que não existiu.