segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A trovoada




A casa estava escura, a trovoada foi tão intensa que a luz desapareceu como por encanto, e a escuridão encheu de sombras e barulhos a velha mansão.

Não me sentia cómodo com os ruídos e tonalidades que iluminavam o espaço que uma bruxuleante vela não conseguia clarear.

Podia ser o estalar da madeira seca, ou o ranger dos meus dentes a provocar esta sensação de que alguém estava a acompanhar-me nesta noite tormentosa.

O medo, que sempre sentia pelo desconhecido, tinha-me arrepiado a pele e deixava-me um desconforto e uns calafrios que não sabia explicar e, hoje, as coisas estavam a piorar.

Os ruídos faziam lembrar passos carregando pesadas vestes que deixavam como que um arrastar algo lúgubre e misterioso, um arrepio de frio que me tolhia o corpo e o deixava com um sentimento de entorpecimento.

O vento uivava nas janelas e o medo ia-se apoderando de mim.
Era uma sensação estranha tal como eu as tentava criar nos meus livros, mas agora muito mais real e assustadora, pois nos meus escritos eu tentava descrever situações que ouvira, na minha mocidade, aos serões na casa dos meus avós.

Nessa altura ouvia fascinado e ansiava por mais, mas depois ia para a cama olhando para todos os cantos, e tremendo quando qualquer sombra parecia agitar o medo que me mantinha num arrepio constante.

*****

Esta casa era dos meus avós, depois foi dos meus pais e agora é o meu futuro refúgio.

Estava desabitada há alguns anos, desde que eles faleceram, e só presentemente agarrei a coragem necessária para tomar conta, recupera-la e tornar a velha casa um local para viver.

Desde que enveredei pela literatura e a tornei como minha actividade principal que penso num local sossegado, longe do bulício e da confusão da cidade e a velha vivenda de Stº. Aleixo é o ideal.

*******
Lá fora a trovoada continuava impiedosa e o ribombar dos trovões era constante e muito estranho em, Agosto, mas a natureza anda trocada.

Acabei por adormecer no sofá num sono estranho e desconfortável, num desassossego que não conseguia explicar, num acordar constante com uns cânticos que pareciam ser entoados dentro da casa, mas sempre que acordava o silêncio tomava conta de tudo e eu ficava com uma estranha sensação e convicto de que não passava de fruto da minha imaginação.

Acordei quando o Sol invadiu a minha sala.

Que lindo dia a proceder uma noite de tão más recordações.

*****

Fui tomar o pequeno-almoço ao café do Armindo que me recebeu com um olá menino, como nos velhos tempos da minha mocidade.

-Olá Armindo, arranja aí um pequeno-almoço reforçado porque esta noite me deixou com uma fome de cão.

-Oh menino, quem foi a magana que o conseguiu por nessa fraqueza?

-Antes fosse isso, mas foi a trovoada que me estragou a noite.

-Trovoada, perguntou Armindo, pensei que o menino tinha ficado cá na aldeia!

-E fiquei, não me digas que tens um sono tão pesado que nem ouviste os trovões?


-Já sei! O menino bebeu uns canecos, não está habituado, e sentiu uma trovoada dentro da sua cabeça. Falta de hábito, tem que treinar mais. Aqui nesta secura nem chuva, nem trovoadas há mais de um ano.
Coma porque isso também pode ser da fome.

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Era estranho, não tinha havido trovoada! Mas então todo o resto tinha sido minha imaginação. De facto nunca bebo e ontem emborquei dois largos whiskies e, possivelmente, isso fez-me sonhar com um trovoada tão real e todo o resto que me atormentou. Não voltarei a beber, é mais seguro.

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Terminado o pequeno-almoço meti o jeep ao caminho, ia à cidade trazer as coisas que mais precisava e, muito especialmente, a Licas a minha companheira de há quatro anos.

Foi ao cair da noite de um chuvoso dia de Fevereiro que a encontrei, esgalgada e com aspecto de não comer já há algum tempo. A medo estendi a mão, pois o seu tamanho não dava azo a muita confiança, e recebi em troca uma lambidela imensa e um olhar de ternura que me deixou totalmente apaixonado.

Seguiu-me e quando abri a porta do carro foi a primeira a entrar e a aconchegar-se no banco da retaguarda, com uns olhos tão termos e tão suplicantes que apenas me restou dizer:

-Bem vinda Licas a partir de agora fazes parte da família!

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Voltei ao fim do dia com o carro cheio de tralhas que faziam parte das minhas necessidades diárias e, enroscada no banco traseiro, Licas que olhava atentamente para tudo o que passava sem mostrar qualquer ansiedade.

Quando entrou na nova casa cheirou todos os cantos e parecia que algo a incomodava, pois ficava tensa e com os pelos eriçados como se pressentisse algo que a perturbasse, arfava e olhava-me à espera de algum sinal da minha parte.

Era estranho, nunca a tinha visto assim mas, pensei eu, deve ter detectado o odor de algum cão que por aqui passou ou, até, de qualquer roedor que possa existir na casa, o que irei verificar cuidadosamente pois detesto ratos.

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O dia passou rápido com tantas coisas para fazer, inventariar as necessidades e tentar arrumar as tralhas que fui buscar a Lisboa.

Estava cansado e não tinha vontade de fazer qualquer coisa para jantar, a Licas continuava deitada junto à janela com ar muito infeliz, parece que não gostou da mudança.

Agora que o sol baixou, a temperatura é mais suportável, e já nos podemos afoitar a sair de casa, vou dar um passeio com a Licas e de volta passo pelo café do Armindo para jantar na esplanada.

Comi um belíssimo gaspacho a acompanhar um peixe frito, enquanto a cadela deitada aos meus pés continuava a mostrar algum desassossego.

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A noite estava linda, nem a mais pequena brisa para amenizar o calor que se fazia sentir, o céu estava maravilhoso com uma profusão de estrelas a brilhar intensamente.

No caminho de volta, a cadela seguia-me de cauda caída, o calor tornava penosa esta pequena caminhada.

A casa destacava-se entre as outras, talvez por ser a única de dois pisos e varandas largas no meio de casas térreas e com pequenas janelas de paredes grossas.

Abri a porta e fiquei à espera que a Licas entrasse mas, estranhamente, ficou a aguardar que eu o fizesse e só depois me seguiu.

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Ainda não tinha televisão, seria uma das primeiras compras, liguei o portátil ia rever algumas páginas de uma crónica que andava a alinhavar.

De repente e sem que nada o fizesse prever estourou, novamente, uma trovoada com um relampejar que me deixou apavorado.

A cadela acompanhava o ribombar do trovão com um uivo lancinante e em vez de se esconder, como normalmente fazia, olhava desesperadamente para a porta na esperança de a ver aberta.

As luzes começaram naquela dança habitual nas trovoadas, num acender e apagar constante, até que desapareceram por completo.

Foi então que surgiu algo, que ainda agora tenho dificuldade em descrever, era como que um funeral de figuras translúcidas, que se moviam em levitação, velas bruxuleantes transportadas por braços que pareciam chamiços saídos de túnicas negras enquanto um cântico lúgubre, fantasmagórico, soturno, como que um gemer alucinante, entrava em nós como uma injecção de iodo, acompanhava o macabro desta arrepiante cerimónia.

Fiquei petrificado, o medo tolheu-me o corpo, sentia os pelos dos braços anestesiados por um frio que os invadia e os deixava sem qualquer reacção.

Entretanto a, tenebrosa, visão continuava com todas aquelas figuras macabras a transportar um caixão formado por um entrançado de luzes de um vermelho de fogo intenso.

De repente, quase como que um relâmpago, a Licas ergueu o corpo em arco, pelos eriçados, rosnar estranho e investiu, qual touro, sobre a estranha visão que se esfumou em espirais de fumo incandescente.

A sala transformou-se, como por encanto, em novelos de fumos negros que lançavam gritos cruciantes, bofetadas estalavam-me no rosto enquanto braços descarnados e esquálidos tentavam puxar-me para o crepitar das labaredas que em gritos demoníacos se apoderaram do espaço.  
Peguei na minha valente cadela e fugi para o refúgio da rua.
A noite continuava, quente e com um céu estrelado como há muito não via.

Entramos no jeep e, sem olhar para trás, tomamos o caminho de Lisboa.

Amanhã vou colocar um anúncio no jornal: 


Vende-se casa bonita a pessoa corajosa.
Bom preço


domingo, 11 de setembro de 2011

O Candidato..







Quando subiu o palanque vinha com a testa perlada pelo suor que os nervos produziam.

A sala estava cheia e um publico muito atento que, olhava impaciente o candidato, que no palco tentava desajeitadamente por em ordem o monte de papéis onde anotara, meticulosamente, a sua prédica.

Limpou, cuidadosamente, a testa e o luzidio crânio do suor que teimosamente continuava a denunciar o seu desconforto.

Já estava arrependido, pois quando tomou a resolução de se candidatar, não pensou na fobia que sempre sentia quando enfrentava uma plateia.

Já em pequeno a professora, numa festa de Natal, o tinha posto a fazer de burro no presépio, mas a vergonha que sentiu quando viu tantas pessoas na sala, estragaram de tal forma a encenação que até o menino Jesus teve que esconder a cara nas palhinhas para suster o riso.

Agora era diferente, tinha crescido e pensava que a idade o tinha preparado para enfrentar todas estas situações, mas parecia que não.

O público apercebendo-se da pouca à-vontade do professor, saudou-o com uma calorosa salva de palmas na expectativa de o motivar, mas o resultado foi um desastre.

O professor deixou cair os óculos e na tentativa de os arragar, espalhou os papéis do discurso ensaiado.

Os espectadores perderam a compostura e desataram à gargalhado e, diga-se, com alguma razão pois o pobre do professor estava ridículo, de rabo para o ar tentando com uma mão, desesperadamente, encontrar os óculos enquanto com a outra arrebanhava, desajeitadamente, as folhas que lhe haviam fugido.

O pagode ria a bom rir, enquanto o pobre homem, enfiava a cara debaixo da peanha na tentativa de se esconder.

A situação estava caricata e, o que se pensava ser a apresentação de uma candidatura à presidência da ADQNF, tornou-se numa estranha situação de humor.

Foi preciso a Doutora Celeste Malaposta entoar a sala com um grito:

-Silencio por favor, deixem o professor acalmar!

O professor levantou-se, gravata desalinhada, as duas únicas melenas que restavam na polida careca estavam caídas ao longo da cara, pareciam as orelhas de um cocker.

Tentou ajeitar os óculos mas as coisas não lhe corriam bem, pois as hastes torcidas não acertavam com as coradas orelhas.

O líquido que lhe escorria da testa fazia-lhe arder os olhos, que o deixava com um ar perdido, tentando com os pulsos
atenuar o desconforto.

Não se sentia bem, tinha a sensação de ter urinado as calças, os nervos eram superiores à vontade.

Tentou ordenar os papéis, tarefa difícil, os óculos embaciados e o suor que ardia e atormentavam os pobres olhos dificultava a tarefa.

Apetecia-lhe desistir, deixar a sala, fugir para o sossego da sua casa, mas não podia desiludir os seus apoiantes.

Encheu o peito de ar num respirar ofegante, perfilou-se com um ar seráfico, olhou atentamente, abriu a boca e deixou sair um:

-Sou o vosso can..diii..daaa....rrooouuu.

Caiu de bruços, emaranhou-se numa imensidão de fios, deslizou docemente e caiu com estrondo agarrado ao microfone.

Disse,o médico, que quando chegou ao chão já estava morto.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um caso




Encontraram-no no Beco do Escarumba, aspecto grotesco,
enrolado como uma trouxa, um fio de sangue a escorrer ao canto da boca e uma poça escura a empapar o sítio onde o braço esquerdo se encontrava enrodilhado.
Foram os rapazes, ao perseguirem uma bola, que toparam com tão macabro achado.
A polícia vedou o local, um beco sujo, frequentado pelos
consumidores de droga e pelas profissionais do sexo, o resto das pessoas evitavam passar nas proximidades.
Em tempos este beco foi habitado por famílias envelhecidas que foram desaparecendo ficando, apenas, umas casas velhas ocupadas pelas ratazanas e pelos agarrados pelo vício.

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Foi fácil identificar o cadáver, era o Zé Navalhas, muito conhecido nas tabernas da vizinhança.
Um pobre coitado que vivia às atenças da mulher e passava o dia na esperança dos copos que um e outro lhe iam pagando.

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Nem sempre fora assim, mas uma doença que o deixou impotente, transformou de tal forma o modo deste homem, que se esqueceu da vida e se refugiou na bebida na tentativa de um entorpecimento, que o levou à total degradação.

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A mulher, Zefa Navalhas, quando foi procurada pela polícia não mostrou qualquer estranheza pelo marido não ter aparecido pois, disse, era muito normal ele ficar a curtir a bebedeira em qualquer recanto do bairro. Antes ainda o ia procurar e o tentava levar para casa, mas quando o fazia era mal tratada e acabava, sempre, por desistir.
Na véspera, confirmou ela, quando saiu de manhã para o trabalho ele dormia profundamente no sofá da sala, à noite não apareceu mas era tão natural que, pensou, que era um sossego, pois quando aparecia bebido era difícil de aturar.

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Agora jazia numa pedra fria da morgue, retalhado pelo bisturi hábil do médico legista.
Foi assassinado com um estilete agudo que lhe perfurou o coração e que, segundo o médico, lhe provocou morte imediata. A hora da morte era difícil de estimar, pois devido ao tempo quente o arrefecimento do corpo obrigava a prever um período mais alargado, pelo que podia ter acontecido entre as duas e as seis da manhã.

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A polícia interrogou todos os companheiros e conhecidos do Zé que confirmaram o que já se sabia, que esteve todo o santo dia, na taberna do André Garoto, emborcando os copos que os amigos iam pagando.
As dez da noite o André fechou a tasca e o Zé saiu aos repelões para a calor da noite, estava tão bêbado como de costume, não por ter bebido demais, mas neste estado, não precisava de muito para ficar numa triste figura.
Zefa trabalhou todo o santo dia, chegou a casa às nove da noite, o que foi confirmado pela vizinha do lado, Dona Odete, que lhe chegou mesmo a falar.

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Os rapazes, que por vezes se atreviam durante o dia, nunca mais se aproximaram do beco, a que agora chamavam Beco do Navalhas.
A Junta de Freguesia espera verbas para desactivar esse local e construir um centro de dia mas, isso só quando tiver fundos coisa, que segundo o povo irá acontecer no dia de são nunca à tarde.

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Zefa mudou totalmente a sua vida, trabalhava na mesma, mas agora tinha um homem que a ajudava e a fazia resfolgar na cama.
Pela primeira vez, desde que era adulta, que ia de férias com o seu companheiro, Fedor Soestrova, um ucraniano que trabalhava na padaria onde todos os dias ia comprar o pão para a patroa.
Na verdade já o conhecia há muitos meses e, mesmo quando o Zé era vivo, já se entendiam muito bem, aliás pensava ela, se um não come que coma o outro, antes que se estrague.
Estava feliz, por vezes lembrava o pobre coitado mas ela não tinha culpa porque foi ele que escolheu o próprio destino.
Agora iam passar uns dias com a tia Inácia, que tinha uma casa perto da praia, e que os convidou pois queria conhecer o novo homem da sobrinha.
Estava a fazer as malas e não conseguiu abrir o fecho de uma, foi procurar um alicate na caixa de ferramentas do Fedor, não viu nenhum mas, encontrou um picador grande e ferrugento manchado de tinta, vermelha escura, já muito seca.
Não era o ideal mas serviu perfeitamente para abrir a mala.
Ai os homens, pensou, são todos o mesmo, servem-se das ferramentas e depois guardam tudo sem limpar.



domingo, 28 de agosto de 2011

Requiem aeternam dona eis







Que se vão da lei da morte libertando...
(Camões)




Gostava de perpetuar em frases minhas a memória de um tempo.

Gostava, verdadeiramente, de ter a força e o engenho para deixar
para além de mim o tributo de um amor e de uma devoção.

Queria ser poeta e ter a magia das palavras para erguer um poema
que fosse a epopeia de uma vida.

Quem me dera poder talhar na pedra o vulto grande que me envolve,
pintar na tela a imagem de uma saudade que dói e que consome.

Poderia, talvez, ser trovador para levar por esse Mundo fora a cantiga
que tornasse imortal a dor que me oprime.

Quem nos governa nada me deu, apenas me deixou as lágrimas para verter,
um coração para albergar a saudade e o pensamento que me perturba e oprime.

De resto nada mais!

Esse Deus que muitos veneram e idolatram é apenas o refúgio para explicar o inexplicável.

É a desculpa para camuflar a dor e o infortúnio.

Esse Deus, a existir, não poderia ser tão cruel e impiedoso.

Não iria cercear a flor que está no apogeu da vida.

Não seria capaz de roubar a essência à existência, de escurecer a luz que nos ilumina,
de tirar a seiva que nos alimenta.

Como poderia ser tão injusto? Tão ilógico? Tão impiedoso?

Não posso crer em quem não me dá razão para acreditar.

Fostes tu, oh Deus, que assim me tornastes.

A culpa é tua!



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O meu cão







A ti Fuzzy, meu amigo, sei que não me deixastes, sinto que estás à minha espera.




O meu cão rebola a bola
Na relva deste jardim;
O meu cão rebola a bola
Rebola a bola p'ra mim.

O meu cão rebola a bola
E deixa a bola a saltar;
O meu cão rebola a bola
E espera p'ra eu apanhar.

O meu cão rebola a bola
Rebola vezes sem fim,
O meu cão rebola a bola
E toma conta de mim.

O meu cão já foi embora
Decerto não vai voltar;
Mas antes de fechar os olhos
Eu vi o meu cão chorar.

A bola já não rebola,
Nunca mas vai rebolar;
Na relva deste jardim
Não mais a vejo saltar.

Dizem que o meu cão partiu,
Que morreu que foi embora;
Mas juro que não acredito,
Pois senti o meu cão agora.

Está sempre ao pé de mim
Eu ouço a cauda a abanar;
Eu sei que não me deixou
Não me iria abandonar!

Ele sabe quanto preciso
Da sua maneira de olhar,
Do amor que lhe sentia,
De ver a bola a rolar.

O meu cão rebola a bola
 
Vejo a bola a rebolar;
O meu cão já foi embora,
Deixou-me aqui a chorar.












terça-feira, 16 de agosto de 2011

Encanto




Para ti Sónia, minha sobrinha, pelo carinho da tua presença e magia das tuas palavras nos momentos em que mais precisei.




Quando abri a porta senti a golfada de ar quente.

Na taberna, defronte, os homens pareciam hipnotizados pela mini gelada que emborcavam em goles pequenos.

As moscas, em voos simétricos, martirizavam as caras tisnadas dos bebedolas que iam matando o tempo, em total indolência, nas sombras da esplanada do Chico Cocho.

Abarquei, com nostalgia, este quadro do quotidiano e retive, na minha mente, todos os pormenores desta cena, quase bucólica, onde os personagens pareciam retirados de um quadro do Malhoa.

Os homens moviam-se em movimentos lentos, num sincronismo natural, onde o levantar ritmado da mini parecia a batuta da própria essência, como se não existisse, como se esse movimento fosse fruto do deslizar do pincel do pintor.

Hoje eu estava sensível a todos os movimentos, a tudo o que estava no meu horizonte, o próprio bailado das moscas parecia fazer parte de um momento que acompanhava o mundo que ia dentro de mim.

***

Alzira, quando a desafiei para vivermos na aldeia, longe do bulício da cidade, ficou radiante e garantiu-me ser o que mais desejava no mundo.

Os primeiros tempos foram um sonho, foi a descoberta diária de novos encantos, o coaxar das rãs, o manto de grilares que enchiam de magia a planície.
Era o sentir do grito vermelho das papoilas a salpicar, de sangue, o tapete colorido das marcelas.

Vivemos intensamente os frios do Inverno junto aos troncos que na lareira se desfaziam em ondas de calor, que nos aqueciam o corpo, pois a alma ia sendo aconchegada por um ponche "caliente" e reconfortante.

O Verão quente, tão quente que até as próprias aves se deixavam cair com o bico aberto na procura de uma vida que a canícula lhes ia roubando, era passado no remanso de uma casa onde a frescura das abobadas ia atenuando a escalmorreira que fazia lá fora.

Ia-mo-nos amando nos intervalos de uma vida feita de casualidades e de momentos parados na doçura do tempo.

De repente, como se as ideias se deixassem esfumar em doses de indiferenças, Alzira deixou de respirar o encanto da procura, deixou de sentir o enlevo da descoberta.

Amorfou, a tristeza entrou de repente na pintura, as formas deixaram-se diluir nas saudades do bulício, dos cinemas, dos centros comerciais.

Alzira perdeu o espaço, os movimentos ficaram tolhidos na imensidão da campina, os horizontes perderam-se nas saudades do trânsito, no atropelo dos transportes cheios.

Alzira não aguentou a imensidão e com o mesmo encanto com que chegou, apanhou a carreira numa manhã, no Largo da Igreja, e abalou sem querer olhar para as saudades que me ficaram.

Pensei seguir com ela, não deixou, precisava da distância para respirar, como se o espaço pudesse ser encontrado no desconforto da civilização.

****

Abro a porta de manhã, vejo os homens parados no tempo de uma mini fresca e penso na Alzira, nas gargalhadas que deixou perdidas na imensidão dos meus sentidos.

Já não sinto o encanto dos coaxares, os grilos perderam a entoação que refrescavam as tardes quentes, o pão arrefeceu e já não aceita o sabor do presunto que acabei de cortar no alto da vara.

Ainda é Verão e já sinto esse frio que se entranha nos ossos e que nos faz tiritar.

A lareira está apagada não a irei acender para que as labaredas dos chamiços não consigam apagar o cheiro de uma partida, na carreira no Largo da Igreja, numa manhã que nunca foi dia.

Hoje vejo o desconforto da paisagem que o tempo secou, não quero ver mais a paleta onde o pintor deixava em traços lavados o encanto do meu pensamento.

Aprendi, agora sei que saudade se escreve com A, com A como se escreve Alzira, que abalou numa carreira que saiu do Largo da Igreja.





sábado, 23 de julho de 2011

Vou de férias, mas volto breve.



Dançar é como caminhar nas nuvens em alegres rodopios


Estive, há dias, a apreciar um grupo de jovens a dançar.

Era uma mistura de rapazes e raparigas. Não se sabia bem quem dançava com quem.

A dançar, disseram eles, pois o que eu vi foi apenas um ritual de movimentos desconchavados e sem qualquer ligação com aquilo a que chamamos, normalmente, dançar.

 Um levantava o ombro direito, como se algo na roupa o estivesse a incomodar, enquanto na sua frente, o outro abanava a cabeça em suaves movimentos de rotação.

Uma das raparigas, parecia possuída de alguma desagradável comichão, pois o seu tronco, parecia coçar-se numa mão imaginária.

Havia, de facto, para todos os gostos. Desde os que abanavam um pé, como se quisessem confirmar que o mesmo ainda se encontrava agarrado à perna, enquanto outra rebolava as imensas nádegas num saracotear despropositado.

Todos com um ar absorto, alheios, como se não estivessem ali a abanar-se ao som de um tum...tum...tum....tum...que parecia não ter fim.

Lembrei-me, então, como antes era diferente o dançar. Agarrados num agradável amplexo, corpos cingidos num ritmo que nos embalava e conduzia.

Tempos modernos, coisas que me ultrapassam.

Mas que fazer quando se começa a ser coroa.

Que saudades!