Lentamente de forma marginal entrou, olhou o espaço vazio
que enchia a sala. A promessa de um voltar ainda lhe martelava os ouvidos.
Lá fora ficaram as
angústias.
Tirou os óculos de sol que acentuavam as penumbras dos espaços nus. Em pensamento pintou as paredes, de cores leves, e dispôs móveis ao acaso.
Aqui o sofá, além o contador que descobriram na loja da esquina.
Naquela parede o
espelho redondo e em frente o quadro com os dois cavalos de crinas ao vento.
Encheu a sala dos sonhos que há anos tinha largado.
Semicerrou os olhos para que as lágrimas, furtivas, pudessem
deslizar mais facilmente.
Pensou na Joana, nos bons momentos, nos planos para a nova
casa, no ultimo beijo na face gelada que desceu à terra,
Parecia tudo tão real que o desconforto, por momentos,
deixou de fazer parte da realidade.
Sorriu, voltou a por os óculos e desapareceu na escuridão em
que sempre vivera.
Conheceu a Leonor num baile de Santo António
e, desde logo, ficou preso pelo seu olhar doce e terno.
Não foi
fácil mas, finalmente ela aceitou sair. Andaram embevecidos, quase perdidos, sem
saber o que dizer.
Ela olhava
e ouvia enlevada as frases engasgadas dum apaixonado que, verdadeiramente, não
sabia o que dizer.
Quando lhe perguntou se queria casar não hesitou, era a grande oportunidade de se ver
livre do jugo de uns pais antiquados. que a mantinham quase numa clausura de
ideias.
Passados,
pois, oito meses o padre Eusébio, padrinho da Leonor, abençoou a felicidade
visível deste casal.
Foram em lua-de-mel, quinze dias para o México,
e voltaram mais apaixonados do que nunca.
Luís
adorava aquela mulher que Deus lhe colocara no caminho.
Leonor nunca foi muito fogosa, mas mostrava o prazer em silêncios
que encerravam um mundo de satisfação, e Luís sonhava em senti-la em gemidos
longos e deleitosos.
Mas não, era um pouco self-service.
Dizia que o prazer se goza na doçura dos afagos, nos silêncios
da satisfação.
Não precisava, dizia ela, ter um comportamento de profissional para estimular o
ego masculino.
De repente tudo mudou.
Agora era diferente, não correspondia aos afectos, fugia aos contactos, estava
cansada, tinha enxaquecas.
Que teria feito, ou não feito, para essa indiferença para esse fugir ao que
antes, acontecia de forma tão natural?
Mas jurou que a iria despertar.
Amanhã, ia pedir ao director que o dispensasse de tarde, para
fazer uma surpresa à Leonor.
Iriam ao cinema, jantar fora e até, quem sabe,
dançar porque afinal foi assim que começou, queria fazer essa surpresa, ela
merecia e o amor tem que ser alimentado.
*************
Luís é chefe de segurança numa importante Instituição Financeira, tem uma situação
confortável e é muito considerado, porque reconhecem a sua competência e a
forma civilizada e dialogante como resolve todas as situações,
Ocupa esse lugar há dez anos e nunca teve necessidade de mostrar a pistola para fazer com que lhe obedecessem.
**************
Ia sair ao meio-dia, teria a tarde livre e a seguir era Sábado e depois Domingo, se calhar iram mesmo fazer uma extravagância e passar a noite num hotel fino, com todas as mordomias, numa espécie de uma segunda Lua-de-mel, que Leonor tanto merecia.
Foi para a paragem do autocarro e só esperava que não demorasse, porque o frio era muito e, também, estava muito ansioso. Precisava mesmo de comprar um carro, mas a prestação da casa pesava demasiado no orçamento, talvez para o ano, com a promoção a que tem direito, possa aventurar-se na compra de um automóvel.
**************
Finalmente o autocarro e quase vazio, normal a esta hora, assim como o pouco transito, o que ia tornar a viagem mais rápida. Vinte cinco minutos e estava a descer próximo da sua casa.
Ia fazer uma surpresa, entrar de mansinho e dizer:
-Princesa, vamos fazer um fim-de-semana de sonho?
Já a imaginava a dizer que não deviam fazer essa despesa, mas estava decidido.
Como sempre a porta da rua estava aberta, as pessoas não tem cuidado mesmo, com um aviso a pedir para manter a porta fechada, as criaturas só vão aprender quando apanharem um susto.
Para não fazer barulho não foi de elevador, subiu as escadas suavemente e ainda com mais cuidado abriu a porta e entrou.
Leonor não estava visível
. Entrou no quarto e na sua cama montada, pelo meu maior amigo, Leonor resfolegava em grandes gemidos de prazer, em tal frenesim que nem sequer deu pela sua chegada.
Sacou a pistola do bolso e pensou, logo ali, dar cabo da cabra e do falso amigo.
Os apaixonados amantes deram, finalmente, pela presença do manso.
Ela tentava com o lençol tapar a nudez que ele tão bem conhecia e, o sacana, tentou puxar as calças largadas no chão, mas o grito de Rui fez com que o gesto não passa-se, disso mesmo, de um gesto.
De repente, Rui, pareceu ter recobrado da surpresa e ordenou com voz calma a que o brilho frio do cano da arma davam uma autoridade que convinha não contrariar:
-Já à minha frente a caminho da porta e nada de pegar em roupas, não me obriguem a ter o prazer de disparar, garanto que não me custa mesmo nada!
********
Era patético e, ao mesmo tempo, hilariante a forma como Leonor cruzava os braços na tentativa de cobrir a nudez, enquanto o seu fogoso amante apenas colocou as mãos onde se sentia mais desprotegido.
Levou os dois tiritando pelo frio e pelo medo, para o meio da rua, tão nus como quando nasceram.
Uma vizinha, mais condoída, atirou dois roupões para os pobres coitados se cobrirem, mais pelo frio, porque na verdade até estava a gostar do espectáculo.
Não tardou a chegar o carro da polícia, talvez chamado por um dos muitos mirantes que das janelas gozavam o insólito e inesperado espectáculo.
Foram os três parar à esquadra, o casal apaixonado foi mandado em paz e, o triste chifrudo, ficou detido para, na Segunda-Feira, ser presente a um Juiz para ser julgado por atentado à moral pública.
Quando quis reagir já era tarde e apenas sentiu o impacto forte de um punho que o deixou incapaz de qualquer defesa. Sentiu como se um raio lhe tivesse paralisado o cérebro, um zumbido de abelhas enevoou-lhe os pensamentos, as pernas bambaram como canas fustigadas por vendaval, depois sentiu a calçada aproximar-se e parar com estrondo no seu rosto.
A muito custo abriu um olho mas o mundo girava tão rápido que o voltou a fechar e ficou à espera que a vida voltasse, de novo, ao seu corpo.
Quando, finalmente, abriu os dois deu conta que era o centro da atracção, sentiu-se como um Menino Jesus, rodeado pelo burro, a vaca e meia dúzia de camelos que o olhavam como se fosse o homem elefante.
Dobrou uma perna, depois a outra, joelhos e mãos no chão e levantou-se. Passou a mão no queixo e sentiu a dor.
Olhou em redor mas apenas rostos difusos, manchas diluídas pelos raios de Sol que lhe encadeavam os olhos se fixavam na figura central desta comédia.
A pouco-e-pouco foi voltando à vida, as ideias começaram a clarear e os rostos a ficar mais definidos. Olhou intensamente todos os que o rodeavam na esperança de lobrigar quem tão bárbara e traiçoeiramente o tinham atingido.
Alguém, bondosamente, lhe estendeu uma mão para o ajudar a levantar. Era um homem, ainda jovem, que com a ajuda doutro amigo lhe colocou o braço nas costas e com muito cuidado o ajudou a levantar e o deslocou para que ele se pudesse sentar na berma do passeio.
-Que me aconteceu, alguém me pode explicar o que e quem me atingiu?
Ninguém sabia nada, diziam eles, só se aproximaram porque o viram mal tratado e estendido no meio do chão.
Esfregou o queixo, abanou a cabeça na esperança que deixasse de chocalhar o turbilhão de sons que o atormentavam.
Aos poucos as pessoas foram-se dispersando, cada uma comentava à sua maneira, sem na verdade ninguém saber o que tinha acontecido.
Foi recuperando energia, procurou o telemóvel para pedir ajuda à família mas não o tinha, procurou a carteira que, igualmente, desaparecera.
******
Os dois jovens, que tinham ajudado a vítima, foram os primeiros a desaparecer da cena.
O mais velho sorriu e gracejou:
-Um IPhone e uma carteira, com trezentos Euros, nada mau para este trabalhinho.
Não gosto de whisky mas adoro aquela sensação de ter um copo na mão e deixar tilintar as pedras de gelo naquela mistura líquida da cor do ouro velho, que se vai desvanecendo á medida que as pedras de gelo se diluem. Por vezes dou por mim olhando para um cigarro imaginário, esperando ver as espirais de fumo.
Deixei de fumar quando o doutor Semedo, olhando-me por cima dos óculos, disse que ou deixava o vício ou deixava de viver.
Embora a vida nada de bom me tivesse dado acabei, no entanto, por optar por ela.
Desloquei a minha cadeira de rodas de forma a poder abarcar um pouco da rua e a nesga de mar que a falésia deixava adivinhar ao longe. Foi neste local onde nasceram e acabaram por morrer todos os meus sonhos.
********
Conheci a Madalena numas férias de verão, foi um daqueles encontros casuais em que o destino se veste de Cupido e faz com que aconteçam estes despertares de paixões.
De repente, sem nenhum ter dado por isso, éramos namorados, andávamos de mãos dadas, olhos nos olhos e cada um bebendo, em pura embriaguez, as palavras do outro.
O amor nasceu e cresceu quase espontâneo, intenso, puro e liberto de estigmas e frustrações.
Foi um andar em puro êxtase, longos caminhares pela praia, mãos coladas como se fosse apenas uma, beijos doces de pura sensação de nada mas existir, de sermos o centro, de tudo e do nada, à nossa volta.
Quando as férias estavam para terminar Madalena olhou-me nos olhos, lágrimas espreitando sufocadas:
-João, as minhas férias vão acabar mas eu não vou, quero ficar aqui contigo, se for embora nunca mais me vais
ver porque morrerei de tédio e de saudades.
Deixa-me ficar meu amor!
Caminhamos juntos até á falésia onde íamos todas as tardes até que o Sol mergulhava no horizonte, matizando o céu de vermelho e laranja e pronunciando mais um dia de calor.
Olhamos ao longe, silencio que doía, pensamentos em turbilhões povoavam a nossa mente.
-João, não respondestes, será que queres que vá embora?
Não vou saber viver longe de ti, ou fico contigo, ou vens comigo ou então mata-me para poder morrer abraçada a ti e partirei com a tua imagem na minha retina.
Depois entrou num soluçar convulsivo.
Apertei-a contra mim, sufoquei o choro na minha garganta antes de dizer:
-Meu amor nada nem ninguém nos vai separar, vou combinar com os meus pais e vamos ficar a viver juntos.
De repente o Sol nasceu na sua cara, as lágrimas pareciam pérolas a brigar naquele rosto, abafou-me de beijos, sufocou-me de abraços.
-Obrigada, obrigada, obrigada...meu amor.
****
Os meus pais adoravam Madalena por isso a mudança foi fácil, íamos morar todos na nossa casa, no alto da falésia.
Fui com ela a Lisboa, recolher tudo o que lhe iria fazer falta, o resto, depois iria mudando aos poucos.
Era uma sensação diferente mas gostosa, compartilhava-mos todos os momentos, sorriamos à felicidade, fazíamos planos para uma vida que queríamos que fosse nossa, só nossa, e para sempre.
****
Foi numa quinta-feira que o carteiro trouxe um registo para assinar e, estava longe de todos que esta missiva iria ser o despoletar de situações para a qual ninguém estava preparado.
Era lacónica, numa linguagem seca e sem vida, amorfa e triste como convém às missivas que, sem saberem, vão mudar a vida de muita gente.
Eu, João Menezes, oficial miliciano desmobilizado, era convocado para me apresentar no quartel para uma comissão de serviço numa das colónias, mais propriamente em Moçambique.
Madalena leu a convocatória com uma serenidade que me surpreendeu, os olhos brilhavam, mas inventou um sorriso, abraçou-me, lambuzou-me a cara de lágrimas incontidas e animou-me:
-João ainda falta um mês e eu vou contigo.
Todos sabíamos que era um desabafo, uma forma de tirar pressão, era como um escape para aliviar a angústia que sentiu tomar conta do seu pensamento e emaranhar as suas ideias.
********
Quase como numa coincidência, também, foi numa quinta-feira. Uma chuva miudinha tornava mais triste a despedida dolorosa que se avizinhava. Rostos escurecidos pelo medo e pela incerteza.
Madalena era o símbolo da tranquilidade aparente, estática, numa serenidade feita de receios.
-João já que não posso ir contigo, vou estar todos os dias a tua espera. Vou rezar, como se fosse crente, vou implorar como se fosse possível fazer ouvir a minha voz. Vou estar em cada momento ao teu lado, vou ser um escudo a todas as balas, um lenitivo para as tuas dores, a alegria para os teus momentos de tristeza, vou ser o teu Anjo da Guarda. Não me vais ver chorar, nem tu nem ninguém, vou sorrir sempre para que o meu sorriso seja o Sol que te vai iluminar nestes tempos em que nos vão separar.
Quando o Niassa se afastou do cais, as figuras iam-se perdendo em miniaturas, onde apenas o lenço vermelho de Madalena deixava traços de fogos-fátuos.
**********
Foram uns tempos difíceis em Mueda, local para onde me jogaram. Clima tenso onde o medo transpirava nos rostos macerados destes homens, que atiraram para uma guerra que não era deles, cansados, desiludidos, esperando quando seria o dia em que a desgraça lhe iria bater à porta e o destino os mandaria para Portugal, numa caixa embrulhada na nossa bandeira.
Escrevia, quase todos os dias para a Madalena, mas a primeira resposta só apareceu, quase, dois meses depois.
Era uma carta longa, com todos os momentos contados de uma forma tão clara que a senti como se estivesse presente. Dizia que passava os dias a rezar embora não fosse grande devota, percorria todos os nossos caminhos e sentia como se a minha mão lhe segurasse a sua, olhava o horizonte na esperança de ver o barco que me devolvesse ao nosso amor.
Dizia das saudades, das noites de insónias, dos receios e ao mesmo tempo da esperança de um regresso para podermos continuar a nossa felicidade.
Cartas longas, sentidas, turbilhões de palavras a que eu não sabia responder.
Apenas lhe contava das saudades e do desejo de voltar, não lhe dizia dos dramas, da dor e do sofrimento, dos camaradas estropiados, inadaptados, dos que ficavam nas picadas, nos que morriam em actos de bravura para alimentar uma guerra perdida, uma guerra que já não era nossa, isso não contava, deixava apenas para mim.
**********
Há coisas que não sei explicar, coincidências que nos levam a odiar dias, a ter medo que se voltem a repetir mas, para pasmo, voltou a ser numa quinta-feira de Novembro, chuvosa, fria, lúgubre e triste.
Quando bateram a porta, nada nem ninguém podia imaginar que o nosso mundo estava prestes a desmoronar.
Era um tenente e um sargento, perfilaram-se e saudaram militarmente a minha mãe e a Madalena que abriram a porta.
-São os parentes do nosso oficial João Menezes?
As duas tremeram mas abanaram a cabeça em sinal de anuência.
-Pois o que trazemos é uma missão ingrata e dolorosa, o nosso oficial teve um grave acidente em combate, não sabemos qual o desfecho, nem mesmo se será possível, ou se suportará ser evacuado para a metrópole.
A minha mãe desfaleceu mas Madalena gritou:
-Mataram o meu João, mataram o meu amor, acabaram com a nossa vida, ele precisa de mim.
Já vou meu querido!
Saiu disparada, atravessou o caminho, desconheceu os chorões que atrapalhavam os seus passos e correu para a falésia onde loucamente se precipitou no vácuo e desapareceu nas ondas revoltas.
Muitos, ainda, a ouviram gritar, ninguém sabe o que ela foi dizendo.
Encontraram, passados cinco dias, o seu corpo numa praia a trinta quilómetros da falésia.
*******
Voltei a pátria, oito meses no Hospital da Estrela, entre a vida e a morte e regressei a casa numa cadeira de rodas. As minhas pernas ficaram, lá, misturadas com os estilhaços de uma mina.
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Agora estou aqui, limitado no espaço e no tempo, pedaço do que fui, sem futuro, sem sonhos.
Pouso o copo onde o gelo se derreteu e tornou o Whisky num líquido colorido.
Olho o infinito para além da nossa falésia, pela nesga da minha janela e, sonho não acordar um dia.
Até que a rapariga não cantava mal. Era uma daquelas músicas brasileiras a que a voz doce da artista emprestava uma sensação de cócegas.
As pessoas mais preocupadas com o conteúdo dos pratos, pouca ou nenhuma atenção lhe votavam, mas ela persistia na balada, onde o amor ainda havia de voltar.
Um pouco tímido cruzou os olhos com os da cantora e mais timidamente, ainda, os deixou cair. A voz dela parecia mais doce e a letra da canção era como se fosse só para ele.
Falava de tristezas passadas e de muitas promessas de um amor que iria acontecer.
Havia lamentos e todas as venturas de um dia que estava tão próximo. Falava de beijos quentes, de promessas que pareciam reais.
Ficou enlevado e procurou-lhe os olhos que num largo sorriso o deixou confuso.
Desviou o olhar e o rubor tomou conta do seu rosto, como de um rapazinho envergonhado.
No seu cérebro mil projectos se começaram a desenhar. A que horas sairia? Iria só, ou alguém a iria esperar? E o sorriso! Meu Deus, aquele sorriso!
Ficou desajeitado como sempre, sem saber tomar uma decisão.
Pediu mais uma bebida, era a terceira e decerto não lhe iria cair muito bem. Não estava habituado mas a ocasião a isso o obrigava.
Em pequenos goles ia ficando inebriado com a letra que, decerto, lhe era dedicada.
Os acordes entravam nos ouvidos e as palavras daquele amor esquecido aqueciam uma existência tão vazia.
Será hoje meu Deus, será hoje
Que o amor vai surgir, assim, de repente
Trazendo tudo o que queroooo
Aquecendo de forma tão boa a alma da gente
Estava enlevado na letra, preso na música.
Quando sua boca me chama
Eu corro apressada
Rebolo consigo na cama
Não preciso mais nada
O pensamento levantou voo, os olhos fecharam-se num doce torpor.
Andou nas nuvens de mãos dadas, vogou ao sabor do vento, rodopiou agarrado aquela delicada cintura.
Beijou aqueles cabelos negros que lhe roçavam o rosto e que o deixavam louco.
Estava próximo daqueles lábios carnudos que em promessas se abriam para ele, já sentia o sabor do beijo quente que se aproximava.
O corpo tremia de prazer.
*********
O sobressalto foi enorme, aquela cara feia tão próxima da sua não era a da cantora.
Acordou assustado com alguém que lhe gritava aos ouvidos:
-Então amigo, acorde que vamos fechar, o espectáculo já acabou há muito!
Tinha um ar de princesa, um sorriso de anjo e a beleza de uma Afrodite.
O nariz, um pouco arrebitado, dava-lhe um ar traquina que as duas covinhas na face acentuavam.
Os olhos eram grandes e profundos mas possuídos de uma tristeza que o sorriso nos lábios não sabiam disfarçar.
Quando nasceu, há 19 anos, todos pensaram que não iria vingar, prematura e tão frágil, que a família quando espreitava a incubadora ficava convencida que a menina não passaria desse dia.
Quiseram os desígnios do destino que aquele bebé, tão fraco, se transformasse numa bela moça de olhos tristes.
*****
Quando fez 15 anos, uma doença, estranha e misteriosa, tomou conta dela de tal forma que o padre lhe chegou a dar a extrema-unção, mas de um dia para o outro, o rosto voltou a tomar cor. Não conhecia os pais, olhava-os de uma forma estranha e começou a falar uma língua desconhecida e que ninguém entendia.
Fixava os que a rodeavam como se não estivessem ali, não os percebia e não se fazia entender.
Arengava em palavra estranhas, frases entoadas em sons semelhantes a estalidos doces e musicais que se perdiam, sem que os que a escutavam conseguissem perceber algo do que dizia.
A família, desiludida, desistiu da medicina e enveredou pelos bruxos, curandeiros, pais de santos e a todos os que apregoando poderes e sabedorias iam fazendo rezas, mesinhas, imolações, sacrifícios e tudo o que a imaginação lhes permitia, para ir esvaziando os bolsos dos pais da Marcela.
Um dia, no meio de uma sessão mais emotiva, saltou com uma fúria que ninguém esperava e esgatanhou barbaramente a cara do curandeiro que fugiu, espavorido, com a face fortemente dilacerada.
Depois voltou para a cama e adormeceu num sono calmo e tranquilo.
Quando acordou estava serena, de nada se lembrava, nem da doença, nem da agressão e muito menos da língua estranha que, diziam, que tinha falado.
Havia, no entanto, algo que não se atreveu a contar, ouvia os pensamentos dos outros e sabia o que ia
acontecer. Era estranho perceber que o futuro lhe estava sempre tão presente.
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O tempo estava agreste e o vento, com fúria, fazia estremecer os estores das janelas, enquanto a chuva fustigava impiedosamente os que se arriscavam.
Marcela espreitava através dos vidros os que, afoitamente, se atreviam a enfrentar a borrasca que com tanta violência se tinha abatido.
Olhava e os seus sentidos iam antevendo as agruras e as alegrias dos que se arriscavam a cruzar a rua.
Aquele ali, tentando segurar um guarda-chuva que o vento tentava roubar, ia imaginando o que iria dizer a uma colega que tinha erigido como dona do seu coração.
A idosa, encolhida na porta, esperando uma aberta, pensava no frigorífico vazio e nas goteiras que neste momento pingavam no cubículo onde parecia viver.
Na esquina um homem pensava de forma estranha, gostava da mulher e ao mesmo tempo desejava que partisse e o libertasse do fardo da doença que a apoquentava. Já tinha pensado em trocar a hora dos comprimidos ou, mesmo, esquecer alguns de forma a libertá-la do sofrimento e, a ele, de um fardo que apesar de todo o amor, se estava a tornar muito pesado.
Marcela perscrutava todos estes pensamentos e sentia todos os dramas e chorava baixinho sabendo que nada podia fazer.
*****
Acordou com um ruído estranho no seu quarto, algo de etéreo, resplandecente de luz e que pairava como uma nuvem.
Uma melodia suave, enchia de doçura, enquanto fragrâncias que ultrapassam a imaginação deixavam caricias que inebriavam.
Uma voz, tão suave como uma pena deslizando numa suave brisa, clamou:
-Marcela és a eleita e a força do Senhor está contigo. Tudo o que quiseres será feito.
Depois, a miragem diluiu-se em mil estrelas iridescentes que se esfumaram como por encanto.
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Acordou pela manhã com a estranha sensação de que, a partir de agora, a sua vida mudaria e que tudo iria ser diferente.
Espreitou da sua janela os dramas da rua, mas o apaixonado não estava, a idosa tinha desaparecido e, até o marido que desesperava, com a doença da mulher, estava ausente.
Olhou na procura de dramas para dar a sua ajuda mas, todos pareciam felizes com o sol a brilhar, os rapazes corriam alegremente atrás de uma bola colorida, as meninas saltavam à corda numa alegre algazarra e os velhotes na esplanada do café olhavam de soslaio as mini-saias que passavam.
Todos pareciam felizes e sem problemas.
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Marcela estava triste porque tinha poderes mas não tinha onde os usar. Entrou em depressão, deixou de ouvir os pensamentos dos outros, tornou-se agressiva e caiu, novamente, num sono profundo.