terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A última carta ou….um pensamento miserável


Um dia escrevi esta carta. Não por mim, mas sim, por um repto que me lançaram.



 

Meu amor.

Não sei o que passa mas desde que cheguei a este lugar horroroso não mais tive noticias tuas.

Quando pergunto, dizem que reze por ti.

Tenho a mente muito perturbada.  Ando a dormir a maior parte do tempo e o meu corpo perdeu a força e a genica que tanto elogiavas.

Julgo que os comprimidos que me obrigam a engolir não me deixam livre o pensamento, é estranho que para tratarem, dizem, a minha depressão me encerrem com esta gente que grita, que anda indiferente, que se arrasta da cama para o banco, que se baba e que olha em frente como se vissem para além do infinito.

As noites são horrorosas, mas tenho força para enfrentar e luto para ficar bom e poder estar outra vez junto a ti.

Tenho saudades do teu corpo, dos teus afagos, do nosso amor. Quero rebolar, contigo, no chão da sala. De te despir num frenesim de beijos, de carícias. De sentir a tua língua a procurar a minha, das tuas unhas arranhando as minhas costas. E quando o nosso amor explode parece que o mundo é só nosso. Ficamos cansados, ofegantes, corpos colados num prostrar tão saboroso.

Sinto vontade de passear contigo, de mãos dadas como crianças num parque. 

Tenho o desejo de olhar os teus olhos que me prometem tudo o que mais quero.

Anseio possuir o desejo da tua paixão, beijar os teus olhos na vontade duma procura de afectos, na certeza de um amor que é nosso, só nosso.

Mas todas estas vontades morrem quando me dão a injecção que entra no meu sangue como um fogo que me toma e me leva para um mundo que não é o meu. A minha cabeça parece que rodopia numa espiral de sonhos, depois é o silêncio e o escuro.

Quando volto a acordar é como se tivesse nascido de novo, tudo é estranho, tudo é diferente. Devagar, muito devagar volto á vida. Lentamente as ideias regressam à minha mente.

Depois são os pensamentos e os porquês. Porque estou aqui, porque não me vens ver, porque não respondes as minhas cartas?

Será que não te disseram onde estou? Será que não recebes os  lamentos, que periodicamente vou deixando no papel para te enviar?

Será que já morri e penso que ainda habito no teu espaço? Ou será que  tu já não me queres? Não quero pensar nesta parvoíce!

Tenho que acabar esta carta e de arranjar maneira de ta enviar, tenho que descobrir forma de não ma tirarem.

O enfermeiro já aparece ao fundo do corredor, depois é a injecção,  a espiral, o afundar nesse buraco fundo e escuro.

Fugir? Não sou capaz.

Vou dormir.

Até um dia meu amor!    





quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poema de um dia triste



                                                 




Já estive
Sai
Não sei se volto.

Quando cheguei,
Virei do avesso o que encontrei;
Coisas velhas ruidas pelo tempo,
Quadros desbotados,
Trapos velhos,
Farrapos puídos,
Amores desfeitos,
Lágrimas secas.

Ao sair
Tropecei no que resta,
Cinzas de um tempo,
Cadáver pestilento,
Mumificado,
Sem rosto,
Sem cor,
Sem tempo.

Não vou voltar,
Vou andar por ai
Procurando
Não sei bem o que!




sábado, 3 de dezembro de 2011

A troca




-Oh pai, eu pedi uma mana e porque é que vocês me deram um mano que não fala?

-Já te expliquei que não se pode escolher e o mano não fala porque só tem um mês.

-Mas pai, eu queria um que falasse comigo.

-Querida os bebés de um mês não sabem falar.

-Mas porque?

-Porque ainda não tiveram tempo para aprender.

-Pois, ele está sempre a dormir ou a chorar, não pode ter tempo para aprender.

-Não é assim. Ele vai crescer e depois já fala com a mana.

-Quando pai?

-Oh querida, para ai dentro de um ano.

-Um ano é quanto tempo?

-Sabes quando fizestes 5 anos e os papás te deram a bicicleta cor-de-rosa? Agora vais fazer 6 aninhos e isso    
  é passar um ano.

-Mas isso é muito tempo.

-Passa muito depressa, vais ver.

-Mas até lá podias por na barriga da mãe uma mana que já soubesse falar.

-Tens cada ideia.

-Achas pai, é boa ideia não é?

-Não seja tonta e vai brincar, o teu mano está a chorar e vou ver o que é?

-Eu sei porque ele chora e sei porque ele faz cocó e xixi na fralda.

-Espertinha, então porque?

-É fácil, chora porque quer a maminha da mamã e faz cocó e xixi porque é porcalhão.

-Vai brincar rapariga. Estás impossível!





sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Solidário







Não sei se foi um sorriso ou e se foi apenas um esgar que lhe arrepanhou os lábios.

Havia tanta tristeza naquele rosto, que o brilho se perdia e deixava, apenas, um franzir quase imperceptível.

Olhei os olhos que me fitavam e tentei vislumbrar alguma chama naquele olhar tão triste.

Pareceu-me que uma lágrima, teimosamente, queria escorrer mas que o orgulho que lhe restava conseguia segurar.

Era uma angústia reprimida, um sufoco que apertava o coração de uma maneira tão intensa que se notava na inquietação daqueles olhos.

Fiquei deslumbrado pela beleza escondida e abafada por tamanho sofrimento.

Que seria que tão intensamente, perturbava aquele rosto radiante de beleza mas tão carregado de mágoas?

O meu pensamento cogitava tantos motivos. O marido fugiu com uma brasileira mais afoita! Ou namorado 
descobriu que afinal não gostava, especialmente, de mulheres!

Timidamente aproximei-me e perguntei o que ensombrava a beleza daquele olhar?

Fitou-me de uma forma curiosa, aproximou a boca do meu ouvido e contou-me todas as suas mágoas.

Compreendi o sofrimento.

Era minha irmã na desgraça.

Encostamos as nossas cabeças e choramos em uníssono.







domingo, 20 de novembro de 2011

O Regresso.






Lentamente de forma marginal entrou, olhou o espaço vazio que enchia a sala. A promessa de um voltar ainda lhe martelava os ouvidos.

Lá fora ficaram as angústias.

Tirou os óculos de sol que acentuavam as penumbras dos espaços nus. Em pensamento pintou as paredes, de cores leves, e dispôs móveis ao acaso. Aqui o sofá, além o contador que descobriram na loja da esquina. 

Naquela parede o espelho redondo e em frente o quadro com os dois cavalos de crinas ao vento.

Encheu a sala dos sonhos que há anos tinha largado.

Semicerrou os olhos para que as lágrimas, furtivas, pudessem deslizar mais facilmente.

Pensou na Joana, nos bons momentos, nos planos para a nova casa, no ultimo beijo na face gelada que desceu à terra,

Parecia tudo tão real que o desconforto, por momentos, deixou de fazer parte da realidade.

Sorriu, voltou a por os óculos e desapareceu na escuridão em que sempre vivera.

Por momentos sonhou e foi feliz.



sábado, 12 de novembro de 2011

Assim não…ou um fim-de-semana estragado












Conheceu a Leonor num baile de Santo António e, desde logo, ficou preso pelo seu olhar doce e terno.

Não foi fácil mas, finalmente ela aceitou sair. Andaram embevecidos, quase perdidos, sem saber o que dizer.

Ela olhava e ouvia enlevada as frases engasgadas dum apaixonado que, verdadeiramente, não sabia o que dizer.

Quando  lhe perguntou se queria casar não hesitou, era a grande oportunidade de se ver livre do jugo de uns pais antiquados. que a mantinham quase numa clausura de ideias.

Passados, pois, oito meses o padre Eusébio, padrinho da Leonor, abençoou a felicidade visível deste casal.

 Foram em lua-de-mel, quinze dias para o México, e voltaram mais apaixonados do que nunca.

Luís adorava aquela mulher que Deus lhe colocara no caminho.

Leonor nunca foi muito fogosa, mas mostrava o prazer em silêncios que encerravam um mundo de satisfação, e Luís sonhava em senti-la em gemidos longos e deleitosos.

Mas não, era um pouco self-service.

Dizia que o prazer se goza na doçura dos afagos, nos silêncios da satisfação.  

Não precisava, dizia ela, ter um comportamento de profissional para estimular o ego masculino.

De repente tudo mudou.

Agora era diferente, não correspondia aos afectos, fugia aos contactos, estava cansada, tinha enxaquecas.

Que teria feito, ou não feito, para essa indiferença para esse fugir ao que antes, acontecia de forma tão natural?

Mas  jurou que a iria despertar.


Amanhã, ia pedir ao director que o dispensasse de tarde, para fazer uma surpresa à Leonor.

 Iriam ao cinema, jantar fora e até, quem sabe, dançar porque afinal foi assim que começou, queria fazer essa surpresa, ela merecia e o amor tem que ser alimentado.
  

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Luís é chefe de segurança numa importante Instituição Financeira, tem uma situação confortável e é muito considerado, porque reconhecem a sua competência e a forma civilizada e dialogante como resolve todas as situações,

Ocupa esse lugar há dez anos e nunca teve necessidade de mostrar a pistola para fazer com que lhe obedecessem.

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Ia sair ao meio-dia, teria a tarde livre e a seguir era Sábado e depois Domingo, se calhar iram mesmo fazer uma extravagância e passar a noite num hotel fino, com todas as mordomias, numa espécie de uma segunda Lua-de-mel, que Leonor tanto merecia.

Foi para a paragem do autocarro e só esperava que não demorasse, porque o frio era muito e, também, estava muito ansioso. Precisava mesmo de comprar um carro, mas a prestação da casa pesava demasiado no orçamento, talvez para o ano, com a promoção a que tem direito, possa aventurar-se na compra de um automóvel.


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Finalmente o autocarro e quase vazio, normal a esta hora, assim como o pouco transito, o que ia tornar a viagem mais rápida. Vinte cinco minutos e estava a descer próximo da sua casa.

Ia fazer uma surpresa, entrar de mansinho e dizer:

-Princesa, vamos fazer um fim-de-semana de sonho?

Já a imaginava a dizer que não deviam fazer essa despesa, mas estava decidido.


Como sempre a porta da rua estava aberta, as pessoas não tem cuidado mesmo, com um aviso a pedir para manter a porta fechada, as criaturas só vão aprender quando apanharem um susto.

Para não fazer barulho não foi de elevador, subiu as escadas suavemente e ainda com mais cuidado abriu a porta e entrou.

Leonor não estava visível
.
Entrou no quarto e na sua cama montada, pelo meu maior amigo, Leonor resfolegava em grandes gemidos de prazer, em tal frenesim que nem sequer deu pela sua chegada.

Sacou a pistola do bolso e pensou, logo ali, dar cabo da cabra e do falso amigo.


Os apaixonados amantes deram, finalmente, pela presença do manso.

Ela tentava com o lençol tapar a nudez que ele tão bem conhecia e, o sacana, tentou puxar as calças largadas no chão, mas o grito de Rui fez com que o gesto não passa-se, disso mesmo, de um gesto.

De repente, Rui, pareceu ter recobrado da surpresa e ordenou com voz calma a que o brilho frio  do cano da arma davam uma autoridade que convinha não contrariar:

-Já à minha frente a caminho da porta e nada de pegar em roupas, não me obriguem a ter o prazer de disparar, garanto que não me custa mesmo nada!


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Era patético e, ao mesmo tempo, hilariante a forma como Leonor cruzava os braços na tentativa de cobrir a nudez, enquanto o seu fogoso amante apenas colocou as mãos onde se sentia mais desprotegido.

Levou os dois tiritando pelo frio e pelo medo, para o meio da rua, tão nus como quando nasceram.

Uma vizinha, mais condoída, atirou dois roupões para os pobres coitados se cobrirem, mais pelo frio, porque na verdade até estava a gostar do espectáculo.

Não tardou a chegar o carro da polícia, talvez chamado por um dos muitos mirantes que das janelas gozavam o insólito e inesperado espectáculo.

Foram os três parar à esquadra, o casal apaixonado foi mandado em paz e, o triste chifrudo, ficou detido para, na Segunda-Feira, ser presente a um Juiz para ser julgado por atentado à moral pública.




Duplo azar, corno e detido.






















































segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Golpe






Quando quis reagir já era tarde e apenas sentiu o impacto forte de um punho que o deixou incapaz de qualquer defesa. Sentiu como se um raio lhe tivesse paralisado o cérebro, um zumbido de abelhas enevoou-lhe os pensamentos, as pernas bambaram como canas fustigadas por vendaval, depois sentiu a calçada aproximar-se e parar com estrondo no seu rosto.

A muito custo abriu um olho mas o mundo girava tão rápido que o voltou a fechar e ficou à espera que a vida voltasse, de novo, ao seu corpo.

Quando, finalmente, abriu os dois deu conta que era o centro da atracção, sentiu-se como um Menino Jesus, rodeado pelo burro, a vaca e meia dúzia de camelos que o olhavam como se fosse o homem elefante.

Dobrou uma perna, depois a outra, joelhos e mãos no chão e levantou-se. Passou a mão no queixo e sentiu a dor.
 

Olhou em redor mas apenas rostos difusos, manchas diluídas pelos raios de Sol que lhe encadeavam os olhos se fixavam na figura central desta comédia. 

A pouco-e-pouco foi voltando à vida, as ideias começaram a clarear e os rostos a ficar mais definidos. Olhou intensamente todos os que o rodeavam na esperança de lobrigar quem tão bárbara e traiçoeiramente o tinham atingido.

Alguém, bondosamente, lhe estendeu uma mão para o ajudar a levantar. Era um homem, ainda jovem, que com a ajuda doutro amigo lhe colocou o braço nas costas e com muito cuidado o ajudou a levantar e o deslocou para que ele se pudesse sentar na berma do passeio.


-Que me aconteceu, alguém me pode explicar o que e quem me atingiu?

Ninguém sabia nada, diziam eles, só se aproximaram porque o viram mal tratado e estendido no meio do chão.

Esfregou o queixo, abanou a cabeça na esperança que deixasse de chocalhar o turbilhão de sons que o atormentavam.

Aos poucos as pessoas foram-se dispersando, cada uma comentava à sua maneira, sem na verdade ninguém saber o que tinha acontecido.

Foi recuperando energia, procurou o telemóvel para pedir ajuda à família mas não o tinha, procurou a carteira que, igualmente, desaparecera.


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Os dois jovens, que tinham ajudado a vítima, foram os primeiros a desaparecer da cena.

O mais velho sorriu e gracejou:


-Um IPhone e uma carteira, com trezentos Euros, nada mau para este trabalhinho.