segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O padre o sacristão e a mulher





 O padre Zé Maria tinha um sonho, não era propriamente um modelo de virtudes, mas sonhava ter um dia uma estátua no Largo da Igreja a imortalizar a sua beatitude e bondade.

Mas sonhos são sonhos e, por vezes, atraiçoam os caminhos e desígnios dos pobres mortais, sujeitos às tentações que o criador na sua bendita sabedora, vai colocando no caminho dos pobres e incautos mortais.

Foi para padre, não propriamente por vocação, mas para fugir ao trabalho no campo que lhe estava destinado. Valeu-lhe o cónego Desidério que convenceu os pais e o encaminhou para o seminário.

Não foi fácil, a vida era dura e a inteligência nunca foi o seu forte, mas chegou ao fim e hoje estava nesta paróquia onde era admirado e respeitado por todos.

Ainda se lembrava no dia em que celebrou a missa nova, foi na Igreja da sua terra, e o orgulho dos seus pais foi a melhor recompensa, para aquela seca e sacrifício dos anos em que esteve amarrado às regras e exigências dum curso, em que lhes eram impingidas teorias e retóricas que, pensava ele, nada acrescentavam a este mundo.

Mas agora sabia que tinha valido a pena, assegurou o futuro e sentia-se confortável com a forma como os seus paroquianos o tratavam, respeitavam e o enchiam de mimos e atenções.

O trabalho era muito e, agora que festa da aldeia se aproximava, sentia que lhe era difícil dar conta do recado, amanhã ia telefonar ao Senhor Bispo, a pedir a ajuda dum padre que lhe desse algum alivio em tantas tarefas que tinha pela frente.

 Assim o pensou e assim o fez, e o Senhor Bispo com toda a sabedoria que o Pai do Céu lhe tinha concedido disse-lhe:

 -Oh padre Zé Maria, porque não arranja um sacristão para o ajudar em todas as lides da Igreja?                                                                                                                                            

Realmente, pensou Zé Maria, por isso é que ele é Bispo para se lembrar das coisas certas e para resolver todos os problemas.

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Não conhecia ninguém para essa tarefa mas, amanhã ia falar com o presidente da junta de freguesia que decerto o ia aconselhar.

O presidente da Junta, José Serôdio, garantiu-lhe ter, numa aldeia próxima, um tipo que podia dar um belo sacristão, assim ele estivesse disposto a isso.

Era educado, temente a Deus e estava desempregado, amanhã mesmo ia conversar com ele e, se estivesse interessado, mandava-o falar com o padre Zé, que agradeceu com um Deus o abençoe.


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O rapaz tinha bom aspecto, parecia educado e estava disposto a começar em breve, era só mudar para a casa da Igreja.

O padre respirou de alívio, o sacristão percebia do assunto, diligente e com um sentido de organização que deixava o sacerdote feliz. Podia, enfim, dedicar-se à igreja sem a preocupação e as burocracias que tanto detestava e que, ao mesmo tempo, tanto o ocupavam, não só por ser desorganizado como por alguma inaptidão para assuntos que fossem além do que aprendeu, tal como missas, casamentos, baptizados e funerais. Agora estava tranquilo.

Terminada a eucaristia das 9 horas, Serafim, assim se chamava o sacristão perguntou:

-Senhor Padre não se importa que a minha mulher me ajude nestas lidas? Além de me dar jeito também é bom para ela não estar tanto tempo sozinha.

-Não sabia que eras casado, ripostou o padre, mas por mim tudo bem, a igreja só tem a agradecer. Mas já me devias ter apresentado a tua mulher, afinal esta casa também vai ser a dela.

Serafim corou, de fato devia, mas era um bocado tímido.

-Peço desculpa, senhor padre Zé, mas ela esteve a assistir à cerimónia e ainda está na Igreja, eu vou chamar.

Quando Zulmira entrou na sacristia, o padre ficou estarrecido, era padre mas não deixava de ser homem. A rapariga era mesmo o género que bulia com o pequeno demónio que o habitava. Era uma moça roliça, peito arfante num apertado corpete que deixavam ver duas calotas esféricas, túmidas e tentadores. O padre estendeu a mão, quase tímido, enquanto os olhos continuavam hipnotizados na visão que o perturbava.

Zulmira flectiu o joelho e pousou-lhe um leve beijo no dedo médio e pediu:

-Sua bênção senhor padre.

- Que Deus te abençoe minha filha, disse o padre, enquanto pensava quanto gostaria de ser ele a abençoar.

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A grande festa da aldeia estava próxima, os filhos da terra, emigrantes, que labutavam por esse mundo fora estavam a regressar às origens, as ofertas à Santa Padroeira, fruto das promessas dos devotos, iam enchendo o manto da imagem, que tinha que ser guardada não fosse algum amigo do alheio ser tentado pelos anéis, fios, pregadeiras de ouro e imensas notas que o cobriam.

O nosso padre andava perdido entre o dever e o pensamento que o atormentava, bem pedia a Deus força para resistir mas, o pai, ou não queria ou não podia ajudar.

Os pensamentos, santos, do padre estavam a tornar demoníaca a sua vontade, e o seu cérebro estava a cogitar a forma de poder encontrar-se a só com o motivo dos seus desejos, a Zulmira.

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Ia mandar, amanhã, o Serafim à cidade para comprar umas tantas coisas necessárias para ter a Igreja divinamente paramentada no dia da procissão. Ia de manhã, na carrinha da paróquia, e deveria voltar ao fim da tarde. Entretanto, o inocente padre, ia requisitar a Zulmira para o ajudar nos assuntos da sacristia.

O marido entrou na carrinha e Zulmira foi a caminho da sacristia ajudar no que fosse preciso.

O padre saltitava ao redor da moça, palavras ternas, atenções a que ela não estava habituada.

-Sabes Zulmira, dizia o padre, se eu encontrasse uma mulher como tu deixava a batina e casava.

-Oh senhor Padre não diga coisas dessas que eu fico sem jeito! Eu sei que esta a mangar com uma pobre rapariga da aldeia, quem iria acreditar que alguém, como o senhor podia gostar de uma simplória como eu!

-Juro rapariga que é verdade, dizia ele enquanto as mãos iam acariciando os hemisférios dos seus pensamentos. Zulmira bem o sacudia mas o padre estava atrevido.

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Sebastião, não gostava muito de andar sozinho de viagem, estava acostumado a andar com a sua mulher, mas era preciso, tinha que ser.

Andou três quilómetros quando a viatura foi tomada de soluços, primeiro deu um solavanco mas continuo a andar, deu mais um e ainda não parou, ao terceiro foi de vez, ficou estática.

Abriu a tampa do motor e olhou, mas nada lhe parecia fora do sítio, tinha óleo, tinha gasóleo, velas a carrinha não usava. Não sabia o que poderia ser.

Empurrou-a para a berma e ficou na expectativa de que alguém pudesse passar e, assim, conseguir uma boleia de volta.

O tempo passou e nada, só lhe restava voltar a pé, também era só três quilómetros, ia meter-se ao caminho.

Foi uma hora bem puxada, o que valia era estar um dia fresco. A igreja ainda estava fechada, o senhor padre devia estar na sacristia. Ia entrar pela porta do fundo.

Não gostou do que estava a ouvir e, muito menos, com o que se lhe deparou quando entrou. O padre tentando apalpar as mamas da mulher e a pobre Zulmira, em pequenos desvios, pedindo:

-Esteja sossegado senhor padre Zé!

O sacerdote quando se apercebeu, esfregou as mãos na batina, fingindo indiferença e tentando disfarçar o que Serafim tão bem estava a ver.

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O povo anda num alvoroço, o padre desapareceu de forma misteriosa e, com ele, todas as oferendas que eram muitas, cordões de oiro, anéis, alfinetes e dinheiro, bastante dinheiro.

Quem havia de dizer, parecia tão interessado no seu povo, mas a tentação até deixa perder os que melhor deviam resistir.

Fizeram a festa mas não foi a mesma coisa, não houve procissão e os fieis apenas puderam passar pela igreja e saudar a Padroeira que, tal como eles tinha um ar muito infeliz, talvez porque ao contrário dos outros sabia o que se tinha passado e, também, porque tinha o manto vazio das oferendas dos fieis.

Serafim e Zulmira voltaram para donde tinham vindo, sem padre não era necessário sacristão.

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Vão passados cinco anos e a polícia não deu pelo rasto do padre Zé Maria. Vão arquivar o processo.

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A Igreja, dizem os mais crédulos, está assombrada, Nas noites escuras ninguém se aproxima, ouvem-se cânticos como se alguém estivesse a celebrar uma missa.







quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os Troikanos (ou será a nossa triste sina?)

    






A noite estava chuvosa e o vento fustigava com violência as frágeis tábuas das janelas.

Maria Emília abriu timidamente o postigo, o vento frio enregelou-lhe a face, tentou lobrigar ao longo da rua a imagem do seu Pedro.

Saiu ainda a manhã não tinha raiado e já a noite há muito tinha tomado conta do que restava do dia e, ele não tinha regressado, o que a estava a preocupar.

A rua continuava deserta, apenas uma réstia da luz, do candeeiro da esquina, deixava ver a chuva intensa que continuava a cair abundantemente.

Fechou o postigo suavemente e apertou o ferrolho.

Ela já tinha notado que o marido andava estranho, mas quando tentava saber o que se passava ele fugia à questão, negando haver algo que o preocupasse.

Maria Emília não ficava convencida e só tinha receio que, Pedro, andasse metido nessas coisas da política.

Jantou, ela e o filho, e guardou o do marido, no forno.


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Acordou com o barulho da chuva nas telhas, o vento tinha aumentado de intensidade e parecia assobiar por entre as frinchas da porta.

O lugar ao seu lado continuava vazio, Pedro não voltou nessa noite a casa e Maria Emília começou a ficar preocupada, não é que não estivesse habituada a situações idênticas, mas nas outras vezes ele avisava da possibilidade disso vir a acontecer.

Acordou o Afonso e pensou como ia levar o rapaz à escola com este tempo, mas já que não tinha a carrinha, só lhe restava agasalhar bem a criança e agarrada às paredes meter-se ao caminho.


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Passou o dia numa agonia, queria concentrar-se no trabalho mas não conseguia, a linha ficava-lhe embaraçada no tecido e o dedal não tinha força para fazer avançar a agulha.

O tempo foi amainando e quando foi buscar o Afonso a chuva tinha desaparecido e, o céu tinha uma tonalidade que augurava uma melhoria do tempo.

A noite não tardava e notícias do Pedro nenhumas, a angústia começava a tomar posse da Maria Emília, o medo começava a tolher-lhe o pensamento e as dúvidas não a deixavam raciocinar.

Pensou ir ao posto da guarda, mas não sabia bem se o marido ia aprovar e, se depois fosse uma casualidade o atraso!

Ia esperar esta noite e se amanhã á hora de levar o menino à escola, o pai ainda não tivesse voltado, ia falar com o padre Isidoro e pedir-lhe conselho, pois o padre e o Pedro eram amigos de infância.

A noite foi de uma espertina total, não conseguiu pregar olho durante todas as santas horas, os mais pequenos ruídos pareciam-lhe os passos do seu homem.

Levantou-se aos tropeções, olheiras enormes e a cabeça numa confusão que não a deixavam raciocinar.

Olhou-se ao espelho e pensou que se o seu amor a visse agora, decerto que ficava sem querer voltar a casa. 

Acabou por sorrir.

Retocou a cara e amenizou o inchaço dos olhos antes de acordar o Afonso, que não estava com muita vontade em deixar os lençóis, mas com umas cócegas e muitos beijinhos lá se foi levantando.

Enquanto tomava o pequeno-almoço, o menino, perguntou pelo pai e ela ficou um pouco embaraçada, mas foi dizendo que foi trabalhar, que não tardava estava de volta.

Entregou o petiz à dona Irene, a professora, e abalou a caminho da igreja para falar com o padre Isidoro.

Teve que esperar porque estava na hora das confissões e, a julgar pela fila das mulheres, devia haver muitos pecados nesta terra.

Esperou, quase, uma hora mas finalmente o padre despachou a função de purificar aquelas almas e
acenou à Maria Emília para que se aproximasse.

Foi uma conversa informal, entre duas pessoas que se conhecem, um pedido de ajuda para uma preocupação.

O padre Isidoro coçou o queixo, passou a mão pela tonsura em sinal de reflexão e de preocupação pelo que estava a escutar.

Não era normal o seu amigo Pedro deixar assim o filho e a mulher, algo de grave devia ter acontecido, amanhã bem cedo Iria falar com o responsável da polícia na terra.

Maria Emília continuou apoquentada mas, parece, que a preocupação dividida era mais fácil de suportar.


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O padre fez tudo o que estava ao seu alcance, contactou as autoridades, rezou com muita fé e,
no sermão de Domingo, apelou aos fiéis para estarem atentos a todos os indícios que pudessem
 fornecer alguma pista.

O padre Isidoro era um homem um pouco estranho, temente a Deus mas com umas ideias que já lhe tinham causado alguns dissabores, pois os poderes instituídos não aceitavam que, nas suas prédicas, clamasse pela igualdade entre os homens e falasse de coisas como a das classes sociais, o que lhe valeu ser chamado ao posto e a um interrogatório onde foi acusado de incitar o povo a práticas subversivas. Valeu-lhe a intervenção do senhor Bispo e uma reprimenda que o deixou um pouco céptico, sobre a posição da igreja perante as desigualdades de que enfermava a nossa sociedade.

Mas tinha feito o juramento de servir a santa Madre Igreja e não podia fugir aos seus votos.


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Um mês vai passado, muitos pensam que Pedro foi atrás de umas saias, outros estão convencidos que deve ter aderido a um partido político na clandestinidade e alguns, mais pessimistas, julgam que Pedro já não faz parte dos vivos.


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Pedro Coruja, hoje, levantou-se mais cedo do que era costume.

Deu um ténue beijo na mulher que dormia profundamente, espreitou o filho numa paz de anjo e enfrentou a borrasca que tão intensamente fustigava a povoação.

A carrinha teve alguma relutância em pegar à primeira mas, com alguma persistência, acabou por dar sinal de vida.

Avançou até ao final da rua e seguiu pelo caminho de terra batida que o levava à estrada, sem ter que passar pelas ruas da aldeia.

Andou alguns quilómetros indiferente aos buracos que faziam saltar a geringonça, embalada pelas fortes rajadas e pela chuva que mal deixava descortinar o enlameado caminho.

Levava a cabeça toldada pelos pensamentos e um aperto no peito, por ter que deixar desta forma Afonso e a sua Maria Emília, mas tinha que ser, foram essas as ordens que lhe haviam monitorizado.

A chuva parecia querer diminuir e uma réstia de dia estava a atenuar a escuridão, só o vento não dava mostra de abrandar e o carro continuava num balouçar desconfortável.

Faltavam poucos quilómetros para chegar, depois da próxima curva teria que entrar numa vereda que o levaria ao alto dos Quatro Caminhos, local para o qual o programaram para o encontro.

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Tudo começou no dia em que foi atordoado por aquela luz que o cegou e pelo zunido que não conseguia descrever. Quando os olhos se habituaram ao brilho viu-se rodeado por uma infinidade de figuras estranhas que pareciam saídas de um filme de ficção, comandadas por três vultos, autênticos truões, que chispando reflexos multicoloridos e diziam com voz metálica e destorcida:

- Fostes o escolhido, é a ti que vamos purificar.

De repente sentiu-se engolido num remoinho, nada sentia a não ser com se o corpo se estivesse a desprender dos sentidos e da mente.

Sentia-se letárgico, estonteado, numa bebedeira de sons e cores que não sabia descodificar.

Os seres esquisitos pululavam à sua volta, mexiam, ligavam eléctrodos e arreganhavam a fenda por onde emitiam aqueles sons esquisitos, parecidos com uns estranhos sorrisos de bobos.

Quando o deixaram não era o mesmo, estava programado, ia fazer o que lhe introduziram e cumprir sem conhecer porque e muito menos sem explicação.

Sabia que tinha que estar num determinado dia, num dado lugar, numa certa hora.

Deixou de ter vontade. Não era ainda um deles, mas sabia ia fazer o que queriam e parece que, agora, até o desejava.


*****


Estava a chegar ao lugar que o chip que, algures no seu cérebro, lhe ia dando as instruções.

A chuva secou como por encanto, o vento tornou-se numa brisa ténue e quente, o Sol brilhava nuns tons avermelhados.

Já estava a ver máquina que os trazia, uma espécie de aparelho sugador, reluzente e cheio de tubos, mangueiras e objectos chupadores.

Parou a carrinha que, tal como a abóbora da gata borralheira, se transformou num topo de gama, digno de um alto dignitário de quaisquer pais da CEE.

Foi apanhado, novamente, no remoinho mas não sentiu nada de especial porque adormeceu profundamente.

Quando acordou, não sabia quanto tempo esteve ausente, abriu os olhos e gostou do novo aspecto, mais polido, sem emoções, sorriso postiço na ponta dos lábios e, tal como a máquina, com mangueiras sugadoras, a que iria designar como ministros.

Aqueles a que todos chamavam chefes eram mais altos, tinham uma espécie de olhos azuis, nada faziam apenas olhavam e ditavam ordens.

Quando falaram, o agora doutor Pedro, percebia perfeitamente aquela língua como se sempre a tivesse falado:

-Agora és um troikano, um de nossos, todos te vão chamar senhor doutor Pedro Coruja, vais ser primeiro-ministro de um país. O teu dever è sacar tudo o que poderes, põe essa cambada a pedir, porque esta nave precisa de muito alimento.

O Doutor P.C. foi eleito primeiro-ministro de uma pobre nação que está agora a ser transformado num povo, ainda, mais miserável.


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A aldeia está triste, restam os velhos e algumas, poucas, crianças.

Os outros, incluindo os dois professores, emigraram aconselhados pelos ilustres que governam este país.

Emília ainda tem esperança, quem sabe o seu Pedro não volta, como o outro, numa manhã de nevoeiro!

Quem sabe se um pé da cadeira, do PM, não quebra como uma quebrou há muitos anos!

Quem sabe!

Tenhamos esperança.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Carta ao Pai Natal.





Olá Pai Natal.

Sou o Manuel! Eu sei que não te lembras de mim e não precisas procurar na lista porque sai de lá há muito, se é que alguma vez lá estive.

Quando eu era pequenino tu ainda eras só São Nicolau, padroeiro dos marinheiros. Pai Natal não havia, nem Coca-Cola!

Era o Menino Jesus que fazia a distribuição das prendas, mas não se saiu lá muito bem.

É o que parece!

Também, onde se viu encarregar um menino de uma tarefa tão grande!

Era natural que houvesse falhas. O menino, que morava ao meu lado, tinha sempre o sapatinho atulhado de prendas e o meu acordava como tinha adormecido, vazio.

Seria que a outra chaminé era mais acessível? Nunca cheguei a descobrir!

Depois alguém viu que essa missão era demasiada para um menino, e a Direcção de Recursos da Coca-Cola resolveram, e muito bem, a mudança.

Foi a tua sorte, pois de um Santo só conhecido nalguns países passastes a um símbolo do Natal.

Agora tem atenção e não cometas os mesmos erros. Olha que a Coca-Cola ainda existe e pode escolher outro.

Tem cuidado!.

Era só isto que tinha para te dizer.

Desejo, espero, que tenhas um Bom Natal.

Manuel


PS
Olha que há meninos que não tem chaminé e muitos nem sequer têm sapatos. Não os esqueças.





terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A última carta ou….um pensamento miserável


Um dia escrevi esta carta. Não por mim, mas sim, por um repto que me lançaram.



 

Meu amor.

Não sei o que passa mas desde que cheguei a este lugar horroroso não mais tive noticias tuas.

Quando pergunto, dizem que reze por ti.

Tenho a mente muito perturbada.  Ando a dormir a maior parte do tempo e o meu corpo perdeu a força e a genica que tanto elogiavas.

Julgo que os comprimidos que me obrigam a engolir não me deixam livre o pensamento, é estranho que para tratarem, dizem, a minha depressão me encerrem com esta gente que grita, que anda indiferente, que se arrasta da cama para o banco, que se baba e que olha em frente como se vissem para além do infinito.

As noites são horrorosas, mas tenho força para enfrentar e luto para ficar bom e poder estar outra vez junto a ti.

Tenho saudades do teu corpo, dos teus afagos, do nosso amor. Quero rebolar, contigo, no chão da sala. De te despir num frenesim de beijos, de carícias. De sentir a tua língua a procurar a minha, das tuas unhas arranhando as minhas costas. E quando o nosso amor explode parece que o mundo é só nosso. Ficamos cansados, ofegantes, corpos colados num prostrar tão saboroso.

Sinto vontade de passear contigo, de mãos dadas como crianças num parque. 

Tenho o desejo de olhar os teus olhos que me prometem tudo o que mais quero.

Anseio possuir o desejo da tua paixão, beijar os teus olhos na vontade duma procura de afectos, na certeza de um amor que é nosso, só nosso.

Mas todas estas vontades morrem quando me dão a injecção que entra no meu sangue como um fogo que me toma e me leva para um mundo que não é o meu. A minha cabeça parece que rodopia numa espiral de sonhos, depois é o silêncio e o escuro.

Quando volto a acordar é como se tivesse nascido de novo, tudo é estranho, tudo é diferente. Devagar, muito devagar volto á vida. Lentamente as ideias regressam à minha mente.

Depois são os pensamentos e os porquês. Porque estou aqui, porque não me vens ver, porque não respondes as minhas cartas?

Será que não te disseram onde estou? Será que não recebes os  lamentos, que periodicamente vou deixando no papel para te enviar?

Será que já morri e penso que ainda habito no teu espaço? Ou será que  tu já não me queres? Não quero pensar nesta parvoíce!

Tenho que acabar esta carta e de arranjar maneira de ta enviar, tenho que descobrir forma de não ma tirarem.

O enfermeiro já aparece ao fundo do corredor, depois é a injecção,  a espiral, o afundar nesse buraco fundo e escuro.

Fugir? Não sou capaz.

Vou dormir.

Até um dia meu amor!    





quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poema de um dia triste



                                                 




Já estive
Sai
Não sei se volto.

Quando cheguei,
Virei do avesso o que encontrei;
Coisas velhas ruidas pelo tempo,
Quadros desbotados,
Trapos velhos,
Farrapos puídos,
Amores desfeitos,
Lágrimas secas.

Ao sair
Tropecei no que resta,
Cinzas de um tempo,
Cadáver pestilento,
Mumificado,
Sem rosto,
Sem cor,
Sem tempo.

Não vou voltar,
Vou andar por ai
Procurando
Não sei bem o que!




sábado, 3 de dezembro de 2011

A troca




-Oh pai, eu pedi uma mana e porque é que vocês me deram um mano que não fala?

-Já te expliquei que não se pode escolher e o mano não fala porque só tem um mês.

-Mas pai, eu queria um que falasse comigo.

-Querida os bebés de um mês não sabem falar.

-Mas porque?

-Porque ainda não tiveram tempo para aprender.

-Pois, ele está sempre a dormir ou a chorar, não pode ter tempo para aprender.

-Não é assim. Ele vai crescer e depois já fala com a mana.

-Quando pai?

-Oh querida, para ai dentro de um ano.

-Um ano é quanto tempo?

-Sabes quando fizestes 5 anos e os papás te deram a bicicleta cor-de-rosa? Agora vais fazer 6 aninhos e isso    
  é passar um ano.

-Mas isso é muito tempo.

-Passa muito depressa, vais ver.

-Mas até lá podias por na barriga da mãe uma mana que já soubesse falar.

-Tens cada ideia.

-Achas pai, é boa ideia não é?

-Não seja tonta e vai brincar, o teu mano está a chorar e vou ver o que é?

-Eu sei porque ele chora e sei porque ele faz cocó e xixi na fralda.

-Espertinha, então porque?

-É fácil, chora porque quer a maminha da mamã e faz cocó e xixi porque é porcalhão.

-Vai brincar rapariga. Estás impossível!





sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Solidário







Não sei se foi um sorriso ou e se foi apenas um esgar que lhe arrepanhou os lábios.

Havia tanta tristeza naquele rosto, que o brilho se perdia e deixava, apenas, um franzir quase imperceptível.

Olhei os olhos que me fitavam e tentei vislumbrar alguma chama naquele olhar tão triste.

Pareceu-me que uma lágrima, teimosamente, queria escorrer mas que o orgulho que lhe restava conseguia segurar.

Era uma angústia reprimida, um sufoco que apertava o coração de uma maneira tão intensa que se notava na inquietação daqueles olhos.

Fiquei deslumbrado pela beleza escondida e abafada por tamanho sofrimento.

Que seria que tão intensamente, perturbava aquele rosto radiante de beleza mas tão carregado de mágoas?

O meu pensamento cogitava tantos motivos. O marido fugiu com uma brasileira mais afoita! Ou namorado 
descobriu que afinal não gostava, especialmente, de mulheres!

Timidamente aproximei-me e perguntei o que ensombrava a beleza daquele olhar?

Fitou-me de uma forma curiosa, aproximou a boca do meu ouvido e contou-me todas as suas mágoas.

Compreendi o sofrimento.

Era minha irmã na desgraça.

Encostamos as nossas cabeças e choramos em uníssono.