O padre Zé Maria tinha um sonho, não era propriamente um modelo de virtudes, mas sonhava ter um dia uma estátua no Largo da Igreja a imortalizar a sua beatitude e bondade.
Mas sonhos são sonhos e, por vezes, atraiçoam os caminhos e desígnios dos pobres mortais, sujeitos às tentações que o criador na sua bendita sabedora, vai colocando no caminho dos pobres e incautos mortais.
Foi para padre, não propriamente por vocação, mas para fugir ao trabalho no campo que lhe estava destinado. Valeu-lhe o cónego Desidério que convenceu os pais e o encaminhou para o seminário.
Não foi fácil, a vida era dura e a inteligência nunca foi o seu forte, mas chegou ao fim e hoje estava nesta paróquia onde era admirado e respeitado por todos.
Ainda se lembrava no dia em que celebrou a missa nova, foi na Igreja da sua terra, e o orgulho dos seus pais foi a melhor recompensa, para aquela seca e sacrifício dos anos em que esteve amarrado às regras e exigências dum curso, em que lhes eram impingidas teorias e retóricas que, pensava ele, nada acrescentavam a este mundo.
Mas agora sabia que tinha valido a pena, assegurou o futuro e sentia-se confortável com a forma como os seus paroquianos o tratavam, respeitavam e o enchiam de mimos e atenções.
O trabalho era muito e, agora que festa da aldeia se aproximava, sentia que lhe era difícil dar conta do recado, amanhã ia telefonar ao Senhor Bispo, a pedir a ajuda dum padre que lhe desse algum alivio em tantas tarefas que tinha pela frente.
Assim o pensou e assim o fez, e o Senhor Bispo com toda a sabedoria que o Pai do Céu lhe tinha concedido disse-lhe:
-Oh padre Zé Maria, porque não arranja um sacristão para o ajudar em todas as lides da Igreja?
Realmente, pensou Zé Maria, por isso é que ele é Bispo para se lembrar das coisas certas e para resolver todos os problemas.
*******
Não conhecia ninguém para essa tarefa mas, amanhã ia falar com o presidente da junta de freguesia que decerto o ia aconselhar.
O presidente da Junta, José Serôdio, garantiu-lhe ter, numa aldeia próxima, um tipo que podia dar um belo sacristão, assim ele estivesse disposto a isso.
Era educado, temente a Deus e estava desempregado, amanhã mesmo ia conversar com ele e, se estivesse interessado, mandava-o falar com o padre Zé, que agradeceu com um Deus o abençoe.
***********
O rapaz tinha bom aspecto, parecia educado e estava disposto a começar em breve, era só mudar para a casa da Igreja.
O padre respirou de alívio, o sacristão percebia do assunto, diligente e com um sentido de organização que deixava o sacerdote feliz. Podia, enfim, dedicar-se à igreja sem a preocupação e as burocracias que tanto detestava e que, ao mesmo tempo, tanto o ocupavam, não só por ser desorganizado como por alguma inaptidão para assuntos que fossem além do que aprendeu, tal como missas, casamentos, baptizados e funerais. Agora estava tranquilo.
Terminada a eucaristia das 9 horas, Serafim, assim se chamava o sacristão perguntou:
-Senhor Padre não se importa que a minha mulher me ajude nestas lidas? Além de me dar jeito também é bom para ela não estar tanto tempo sozinha.
-Não sabia que eras casado, ripostou o padre, mas por mim tudo bem, a igreja só tem a agradecer. Mas já me devias ter apresentado a tua mulher, afinal esta casa também vai ser a dela.
Serafim corou, de fato devia, mas era um bocado tímido.
-Peço desculpa, senhor padre Zé, mas ela esteve a assistir à cerimónia e ainda está na Igreja, eu vou chamar.
Quando Zulmira entrou na sacristia, o padre ficou estarrecido, era padre mas não deixava de ser homem. A rapariga era mesmo o género que bulia com o pequeno demónio que o habitava. Era uma moça roliça, peito arfante num apertado corpete que deixavam ver duas calotas esféricas, túmidas e tentadores. O padre estendeu a mão, quase tímido, enquanto os olhos continuavam hipnotizados na visão que o perturbava.
Zulmira flectiu o joelho e pousou-lhe um leve beijo no dedo médio e pediu:
-Sua bênção senhor padre.
- Que Deus te abençoe minha filha, disse o padre, enquanto pensava quanto gostaria de ser ele a abençoar.
*********
A grande festa da aldeia estava próxima, os filhos da terra, emigrantes, que labutavam por esse mundo fora estavam a regressar às origens, as ofertas à Santa Padroeira, fruto das promessas dos devotos, iam enchendo o manto da imagem, que tinha que ser guardada não fosse algum amigo do alheio ser tentado pelos anéis, fios, pregadeiras de ouro e imensas notas que o cobriam.
O nosso padre andava perdido entre o dever e o pensamento que o atormentava, bem pedia a Deus força para resistir mas, o pai, ou não queria ou não podia ajudar.
Os pensamentos, santos, do padre estavam a tornar demoníaca a sua vontade, e o seu cérebro estava a cogitar a forma de poder encontrar-se a só com o motivo dos seus desejos, a Zulmira.
************
Ia mandar, amanhã, o Serafim à cidade para comprar umas tantas coisas necessárias para ter a Igreja divinamente paramentada no dia da procissão. Ia de manhã, na carrinha da paróquia, e deveria voltar ao fim da tarde. Entretanto, o inocente padre, ia requisitar a Zulmira para o ajudar nos assuntos da sacristia.
O marido entrou na carrinha e Zulmira foi a caminho da sacristia ajudar no que fosse preciso.
O padre saltitava ao redor da moça, palavras ternas, atenções a que ela não estava habituada.
-Sabes Zulmira, dizia o padre, se eu encontrasse uma mulher como tu deixava a batina e casava.
-Oh senhor Padre não diga coisas dessas que eu fico sem jeito! Eu sei que esta a mangar com uma pobre rapariga da aldeia, quem iria acreditar que alguém, como o senhor podia gostar de uma simplória como eu!
-Juro rapariga que é verdade, dizia ele enquanto as mãos iam acariciando os hemisférios dos seus pensamentos. Zulmira bem o sacudia mas o padre estava atrevido.
********
Sebastião, não gostava muito de andar sozinho de viagem, estava acostumado a andar com a sua mulher, mas era preciso, tinha que ser.
Andou três quilómetros quando a viatura foi tomada de soluços, primeiro deu um solavanco mas continuo a andar, deu mais um e ainda não parou, ao terceiro foi de vez, ficou estática.
Abriu a tampa do motor e olhou, mas nada lhe parecia fora do sítio, tinha óleo, tinha gasóleo, velas a carrinha não usava. Não sabia o que poderia ser.
Empurrou-a para a berma e ficou na expectativa de que alguém pudesse passar e, assim, conseguir uma boleia de volta.
O tempo passou e nada, só lhe restava voltar a pé, também era só três quilómetros, ia meter-se ao caminho.
Foi uma hora bem puxada, o que valia era estar um dia fresco. A igreja ainda estava fechada, o senhor padre devia estar na sacristia. Ia entrar pela porta do fundo.
Não gostou do que estava a ouvir e, muito menos, com o que se lhe deparou quando entrou. O padre tentando apalpar as mamas da mulher e a pobre Zulmira, em pequenos desvios, pedindo:
-Esteja sossegado senhor padre Zé!
O sacerdote quando se apercebeu, esfregou as mãos na batina, fingindo indiferença e tentando disfarçar o que Serafim tão bem estava a ver.
*********
O povo anda num alvoroço, o padre desapareceu de forma misteriosa e, com ele, todas as oferendas que eram muitas, cordões de oiro, anéis, alfinetes e dinheiro, bastante dinheiro.
Quem havia de dizer, parecia tão interessado no seu povo, mas a tentação até deixa perder os que melhor deviam resistir.
Fizeram a festa mas não foi a mesma coisa, não houve procissão e os fieis apenas puderam passar pela igreja e saudar a Padroeira que, tal como eles tinha um ar muito infeliz, talvez porque ao contrário dos outros sabia o que se tinha passado e, também, porque tinha o manto vazio das oferendas dos fieis.
Serafim e Zulmira voltaram para donde tinham vindo, sem padre não era necessário sacristão.
**********
Vão passados cinco anos e a polícia não deu pelo rasto do padre Zé Maria. Vão arquivar o processo.
***********
A Igreja, dizem os mais crédulos, está assombrada, Nas noites escuras ninguém se aproxima, ouvem-se cânticos como se alguém estivesse a celebrar uma missa.





