domingo, 19 de fevereiro de 2012

À primeira vista.....




Foi um caso de amor á primeira vista ou talvez, mais propriamente, ao primeiro olhar.

Vou contar, muitos não vão acreditar mas é a pura verdade. Juro!

Armindo entrou no café, olhou em redor como era seu costume e ficou, simplesmente, fascinado com a beleza da mulher sentada numa mesa ao canto da sala. Dizer que era linda seria um lugar-comum, pois havia algo que a tornava especial.
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Os cabelos, em suaves caracóis, emolduravam um rosto angelical onde a delicadeza das formas e a luminescência que irradiava, o tornava diferente de todas que já tinha visto.

Olhou-a com intensidade e esperou um gesto, um olhar, um sorriso mas apenas o encanto para o inebriar.

Bebeu o café sem tirar os olhos daquela angelical criatura, que Deus lhe colocou no caminho.

Ela continuava impávida passeando o olhar por tudo e por todos, quase como flutuando como uma brisa que nos afaga.

Armindo estava como que aparvalhado, absorto, num fascínio que o deixava preso na figura que parecia desafiar os sentimentos.

Quis prender-lhe o olhar mas, ela vagueava num alheamento que o perturbava e lhe fazia ciúmes, parecia olhar para tudo e para todos sem nunca, de verdade, olhar para ele de forma fixa.

Estava ali há meia hora e, ela, continuava só, bebendo em goles pequenos e suaves um copo de coca-cola.

Podia esperar alguém, mas não parecia, não mostrava a ansiedade de quem espera, estava calma e serena.

Armindo reuniu toda a coragem, levantou-se, dirigiu-se à mesa e perguntou:

-Posso fazer-lhe companhia?

Não pareceu surpreendida, fitou-o antes de convidar:

-Faz favor, há uma cadeira vaga, não há?

Olhou-a bem no rosto, de perto, a beleza era mais resplandecente. Pele de veludo, olhos de um verde tão transparente que pareciam gotas de orvalho no brilho da manhã.

-Senhor, começou ela, será que todas as mesas estão ocupadas, ou sucederá que nos conhecemos e eu não me lembro?

-Não, gaguejou ele, foi para meter conversa e, confesso, porque estava doido para a conhecer!

O sorriso, era uma pura loucura, quase luminoso.

-Pronto senhor já me conheceu, espero não o ter decepcionado.

-Mas, arriscou Armindo, podíamos, talvez, sair e conversar.

-Sabe, disse ela, mas já me conhece, já estamos a falar, não acha suficiente?

Armindo ficou desarmado, não estava preparado para esta resposta mas arriscou:

-Percebe que este conhecimento, se me permite, é como um amor à primeira vista, é uma atracção que não sei explicar, olhei para si e achei que era especial, houve como que uma campainha que disparou dentro de mim, não sei expor. Gostava de a conhecer melhor, queria que me visse mais vezes pois, quem sabe, não me começaria a ver com outros olhos.

Ela nem pestanejou, aqueles olhos verdes pareciam duas esmeraldas, e quase num sussurro murmurou:

-Sabe senhor, nunca o irei ver com outros olhos, só tenho estes e, para meu mal, são cegos.

Abriu a mala, tirou uma bengala extensível e calmamente saiu para o sol que brilhava lá fora.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O dia em nasci







Não sei quem sou, ando perdido...

Num caminho que nunca escolhi...

Por mais que procure não me encontro...

Pela vida, decerto, fui esquecido...

Destroços, pedaços do que não fui...

Tristezas do que queria e nunca vi...

Amarguras que o tempo não apaga,,,

Tristezas pelo que tive e já não tenho,,,

Saudades dum abraço que partiu...

Das palavras lindas que já não escuto,,,

Dos sorrisos que iluminavam este negrume,,,

Procuro em vão, mas nada existe...

Só esta agonia que me embala...

Que alimenta a tristeza que devora...

No futuro que já tive, mas não tenho...

Quero adormecer de mansinho...

Num sono calmo que conforta...

Acordar num dia que há-de vir...

Morrer todo este meu passado...

Voltar outra vez ao dia em nasci.




domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tempos modernos



Não sabia o nome mas o seu coração já lhe pertencia.

Por diversas vezes tinha tentado fazer-se notado mas, ela, parecia indiferente ou fingia.

Não ia desistir, nunca o fizera e não iria ser agora, pois tinha a noção de que se estava a fazer difícil, e para ele, mulheres difíceis era um desafia que adorava e a que esta acostumado.

Hoje estava, ainda, mais radiosa, brilhava de sensualidade, pernas longas a que uma reduzida saia davam um encanto muito especial, o decote cortado de forma certa e propositada deixava ver o suficiente para fazer adivinhar o que estava escondido.

*****

Eduardo pensou que seria hoje ou nunca, não delineou nenhuma estratégia, não tinha nenhum plano mas tinha confiança no seu sex-appeal.

*****l

Francisca, assim que pisou a calçada apercebeu-se daquele ar embasbacado do homem, mas ia ficar indiferente e fingir que não percebia pois já estava habituada aos olhares gulosos de conquistadores baratos.

Tinha, quase, asco do andar gingão e do olhar laivoso daquele sujeito que só pelo facto de ser vizinho e doutorzinho, que vivendo à custa os papás, se sentia dono da rua, do bairro e se calhar do mundo.

Estugou o passo e fingiu não perceber o convite para um café e, muito menos, para um cinema.

Olhou de atravessado antes de dizes    :

-Não se importa de me desemparar a loja?

******

Eduardo estava a ficar um pouco frustrado, a tipa era mais difícil do que pensava, mas estava desconfiado que era estratégia para se fazer mais desejada, as mulheres tem dessas coisas, sabem muito.

Pelo andar ia para a pastelaria, pelo menos levava esse jeito e aí, era um bom local para uma abordagem mais directa.

Não estava enganado, o borracho ia mesmo beber café.

*********
Apressou o passo, queria entrar antes, para que ela ao chegar o tivesse que encarar de frente.

Ela chegou majestosa, irradiando beleza, encaminhou-se para uma mesa onde outra mulher parecia espera-la.

Beijaram-se ternamente nos lábios, entrelaçaram as mãos e, enlevadas, saíram para o sol que brilhava esplendoroso.

Eduardo fez beicinho, colocou os cotovelos no balcão e pediu uma bica.

 Modernices!


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Na praia





Eu vi… quando emergistes da onda como deusa das águas, cabelos revoltos em espuma, seios como promontórios de cumes rosados. Figura mágica de beleza que inebria.


 Eu compreendi … os olhos dos homens embalados pelo teu andar. A inveja das mulheres quando caminhavas na areia encharcada. Diva de corpo coleante, sorriso de marfim. 
   

Eu senti …. os teus olhos procurando os meus. Lábios de carmim húmidos de sensualidade, sorriso de Sol radioso. Beijo salgado que adoça a fome dos meus sentidos.


Eu entendi … o chamamento do teu corpo. Doçura de cabeça em descanso na almofada do meu peito. Corpo agitado, olhos ternos, boca ardente.


Eu percebi...o dia acabou a noite vai começar.






domingo, 22 de janeiro de 2012

Minha rica orelha ou uma coisa melodramática






Não sei se era o Sol que de repente começou a entrar pelas frestas da persiana, ou se era o cantar dos pássaros que em suaves trinados me iam despertando, A verdade é que abri os olhos com a sensação de não saber onde me encontrava.

Olhei com curiosidade tudo o que me rodeava, uns quadros na parede com motivos campestres que me eram, totalmente, desconhecidos e no tecto um candeeiro de vidrinhos que iam brilhando à medida que a luz ia rompendo a penumbra do quarto.

A pouco-e-pouco as ideias iam surgindo de uma forma difusa embora as minhas recordacões não me permitissem, ainda, descobrir porque estava a despertar num ambiente que me era desconhecido.

Tirei uma perna com dificuldade, o corpo doia-me e havia em mim um torpor desconfortante, mas a custo conseguí por-me de pé e cambaleando aproxime-me da janela para expreitar onde me encontrava. Foi com multo custo que conseguí levantar as persianas e olhar atravez de umas grossas grades que me separavam de um terreiro onde algumas árvores de fruto amenizavam a aridez do terreno.

Arrastando o corpo, onde todos os ossos reclamavam, tentei a porta do quarto que nem se mexeu, embora o meu muito esforço.

Voltei a sentar-me na cama a tentar recordar como vim aquí parar e o que podía ter acontecido para me encontrar nesta clausura. Voltei a insistir, mas a porta apenas me causava gemidos, à medida que os meus músculos se esforçavam na tentativa de fazer ceder a cortina que me separava do dia lá fora.

Aos poucos os vapores que me toldavam o cérebro estavam a libertar os meus pensamentos. Havia como que uma imagem difusa, a bebida, a mulher e aqueles dois homens que me ampararam quando tombei.
Depois uma escuridão que não me deixa ver mais nada.



Quando entrei no bar, senti o sorriso e aquele olhar eivado de promessas e o jeito dengoso de mil caricias.
Quando me perguntou se lhe pagava um copo, eu já estava naquela fase parva em que passei pensar com a parte menos adquada do corpo.
Afivelei o meu melhor sorriso antes de peguntar o que estava a beber.

Olhou-me, quase descarada, sorriso de mel escorrendo nuns lábios de cerejas maduras.

Ajeitou o corpo na cadeira e pestanejou antes de me responder:

-Estava a beber um daikiri mas bebia outro.

O empregado olhou-me esperando o meu assentimento.

-Traga dois por favor.

- Espere, eu vou buscar e coleou o corpo num jeito que me deixou embasbacado.


Voltou com os dois copos e poisou as bebidas, enquanto com um olhar doce me ia seduzindo.

Antes de pegar no copo, estendeu-me uma mão esguia e bem cuidada.

-Sou a Jenice e o senhor, se não me engano, é o doutor Seabra?

Mas, balbuciei:

-Como sabe o meu nome?

-Mas quem não sabe? O jovem mais desejado, o futuro herdeiro da família Galiano Seabra !

-Bom, muito me conta, e eu que pensava vir a um bar, beber um copo como qualquer, passando despercebido.

Não me estava a sentir muito bem, era a cabeça que girava de forma descoordenada.

Senti-me desfalecer e, ainda, me apercebi de uns braços fortes que me arrastaram antes da queda.

Depois, só o escuro.



Era isso! Foi a bebida que me drogou e agora estou encerrado neste quarto com uma porta à prova de arrombamento e com umas janelas com poderosas grades.

Só não sabia o motivo.

Alguém estava a abrir a porta, ia finalmente saber o porque desta clausura.

Era um gajo enorme, de tal forma que a pistola que empunhava parecia um brinquedo.

Deu-me um empurrão que me atirou, como se fosse uma folha,contra a parede.

Largou uma gargalhada perante a minha fragilidade antes de sibilar

-Ouça rapazinho mimado, vamos ver se os seus paizinhos largam o gito antes de cortar uma orelha do seu menino! Vão saber que não estamos a brincar. Têm dois dias para arranjarem a massa.

Deu uma gargalhada, deixou um prato de alumínio com algo que devia ser a minha refeição. Cerrou a pesada porta e, pelo barulho dos passos, afastou-se.

Era então isso, fui raptado e os velhotes estavam a ser pressionados para pagarem um resgate. Tinha que pensar, tinha que arranjar uma maneira de escapar. Mas como?

Estava entre quatro paredes, num quarto estranho, uma espécie de cela com uma cama, uma mesa redonda e uma cadeira com um forro desbotado, ao canto detrás de um biombo uma sanita e um pequeno lavatório.

Perscrutei o que a minha prisão me mostrava, para além das arvores mal tratadas, mas apenas me era dado um céu muito azul matizado com pequenos cirros.

Estudei as grades, mas além de grossas estavam bem entroncadas na parede de pedra pelo que seria impensável qualquer tentativa por este lado, restava a porta que parecia solida como um rochedo.

Comi o que me deixaram no prato, uma massa espapaçada com carne. Não sei se foi a fome ou se a cozinheira era boa, pois apesar de tudo estava saborosa.

Comecei num quase desespero e sentia o que os meus pais estariam sofrendo, se saberem bem o que deviam fazer. O meu pai era um grande empresário mas, ultimamente, era eu quem geria os  negócios, pois a sua saúde não era a melhor.

Mandar uma mensagem era impensável, pois tinham-me tirado o telemóvel.

As idéias andavam baralhadas no turbilhão no meu pensamento, fugir era impossível, mandar mensagem estava fora de questão . Alem de não ter telemóvel também não sabia dizer onde me encontrava.

Pensei, idéia louco, atacar o guarda quando ele voltasse a aparecer mas era tão grande e ainda armado que seria pura loucura ou suicídio.

Sentei-me no chão, ao canto da sala, cogitando uma solução.

Da fora, muito ao longe, escutei o barulho de uma mota, sinal de que havia um caminho não muito longe.

Lentamente ia escurecendo e eu sentia uma tristeza e impotência que me mantinha totalmente em alerta. Ouvi, novamente, uns passos que se aproximavam, o desespero tomou conta de mim. Olhei em redor e nada que pudesse servir de arma.

Abriram a porta e senti um grosso ferrolho que, certamente, a fechava por fora.

Era outro, também, grande e atlético como o anterior mas menos agressivo.

Disse boa noite, tirou o prato e deixou uma tijela de sopa e um naco de pão.

Tinha uns olhos frios e pouco amistosos, mas apesar de tudo não usou de nenhuma violência, apenas disse:

-Coma porque tudo se vai resolver. Deixou um sorriso tão duro que senti como se uma lâmina de aço me tivesse atravessado.

Senti o fecho a trancar a porta e uns passos a subir, ou descer, uns degraus. Depois o silêncio.

Tinha que agir depressa pois o tempo começava a jogar contra mim, não tardava e vinte e quatro horas estariam gastas e, essa ameaça, de cortar uma orelha podia ser a sério.

Foi uma noite de insônias, sonhos tenebrosos, um barbeiro com uma afiada navalha de barba corria atrás de uma pobre orelha. Tão estranho uma orelha separada do corpo.

Acordei cedo, ao longe ouvia um galo cantar, e o sol começava a despontar. Não sei as horas pois o meu relógio desapareceu.

A minha cabeça não parava na procura de uma idéia, algo que me ajuda-se a encontrar uma saída, uma pista para me libertar.



Uma ideia começou a florir na minha mente, era quase louca mas o que me restava afinal? Tinha duas alternativas, uma a mutilação, até mais certo a morte, na outra a esperança de lutar pela sobrevivência. Lembrei os meus pais o que estavam a sofrer, e de uma forma especial a minha mãe com todos os problemas de coração.

O plano era simples se eu conseguisse algo que servisse de arma, um tubo, um pau ou algo para dar uma pancada forte e pôr a dormir uma dos gorilas que me visitava.
Era isso mesmo, a cadeira, se eu conseguisse tirar uma perna era uma boa arma.

Foi uma tarefa difícil mas ao fim de algumas hora e a muito custo, consegui.

Era um bom pedaço de madeira dura que usado de forma certa e com força podia resultar.

Agora tinha que engendrar o resto do plano.

O que sobrou da, cadeira, foi para debaixo dos lençóis que juntamente com as almofadas davam a sensação de estar alguém deitado. Dei os últimos retoques e pareceu-me perfeito. Agora ia esperar ouvir os passos, esconder- me detrás da porta e rezar para que tudo resultasse.


Não tardou uns passos no exterior anunciavam a indesejada visita.

Entrou e gargalhou:

-Então o menino quer o jantarinho na cama?

Reuni toda a minha força e descarreguei, violentamente, a improvisada arma na cabeça do carcereiro. O pau partiu mas ele tombou como que anestesiado.

Retirei-lhe a pistola, fiz o lençol em tiras para o amarrar e amordaçar.



Era um corredor e estava vazio, tinha que me despachar antes que estranhassem a demora. Ao fundo uma janela, sem grades, dava para o terreiro das árvores que atravessei numa corrida, até uma estrada deserta.

Corri doidamente na esperança de um carro que me pudesse salvar. Apareceu uma carrinha, gesticulei desesperadamente até que o condutor parou.

A polícia conseguiu apanhar os três meliantes, dois homens e a tipa que compartilhou comigo a maldita bebida.

Minha rica orelha! Ufa!


domingo, 15 de janeiro de 2012

Momentos






Nada mais havia a acrescentar. Tudo o que havia a dizer já fora dito. O ódio fazia parte do seu dia-a-dia.

Desde muito cedo que o vinha acumulando. Cada dia que passava, mais e mais se enraizava aquele mal-estar que lhe azedava o espírito.

Veio para a cidade ainda menino. Quando o meteram na camioneta olhou com saudades tudo o que deixava para trás, o Miranda seu companheiro de aventuras, a Manca assim se chamava a velha burra em cujo dorso era o herói que cavalgava por montes e vales.

 sentia saudades das sortidas á horta do Senhor Miguelito, onde saciava a fome que a malga de feijões e o pedaço de broa lhe deixavam.


O barulho do motor da camioneta misturado com todas as conversas chegavam ao seu cérebro de forma difusa e mais aumentavam a confusão que lhe ia na cabeça. Apenas sabia que o Senhor padre lhe tinha arranjado um emprego na cidade, onde diziam que iria trabalhar para vir a ser um grande homem. Só não compreendia porque precisava de ir tão longe e o não deixavam ser homem mesmo ali na sua terra.

 O Chico Ventura era o homem que todas as moças queriam conquistar, diziam que o maior e mais valente de todos e nunca precisou de sair da terra para ser homem.



 Finalmente a camioneta começou a sua marcha cansada a caminho da grande cidade.

 Olhou, pela primeira vez, os restantes companheiros de viagem.

Ao longe ainda conseguiu ver a torre da Igreja que lhe parecia acenar num adeus, que o deixou com uma lágrima que disfarçou com o punho da blusa. 

Durante muito tempo foi vendo os campos que pareciam fugir. Quando paravam havia um mar de pessoas á espera de quem chegava ou as despedidas de quem partia.

Depois novamente a estrada, as vacas que pachorrentamente olhavam a camioneta enquanto mastigavam a tenra erva.

Finalmente o sono tomou conta do corpo franzino, de tal forma que nem se lembrou de comer o farnel que a tia Alzira lhe tinha preparado.



Ia fazer um ano que deixara a terra. Como se lembrava, ainda, da viagem e do dia em chegara a Lisboa. 
O Miguel, o seu colega, estava à espera, e com o saco dos poucos haveres tomaram um eléctrico que deslizava por entre o meio da confusão de carros e de pessoas que passavam apressadas indiferentes a tudo os que  as rodeavam.



A taberna era enorme, com um grande balcão coberto por uma pedra preta onde os homens pousavam os copos. Algumas mesas dispostas, de forma irregular, onde o dominó dominava a atenção. Grandes pipas encostadas as paredes completavam o resto do cenário.

Entrou amedrontado e tremeu quando o seu patrão, o Senhor Ernesto, com o sobrolho franzido avaliou a fraca figura que o padre lhe tinha enviado.

-Então o que sabes fazer meu rapaz?

-Senhor, sou o melhor a levar as cabras e as ovelhas para o pasto. Gargalhada geral.

-Pode crer que é verdade! Nem o meu pai consegue melhor que eu.

Quem passava á porta parou para ver o motivo de tanta galhofa. Os homens largaram os copos e punham a mão na barriga para se conter.

Não percebia o motivo de tal risota, ou seria que todos aqueles pensavam que era fácil levar e recolher os animais, carregar com os cabritos recém nascidos!



Nessa noite sentiu todas as saudades do Mundo. Pensou na tia Alzira que lhe mitigava a fome com uma fatia de bolo com mel, no Miranda que agora tinha a Sofia toda para ele, na Manca que o tornava rei das pradarias, da mãe que um dia fechou os olhos e abalou. Até o pai, sempre tão severo, lhe veio ao pensamento.

Nunca teve tanta vergonha.

Adormeceu engolindo o desejo de chorar.



Viveu, assim, dois anos de maus-tratos, de fome, de injúrias.

A resistência estava cada vez mais abalada, o ódio fazia parte do seu ser.


Um dia a taberna não abriu. Foi necessário arrombar a porta.

O proprietário Senhor Ernesto, estava morto, figura macabra. Um fio de sangue escorria num canto da boca.



O Lino não apareceu, a tarimba estava vazia.

Nunca mais o encontraram, ninguém sabe dizer o que aconteceu.



Na terra dizem que nas noites estreladas, um jovem pastor, apascenta o mais bonito rebanho de brancas ovelhas e, tal como Pã, corre pelos bosques deixando as mais belas melodias.
  

Afirmam que é verdade, mas ninguém tem a certeza.......


 





segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Foi assim que aconteceu…ou o sonho de uma noite mal dormida.

Qualquer facto, semelhança ou parecença com algo que tenham visto, lido ou escutado será por mera coincidência.
Isto foi um, ou é, sonho meu.
Que me perdoem.






Há coisas difíceis de explicar, foram enraizadas no espirito das pessoas ao longo dos séculos e ficam como que fazendo parte da própria existência. Não vale a pena tentar contar a verdade, ninguém vai acreditar, pois ainda nos olham de través como se, o que dizemos, fosse alguma heresia.

Era um dia de Dezembro, Jedi acordou mais cedo com a agitação da mulher. Miriam estava com dores e, não admirava nada que a hora do parto estivesse próxima. Olhou-a de forma terna, passou-lhe a mão rude pelo rosto antes de lhe dizer:

-Vou chamar a tua mãe, ela vai tratar de tudo, a tua hora está próxima, não tarda, vamos ser brindados pelo   Senhor com uma criança para dar sentido á nossa vida.
 Pousou-lhe um leve beijo na testa e saiu para a quietude do dia que estava a nascer.

Jedi era carpinteiro, naqueles tempos era uma arte difícil, não havia ferramentas apropriadas e só a habilidade dos artesãos para dar forma aos toscos objectos da época. Não tinha razão de queixa, havia sempre algo para fazer, arranjar as rodas dos carros que o empedrado dos caminhos quebrava, ou outros pequenos artefactos que lhe iam encomendando.

Conheceu Miriam em casa de Lucas e ficou, desde logo, preso pela beleza, pela suavidade dos movimentos, pela doçura da voz e, sobretudo, pelo encanto do olhar.
Sabia que ela era uma criança e ele, um homem feito, mas o coração não escolhe e se a família o aceitasse era ela a eleita para sua esposa.

Miriam também sentiu uma grande atracção por aquele homem maduro que de forma tão terna a observava e, quando ele lhe sorriu não foi capaz de desviar o olhar, como convinha a uma donzela e sorriu também.

Foi fácil, Jedi era muito conceituado, a mãe e os homens da família aceitaram o pedido e deram como esposa Miriam a Jedi.

Foi simples o casamento, mataram um borrego, dançaram no terreiro e o vinho animou a cerimónia.


A casa de Jedi era modesta, feita por ele, mas tinha conforto suficiente para o casal e para os filhos que o Senhor lhes reservasse.
Jedi amava Miriam e ela sentia, pelo esposo, uma adoração que não sabia bem explicar, dava-lhe uma segurança que ela não sentia desde que o pai morreu. Era terno, delicado e parecia adivinhar-lhe os pensamentos.

Agora que a idolatrada esposa ficou grávida Jedi sentiu que a sua vida fazia sentido, tinha um motivo para se sentir feliz, apetecia-lhe gritar para que todos pudessem partilhar da sua felicidade.

Foi procurar os seus únicos amigos, para poder compartilhar a alegria que o invadia e para dar larga ao orgulho que o deixava vaidoso.

Baltazar, Belchior e Gaspar, os reis das prendas, ficaram surpreendidos com a presença de Jedi e saudaram-no com alegria.

-Por aqui, Jedi, tão cedo! Olha que o Sol, ainda, mal aparece no horizonte!

Jedi acariciou as longas barbas, enrolou desajeitadamente o quipá entre as mãos nodosas, sorriu de uma 
forma tão franca que os outros ficaram surpresos.

-Não podia esperar mais, teriam que ser vós os primeiros a partilhar da felicidade com que o Senhor me abençoou, vou ser pai, Miriam está esperançada, um menino ou uma menina vem a caminho.

-Vamos saudar a tua alegria, disse Belchior, enquanto enchia quatro canecas de um delicioso vinho da sua colheita particular.


A hora estava a chegar, ia chamar Eli, sua sogra, para juntamente com as mulheres dos partos ajudarem Miriam nesta hora de sofrimento e de alegria.

Jedi gostava que fosse uma menina, mas sabia que Miriam sonhava com um menino, o Senhor, em toda a sua sabedoria  iria decidir.

Foi uma noite longa, as mulheres estiveram numa azáfama constante mas, eram cinco horas da madrugada, de um dia que se adivinhava frio, quando a criança deu o primeiro vagido.

-É um rapaz, gritou Eli, vão chamar Jedi!




Jedi rejubilou e esqueceu, desde logo, que tinha pensado numa filha.

Olhou embevecido o rapaz que tentava desajeitadamente mamar, enquanto Miriam olhava com doçura o rosto do filho e se apercebia da alegria do esposo.

-Jedi, disse Miriam, este é o filho que o Senhor nos mandou.

Jedi sorriu, a felicidade era tanta que nem se apercebeu das palavras da esposa.

-Vai ser Yeshua, vai ser esse o nome do nosso filho.

 Miriam gostou do nome, olhou o marido com ternura, depois adormeceu vencida pelo cansaço.




Yeshua cresceu feliz, ajudava o pai nos trabalhos do campo. Baltazar ensinou-o a ler com a Bíblia, Gaspar falou-lhe dos Romanos que os oprimiam e Belchior contou-lhe de um Messias que estava para aparecer.

Yeshua pensou, se vem um Messias é necessário levar a todos a palavra, anunciar a sua vinda, preparar o caminho para a sua chegada.



 Jedi morreu numa tarde quente de Verão, partiu sereno, com a mesma tranquilidade com que sempre viveu.

Yeshua não verteu uma lagrima, meteu-se ao caminho e começou a lançar a semente do que estava para vir.

Falou de coisas que as pessoas não entendiam. Dar a outra face, quando nos agrediam uma. Perdoar aos nossos inimigos. Dividir o nosso pão pelos que nada tem, não cobiçar a mulher do próximo.

Não havia dúvida que este Yeshua era um idealista, falava em sociedade sem classes, em sermos todos iguais e outras coisa que levaram os seguidores a pensar e a dizer baixinho, embora não sabendo ainda o que isso era:

-O fulano deve ser comunista!



Era estranho, os correligionários não entendiam os ensinamentos, mas gostavam e eram muitos os que se iam juntando, embevecidos nas suas palavras e promessas de um Mundo melhor e de um reino onde todos seriam iguais.


Certo dia na margem do rio Jordão, encontrou o seu primo João, um profeta que apregoava a vinda de um Salvador. João era um homem de grandes convicções. Baptizou Yeshua e gritou a necessidade de libertarem a sua terra do jugo dos Romanos.

Yeshua disse então:

-Vamos construir o nosso exército, enfrentaremos os Romanos e expulsá-los-emos para além deste mar que nos divide, mas sem usar a brutalidade. Vamos fazer como uma grande pacifista, Gandhi, que daqui a 1.900 anos, irá construir um grande estado, sem recorrer a guerras e a violências.

-Assim seja, gritaram os milhares de fiéis, enquanto entoavam cânticos de louvor a um Messias que estava anunciado.




Yeshua e os seus doze mais chegados companheiros, reuniram-se num jantar a que resolveram chamar a Ultima Ceia, para combinar a estratégia.
Dividiram o pão e o vinho, sem desconfiarem que entre eles um espião, Loudas, ia tomando nota de tudo para entregar ao inimigo a troco de 12 shekels de ouro.



  
Os romanos, bélicos, habituados a grandes batalhas, olharam incrédulos para aquele exército, mole humana, encabeçada por homens que apenas agitavam ramos de oliveiras e de palmeiras.

Foi uma hecatombe, dos poucos seguidores que restaram nada se sabe, parece que voltaram aos seus lares.


Segundo diz o livro, dos que se sentaram à mesa na tal ceia, julga-se que:

-Loudas apareceu pendurado pelo pescoço numa figueira. Quando chegou o IMEN já era cadáver.

-Onze emigraram, sabiam que isso um dia isso lhe iria ser sugerido, tornaram-se apóstolos e foram pregar o Evangelho por esse mundo fora.

-Yeshua não mais apareceu.


 Muito se fala, mas ninguém tem a certeza do que aconteceu.

 Pensam que morreu mas que ressuscitará.

Dizem os iluminados que um dia vai aparecer para consertar, se ainda for possível, este mundo que se está a afundar.






Ad imo corde, tenho esse direito, que seja em Portugal com uma vassoura para dar uma varredeira nessa corja que se governa e, que, tal como expulsou os vendilhões do templo, enxote os palradores do parlamento.