quarta-feira, 18 de abril de 2012
Uma Rosa
Eu hoje desfolhei mais uma rosa
Do triste jardim da minha essência,
Vermelha de sangue e tao formosa,
Perdida, tal, como a minha existência
Pétalas vermelhas entre os dedos
Morrendo no perfume que se esvai,
Tristeza que povoam os meus medos
lamentos que eu sinto nos meus ais.
No jardim desta vida tão espinhosa,
Vou libertando a dor que tanto dói
Enquanto vou desfolhando esta rosa,
Pétalas de sangue saem de mim
Na tristeza desta vida espinhosa
Tão triste, tão sofrida e tão ruim.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O Avejão
Confesso que não sei como aconteceu e até posso acrescentar que tenho duvida que tenha, mesmo, sucedido.
A verdade apenas esta alicerçada nas conversas que, na minha infância, ouvia aos serões á volta duma braseira, numa aldeia alentejana, perdida na raia de Espanha.
Os mais novos, curiosos, escutavam todas as peripécias que os avós iam contando, embora sabendo que na altura de ir para a cama estariam “borradinhos” de medo.
Foi há muitos anos e a memória apenas me deixa recordar que era uma noite muito fria e todos se encontravam à volta da mesa redonda onde, debaixo das saias, uma enorme braseira nos mantinha num conforto agradável.
Uma das mulheres, Dona Tomásia, jurava ter visto um avejão, nunca soube bem o que era isso, mas só o nome me infundia muito respeito.
Dizia ela:
-Vizinhas, uma noite ao sair da casa, da minha Zezinha, estava ele prantado na esquina mesmo no cruzamento, ao pé da venda do Isidro. Fiquei mais gelada que um rajá. Era grande, com uns olhos relampejando luzes encarnadas, coberto por uma capa mais negra que uma noite tenebrosa e lançando, pareciam, pequenos urros.
Fiquei, tão paralisada que queria voltar e não conseguia, os pés estavam colados ao chão e não arranjava maneira de os mexer.
Dona Perpetua deu um pulo na cadeira antes de gritar:
-Credo mulher e que aconteceu depois?
Fez-se um silêncio, quase sepulcral, ouviam-se os corações em batimento acelerado, os mais pequenos pregados, nas cadeiras, estavam boquiabertos de pernas bem cruzadas não vá o diabo tece-las.
O som do silêncio doía dentro de nós, todos olhavam de banda, como se a tal criatura pudesse estar ali, mesmo, ao nosso lado.
Dona Perpetua não aguentou mais, deu uma punhada na mesa e gritou:
-E depois, mulher e depois?
Dona Tomásia, aclarou a voz e assumiu a importância do ato:
-E depois? Depois não sei, desmaiei!
sexta-feira, 6 de abril de 2012
A valsa
Para todos o desejo de UMA PÁSCOA muito feliz.
Apareceu, assim, quase do nada.
Tinha um ar de alegria estampado no rosto, olhos brilhando de felicidade e um sorriso tão luminoso que nos transmitia uma sensação de conforto e tranquilidade.
Quando a música deu os primeiros acordes da valsa da Meia-Noite, olhou-me com ternura, pegou-me na mão e, quase por magia, redopiamos ao som da música que enchia a sala.
Fomos apenas um, num compasso de fascinação, pés em sincronismo perfeito, deslizantes ao som que os embalava. O tempo parou, por magia, enquanto os nossos dois corpos irmanados, no andamento, compassavam nos batimentos que o ritmo inspirava.
À volta um publico silencioso acompanhava, quase, em enlevo o momento.
A música parou, só ficou o feitiço no tempo.
Deixou os meus braços, iluminou-me com a loucura do sorriso, deixou-me um beijo na face e, antes de partir, disse-me:
-Manuel não quebre a corrente, os teus amigos querem-te aqui.
Eu percebi a mensagem.
Estou de volta.
Obrigado.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Eu, o meu Blogue e o dilema
Não é fácil ter um Blogue, ou melhor dizendo, é fácil mas é difícil mantê-lo.
Precisa de ser alimentado, tratado, adulado e embelezado a cada momento.
O meu Blogue tem sido o meu refúgio, o meu confidente.
Nele descarrego as minhas frustrações, os meus lamentos e as minhas angústias.
Nele deixo pedaços da minha vida.
Nele encontro, tantas vezes, o motivo que me leva a continuar.
Do meu Blogue parto para a visita a todos os outros que me encantam, me emocionam e que tanto me ensinam.
Tento adivinhar quem os escreve. Penso conhecer pelo que dizem. Julgo irmana-los pelo que sentem.
Gosto de escrever para mim mas adoro compartilhar.
Fico agradecido, sensibilizado, com as frases lindas que às vezes recebo.
Sei que muitas vezes são apenas pela amizade, mas mesmo assim, fico vaidoso. Confesso!
Mas, agora, apareceu-me o dilema.
Estou um pouco cansado e penso que não vale a pena continuar.
Ando confuso sem saber bem o que fazer.
Penso acabar e fazer como sempre fiz, escrever e arrecadar na minha gaveta das memórias.
Memórias que o tempo irá apagando.
Mas é difícil e estou a tentar ganhar coragem.
Olho para a página e vacilo, parece que me cumprimenta e sorri.
Estou confuso. Não sei o que fazer!
Se, os muito poucos, que algumas vezes me visitam um dia não me encontrarem, não estranhem.
Foi por que me meti ao caminho.
Sempre nos podemos voltar a encontrar “noutravoltadotempo”.
Quem sabe?
terça-feira, 20 de março de 2012
Marcela
Para todos, hoje, dia mundial do Blogue.
Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.
***
Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada
Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar
O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes que a casa desabasse.
Tomou nova posse e insistiu
Marcela estou à luz da vela
Com o coração .......
A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.
***
Levou quase toda a noite, estou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu adormeceu em sonhos de Romeu sem Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas mãos trémulas.
Desceu a rua devagar fingindo uma indiferença que não sentia. Olhou, quase de forma casual, a janela da Marcela como se isso não fosse o motivo desta passagem.
Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.
Olhou a montra do café, sem grande esperança, mas podia acontecer ela estar lá, mas não, só o senhor Ascenso ao balcão ia ajeitando os bolos na vitrina. Podia entrar e perguntar se a tinha visto hoje mas podia parecer mal e tornar as coisas mais difíceis.
Ela não simpatizava com ele e já o tinha feito sentir. Foi no baile, da Sociedade os Amigos do Grilo, que a convidou para dançar e ela com andar de desdém o enxotou com um:
-Dá à sola menino e desempara-me a loja faz favor!
Adérito ficou triste mas aceitou a frase como um desabafo, afinal nunca tinham sido apresentados e uma menina tem que saber manter as distâncias.
Ia ser persistente e quando ela se apercebesse das suas boas intenções ia ter, de certeza, um comportamento diferente.
***
Pensou fazer uma serenata, mas aqui na terra era capaz de ser um pouco insólito, pois as pessoas um pouco conservadoras reagiam mal a tudo que fosse inovação. Mas como em tudo na vida há sempre um primeiro dia para começar.
Ia escrever uma cantiga, não sabia bem como, pois nunca fizera nada do género, mas como já havia dito, era preciso iniciar.
Pensou que o nome da sua amada não era fácil de rimar, pois para Marcela apenas lhe vinha à cabeça vitela, o que diga-se não parece nada apropriado, nem fivela e muito menos morcela.
Ah lembrou de repente que bela podia servir para a cantiga. Talvez assim:
Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido
Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar
Pensando em ti minha flor
Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado
De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita, tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.
Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido
Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar
Pensando em ti minha flor
Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado
De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita, tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.
Bem tentou mas a sua inspiração não ia além de um pobre verso de pé quebrado um pouco piegas, reconheceu, mas nem todos podem ser poetas. Ele, Adérito, era abegão e perito na sua arte.
Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada
Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar
O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes que a casa desabasse.
Tomou nova posse e insistiu
Marcela estou à luz da vela
Com o coração .......
A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.
***
Levou quase toda a noite, estou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu adormeceu em sonhos de Romeu sem Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas mãos trémulas.
***
Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.
Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.
Adérito sentiu a mensagem, o chamamento, o momento. Sabia que tinha chegado a hora.
Ao cair do dia ia avançar, tendo o lusco-fusco como aliado. Tomou posição debaixo da janela da sua eleita, os fósforos estavam prontos na caixa meia cheia, ou meia vazia.
Começou a aclarar a voz, nuns arranques libertadores dos resquícios do tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos deixando a caixa empapada e a pingar.
Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.
Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não deixava.
Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Começou a aclarar a voz, nuns arranques libertadores dos resquícios do tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos deixando a caixa empapada e a pingar.
Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.
Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não deixava.
Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Mas a paixão não era assim tanta.
Ia aguentar.quarta-feira, 14 de março de 2012
Surreal
Quero agradecer a todos os que, nestas três semanas, me enviaram mensagens e mostraram preocupação pela minha ausência.
Estive fora por motivos pessoais, mas estou de volta feliz e orgulhoso pela maravilhosa amizade que vamos construindo neste espaço que partilhamos.
Muito obrigadoQuando surgiu, assim de repente, houve como que um arrepio a percorrer-me o corpo, não só pelo insólito da aparição como, também, pela forma estranha da figura.
Era surreal, um misto de mulher e de ave, o corpo era alto, esguio e de certa imponência, os braços, unidos ao corpo por grandes membranas, eram longos e terminavam numa espécie de garras, a cabeça oval enfeitada de plumas terminava num bico adunco, onde duas enormes narinas pareciam farejar tudo o que a rodeava.
Os olhos, cor de fogo, chispavam ódio.
Pousou com fulgor na procura de alguma presa, farejou o ar, escancarou o enorme bico e emitiu uma espécie de grunhido, esfregou com ímpeto as estranhas e enormes patas.
Fiquei, quase, paralisado e encolhido junto ao tronco de uma palmeira. Rezei baixinho na esperança de passar despercebido ao estranho ser. Quase não respirava.
O medo apoderou-se do mim, queria respirar e tinha receio.
De repente o monstro sentiu o cheiro, dilatou as narinas emitiu estranhos ruídos, as garras retesaram-se e um silvo medonho encheu o espaço.
Saltou na minha direção, estava perdido, só me restava combater.
Aguentei o embate, agarrei-lhe as patas e lutei. Rebolamos embrulhados num misto de plumas e de sangue, num esbracejar de fúria e ânsia.
Senti a queda, estava no chão do quarto embrulhado nos lençóis.
Respirei de alívio.
Grande pesadelo.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
À primeira vista.....
Foi um caso de amor á primeira vista ou talvez, mais propriamente, ao primeiro olhar.
Vou contar, muitos não vão acreditar mas é a pura verdade. Juro!
Armindo entrou no café, olhou em redor como era seu costume e ficou, simplesmente, fascinado com a beleza da mulher sentada numa mesa ao canto da sala. Dizer que era linda seria um lugar-comum, pois havia algo que a tornava especial.
,
Os cabelos, em suaves caracóis, emolduravam um rosto angelical onde a delicadeza das formas e a luminescência que irradiava, o tornava diferente de todas que já tinha visto.
Olhou-a com intensidade e esperou um gesto, um olhar, um sorriso mas apenas o encanto para o inebriar.
Bebeu o café sem tirar os olhos daquela angelical criatura, que Deus lhe colocou no caminho.
Ela continuava impávida passeando o olhar por tudo e por todos, quase como flutuando como uma brisa que nos afaga.
Armindo estava como que aparvalhado, absorto, num fascínio que o deixava preso na figura que parecia desafiar os sentimentos.
Quis prender-lhe o olhar mas, ela vagueava num alheamento que o perturbava e lhe fazia ciúmes, parecia olhar para tudo e para todos sem nunca, de verdade, olhar para ele de forma fixa.
Estava ali há meia hora e, ela, continuava só, bebendo em goles pequenos e suaves um copo de coca-cola.
Podia esperar alguém, mas não parecia, não mostrava a ansiedade de quem espera, estava calma e serena.
Armindo reuniu toda a coragem, levantou-se, dirigiu-se à mesa e perguntou:
-Posso fazer-lhe companhia?
Não pareceu surpreendida, fitou-o antes de convidar:
-Faz favor, há uma cadeira vaga, não há?
Olhou-a bem no rosto, de perto, a beleza era mais resplandecente. Pele de veludo, olhos de um verde tão transparente que pareciam gotas de orvalho no brilho da manhã.
-Senhor, começou ela, será que todas as mesas estão ocupadas, ou sucederá que nos conhecemos e eu não me lembro?
-Não, gaguejou ele, foi para meter conversa e, confesso, porque estava doido para a conhecer!
O sorriso, era uma pura loucura, quase luminoso.
-Pronto senhor já me conheceu, espero não o ter decepcionado.
-Mas, arriscou Armindo, podíamos, talvez, sair e conversar.
-Sabe, disse ela, mas já me conhece, já estamos a falar, não acha suficiente?
Armindo ficou desarmado, não estava preparado para esta resposta mas arriscou:
-Percebe que este conhecimento, se me permite, é como um amor à primeira vista, é uma atracção que não sei explicar, olhei para si e achei que era especial, houve como que uma campainha que disparou dentro de mim, não sei expor. Gostava de a conhecer melhor, queria que me visse mais vezes pois, quem sabe, não me começaria a ver com outros olhos.
Ela nem pestanejou, aqueles olhos verdes pareciam duas esmeraldas, e quase num sussurro murmurou:
-Sabe senhor, nunca o irei ver com outros olhos, só tenho estes e, para meu mal, são cegos.
Abriu a mala, tirou uma bengala extensível e calmamente saiu para o sol que brilhava lá fora.
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