quarta-feira, 2 de maio de 2012


Momentos







Este conto é dedicado à minha cunhada Ermelinda, porque sei que ela acredita nos milagres da vida.



Era assim todos os dias, a mesma rotina, o mesmo pasmo, a mesma falta de motivos para enfrentar a vida.

Queria reagir mas havia sempre algo a entravar. Era o tédio, a tristeza e todo o marasmo em que se tornou a existência.

As coisas começaram da mesma forma como acontecem quase todas. A inexperiência, dizem uns, as más companhias, dirão outros. Na verdade as duas coisas podem ser verdade, mas a falta de afectos é, talvez, o maior motivo e que muitos se esquecem de referir.

Ia para a escola todos os dias, pois era o único lado onde sentia alguma atenção, onde também era, como os outros, um menino, que cresceu e se tornou rebelde, desenraizado e com um ódio que moía dentro do peito como se fosse um grito de revolta.

Quando lhe ofereceram o primeiro cigarro teve relutância em o aceitar, mas o Artur garantia que só lhe iria fazer bem, pois os problemas ficavam anestesiados nos rolos do fumo inspirado.

Eram umas ervas enroladas numa mortalha de papel, gosto esquisito, mas depois de inalado ia provocando um torpor agradável, uma sensação de desprendimento, uma euforia libertadora.

Entrou numa teia que lhe parecia libertadora, mas o corpo começou a ficar agarrado a uma necessidade que o pegava a cada dia que passava.

O vício aumentava e o primeiro cigarro era uma experiência já esquecida, foi uma espiral que cresceu sem dar por isso, agora a droga fazia parte do dia-a-dia, era o adormecimento, o êxtase e a libertação.

Deixou a vida, a rua passou a ser o lar, o roubo a profissão.
Os pais, de repente, perceberam que se tinham olvidado do filho que tinham deitado ao mundo, deram-lhe tudo só se esqueceram do amor. Mas era tarde!

****

Hoje acordou naquela ressaca que doía de uma forma que nem ele sabia explicar, era uma dor feita de apertos, de névoa perturbadora, de torniquetes que apertavam a cérebro.

Queria acabar, precisava de ajuda mas, havia deixado tudo perdido no esquecimento de uma curta existência.

******

Não queria mais esta vida, tinha perdido tudo, a infância que nunca teve, o afecto que não conheceu, a esperança que não existiu, a família que o esqueceu e, até, a amor que nunca encontrou.

Preparou tudo de uma forma diferente, sem ansiedade, sem rancor. Escreveu uma carta que talvez alguém lesse, tomou um banho como há muito não o fazia, vestiu a melhor roupa que ainda lhe restava e rezou como aprendeu na escola.

A corda estava em cima da cadeira, inerte como uma cobra que espera a vítima, os poucos retratos nas molduras na cómoda olhavam-no de uma forma impessoal, quase como se o não conhecessem e eram os pais.

Suspirou, foi espreitar à janela, queria ver o Sol pela última vez.

Lá em baixo no passeio, um menino mutilado, agarrada a umas bengalas, sorria.

Não olhou o Sol, nem reparou se brilhava porque o riso de um inocente, a quem a vida tinha tirado o direito a ser criança, sorria apesar da adversidade.

Arrumou a corda, abriu a janela de par em par para que a luz do sol iluminada por um sorriso de menino, banhasse de esperança o quarto de um homem que tinha desistido.

Mas, agora, ia voltar a viver.




quarta-feira, 25 de abril de 2012

JEALOUSY







Tenho a certeza que foi numa quinta-feira, era o dia em que eu passava pela loja do senhor Elias para comprar torresmos. Sim o senhor Elias recebia todas as semanas, à quinta-feira, um cabaz com os melhores torresmos vindos de uma aldeia do Alentejo.

O senhor Elias era um simpático merceeiro, gordo, calvo, buçal mas duma simpatia contagiante.

Mas isto foi apenas um aparte, pois não sabia como começar o encontro dessa quinta-feira, pois o facto de chover era pouco relevante nessa época do ano embora esse acontecimento tenha sido de grande importância.

Quando entrei na loja do senhor Elias, coitado morreu há dois anos, fui surpreendido pela maravilha que se encontrava encostada ao balcão.

 Dizer que era linda seria vulgarizar a beleza, pois neste caso havia magia naquele olhar, sensualidade no sorriso e o trejeito do rosto faziam realçar duas covinhas na face que lhe davam um ar, quase, angélico e ao mesmo tempo provocante.

 Estava debruçada sobre o balção, perna flectida num ligeiro balouçar que realçavam o rabo moldado numas apertadas calças de ganga.

 Olhou-me de lado e foi nesse momento que a faísca atingiu a parte romântica do meu cérebro e fundiu totalmente a minha lucidez.

 Fiquei assim como pasmado, numa mescla de fascinado e apalermado, tentando sem jeito endireitar o nó da gravata, não que precisasse mas eu necessitava desse momento para por em ordem as ideias e se o senhor Elias não tivesse aparecido eu, provavelmente, ainda estaria no incómodo da hesitação sem saber o que dizer.

 Mas, para minha salvação o homem saiu detrás dos armários e com o ar mais pesaroso que arranjou coçou a calva antes de dizer:

 -Caro senhor doutor hoje estamos mal, o homem não me mandou a mercadoria parece que teve um problema com a camioneta.

 Afivelei o melhor sorriso que consegui, mais para a moça de que para o merceeiro, e sem gaguejar respondi:

 -Paciência, fica para a semana, mas valeu a pena porque vi que tem clientes muito bonitas!

 Agora foi o senhor Elias que ruborizou, uma vermelhidão apoderou-se-lhe do rosto e subiu até ao alto da reluzente careca.

 A moça iluminou a espaço com um sorriso tão safado que me obrigou a uma sonora gargalhada contagiante, depois o senhor Elias não se conteve e começou num riso ruidoso e a moça seguiu o exemplo. 

Era caricato, três pessoas sem motivo aparente riam a bom rir, de forma estridente, sem sequer saber a razão.

 Eu comecei porque ela sorriu, o senhor Elias porque eu comecei e ela, talvez, porque nós começamos. 

Foram uns minutos assim, de verdadeira parvoíce, até que pouco a pouco fomos acalmando o sufoco e limpando as lagrimas que nos cobriam os olhos.

 -Bom, comecei eu, momento bem divertido sem grande causa!

 O senhor Elias, tirou um lenço e assoou-se com estrondo, limpou os olhos e dobrou o lenço antes de começar:

 -Peço desculpa, senhor doutor, mas não me consegui conter e a culpa foi minha pois com a confusão nem lhe cheguei a apresentar a minha mulher.

 Essa freguesa que ai está é a dona de tudo isto, incluindo o meu coração, casámos no sábado passado.

 ******

 Chovia torrencialmente mas não me importei, pois foi importante a água fria da chuva para me acalmar e aclarar as ideias.

 O senhor Elias, 65 anos, gasto pela vida, casado com um verdadeiro "filet mignon" de 22 radiosos anos.

 O mundo anda mesmo às avessas





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Uma Rosa



Eu hoje desfolhei mais uma rosa
Do triste jardim da minha essência,
Vermelha de sangue e tao formosa,
Perdida, tal, como a minha existência

Pétalas vermelhas entre os dedos
Morrendo no perfume que se esvai,
Tristeza que povoam os meus medos
lamentos que eu sinto nos meus ais.

No jardim desta vida tão espinhosa,
Vou libertando a dor que tanto dói
Enquanto vou desfolhando esta rosa,

Pétalas de sangue saem de mim
Na tristeza desta vida espinhosa
Tão triste, tão sofrida e tão ruim.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Avejão






Confesso que não sei como aconteceu e até posso acrescentar que tenho duvida que tenha, mesmo, sucedido.

A verdade apenas esta alicerçada nas conversas que, na minha infância, ouvia aos serões á volta duma braseira, numa aldeia alentejana, perdida na raia de Espanha.

Os mais novos, curiosos, escutavam todas as peripécias que os avós iam contando, embora sabendo que na altura de ir para a cama estariam “borradinhos” de medo.

Foi há muitos anos e a memória apenas me deixa recordar que era uma noite muito fria e todos se encontravam à volta da mesa redonda onde, debaixo das saias, uma enorme braseira nos mantinha num conforto agradável.

Uma das mulheres, Dona Tomásia, jurava ter visto um avejão, nunca soube bem o que era isso, mas só o nome me infundia muito respeito.

Dizia ela:

-Vizinhas, uma noite ao sair da casa, da minha Zezinha, estava ele prantado na esquina mesmo no cruzamento, ao pé da venda do Isidro. Fiquei mais gelada que um rajá. Era grande, com uns olhos relampejando luzes encarnadas, coberto por uma capa mais negra que uma noite tenebrosa e lançando, pareciam, pequenos urros.

Fiquei, tão paralisada que queria voltar e não conseguia, os pés estavam colados ao chão e não arranjava maneira de os mexer.

Dona Perpetua deu um pulo na cadeira antes de gritar:

-Credo mulher e que aconteceu depois?

Fez-se um silêncio, quase sepulcral, ouviam-se os corações em batimento acelerado, os mais pequenos pregados, nas cadeiras, estavam boquiabertos de pernas bem cruzadas não vá o diabo tece-las.

O som do silêncio doía dentro de nós, todos olhavam de banda, como se a tal criatura pudesse estar ali, mesmo, ao nosso lado.

Dona Perpetua não aguentou mais, deu uma punhada na mesa e gritou:

-E depois, mulher e depois?

Dona Tomásia, aclarou a voz e assumiu a importância do ato:

-E depois? Depois não sei, desmaiei!



sexta-feira, 6 de abril de 2012

A valsa

Para todos o desejo de UMA PÁSCOA muito feliz.  







Apareceu, assim, quase do nada.

Tinha um ar de alegria estampado no rosto, olhos brilhando de felicidade e um sorriso tão luminoso que nos transmitia uma sensação de conforto e tranquilidade.

Quando a música deu os primeiros acordes da valsa da Meia-Noite, olhou-me com ternura, pegou-me na mão e, quase por magia, redopiamos ao som da música que enchia a sala.

Fomos apenas um, num compasso de fascinação, pés em sincronismo perfeito, deslizantes ao som que os embalava. O tempo parou, por magia, enquanto os nossos dois corpos irmanados, no andamento, compassavam nos batimentos que o ritmo inspirava.

À volta um publico silencioso acompanhava, quase, em enlevo o momento.

A música parou, só ficou o feitiço no tempo.

Deixou os meus braços, iluminou-me com a loucura do sorriso, deixou-me um beijo na face e, antes de partir, disse-me:

 -Manuel não quebre a corrente, os teus amigos querem-te aqui.

 Eu percebi a mensagem.

 Estou de volta.

 Obrigado.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Eu, o meu Blogue e o dilema




Não é fácil ter um Blogue, ou melhor dizendo, é fácil mas é difícil mantê-lo.

Precisa de ser alimentado, tratado, adulado e embelezado a cada momento.

O meu Blogue tem sido o meu refúgio, o meu confidente.

Nele descarrego as minhas frustrações, os meus lamentos e as minhas angústias.

Nele deixo pedaços da minha vida.

Nele encontro, tantas vezes, o motivo que me leva a continuar.

Do meu Blogue parto para a visita a todos os outros que me encantam, me emocionam e que tanto me ensinam.

Tento adivinhar quem os escreve. Penso conhecer pelo que dizem. Julgo irmana-los pelo que sentem.

Gosto de escrever para mim mas adoro compartilhar.

Fico agradecido, sensibilizado, com as frases lindas que às vezes recebo.

Sei que muitas vezes são apenas pela amizade, mas mesmo assim, fico vaidoso. Confesso!

Mas, agora, apareceu-me o dilema.

Estou um pouco cansado e penso que não vale a pena continuar.

Ando confuso sem saber bem o que fazer.

Penso acabar e fazer como sempre fiz, escrever e arrecadar na minha gaveta das memórias.

Memórias que o tempo irá apagando.

Mas é difícil e estou a tentar ganhar coragem.

Olho para a página e vacilo, parece que me cumprimenta e sorri.

Estou confuso. Não sei o que fazer!

Se, os muito poucos, que algumas vezes me visitam um dia não me encontrarem, não estranhem.

Foi por que me meti ao caminho.

Sempre nos podemos voltar a encontrar “noutravoltadotempo”.

Quem sabe?







terça-feira, 20 de março de 2012

Marcela

Para todos, hoje, dia mundial do Blogue.




Desceu a rua devagar fingindo uma indiferença que não sentia. Olhou, quase de forma casual, a janela da Marcela como se isso não fosse o motivo desta passagem.

Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.

Olhou a montra do café, sem grande esperança, mas podia acontecer ela estar lá, mas não, só o senhor Ascenso ao balcão ia ajeitando os bolos na vitrina. Podia entrar e perguntar se a tinha visto hoje mas  podia parecer mal e tornar as coisas mais difíceis.

Ela não simpatizava com ele e já o tinha feito sentir. Foi no baile, da Sociedade os Amigos do Grilo, que a convidou para dançar e ela com andar de desdém o enxotou com um:

-Dá à sola menino e desempara-me a loja faz favor!

Adérito ficou triste mas aceitou a frase como um desabafo, afinal nunca tinham sido apresentados e uma menina tem que saber manter as distâncias.

Ia ser persistente e quando ela se apercebesse das suas boas intenções ia ter, de certeza, um comportamento diferente.

***

Pensou fazer uma serenata, mas aqui na terra era capaz de ser um pouco insólito,  pois as pessoas um pouco conservadoras reagiam mal a tudo que fosse inovação. Mas como em tudo na vida há sempre um primeiro dia para começar.

Ia escrever uma cantiga, não sabia bem como, pois nunca fizera nada do género, mas como já havia dito, era preciso iniciar.

Pensou que o nome da sua amada não era fácil de rimar, pois para Marcela apenas lhe vinha à cabeça vitela, o que diga-se não parece nada apropriado, nem fivela e muito menos morcela.

Ah lembrou de repente que bela podia  servir para a cantiga. Talvez assim:

Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido

Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar

Pensando em ti minha flor

Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado



De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita, tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.

Bem tentou mas a sua inspiração não ia além de um pobre verso de pé quebrado um pouco piegas, reconheceu, mas nem todos podem ser poetas. Ele, Adérito, era abegão e perito na sua arte.

Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada

Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar


O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes que a casa desabasse.


Tomou nova posse e insistiu

Marcela estou à luz da vela
Com o coração   .......


A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.

***

Levou quase toda a noite, estou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu adormeceu em sonhos de Romeu sem Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas mãos trémulas.

***

Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.

Adérito sentiu a mensagem, o chamamento, o momento. Sabia que tinha chegado a hora.

Ao cair do dia ia avançar, tendo o lusco-fusco como aliado. Tomou posição debaixo da janela da sua eleita, os fósforos estavam prontos na caixa meia cheia, ou meia vazia.

Começou a aclarar a voz,  nuns arranques libertadores dos resquícios do tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos deixando a caixa empapada e a pingar.

Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.

Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não deixava.

Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Mas a paixão não era assim tanta.
Ia aguentar.