Bom dia senhor
Marques!
Foi mais ou menos
assim que começou, ou parece ter sido, porque ninguém pode ter a certeza.
A verdade, a bem dizer,
é que o Senhor Marques era muito rigoroso nessas coisas de cumprimentos pois,
dizia ele, pela maneira de cumprimentar nós podemos avaliar da educação das
pessoas.
Mas isto é apenas
retórica, pois a questão assenta em princípios muito mais sérios e que, na
verdade, não pudemos abordar aqui.
Pois a senhor Marques
gostou da forma clara e franca daquele Bom Dia e, isso foi o suficiente para olhar
com simpatia o homem que se apresentou na sua frente.
Era alto, elegante,
com ligeiras entradas que lhe davam um ar de respeitabilidade. O fato azul
assentava-lhe como uma luva e a gravata grená realçava a brancura da camisa. Os
dentes não estavam, propriamente, no melhor estado o que era uma pena, pois
seria, talvez a única coisa que destoava no conjunto.
O senhor Marques
aprovou, gostou da apresentação, da postura e sobretudo da educação.
- Mas balbuciou, o
senhor Marques, como sabe o meu nome?
O personagem afivelou
o melhor sorriso, fez uma leve inclinação de cabeça antes de responder:
-Foi o chefe que me
indicou o senhor.
Bom, sendo assim é
porque o assunto é importante e de grande respeitabilidade, pensou o nosso
homem.
Se o tenente
Desidério, era esse o nome do chefe da esquadra, o indicou decerto era
importante, havia que dar atenção.
O senhor Marques era
um conceituado comerciante no ramo dos secos e molhados e, agora tinha enveredado
pela linha gourmet, com um estabelecimento nas avenidas novas.
Loja de grandes
montras espelhadas e prateleiras onde o presunto pata negra se encontrava alinhado
com as alheiras de caça, as trufas faziam companhia ao foie gras de pato, as
garrafas do Porto Vintage faziam parceria com o champanhe Dom Pérignon assim
como outras iguarias, a que só alguns, muito poucos, tinham acesso.
Mas, penso eu, já me
estou a desviar do cerne da questão, pois o que interessa é a chegada desse
personagem que de forma tão delicada conquistou a atenção do senhor Marques.
Olhou, atentamente, a figura
antes de perguntar:
-Mas afinal qual é a
sua graça?
Bom, balbuciou, antes
de responder:
-Trate-me por Álvaro,
apenas Álvaro!
O senhor Marques não
gostou do nome, trazia-lhe más lembranças, vinha-lhe à memória um tipo que o
tinha enganado, e bem enganado.
Mas, pensou, nomes são
nomes e não são eles que fazem as pessoas e este tipo parecia de linhagem, bem vestido,
educado, bem-falante e além disso conhecido do Desidério, colega da escola e
companheiro de armas.
Enquanto cogitava
nestes pensamentos, ia olhando de lado o tal Álvaro que, como por encanto aqui
lhe apareceu enquanto gozava uma nesga de sol, neste domingo, na esplanada do
Café “O Rodopio”.
De verdade não lhe
apetecia muito qualquer palratório, não estava voltado para conversas de
negócios num dia de descanso, mas se o
Desidério o mandou não podia fazer
desfeitas, o amigo não merecia.
Olhou mais uma vez e
pensou que o homem tinha pinta.
Apontou-lhe uma
cadeira antes de dizer:
-Então continua ai de
pé, porque não se senta?
Puxou a cadeira,
passou a mão para certificar que estava limpa, arregaçou levemente as calças
deixando ver umas meias pretas com uns vivos da cor da gravata, só depois se
sentou.
Bem, pensou o senhor
Marques, porra que o gajo até nas meias tem estilo, um pouco amaricadas mas com
classe.
Estendeu as pernas,
não por descortesia mas somente porque as articulações, por vezes, já lhe iam
dando indicações de algum desconforto. Estalou os nós dos dedos, sinal que
estava nervoso, mas o aparecimento do homem deixou-o um pouco desconcertado,
não sabia porque, mas a verdade é que o deixou.
-Disse senhor Álvaro,
não foi?
-Para os amigos apenas
Álvaro, disse com um sorriso o visitante.
Era uma situação
caricata, dois homens desconhecidos, sem jeito, tentando não se olharem
directamente, palavras desarticuladas e sem sentido.
-Mas, disse o senhor
Marques, afinal o que tem para tratar comigo?
Álvaro coçou o
sobrolho e denotou alguma preocupação.
*****
Entrou num mundo de
cogitações, os pensamentos acotovelavam-se dentro do cérebro sem saber
descortinar o que se estava a passar.
Nunca foi um homem
acanhado e muito menos de medos, mas as coisas imprevistas deixavam-no um pouco
perturbado, sem raciocínio e numa total descoordenação de ideias.
O que lhe podia dizer
agora? Nada preparado para esta situação, apenas para dar sequência a uma
situação pré-programada, agora assim o que ia dizer a este humano?
Roeu a unha do
indicador direito. Estava desconfortável, não se tinha preparado para isto,
este Senhor Marques era um pouco desconcertante.
O chefe disse-lhe que
era a primeira missão e, ele, pensou que estava tudo preparado. Mas não!
Levantou-se da cadeira
e com a mesma cortesia, pigarreou antes de dizer:
-Bom hoje, acho, que
não tenho tempo para continuar, volto noutro dia.
O
Senhor Marques tentou dizer alguma coisa mas não teve ocasião, a figura
desapareceu travessa abaixo, como um personagem que se vai esbatendo num
horizonte longínquo.
O
tipo deve ser maluco, pensou, não joga de certeza com a bola toda.
Amanhã vou
falar com o Desidério pois ele é o culpado disto tudo.
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O
senhor Marques começou a sentir frio, um frio intenso, tentou levantar-se da
cadeira mas, estranho, não conseguiu pousar os pés no chão, levitou, começou a
elevar-se e a subir.
Não
sabia mas tinha acabado de morrer.
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Álvaro
apareceu e pegou-lhe na mão e, suavemente, encaminhou-o para aquele túnel de
luz que se abria na sua frente
Afinal
conseguira.
Tinha acabado de cumprir a sua primeira missão.






